Das Férias e do Ócio- Blog Estadão

o direito à alienação política…

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Réveillon no litoral de São Paulo custa quatro vezes mais que ida à Disney

Livros médicos do século XIX,  costumavam anunciar: “férias – quando as pessoas se afastam completamente de suas atividades usuais por um período não inferior a sessenta dias”.

Nas raízes etimológicas a palavra “negócio” significa negação do ócio. Concebemos descanso como meta, uma espécie de recompensa pelo déficit de lazer, uma resposta à precariedade dos repousos. Se o homem é um ser industrioso, e, se até os corpos são entidades que produzem, não nos escandalizemos com a pressão que nos fazemos mesmo quando se trata das esperadas férias remuneradas.

Na incapacidade de relaxar estamos praticamente convocados, obrigados, compulsoriamente obrigados à diversão.

A categoria “remunerada” pois, não é detalhe e a mensagem, auto evidente. Nossa sociedade é pródiga em lembrar que precisamos atender demandas da vida prática. Só que elas são inquietantemente infinitas.

A vida produtiva se impõe…

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Das Férias e do Ócio- Blog Estadão

Réveillon no litoral de São Paulo custa quatro vezes mais que ida à Disney

Livros médicos do século XIX,  costumavam anunciar: “férias – quando as pessoas se afastam completamente de suas atividades usuais por um período não inferior a sessenta dias”.

Nas raízes etimológicas a palavra “negócio” significa negação do ócio. Concebemos descanso como meta, uma espécie de recompensa pelo déficit de lazer, uma resposta à precariedade dos repousos. Se o homem é um ser industrioso, e, se até os corpos são entidades que produzem, não nos escandalizemos com a pressão que nos fazemos mesmo quando se trata das esperadas férias remuneradas.

Na incapacidade de relaxar estamos praticamente convocados, obrigados, compulsoriamente obrigados à diversão.

A categoria “remunerada” pois, não é detalhe e a mensagem, auto evidente. Nossa sociedade é pródiga em lembrar que precisamos atender demandas da vida prática. Só que elas são inquietantemente infinitas.

A vida produtiva se impõe, seja sob o disfarce dos artesãos em Arembepe ou para os que escolheram empreender com quisoques de coco verde em Natal. Lá ou acolá, estamos submissos à mesma lógica das máquinas eficientes. A última atenuação é que agora a vida alternativa dos homens contemporâneos precisa incluir algum contato com a natureza. Num País vasto como este, ainda subsistem regiões pouco exploradas. Mas quem não visitava uma cidade litorânea ou turística há 20 anos, testemunhará a extensão do massacre.

O boom de construções e a ocupação desordenada praticamente eliminou possibilidades de contato com áreas livres. Os negócios vão, lentamente, dando cabo das últimas áreas ociosas, assim como, lá atrás, acabaram com a perspectiva de vida calma e segura nas metrópoles.  Vigora uma tensão natural e permanente entre desenvolvimento e contemplação. E a palavra “sustentável” não parece ser a solução.

O que então significa hoje o ócio, para além do direito de não trabalhar?  Parece ter perdido significado numa sociedade que hipervaloriza o privado que merecia ser público. Além disso, ninguém mais parece se importar com o que deveria permanecer radicalmente privado, como o direito à alienação política e à liberdade de expressão.

Não foi preciso esperar o pregão das bolsas. Faz tempo que já estava decidido: depreciem o homem lúdico frente ao homem fábrica.

O agravante é não assumir que somos, ou viramos, uma espécie de promessa reversa, aquela que nunca se cumpre. Não se olvidem que estamos às vésperas de um ano eleitoral com Copa. Com tamanha maquiagem, vivemos fingindo não perceber que estamos em plena pulverização de recursos, enquanto a América Latina fervilha em sua atávica insolvência.

O pior de tudo nunca foi a indolência do bom selvagem terceiro mundista. O realmente deplorável foram as falsificações sucessivas que nos conduziram ao marco zero do blefe central de que já éramos um paraíso de primeiro mundo.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/das-ferias-e-do-ocio/

Breve ética da vida virtual

Jornal do Brasil

Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2013

Coisas da Política

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Hoje às 06h00

 

Breve ética da vida virtual

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Aplicativos para datas de aniversários são mesmo revolucionários: lembramos de pessoas que demoramos anos para esquecer. Às vezes, a falta de memória é um alivio. Mas o que é que te custa cumprimentar um desafeto? O bonzão da turma, o nerd podado, a professora sacana da graduação? Antes, esquecer dos eventos natalícios era comum, em compensação a ofensa passava rápido. Hoje em dia? Simplesmente imperdoável. Como pode haver uma desculpa?  É só clicar, e no ato o outro já sabe que você despendeu tempo. Na lógica do capitalismo acionário selvagem, tudo se limita a negociar tempo. Mesmo que espremer o mouse não dure nada, eis o germe do network, a força que comanda nossos dias. No mundo digital países inteiros podem afundar ou emergir em horas, que dirá de gente de carne e osso? O mundo está mais veloz, ainda que ninguém possa dar certeza de que isso é uma virtude.

