Cordas tensas (blog Estadão)

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Cordas tensas

Paulo Rosenbaum

13 dezembro 2014 | 22:15

desliguem

Alguém há de apagar a luz do Universo? A matéria escura pode já fazer isso. Mas o fim de tudo, o afastamento elástico das galáxias, a escatologia universal, o bumerangue que entortará o cosmos, talvez esteja a uma distância ainda indisponível. Enxergamos estrelas inexistentes e não alcançamos as que acabam de nascer. Já aqui, no nosso estreito varejo, a velocidade das informações mudou o curso de quase tudo. Nem capitalismo, nem democracia ou qualquer outro regime poderão ser os mesmos com os Wi-Fis acionados. O tempo real com o qual as informações circulavam pelo mundo nos abandonaram a uma dinâmica totalmente desconhecida. Estamos no rastro de mudanças, pressentidas, mas pouco analisáveis. As informações, unidades que constroem nossas opiniões, estão na flutuação de um espaço sem dono. Isso significa multidões de donos, avalanches de terras de ninguém.

Com a fuga veloz das notícias e versões, a verdade opera sob o registro da mais alta relatividade. Do leitor ao analista, do pesquisador ao consumidor, do funcionário ao proprietário fica-se sempre a espera da comprovação cabal, aquela que nunca vem. O que é bom? O que é real? Quem corrompe e quem está omitindo o que todos querem saber? Quem divulga meias verdades?

Neste interregno complexo, o boato pode soprar em velocidade de tufão e qualquer apuração será varrida pelos fatos. Construídos ou reais. A realidade passa a não poder ser mais verificável. Cortina de ferro ou de fumaça, o que o Estado está fazendo do Estado?  Sistemática, dogmática, resoluta e doutrinaria, a violação da República transformou-se em programa de governo. Diante disso, o que significa a ação penal, aquela mensalidade aos parlamentares, quando a lógica do esquema passa a ser uma inimaginável estratégia com inserções multinacionais?

Qual País admitiria inerme, prostrado e cabisbaixo tamanha malversação de recursos? Quando a cegueira sufragista passa e a convicção da causa perdura, não há mais cúmplices, há coautoria. Há quem reclame de quem denuncie, mas a organização criminosa e as aulas de crime, deixam de ser instantaneamente metáforas quando batem às portas.  E para bem além do óleo, que arrastou a economia ao mal humor, uma crise na cultura. Que agora força sua baixíssima criatividade em clima de ideologia aplicada. Renasce a arte subsidiada a serviço da política, do cinema, do engajamento partidário. O poder, que obteve a soldo, a neutralidade tácita das academias, do legislativo e dos demais poderes, agora encampa os artistas e suas produções.

Como se tudo que importasse para nossas vidas estivesse retido num templo que não deveria mais nos interessar. A escatologia universal terá que esperar sua vez até que dissipemos essa nuvem sem graça, que não sai de cima nem chove. Por enquanto, só cordas tensas e trovões esparsos!

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/cordas-tensas/

Vaga Abundância (Blog Estadão)

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Vaga Abundância

Paulo Rosenbaum

04 dezembro 2014 | 14:54

quorum

Uma parlamentar alega ter sido ofendida durante os protestos na votação do parlamento. Aparentemente “vai para Cuba” e “vagabunda” são ruídos bem distintos. Ir para Cuba sugere passeio na ilha, temporada em plutocracia monopartidária, veraneio perto de Miami, ou retiro espiritual sob regime opressor. Não se pode caracteriza-los como cacófatos oficiais, como “vou-me já”, outras uniões silábicas e infinidades de neologismos aleatórios. Pois Renan, amigos e camaradas não levaram na esportiva e anteontem à noite, usaram a escusa da gravíssima ofensa para emudecer quem estava lá para discordar.

“Esvaziem-se as galerias”

Foi quando enforcaram a senhora de 75 anos e ameaçaram outros tantos com descargas elétricas. Ações enaltecidas por aliados da repressão nas sessões de ontem, quando, mais um aumentativo depreciativo entrou para os anais do País. O fiscalão é mais um episódio do abuso de poder contra o povo, sob os auspícios da traição remunerada de representantes do legislativo. Tudo isso para que? A especialidade desta administração: melar as regras do jogo para anistiar o mal feito.

 Mas o que significa exatamente vagabunda? Mulher sem caráter? De vida impura, dissoluta? Mundana desempregada? Ou só indolência discriminada? Não será vagabunda uma ingênua corruptela para “vaga abundância”, como aquela que permitiu que nobres parlamentares concedessem aval para calote fiscal? Nesse caso, não seria o caso de já emendar uma anistia ampla, geral e irrestrita para as dividas dos nacionais? Ou a isonomia vai permanecer figura de linguagem, golpe eleitoral que todos nós já conhecemos?

 “Vai para Cuba” ou “vagabunda”, tanto faz, era só a sonoridade da discordância com a manipulação, o rugido que a impotente oposição abafa com inércia sob a imposição de um mandato que governa sem legitimidade.

Enquanto isso, nós, inertes, vagamos em escassez.

Sobras de uma era (blog Estadão)

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Sobras de uma era

Paulo Rosenbaum

29 novembro 2014 | 21:03

racionalizacaomaracutaiaXX

O pleonasmo “sabiam ou não?” está no ar. E é assim que as manchetes ocultam os escândalos no lugar de coloca-los com a devida relevância. A perplexidade é artificial. Como assim “sabiam de tudo” se foram mentores de toda a coisa. Mas, e aqueles que, sem serem propriamente políticos, deram o aval teórico-intelectual para, usando o status quo, destrui-lo. Portanto, o que está jorrando das plataformas, não é, nunca foi um acaso, trata-se de um plano “working in progress“.  Como nenhuma tese se sustenta isoladamente, é necessário espremer o senso comum para extrair uma gota de contexto real.

