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Coisas da Política

Hoje às 06h00

Insanidade coletiva

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

É evidente que o recente triunfo diplomático do comandante em chefe dos EUA nasceu fracassado. Num conflito crônico e ancestral não se fortalece um lado, sem oferecer contrapartida aos que saem enfraquecidos. A glória é sempre efêmera, mas é possível que esta dure menos ainda. A paz alcançada com Teerã é apenas um exemplo da nova pax americana, débil e fracamente dissuasiva.

Desembaraçados e gastos os recursos — os 8 bilhões que Teerã conseguiu descongelar —aquele país ficará tentado a demonstrar que não está interessado em ser permanentemente controlado pelo Ocidente perverso, nem mesmo por sua própria população. O padrão de envolvimento do Irã mudou desde a revolução de Khomeini. Diretamente enfronhados na guerra civil da Síria e com braços armados em toda a região, especialmente no Iraque, os persas estão assumindo importante papel estratégico e expansionista no Oriente Médio.

Que sejamos poupados dos críticos ideológicos que querem equiparar a colonização multinacional xiita com os problemas  israelo-palestinos. Por mais dificuldades e radicalismos que se enfrente, estamos mais próximos de um Estado binacional para israelenses e palestinos do que qualquer arrefecimento no imperialismo de Teerã. Os primeiros terão muitos percalços, guerras regionais e conflitos de fronteiras agora e mais à frente, mas são guiados por um pragmatismo secular que, mesmo respeitando as tradições, sabem que só as soluções de Estado podem trazer paz e prosperidade.

Por sua vez, o regime dos aiatolás se autointitula teocrático e só obedece à ideologia do fanatismo teleológico: impor padrões uniformes de comportamento para os demais. Isso se chama “califado da retidão”.

A diferença, portanto, é enorme.

A velha demonização mútua entre Ocidente versus teocracia xiita ou sua modalidade laica, a Coreia do Norte — se acusando de ser “eixos do mal”— tem um efeito degenerativo nas relações internacionais.

Se ambos estiverem certos em suas premissas, só teremos o mal para nos atender. Mas mesmo no mais grosseiro maniqueísmo há diferenças. Há males que podem ser rastreados, impressos e divulgados. Assim como há aqueles que estão restritos às planilhas insanas de gente convencida de que está sob a influencia de um Poder Superior e, portanto, plena razão em sua lógica de destruição. A bomba nuclear sob comando e guarita da Guarda Revolucionária é um desastre em si, já que eles consideram seriamente seu uso.

Exemplos de pactos que adiaram os problemas, temos vários na avaliação retrospectiva de busca de supremacia de povos sobre  povos. Talvez este acordo não seja exatamente um “erro histórico”, como o classificou o premier israelense.

Destarte, evitar matanças e selvageria talvez ainda seja o único bem universal. Pena que nem isso seja mais consenso.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/11/28/insanidade-coletiva