Numa época cibertecnológica, sob o império das startups, criaram-se novíssimas obrigações. Por exemplo, você está intimado a responder rapidamente. Bonificações da vigilância dos passos alheios? Informações preciosas. Nunca foi tão fácil desmontar desculpas esfarrapadas. Seu contato fugia de você com a batida “vida corrida”, “ando ocupadíssima”? Basta ficar atento, uma hora dessas ele vai postar piadas e fotos. Quem precisa de Snowden para saber que somos monitorados? Pior, automonitorados. O anonimato é que nos protegia desses micos. Hoje, ninguém mais pode se esconder. Até os eremitas foram defenestrados.

Já existe uma psicometria, as provas empíricas evidenciam: é mais fácil brigar online. Na net, ofensas tendem a soar mais sérias e pessoais do que realmente são. Já o contrário não é verdadeiro. Reconciliação online é coisa rara. No velho telefone, havia sempre o conserto através do tom da palavra, o mal-estar contornado com fala macia, suspiros ou chantagem emocional. A voz pode quebrar a sisudez de quem queria encrenca. Não é a mesma coisa quando você grava e envia a mensagem nos androides e smartphones, ali não há diálogo, a conversa é truncada como num walk talk.

Além disso, temos que aguentar as abreviaturas, gírias e sons onomatopaicos que inventaram nas redes sociais. São de chorar. Da risada kkk aos símbolos, são todas reduções insuportáveis além de musicalmente desastrosas.

Analisem também a quase extinta tradição das missivas autógrafas, sim, aquelas enviadas pelo correio. O tempo se encarregava de dissolver o mal-entendido.  Terminar um relacionamento por carta poderia nem mesmo se concretizar, caso o desencantado fosse ágil o suficiente para interceptá-la antes que alcançasse a futura ex. Quantas histórias mudaram graças à lentidão postal e aos falcões peregrinos sem gps?

Eis uma era onde o instantâneo amarra o arrependimento. No telegrama, por exemplo, sempre a obrigatoriedade da economia de palavras. Torpedo não tem volta. Não tem nada mais direto. Mandou, chegou. Seja lá qual for seu provedor, qualidade do cabo e velocidade contratada, as sentenças se apresentam chapadas, lineares, às vezes obtusas. O que se escreve fica lá, grafado, esculpido na rocha do espaço é para sempre. Não tem choro nem dá para corrigir. O “não era bem isso que eu quis dizer” ou o “você não entendeu direito” não funcionam como antes. Definitivamente, somos uma sociedade cada vez mais impulsiva.

Há que contabilizar nosso orgulho também. A maldita cobrança pela coerência impede o remorso. Quase que perdemos o direito de mudar de ideia. Isso é um problemão: estar permanentemente de acordo com você mesmo é um porre.  

 http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/12/19/breve-etica-da-vida-virtual/

Significados significantes! Blog “Conto de Notícia” Estadão

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Conto de noticia

 

‘Basicamente, isto é diversão’

Intérprete analisa sinais de ‘falso’ tradutor em funeral

 

Ficou parado e imóvel. Deixou cair chaves das mãos. Queria ter filmado cada palavra, mas não conseguiu alcançar o celular. Entendeu os trechos importantes da mensagem:

“o dia glorioso chegou hoje, a libertação está próxima” “você aí que me ouve, seja muitas coisas ao mesmo tempo”, “saia por aí, coincida com você mesmo”

 

– Num funeral?

–E dai?

 

Não soube explicar por que, mesmo parado, ficou pululando no mesmo lugar. Nem por que a vida se abriu instantaneamente. Diferente, era muito diferente. Não o efêmero de praxe. Seu dia fez o click no estalo. Quando imaginaria “escutar” aquilo do homem poderoso? 

