A República não é o Partido – Blog “Conto de Notícia”

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 A República não é o Partido

Uma temerária cascata toma conta da República.  A nova oligarquia política nos impinge dias em que a tríade clássica da democracia – independência de poderes, respeito à livre expressão e governo exercido para todos — está suspensa por decreto. A desenvolta ação envolve agora mais do que uma adesão acrítica aos companheiros de causa. Não há mais inibição no atropelo da legislação, unilateralmente aboliu-se o tópico “conflito de interesses”. Para obter produtos políticos, desmoralize-se o outro poder. Acusem o juiz, esqueçam a ordem das coisas, acionem isqueiros perto das instituições. Se for para intensificar o domínio da coisa pública borrem a constituição. E se for pelo poder, aí então, aplique-se o tal golpe imobilizador do vale tudo.

Sim, até para eles existem limites. A República não é o Partido.

Se a trama era refundar o Estado precisavam antes combinar com os eleitores.

Quando agentes governamentais agem aberta e corporativamente sob o pretexto que for, para desqualificar opositores e críticos. Quando o poder imagina que o diálogo com a sociedade é um detalhe desprezível. Quando as forças que poderiam coibir os abusos estão amedrontadas ou desmoralizadas pelas gavetas, chegamos nas bordas de um temível retrocesso.

Os cofres podem estar abarrotados de dossiês, e só a justiça pode discernir a verdade dentre calúnias e litigâncias oportunistas. Nem que seja por causas humanitárias, merecemos todos mais isenção e seriedade. 

Nossas cabeças não aguentam mais picotar papel.     

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Novíssima safra de teses conspiratórias – Blog “Conto de Notícia”

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Novíssima safra de teses conspiratórias

 

 

 

Bem-vindos a Dallas

 

A apenas 3 dias do aniversário de 50 anos do assassinato de John F. Kennedy o clima parece haver favorecido uma novíssima safra de teses conspiratórias. A percepção aguda do senso comum é de que há muito mais gente na moita do que se supunha. Não é nada diferente aí no Brasil. Parece que um processo chegou ao seu final. Cauteloso, melhor acompanhar de longe toda euforia. Nenhuma prisão merece comemoração ou ser cultuada como o resgate da Nação. Na verdade, é apenas lamentável que ainda não tenhamos achado um jeito melhor de atender a justiça que cassar-lhes a liberdade. Entretanto, chama muito a atenção que, ainda assim, tenhamos a sensação de certa insuficiência da justiça. Particularmente nos casos em que o que esteve em jogo era nada mais, nada menos, do que o controle do Estado, como foi o caso da ação penal 470. A impunidade seletiva e os critérios sob os quais os cidadãos estão submetidos as normas do Estado cansam, desestimulam e por fim imobilizam a opinião pública. Neste caso, seria melhor publicar todo processo, publicá-lo, divulgá-lo, para depois discuti-lo maciçamente. Muito melhor que espetacularizar ordens de prisão.

 

Por isso, cabe perguntar quem são os verdadeiros presos políticos?

 

Os legalmente condenados devem logo obter graus progressivos de liberdade, e para eles, convictos que fizeram o melhor pela causa, estarão garantidas glória e dividendos políticos. Passada a farra, nós ainda estaremos aqui, sujeitos à mesmíssima lógica que regeu o grande mensalão pluripartidário.

 

Para todos nós, o lado de fora, não significa liberdade, infelizmente. Seguimos submissos às normas do partido hegemônico que, menospreza a autocrítica e manipula a opinião pública.

 

Pensando melhor, só mesmo fugindo do senso comum será possível enxergar a conspiração que rege a conspiração, a meta conspiração: o excesso de teses paradoxais anula qualquer perspectiva de achar algo próximo da verdade. No caso do negacionismo militante dos réus, será que não subsiste uma lógica ao revés? Se eles se consideram prisioneiros políticos, qual então seria nosso status? Reféns do centralismo partidário?

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As prerrogativas do espanto e da indignação não deveriam ser nossas? Ou seremos vítimas do velho maniqueísmo político que tipifica a esquerda como o único bem inato da Terra? O segundo ato terminou, mas existem fases na vida nas quais é melhor abandonar o livro antes de ler o desfecho.

