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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 7 de Novembro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Perspectiva e horizonte

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

Há um famoso estudo clínico que relacionou o alto número de suicídios no Peru, em um vale profundo e fechado por montanhas altas, à falta de acesso ao horizonte. Felizes os habitantes de planaltos e cidades litorâneas. Sabe-se que a falta de luz influencia e pode ser determinante nos índices de melancolia. Deve ser verdade, vale dizer, meia verdade.

E quanto ao contexto? Em um país tão solar como o nosso, o que podemos esperar dos tempos que se aproximam, além da Copa e da Olimpíada? Será essa nossa grande perspectiva? Dois grande eventos esportivos? E depois, e antes? O que esperar de um Estado que não consegue cumprir seu papel?  

A Terra parece descer noutra direção, rumo à trajetória onde — por convicção, ideologia ou desesperança —  nos deixamos levar pelo estado das coisas externas. Estado vazio, por sinal. Não conseguimos sair do quadrilátero mental que criamos para nós mesmos, matéria, sucesso, poder e distração. Nestas pedras angulares, depositamos nosso improvável futuro. Em nossa ciclotímica rotina a calmaria é um hiato entre crises. Não, responderíamos hoje para Montaigne, não nos basta viver.

O que seremos e as perspectivas que adotaremos estão todos canalizados ali, na infertilidade cultivada e obstaculizada por homens públicos que parecem atraídos e concentrados no privado. Ou em homens públicos que não acreditam que exista a vida privada.

Para ambos existem as exceções, mas em circunstâncias que deveriam ser regra.

Amigos tentam reagir cultuando uma esperança de que a emancipação ocorrerá independentemente de quem nos pastoreia. A tosquia? Fruto do risco. O que se passa com nossa sociedade — e a de tantos outros países — não tem nada a ver com modelo de esgotamento político-partidário, nem com a profusão da violência e das drogas. Consequências, não causações. A diferença por aqui está no estufamento de peito cabotino que grunhe “essa terra é nossa, e vamos fazer goela abaixo”.

Como se ditou a morte do diálogo como base da democracia, a falta de perspectiva produz um efeito colateral grave e de longa duração: faz desacreditar no aqui, agora. Inibe nossa capacidade de escalar picos e descobrir a pouca distância a que estamos de qualquer coisa satisfatória. Os dias são despedaçados e desperdiçados numa moenda pouco estética, e embaçada, quando um ócio sem cultura e sem saber faz brotar sentimentos cada vez menos solidários. 

Estar emparedado por cenários que barram nosso acesso ao horizonte oprime e nos empurra em outra direção, e este talvez seja o principal problema: o bloqueio da imaginação.

Atrás das cordilheiras existe o outro. Um punhado de outros. E eles, como nós, aspiram à vida gregária, às trocas, ao encontro e à diversão.  A verdadeira, que emula o lúdico num faz de conta que nos remeta à única razão que faz sentido. Talvez porque nos aproxima dos desejos e aspirações da infância, talvez porque escancara que uma existência significativa é incompatível com carranca.

Pois é detrás das muralhas que sobrevive uma vida não fracassada. A ilusão de Eike, independentemente dos julgamentos morais, e à exceção das somas, é do mesmo material e da mesma inconsistência que as nossas. Não há nenhum xis da questão enquanto não soubermos que não é esse o ponto. E, provavelmente, a busca de apenas um é que nos remete à decadência. E, se ninguém mesmo está previamente condenado a ela, tudo seria uma questão de escolha.  Franz Kafka escreveu uma única frase em seu diário no dia 2 de fevereiro de 1922: “felicidade de estar em companhia de outros seres humanos”. E mais adiante: “Nem todos podem ver a verdade, mas todos podem sê-la”.