Só depois leu, no noticiário do dia seguinte: o tradutor não compreendia um só sinal da linguagem dos surdo-mudos. Pensam que ele se importou?

–O significado? Eu mesmo atribuo.

Na mesma tarde deixou tudo para trás, móveis, comida, família, e abriu um ateliê no pé na montanha.  

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Más notícias e a Mídia Interna

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Coisas da Política

Hoje às 06h00

Más notícias e a mídia interna

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

A má notícia tem o poder de transformar o conjunto de normalidades em uma montanha de equívocos. É quase da mesma fonte motivacional que nos torna fascinados pelo bizarro, pelo grotesco e pelo exótico. Adoramos pontos fora da curva, mas raramente os exploramos pelo lado interessante: criatividade, o inusitado, a plasticidade e a flexibilidade. Não que possamos ser acusados de pessimistas, os velhos do Restelo, ou abutres esperando anúncio de infortúnios. As más novas acabam tendo o poder de romper com a normalidade. Não nos deteríamos na manchetePedestres andam livremente pelas calçadas mas imediatamente correríamos para ler Pedestres são arrastados da calçada até o fosso

É no mínimo curioso como somos especialmente atraídos pelo trágico. Digo, particularmente atraídos. A tragédia nos inspira solidariedade, compassividade e evoca o sentimento gregário. Ao mesmo tempo, também nos ocorre, simultaneamente, quão sortudos fomos por não termos sido nós as vítimas do infortúnio. É que ao contrário da fantasia do senso comum não somos unos. Somos constitucionalmente fragmentados e o tempo todo tentando recolar pedaços para parecer vasos uniformes. Seria mais honesto nos definirmos como trincas avulsas que se aglutinaram por interesse.  

Mas, e quanto às más notícias quotidianas que se repetem à exaustão? Que os governantes não fizeram o que tinham que fazer? Que a sociedade reage, não por diversão ou ganas de vandalizar mas contra a repetição da velha inércia? Liberadas, raiva difusa e o ódio sem foco,  são perigosos e carregam a centelha do autoritarismo.

É que as pessoas sabem, vagamente, intuitivamente, o que precisa ser feito para que todos tenham uma vida melhor, mas nunca pararam para perguntar pela metodologia. Esperam isso de quem foi eleito. Mas quem disse que eles detêm o método? Ao mesmo tempo, nos recusamos a fazer parte de algo que nós mesmos temos o poder de determinar, pelo menos por enquanto, diretamente, através das urnas.

Será que perdemos a sutileza? Aquele sentimento que permite uma interpretação  lúdica da realidade? Ou o massacre psíquico da rotina foi tão bem sucedido que agora o bom humor depende dos comediantes? Se de fato perdemos o refinamento necessário para enxergar atrativos no comum, no dia a dia, na vida como ela é, dependeremos então de artefatos químicos para nos imunizarmos contra o crônico desalento das notícias?   

Mas isso pode estar sofrendo uma inversão. A realidade mais desta vez se incumbiu de nos pregar a peça. O manancial de escândalos e novas deprimentes que chegam até nós por todos os lados pode estar finalmente encontrando uma espécie de teto. Um basta que alcançou o zênite. Desenvolvemos tanta tolerância ao mal feito que podemos estar passando à resignação, último estágio do abandono.  

Se pretendemos saídas, talvez a solução não seja expectativa por novas externas mas desenvolver aquelas mídias raras, livres e sem censura, as produzidas de dentro para fora

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/12/12/mas-noticias-e-a-midia-interna/

 

Junho de 2013 nunca será maio de 1968 – Blog Estadão

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Conto de Notícia, Paulo Rosenbaum

11.dezembro.2013 20:36:59
 

Junho de 2013 nunca será maio de 1968

                                                  

Na época até se cogitou. Nunca estivemos tão próximos da transformação. As motivações afluíam às ruas em pautas espontâneas, numa imensa maré justa. Na Paulista, alguém pichou no muro do banco “it’s revolution, baby”. O promissor é que parecia um motim pela utopia. Mesmo contra quem tomou a iniciativa, as marchas não tinham originalmente caráter socialista, capitalista, anarquista, nem sindicalista. O problema, descobrimos depois, é que não era nada. Não saímos do lugar. De lugar nenhum para lugar algum. Graças à força, tanto maciça como difusa, nada, absolutamente nada, mudou. Se o país acordou diferente, resubmergiu, letárgico, deficitário e mambembe. Um movimento que se recusou a crescer da potencia para o ato. Se há uma razão para o paradoxo? Ainda não avaliamos a capacidade do poder amortecedor do tipo de Estado que está sendo erguido no Brasil. Ninguém de fato apreendeu a extensão da metáfora “uso da máquina”, o motor obsedande do poder central.