Manual de ódio à classe média

Jornal do Brasil

Quinta-feira, 14 de Novembro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Manual do ódio à classe média

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Vários mandatários nacionais têm reclamado das demandas e exigências de uma classe social que só faz crescer no país. Em rara unanimidade políticos, legisladores, intelectuais, sindicatos e fiscais tomaram a decisão de esmagar este inimigo crítico que ousa levantar a voz contra o Estado. Quem mandou ficarem insatisfeitos com a mão que anestesia? Quem foi que disse que uma classe alçada do nada por governos tão benévolos — que dispuseram de dinheiro de contribuintes para assegurar uma renda mínima para todos — tem o direito de sair berrando que só aquilo não basta? Já se viu pedintes rechaçar o níquel depositado nos chapéus? Querem agora cuspir no prato que comeram?   Onde foi que desaprenderam com tanta rapidez o respeito? Quem fez a cabeça dessa gente que agora não se curva para ser ungida com as migalhas possíveis?

A análise seria dura demais, extensa demais e explícita demais para que alguém tivesse a paciência de ler. Mas uma síntese pode ser concluída antes do próximo clique do mouse. A razão pela qual os governantes não suportam a crítica é a mesma pela qual têm insônia e pesadelos com uma imprensa livre e combativa e gente comum que começou a ajuntar os pedaços do quebra-cabeças do poder

Reclame dos impostos e os coletores te perseguem, fale das cotas raciais e ouvirás de tudo (menos que as quotas deveriam ser sociais, antes que étnico-raciais). Ouse mencionar a diminuição da idade penal e verá a esquerda-mordaça ceifar tua língua. Agora explique calmamente que você não entende para onde vão suas contribuições  e que só queria que a educação e a saúde não fossem tratadas a quatro anos ou sob grandes reservas de fósseis decompostos.

Faça com que eles se fixem nas grandes construções, em meganegócios que o pais atrai e despreze as manchetes que tragam dúvidas sobre a seriedade econômica da nação. Lembre-o sempre: somos a sétima economia do mundo. Repita como mantra que o país estourou. Se alguém falar mal do teu partido diga que ele não entendeu o espírito da coisa.  E se o fulano quiser insinuar que está tudo mal feito encerre a discussão propondo uma cerveja num lugar mais tranquilo. Use outra estratégia com jornalistas cricas que aporrinham todo mundo com lamúrias: mande ele sair do pais e buscar lugar melhor. E se te contestar com a ladainha de que “quer melhorar este aqui e não sai daqui nem a pau” cogite dar um gelo, constranja-o em público. Se falhar, ameace com coisa pior para ele saber com quem está falando. Por um tempo vocês ficarão estremecidos. Assimile. Tudo passa, e assim que reencontrá-lo finja que nunca haviam discutido antes. Pode ser que você não o convença de vez, mas sempre que o ódio é plantado a semente pode germinar e vingar lá adiante. 

O que você não deveria aceitar em hipótese nenhuma é que ele faça troça das campanhas político-partidária. Essa classe média é o seguinte! Mas vamos lá: se te disser que todos falam a mesma coisa diga que ele é surdo, se o sujeito reclamar que todo mundo se locupleta na vida pública rebata com o infalível “isso é assim no  mundo todo”. Sim, esse pessoal é difícil mesmo. Às vezes não entende a lógica do socialismo para todos, menos alguns. Ignore. Tente mostrar que as coisas seriam muito mais fáceis se houvesse só um partido. Ele vai vir com o discurso de “pluralidade”. Aqui chegou a hora de negar.  Negue tudo. Insista, e explique que absolutamente não é verdade que não há liberdade de expressão em ditaduras centro- americanas.

Tente dizer tudo com parcimônia e máxima convicção. Sem forçar, lógico.  O defeito que ele enxerga é a grande solução: seguir modelos onde há igualdade sem liberdade. Só o burguês não entende isso.   

Faça um gesto com a mão e indique que a maioria das campanhas contra Estados totalitários que tratam bem seus povos não passa de difamação plantada pelos grandes capitalistas. Batata.

