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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 31 de Outubro de 2013

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Utopia dos párias

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

Todos chocados com a frase do parlamentar que disse às claras que o fim dos mendigos deveria ser virar “farelo para peixe”. O escândalo é incompreensível tanto quanto falsa a indignação. Os assim chamados párias da sociedade, aqueles que nunca lerão páginas digitais na internet, já vivem como ração ambulante.

Os milhões de esmagados na pobreza absoluta são seres residuais, vivem por inércia. Não atraem a preocupação do Estado ou da sociedade, a não ser pelo incômodo de lembrar que muitos não vão tão bem assim. Um dos motivos da exclusão dos miseráveis, também autoexclusão, é que não são contribuintes, e portanto, nesta lógica, seria cabível negar-lhes o estatuto de cidadãos, conforme declarou o nobre representante do Poder Legislativo. Os paupérrimos oneram, porque nos pressionam com sua existência. É como lembrar todos os dias uma dívida não saldada: quanto mais queremos esquecê-la, mais ela aparece. Quando passamos por um pedinte, pensamos que o Estado deveria fazer alguma coisa por ele. Os mandatários por sua vez — menos o senhor Farelo —  ao deparar com um desses pedintes, maquina novos cálculos para que a sociedade os subsidie. No vacilo entre as partes, ninguém faz nada, enquanto o mendigo continua revirando o lixo. O fato é que um dos motivos pelo qual recolhemos impostos é exatamente esse, que o arrecadador ofereça assistência e trabalho — não mesadas — a quem perdeu a capacidade de subsistir. Há muito tempo isso deixou de acontecer no Brasil.  

Já a classe média, tanto a que subiu como a que agora desce, espoliada por impostos confiscatórios, encontrou a escada terminal, uma espécie de emparedamento insolúvel. E a falta de perspectiva é também um motor para o desespero e a violência, especialmente para os jovens da classe média baixa, como podemos testemunhar todos os dias ao vivo ou na TV.  A originalíssima saída do poder foi reviver a fórmula arcaica: aumentar impostos e aceitar passivamente a pressão inflacionária. A sétima economia do mundo tem índices ridículos de disponibilidade de recursos para educação, mobilidade urbana e saúde, contra uma das maiores taxações do mundo. 

Suscita curiosidade ainda maior entre milhares de parlamentares, membros do Executivo e burocratas, ninguém tenha tido a ideia de, no lugar de descarregar aos custos da ineficiência da administração pública no lombo desta camada social, já tão achatada, sobretaxar os bancos. Sim, afinal, eles tiveram por aqui o maior lucro líquido, dentre todas as instituições do mesmo gênero do mundo.

Pressionar e arroxar quem tem menor poder de pressão pode soar esperteza, mas é escolha equivocada. Foi esta fatia social quem sustentou a fórmula que adiou a crise com consumo interno. Esta camada, odiada pelos intelectuais, desprezada pelos candidatos e abandonada à falta de articulação política, é a responsável por parcela significativa da receita do Estado. Forjada na alienação da ditadura, quando enfim teve a chance de empatar o jogo sob uma educação consistente, foi recompensada pelas autoridades com esmolas: saúde pública em péssimas condições, soluções tampão, sistema de ensino superado e cidades degradadas.

Então, quem está ilhado? Fica a sensação de que a formulação que constitui os Estados contemporâneos mudou para “ilha de poder politico e econômico, cercada de párias para todos os lados”.

Os párias? Todos nós. 

Portanto, conforme escreveu Tomas More em seu sempre atual “Utopia” de 1516,  os membros do governo sempre se manifestavam a favor da manutenção de um exército subordinado de miseráveis já que: “A riqueza e a liberdade conduzem à insubordinação, e ao desprezo da autoridade; o homem livre e rico suporta com impaciência um governo injusto e despótico”. More concluiu contundente: “Os homens fizeram os reis para os homens e não para os reis, colocaram os chefes à sua frente para que pudessem viver comodamente ao abrigo da violência e dos ultrajes, o dever mais sagrado do príncipe é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria; como um pastor fiel, deve dedicar-se ao seu rebanho, e conduzi-lo às pastagens mais férteis”.

Já que não podemos ter pastores fiéis nem pastagens férteis, leiam “Utopia”.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/10/31/utopia-dos-parias/