Mas se não recebemos uma reforma política, trouxeram-nos bodes expiatórios. O fato é que vivemos já num país policial que não só tolera, como naturalizou a violência. As inéditas punições desvelaram mais o sistema de privilégios políticos que a justiça. A chave do jogo é antiga como a história, todas as cartas estão marcadas. O poder assimila e neutraliza qualquer golpe. Sempre que a notícia estarrecedora vazar, artesãos de dossiês serão acionados. É na base da embromação que violações sistemáticas contra a liberdade de expressão podem se igualar a um acidente rodoviário, brigas de torcidas ou….a um decote. Onde a discussão sempre migra ao lugar errado e a indignação do final de semana acaba na segunda, na terça ou é sepultada na quarta de cinzas. Não é bem que sejamos um povo sem memória, somos o país da desmesura. Não compartilhamos uma medida básica, evidente e racional: direitos precisam se ajustar aos deveres. Como se explica que alunos jurem um professor de morte sem que toda pedagogia esteja comprometida até a medula? Pois este é o dia a dia de quem ensina.  Um país onde o direito ao privado, inclusive à propriedade, é ameaçado toda vez que nas plenárias, se inflamam os oligarcas do partido. Já suportamos demais. Aceitamos a concepção racialista se impor na base da canetada, o clientelismo que passou a ser, senão a única, a principal política de inclusão social.

O cidadão não pode ser culpado por políticos não terem compreendido a dinâmica histórica que transformou radicalmente o mundo. O analfabetismo e a ingenuidade política subsidiam a regressão e o anacronismo que tomou posse da América Latina. Se é exagero por que choques civis se espalham nas grandes cidades argentinas e milícias paranoicas se ampliaram na Venezuela? E o que será que nos espera por aqui? Decerto teremos mais um ano tumultuado, onde manifestantes não ultrapassarão a ideologia do estorvo, prejuízo coletivo e a destruição.

Por isso, junho de 2013, nunca será maio de 1968. A única coisa comum entre as datas pode ser o signo do fracasso.

Mas, se em Paris os professores e estudantes tinham algum valor e voz na sociedade, e só por isso, puderam se insurgir com consistência, no nosso caso, por cooptação, medo e manipulação, corremos o risco de morrer em praias incontinentes. Antes, muito antes que qualquer utopiazinha nos dê o ar da sua graça.   

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Inexequível, único possível – Blog Conto de Notícia, Estadão

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Continuamos sonhando, o combate contra a esperança, luta perdida. Sempre damos um jeito de vislumbrar saídas. O beco está escuro?  Iluminar-se-á.  As coisas não andam? Movemo-las. O sistema é um obstáculo? Ele passará, nós permaneceremos. Reconstruiremos tudo, pedaço a pedaço. Ruínas e terra devastada nunca foram impedimento. Ainda que possamos nos render à paralisia provisória nossas tintas ainda ardem, afrescos que não envelhecem. Novos em folha, temos a intuição, refaremos o essencial. Os organismos se reconstroem, a cada potencial elétrico usado, nossas vidas giram conforme o rotor do DNA: 180.000 ciclos por segundo. Somos hélices, e irrompemos sem lâminas.  Não há mais medo da mutilação, da dor, da sofreguidão, e toda separação é só recomeço. Vislumbramos os destinos e conservamos o instinto. Destinados a mais de um caminho, vimos sábios perdidos, areias descalças, e vida inoportuna. Ao mesmo tempo, a corda arrefecida, o sorriso imprudente, e a sede mitigada. E se todo restauro é mesmo provisória, o caminho até a união é a única realidade. A duração, só cansaço da matéria, o pendulo das sombras sempre volta à luz.

Por isso estamos vivos. Vivos para dizer que sim. É inexequível, o único possível.