Ele virá então com aquele  discurso de “veja o que acontece com a Venezuela”, aí você dá um basta e afirme calmamente e sem elevar o tom de voz que aquele é um pais do futuro, assim como já foi o nosso.

Tags: demandas, exigências, intelectuais, legisladores, mandatários, políticos

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Blog Estadão – Coerência, escrava da amnésia.

Coerência, escrava da amnésia.

9 de novembro de 1938, Noite dos Cristais

75 anos esta noite.

 

É bem possível que a coerência seja escrava da amnésia. E nesta noite, num lugar nem tão distante, a astúcia do mundo virou caco. A civilização em pausa. O cristal zuniu sobre os espelhos. As vidraças convocaram a queda. A limalha cortante entrou no sangue. E a vida de irmãos, mais desta vez, foi desperdiçada em uma caçada racial. Vieram em bandos. Como bandos acobertaram-se. Como bandos beberam. Como bando gozaram, e sangraram um a um. As mesmas bandeiras que geram o ódio, gemeram as cores nacionais, sob o mesmo socialismo que assassinou a igualdade. É comum que os olhos do mundo se desviem das ignomínias. Virou dever das consciências esquecer em nome do instinto de preservação. Eis que sobreviver é mais fácil que lembrar. Explica porque somos particularmente desmemoriados quanto se trata de massacres e injustiças. Ajuda a compreender porque queremos apagar as luzes das tragédias. Entende-se que desliguem as vozes que testemunham. A razão diz que precisamos aliviar responsabilidades e a lógica explicita a inexorabilidade das coisas. Só que nenhuma palavra justifica que permaneçamos sendo considerados homens.   

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Blog Estadão: Invasão público-privada

  Marco Civil: ‘Preservar coerência é importante’

Espionagem brasileira não viola a privacidade, diz ministro da Justiça

Estados Unidos têm 841 antenas no Brasil

 

Espia – segundo o dicionário etimológico de Antônio Geraldo da Cunha, espia significa “pessoa que às escondidas observa ou espreita as ações de alguém”. (spia, 1554)

Agora acreditem, assim como há uma espionagem que desconhecemos, uma formulação inédita emerge no linguajar do mundo. Tomem como exemplo a “espionagem do bem”, aquela que não observa às escondidas, não espreita a vida privada, e garante a inviolabilidade dos direitos do sujeito. Uma autêntica arma secreta dos governos para salvaguardar os cidadãos, certo? Ela, assim como outros dispositivos táticos servem para proteger-nos de nós mesmos. Mas há uma arma muito mais poderosa. Inventada, trancada e guardada à sete chaves como segredo de Estado. Não são radares, antenas de plasma, ou nanocibertecnologia.

Trata-se da nova oratória. Um jeito muito particular de reinterpretar a realidade. A chave desta poderosa invenção, devidamente patenteada, parece estar na recriação de palavras que retorcem o sentido original do vocabulário. Afluem aos cursos de oratória criativa mandatários de todo planeta. Neste fantástico laboratório já saíram expressões consagradas como “monitoramento consentido”, “observação secreta assistida”, “branda espreita” e a que levou o segundo lugar no prêmio Tergiversação Internacional 2011: “invasão público-privada“.

Estudos históricos mostram que depois do “fumei, mas não traguei” a mania se institucionalizou com força pelo mundo contemporâneo: formadores de opinião e políticos convertem e conformam novos significados para velhas palavras estabelecidas na linguagem. Recriam-nas e trocam-nas por qualquer coisa, desde que não representem mais aquilo que antes designavam. Tolice nosso duvidar da sinceridade dos líderes. A essa altura, já deveríamos estar carecas de saber:  uns são mais espionáveis que outros.

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Blog Estadão – Contra quem lutamos?

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Contra quem lutamos?

 

 

 

 

Violência em atos ofusca movimentos pacíficos em São Paulo

 

 

 

 

Enquanto Maduro enxerga Chávez nos terminais, Cristina vê Nestor na Casa Rosada e a presidente projeta o rosto do mentor nos postes do distrito federal. Isso significa que lutamos contra fantasmas, irracionalismos estudados na véspera. Lutamos contra entidades abstratas e ideologias personalistas não democráticas. Bolsas geram inclusão, mas não integração para o desenvolvimento. Precisamos de vínculos sociais estáveis que só renda e trabalho oferecem. Os países da América Latina se fecham num protecionismo beócio, travam lutas contra a liberdade de expressão e resistem à única saída possível ao terceiromundismo: a abertura que oxigena a política e a economia. A demonização da liberdade, confundida com liberalismo, ainda não tem um nome político, mas isso é questão de tempo.

