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Irã convida agência da ONU para inspecionar reator alvo de acordo

Um acordo importante foi alcançado e mundo aplaude o êxito da paz intermitente. No entanto, como o julgamento histórico é sempre retrospectivo, e caso tenhamos mesmo algum tempo adiante é que vamos poder avaliar melhor qual o resultado efetivo dos acordos recém assinados na Suíça. Herbert Marcuse já prenunciou em seu “A ideologia da Sociedade Industrial” que a principal, senão a única utilidade do arsenal nuclear em nossos dias é seu desuso. Isso não significa que não se possa classificar conflagrações mais violentas e hecatombicas que outras. Que seja um adiamento. Melhor que a guerra, certo? Mas, e se isto for leniência e provocar um incremento potencial para um conflito mais pavoroso ainda?

A questão toda é saber quando e quanto se pode confiar no regime de líderes supremos comandados pelo tribalismo dos aitolás, cujo background não coincide exatamente com a sintaxe da paz. Toda semana, um santo homem, de nome Ali Khamenei, reafirma seu compromisso com a extinção de uma nação sem escandalizar os demais membros do ONU.

Por isso é preciso explicar melhor como funciona de fato o sistema presidencialista iraniano.  De uma lista com nomes pré selecionados, o líder religioso elege aqueles que irão ao plebiscito.  E o regime não permite a presença de observadores internacionais para verificar a lisura dos pleitos.

É preciso admitir que a região toda, marcada por séculos de conflitos étnicos, minada por colonizações sucessivas, sempre apresentou tropismo bélico acima da média. Porém, a agenda da Guarda Revolucionária, guardiã suprema da Revolução e o núcleo duro do poder, é bastante explicita em seus objetivos. Sua carta de intenções evidencia que uma internacional teocrática xiita impõe-se no topo da lista de prioridades da cúpula dirigente.

É claro que alguém evocará o suposto expansionismo israelense como equivalente moral ao imperialismo de Teerã. Mesmo quando se usa o disfarçe do antisionismo como bandeira e sob enorme boa vontade na exposição dos fatos, não há a menor possibilidade desta comparação atender aos bons modos da lógica.

O que  faz mesmo diferença para enfrentar qualquer debate sério sobre as pretensões nucleares do País persa é avaliar o contexto. Por mais defeitos e imperfeições que Israel possua, incluindo a quota normal de falcões e radicais, é que este país conta com instrumentos não militares que simplesmente inexistem em toda a região. Artefatos em vias de extinção, principalmente no Oriente Médio e na América Latina: sistema democrático estável e regular, imprensa livre e liberdade de expressão.

Um regime aberto e representativo  é uma senhora salvaguarda contra fanatismos e autocracias sangrentas. Qualquer movimento, qualquer deslize, qualquer tentame autoritário e aventureiro, qualquer crime e todo abuso, podem ser imediatamente denunciados. E o judiciário de lá, um exemplo de autonomia de poder para outras democracias, já enjaulou gente poderosa, políticos, civis, militares. Poderia ser só um detalhe, mas não há por lá sequer um dedo do executivo na escolha dos membros da Suprema Corte.

Entretanto, as potencias mundiais que costuraram o pacto com o Irã tem consciência, evidentemente inconfessa, que se nada de novo acontecer, trata-se apenas de postergar algum tipo de devastação nuclear, acidental ou voluntária. Sim, há algo pior que floresce nos escombros das guerras civis e que se espalha pela região. Células terroristas avulsas com ou sem a franquia da Al Quaeda, encontraram espaço para crescer e multiplicar no fértil terreno da indecisão e pusilanimidade diplomática da Europa e América do Norte. A retenção de uma “bomba suja” ou de “armas químicas e biológicas” não é mais hipotética, só não se sabe quando e onde.

Perspectivas de paz para o mundo? Que ultrapasse a provisoriedade — o atual é um plano de seis meses — e aposente para sempre armas apocalípticas? Só mesmo convocando o Criador para presidir uma espécie de última e derradeira assembléia. Aceito pelas partes, finalmente arbitrará quem tem razão nas  disputas. É só palpite, mas altíssimas probabilidades de um veredito inédito. Abrirá mão dos laudos técnicos da psiquiatria forense e interditará o mundo: os sinais de insanidade são auto evidentes.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/interdicao-do-mundo/