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Darwinismo político – Blog Conto de Notícia – Estadão

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03.dezembro.2013 13:46:48

Darwinismo político

É só impressão ou estamos indo no ritmo da contramão universal? Então quem faz leis têm a prerrogativa e aval para desobedece-las? E quem se submete a elas não tem foro privilegiado nem alambrado?  Como discordar do que passa a ser arbítrio? Se o legislador tem o aval para, mesmo sendo infrator, continuar legislando, quem protegerá a sociedade das leis autocráticas ? Ah, sei, um artigo jornalístico demanda  frieza analítica  e obsequiosidade. Portanto escritor, controle já tua indignação! Parem tudo! Esse é um dos problemas. Controlamos demais a injuria, precisamos é liberta-la da várzea não civilizatória ditada goela abaixo. Os heróis que nos assistem são voláteis, inconsistentes, anti exemplos.  Se há gente sofrendo nas prisões — e quem não fica dividido quando se trata de doença –  que se promova uma reforma, para todos.  Nas mãos dos novos oligarcas,  a isonomia transformou-se em darwinismo político. As poucas vozes lúcidas do partido morrem cedo ou são exiladas.

No país que registrou o maior número de homicídios no mundo (2012) e onde vicejam 9 milhões de jovens em casa, quem está em prisão domiciliar?

Criticar abusos e vislumbrar o desastre fiscal que se anuncia virou sinonimo de reacionário, palpite de pessimista ou coisa da elite. Mas quem abandonou o ideário de uma esquerda arejada pelo pragmatismo claustrofóbico foram os vencedores. No emaranhado de anedotas que o poder nos prega, está essa semente da desarmonia social. Uma espécie de transgênico político incubado nos porões do grande projeto de poder.  Fôssemos um país com acesso à educação e informação, contássemos com uma oposição minimamente organizada, eles é quem estariam acuados, e com índices compatíveis com a gestão temerária que executam.

E seriam chamados pelo que realmente são, camaleões, que para confundir a sociedade, enfiam a cauda onde for necessário. Para nossa sorte nenhuma camuflagem dura para sempre.

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Interdição do Mundo (Blog Estadão)

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Irã convida agência da ONU para inspecionar reator alvo de acordo

Um acordo importante foi alcançado e mundo aplaude o êxito da paz intermitente. No entanto, como o julgamento histórico é sempre retrospectivo, e caso tenhamos mesmo algum tempo adiante é que vamos poder avaliar melhor qual o resultado efetivo dos acordos recém assinados na Suíça. Herbert Marcuse já prenunciou em seu “A ideologia da Sociedade Industrial” que a principal, senão a única utilidade do arsenal nuclear em nossos dias é seu desuso. Isso não significa que não se possa classificar conflagrações mais violentas e hecatombicas que outras. Que seja um adiamento. Melhor que a guerra, certo? Mas, e se isto for leniência e provocar um incremento potencial para um conflito mais pavoroso ainda?

A questão toda é saber quando e quanto se pode confiar no regime de líderes supremos comandados pelo tribalismo dos aitolás, cujo background não coincide exatamente com a sintaxe da paz. Toda semana, um santo homem, de nome Ali Khamenei, reafirma seu compromisso com a extinção de uma nação sem escandalizar os demais membros do ONU.

Por isso é preciso explicar melhor como funciona de fato o sistema presidencialista iraniano.  De uma lista com nomes pré selecionados, o líder religioso elege aqueles que irão ao plebiscito.  E o regime não permite a presença de observadores internacionais para verificar a lisura dos pleitos.

É preciso admitir que a região toda, marcada por séculos de conflitos étnicos, minada por colonizações sucessivas, sempre apresentou tropismo bélico acima da média. Porém, a agenda da Guarda Revolucionária, guardiã suprema da Revolução e o núcleo duro do poder, é bastante explicita em seus objetivos. Sua carta de intenções evidencia que uma internacional teocrática xiita impõe-se no topo da lista de prioridades da cúpula dirigente.

É claro que alguém evocará o suposto expansionismo israelense como equivalente moral ao imperialismo de Teerã. Mesmo quando se usa o disfarçe do antisionismo como bandeira e sob enorme boa vontade na exposição dos fatos, não há a menor possibilidade desta comparação atender aos bons modos da lógica.

O que  faz mesmo diferença para enfrentar qualquer debate sério sobre as pretensões nucleares do País persa é avaliar o contexto. Por mais defeitos e imperfeições que Israel possua, incluindo a quota normal de falcões e radicais, é que este país conta com instrumentos não militares que simplesmente inexistem em toda a região. Artefatos em vias de extinção, principalmente no Oriente Médio e na América Latina: sistema democrático estável e regular, imprensa livre e liberdade de expressão.