 

Quando um modelo está presta a ruir dizem que há ascenção formal e informal dos prestidigitadores. que, em nossa era, atendem pelo nome de marquetólogos. Vendem ilusões e plantam as sementes do embaralhamento para levar seus clientes ao pódio eleitoral. Essa gente, que apenas por abstração escapa da acusação de estelionato, usa a distração e o consumo para fomentar paraísos nas terras devastadas. Ou não estamos ainda lá com a epidêmica cifra de 50.000 mortos no último ano, vítimas da violência?

 

Mas é claro que a liderança horizontal tem maestros. Numa roda destas que se formam, depois que a cota de carros queimados foi atingida, ouviu-se de alguém ao celular que “estava tudo conforme o planejado” e que o “pessoal estava satisfeito”.

Alô pessoal, não é porque estamos perplexos que não captamos o plano.   

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Utopia dos Párias

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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 31 de Outubro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Utopia dos párias

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

Todos chocados com a frase do parlamentar que disse às claras que o fim dos mendigos deveria ser virar “farelo para peixe”. O escândalo é incompreensível tanto quanto falsa a indignação. Os assim chamados párias da sociedade, aqueles que nunca lerão páginas digitais na internet, já vivem como ração ambulante.

Os milhões de esmagados na pobreza absoluta são seres residuais, vivem por inércia. Não atraem a preocupação do Estado ou da sociedade, a não ser pelo incômodo de lembrar que muitos não vão tão bem assim. Um dos motivos da exclusão dos miseráveis, também autoexclusão, é que não são contribuintes, e portanto, nesta lógica, seria cabível negar-lhes o estatuto de cidadãos, conforme declarou o nobre representante do Poder Legislativo. Os paupérrimos oneram, porque nos pressionam com sua existência. É como lembrar todos os dias uma dívida não saldada: quanto mais queremos esquecê-la, mais ela aparece. Quando passamos por um pedinte, pensamos que o Estado deveria fazer alguma coisa por ele. Os mandatários por sua vez — menos o senhor Farelo —  ao deparar com um desses pedintes, maquina novos cálculos para que a sociedade os subsidie. No vacilo entre as partes, ninguém faz nada, enquanto o mendigo continua revirando o lixo. O fato é que um dos motivos pelo qual recolhemos impostos é exatamente esse, que o arrecadador ofereça assistência e trabalho — não mesadas — a quem perdeu a capacidade de subsistir. Há muito tempo isso deixou de acontecer no Brasil.  

Já a classe média, tanto a que subiu como a que agora desce, espoliada por impostos confiscatórios, encontrou a escada terminal, uma espécie de emparedamento insolúvel. E a falta de perspectiva é também um motor para o desespero e a violência, especialmente para os jovens da classe média baixa, como podemos testemunhar todos os dias ao vivo ou na TV.  A originalíssima saída do poder foi reviver a fórmula arcaica: aumentar impostos e aceitar passivamente a pressão inflacionária. A sétima economia do mundo tem índices ridículos de disponibilidade de recursos para educação, mobilidade urbana e saúde, contra uma das maiores taxações do mundo. 

Suscita curiosidade ainda maior entre milhares de parlamentares, membros do Executivo e burocratas, ninguém tenha tido a ideia de, no lugar de descarregar aos custos da ineficiência da administração pública no lombo desta camada social, já tão achatada, sobretaxar os bancos. Sim, afinal, eles tiveram por aqui o maior lucro líquido, dentre todas as instituições do mesmo gênero do mundo.

Pressionar e arroxar quem tem menor poder de pressão pode soar esperteza, mas é escolha equivocada. Foi esta fatia social quem sustentou a fórmula que adiou a crise com consumo interno. Esta camada, odiada pelos intelectuais, desprezada pelos candidatos e abandonada à falta de articulação política, é a responsável por parcela significativa da receita do Estado. Forjada na alienação da ditadura, quando enfim teve a chance de empatar o jogo sob uma educação consistente, foi recompensada pelas autoridades com esmolas: saúde pública em péssimas condições, soluções tampão, sistema de ensino superado e cidades degradadas.

Então, quem está ilhado? Fica a sensação de que a formulação que constitui os Estados contemporâneos mudou para “ilha de poder politico e econômico, cercada de párias para todos os lados”.

Os párias? Todos nós. 

Portanto, conforme escreveu Tomas More em seu sempre atual “Utopia” de 1516,  os membros do governo sempre se manifestavam a favor da manutenção de um exército subordinado de miseráveis já que: “A riqueza e a liberdade conduzem à insubordinação, e ao desprezo da autoridade; o homem livre e rico suporta com impaciência um governo injusto e despótico”. More concluiu contundente: “Os homens fizeram os reis para os homens e não para os reis, colocaram os chefes à sua frente para que pudessem viver comodamente ao abrigo da violência e dos ultrajes, o dever mais sagrado do príncipe é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria; como um pastor fiel, deve dedicar-se ao seu rebanho, e conduzi-lo às pastagens mais férteis”.

Já que não podemos ter pastores fiéis nem pastagens férteis, leiam “Utopia”.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/10/31/utopia-dos-parias/

Blog Estadão – Estoicismo de Estado

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Podemos ficar boquiabertos, perplexos, tanto faz. Seja o que for, o que testemunhamos nos últimos dias não é um nenhum fenômeno inédito. Estradas tomadas, reféns em massa, incêndios a esmo. Há décadas, contingenciados nas margens das grandes cidades, estão milhões de pessoas que não participam da cidadania. Não foram convidados ou não têm o desejo. Ninguém é isoladamente responsável, ainda assim a culpa é coletiva. Este estatuto de sub cidadania que o Estado e a sociedade proporcionam a importantes parcelas da população é o contexto real das eclosões violentas. A raiva e a revolta tornam-se instrumentos que se desencaminham para tumultos e vandalismo. Nota-se também que movimentos como o passe livre, o qual nitidamente teve usufruto político com o abre alas destrutivo, já não dita nem controla agenda nenhuma. Criaram a onda, sem estimar o alcance da maré. A fúria descentralizada se vira contra a própria sociedade e uma  parcela considerável de indignados com capuz outorgam-se aval para arruinar o dia e a vida de milhões. O que se espera do Estado? Tudo, menos o improviso e a leniência. Ninguém quer twitadas da presidente anunciando o horror da barbárie como se ela reinasse em nação distante. Dizem que na escola dos estóicos finge-se que nada está acontecendo. Ações condescendentes com a violência partisã, medidas pseudo-apaziguadoras e a inação, sobretudo ela,  não trazem resultados esperados e excitam a farra piromaníaca. Não só as forças de segurança devem atualizar seus comandos para fazer a justa contenção — sem excessos ou omissão  — como não é mais suportável que o ruído das fogueiras permaneça ignorado pelos políticos e por quem foi escolhido para governar. O mínimo de atitude republicana que se esperava era que, por hora, colocassem as eleições em estado de animação suspensa. Só uma coalizão de forças, suprapartidária e transgovernamental  seria decente em momento tão grave e sinistro. A única alternativa saneadora são as ações preventivas e a reintegração de todos os cidadãos. Sem a sensação de pertencimento tudo sempre parecerá hostil para estes jovens. Agora já há um morto. Sem correção, conflagrações civis tendem a ser mais volumosas, contundentes e imprevisíveis.  O pior cenário diante do sonoridade da crise é um Estado estoico. Municipal, estadual ou federal, o preço da hesitação é cumulativo. Nesta tarda anarquia que se espalha por cópia, só cabe uma previsão: desordem sem progresso.