Um regime aberto e representativo  é uma senhora salvaguarda contra fanatismos e autocracias sangrentas. Qualquer movimento, qualquer deslize, qualquer tentame autoritário e aventureiro, qualquer crime e todo abuso, podem ser imediatamente denunciados. E o judiciário de lá, um exemplo de autonomia de poder para outras democracias, já enjaulou gente poderosa, políticos, civis, militares. Poderia ser só um detalhe, mas não há por lá sequer um dedo do executivo na escolha dos membros da Suprema Corte.

Entretanto, as potencias mundiais que costuraram o pacto com o Irã tem consciência, evidentemente inconfessa, que se nada de novo acontecer, trata-se apenas de postergar algum tipo de devastação nuclear, acidental ou voluntária. Sim, há algo pior que floresce nos escombros das guerras civis e que se espalha pela região. Células terroristas avulsas com ou sem a franquia da Al Quaeda, encontraram espaço para crescer e multiplicar no fértil terreno da indecisão e pusilanimidade diplomática da Europa e América do Norte. A retenção de uma “bomba suja” ou de “armas químicas e biológicas” não é mais hipotética, só não se sabe quando e onde.

Perspectivas de paz para o mundo? Que ultrapasse a provisoriedade — o atual é um plano de seis meses — e aposente para sempre armas apocalípticas? Só mesmo convocando o Criador para presidir uma espécie de última e derradeira assembléia. Aceito pelas partes, finalmente arbitrará quem tem razão nas  disputas. É só palpite, mas altíssimas probabilidades de um veredito inédito. Abrirá mão dos laudos técnicos da psiquiatria forense e interditará o mundo: os sinais de insanidade são auto evidentes.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/interdicao-do-mundo/

 

Insanidade Coletiva

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Coisas da Política

Hoje às 06h00

Insanidade coletiva

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

É evidente que o recente triunfo diplomático do comandante em chefe dos EUA nasceu fracassado. Num conflito crônico e ancestral não se fortalece um lado, sem oferecer contrapartida aos que saem enfraquecidos. A glória é sempre efêmera, mas é possível que esta dure menos ainda. A paz alcançada com Teerã é apenas um exemplo da nova pax americana, débil e fracamente dissuasiva.

Desembaraçados e gastos os recursos — os 8 bilhões que Teerã conseguiu descongelar —aquele país ficará tentado a demonstrar que não está interessado em ser permanentemente controlado pelo Ocidente perverso, nem mesmo por sua própria população. O padrão de envolvimento do Irã mudou desde a revolução de Khomeini. Diretamente enfronhados na guerra civil da Síria e com braços armados em toda a região, especialmente no Iraque, os persas estão assumindo importante papel estratégico e expansionista no Oriente Médio.

Que sejamos poupados dos críticos ideológicos que querem equiparar a colonização multinacional xiita com os problemas  israelo-palestinos. Por mais dificuldades e radicalismos que se enfrente, estamos mais próximos de um Estado binacional para israelenses e palestinos do que qualquer arrefecimento no imperialismo de Teerã. Os primeiros terão muitos percalços, guerras regionais e conflitos de fronteiras agora e mais à frente, mas são guiados por um pragmatismo secular que, mesmo respeitando as tradições, sabem que só as soluções de Estado podem trazer paz e prosperidade.

Por sua vez, o regime dos aiatolás se autointitula teocrático e só obedece à ideologia do fanatismo teleológico: impor padrões uniformes de comportamento para os demais. Isso se chama “califado da retidão”.

A diferença, portanto, é enorme.

A velha demonização mútua entre Ocidente versus teocracia xiita ou sua modalidade laica, a Coreia do Norte — se acusando de ser “eixos do mal”— tem um efeito degenerativo nas relações internacionais.

Se ambos estiverem certos em suas premissas, só teremos o mal para nos atender. Mas mesmo no mais grosseiro maniqueísmo há diferenças. Há males que podem ser rastreados, impressos e divulgados. Assim como há aqueles que estão restritos às planilhas insanas de gente convencida de que está sob a influencia de um Poder Superior e, portanto, plena razão em sua lógica de destruição. A bomba nuclear sob comando e guarita da Guarda Revolucionária é um desastre em si, já que eles consideram seriamente seu uso.

Exemplos de pactos que adiaram os problemas, temos vários na avaliação retrospectiva de busca de supremacia de povos sobre  povos. Talvez este acordo não seja exatamente um “erro histórico”, como o classificou o premier israelense.

Destarte, evitar matanças e selvageria talvez ainda seja o único bem universal. Pena que nem isso seja mais consenso.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/11/28/insanidade-coletiva