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Blog Estadão – Canal de Beagles

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Tudo começou com um erro de tradução. E ele pode ter trazido parte importante da má fama para os animais. Não falo da serpente que ofereceu os figos para Eva. É que a tradução do grego para “animais irracionais” trouxe a conotação de que todos os animais não políticos seriam não inteligentes, ou, em outra versão, não dotados de espírito. Para que o pragmatismo considerasse todos eles seres inferiores não foi preciso muito. Aristóteles escreveu que somos animais políticos (zoon politikon) porque só realizaríamos nossa natureza em plenitude enquanto estivermos em contato permanente com a polis, a cidade. Animais políticos somos na suposição de que agiríamos com zelo com nosso habitat a sob a consciência da moral que o filósofo classificou de moral magna, ou grande moral.

E quanto aos outros animais? Não se sabe se Aristóteles quis dizer que não raciocinam, ou seriam menos dotados de inteligência. Serão irracionais, ilógicos, estúpidos? Ou apenas animais “não políticos”? Qualquer pessoa que tenha um em casa sabe que muito da estimadevotada aos bichos está na cumplicidade. E claro, numa espécie de afetividade incondicional. Via de regra, animais não nos arguem, sua malícia é tomada como graça e suas malandragens interpretada como esperteza. São portanto apreciados e, ainda por cima, obedecem sempre, ou quase isso. O valor deles está para bem além da frescura burguesa de se possuir um bicho de estimação. São polivalentes como condutores de cegos, inspiradores de heroísmo, resgatadores de gente perdida, soterrados em desastres ou apenas companhia para solitários. Serviram inclusive à causas jurídicas importantes como aquela sacada genial na qual Sobral Pinto conseguiu um tratamento digno para o recém preso Luis Carlos Prestes, invocando o artigo 14 do código de defesa dos animais.

Ainda que sejam proibidos em alguns países (como no Irã) e sofram bullying aqui e ali, pets e companhia são hoje seres cada vez mais apreciados como seres relacionais. A cidadania animal, causa do final da pós modernidade, trouxe questões que ainda não conhecem respostas. Devemos aceitar submete-los aos testes científicos? Com quais limites? E quanto à criação e abate para consumo? Independentemente das aporias, vale refletir sobre o que está acontecendo bem sob os nossos focinhos. O que está se passando com as pessoas? Faz muito que passamos um limite perigoso. Sabemos disso pelo crescimento obscurantismo anticientífico + militância violenta. Os devotos da libertação animal agridem, ameaçam e arriscam matar para advogar pelos nossos parceiros de evolução. Deste ponto em diante passamos a não ter mais causa, mas tremenda encrenca ética. Nunca foi um bom negócio coibir atrocidades com irracionalidades. Desaguamos no fundamentalismo. Perdemos parâmetros autocríticos nas lutas, logo estaremos enfrentando equipes que pulverizam mosquitos e apedrejando os homens da desratização.

Culpa da evolução que temos nos considerado senhores de todos as outras espécies. Em ciência nos auto denominamos anima nobili (animais nobres). Fomos nós, inclusive, que atribuímos que, em oposição a nós, os animais são irracionais. Sinceramente, diante de tantos paradoxos e barbaridades de humanos contra humanos é realmente tentador reconsiderar isso. Não precisamos enfrentar Darwin para saber que, justa ou injustamente, nós ainda estamos no comando da cadeia evolutiva. E uma vez que isso ainda é auto evidente cabe considerar que se as experiências in anima vili (animais vulgares, isto é, não humanos) podem ser menos agressivas e no futuro, até dispensáveis, hoje elas podem ser a diferença entre vida e morte para outros seres humanos.

Há cinco séculos seguimos a risca a cartilha de Francis Bacon de “torturar a natureza” para extrair dela o sumo do progresso. Estamos um tanto arrependidos. Mas se vamos mesmo mudar, procedamos com classe. Não é só o estatuto jurídico-legal dos animais não humanos que está em jogo, mas também a escolha das prioridades.

Numa democracia todos os temas são relevantes ao mesmo tempo, mas não haverão prioridades? Assuntos que merecem preceder outros? Que tal consumismo e produção de lixo ou agressão ao bioma? Decerto que uma causa não invalida a outra, mas é sempre bom pensa-las em escalas e de preferência, contrastando-as. As mazelas mundiais tais como um bilhão de famélicos, ,condições dos presos, dos viciados em drogas, dos que não tem abrigo não deveriam preceder a arrumação da casa?

Podemos responder não! Mas então teremos que assumir: nos amamos menos.

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