Pois um grupo de cabeças pertencentes à mesma matriz acadêmica daquela que defendeu e justificou, da tribuna da Câmara Federal, o massacre da praça da paz celestial em Pequim. Da mesma estirpe que afirmara que os ataques as torres gêmeas eram a justa resposta do talibã ao imperialismo ianque. Da mesmíssima doutrina repetitiva e monotônica que recentemente publicou em jornais e blogs subsidiados que as acusações das corruptelas comandadas pelo partido eram manobras da mídia. A estratégia, bem sucedida até aqui, tem feito colar a tarja na boca dos discordantes. Tanto faz o impresso que vai na mordaça:  direita, burguesia, classe média reacionária, forças conservadoras, críticos fraudulentos, ideologias derrotadas e até mesmo a esquerda cooptada pelo capital.

Mas, o que é mais espantoso e perturbador é que ninguém conseguiu abordar com objetividade o papel silencioso-ativo destes núcleos intelectuais.  Que o silencio não nos engane. Estas forças dominam o pensamento nas universidades. Deram e continuam dando sustentação a esta vasta rede de relações de poder, também conhecida como lulopetismo. Na academia de tribos auto referentes jamais compreenderam a sutileza do filósofo Paul Ricoeur que, em nome da liberação da análise de qualquer hegemonia, solicitava “cruzar Marx, sem segui-lo, nem combate-lo”

 Agora, rompendo um silêncio que passou pelo negacionismo do mensalão, silencio seletivo frente aos escândalos, fracasso da economia do primeiro mandato de Dilma, a risível política externa alinhada com ditaduras, o recrudescimento da pobreza e sob o império da corrupção, um grupo, mais constrangido que verdadeiramente incomodado, lançou um manifesto pedindo coerência entre as propostas de campanha e as ações do executivo.

Durante a guerra fria CIA e KGB subsidiaram escritores e intelectuais para produzir as melhores e mais inspiradas versões de qual seria o regime político ideal e demonizar o adversário. No Brasil de nossos dias o subsidio é mais eclético e patrocina tanto os amigos como compadres ideológicos. Desloca uma tinta preta para quem faz propaganda do governo. A bolsa intelectual chega de várias formas, mas a mais engenhosa foi ter formado um time de pensamento hegemônico, clube onde só entra quem pensa igualzinho. É sob esta diversidade padrão que se respaldam, atribuem-se o que há de mais revolucionário em matéria de pensamento e ainda encontram tempo para difamar os desafetos.

Pois foi isso que sobrou de uma era, uma era em que essa gente era conhecida como “intelligentsia“.

Devoradores de sentido (blog Estadão)

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As vezes, é chegada a hora de admitir: temos que abandonar a busca de saídas. É que saídas são onerosas. Saídas são desgastantes. Já tivemos a quota de saídas heroicas, missionárias, messiânicas e totalizantes. Nada imobiliza mais do que tudo ou nada. Isso porque é mais provável que uma quimera anteceda uma solução. A democracia, assim como outros conceitos sofisticados apresenta couro grosso com telhado de cristal. Uma exigência mínima é que um governo assuma o ônus de governar. Sem isso, vivemos a corte grotesca com aval para desgostos. Há tanto para menear a cabeça e recusar que talvez nem seja mais o caso de acusar ou acumular ressentimentos.

Se é impossível colocar o senso comum no pódio é mais difícil que a filosofia dos neuroexperts deem conta da complexidade. Ela desconcerta. Vibra em cadeia. Bate na testa. Comanda um exército de erros de previsões. Desbanca os oráculos. Quebra a banca. Muda o tempo e desorienta para nos humilhar com suas inconstâncias e extravagâncias. O mundo tem menos guerras? Mata menos? A civilização avança? Para alivio de Freud o ancião mal estar na cultura, vem sendo, enfim, superado? Engraçado. Não é a sensação. As estatísticas precisam ouvir mais o sentido que os números. Da violência sectária do Oriente Médio, às incursões separatistas na Europa, dos flagelos contra a natureza às demandas crescentes de consumo, ficamos devendo. Eis que legiões de intelectuais validam o inescrupuloso. Estudantes de medicina, mimetizam, eles também, o exato oposto do cuidado. E o anti-cuidado não é só não cuidar, mas abuso, retrocesso, tortura e discurso justificacionista como técnicas de domínio.

Não faz sentido. Somos devedores de sentido. Nos tornamos devoradores de sentido. Não alcançamos mais sentido nos pequenos sentidos diários. Desprezamos um Montaigne por dia negando o seu “não te basta viver?”. Abominamos um Camus por semana, pois, de fato, o que significa ser feliz em meio à infelicidade coletiva? E quem no mundo de hoje autoriza digressões? Podemos nos dar ao luxo? Destas e de outras reflexões? Quando se percebe como cresce o húmus: totalitarismos, extremismos e califados. Nossas lágrimas são ladrões da dor. Vermelhas de intolerância. De rubras, foram às cinzas. Estamos, sem tirar nem por, no viés do mundo. Num interregno das passagens. Suspensos, não temos mais eixos e desandamos.

Agora nem se pode despejar mais nada nas costas das contradições do capitalismo. Trata-se de algo bem mais ordinário, em sua mais binária acepção. A esperança remanescente está na jactância do comum, no refluxo à vida privada, no calor de uma pequena infinitesimalidade de medida pessoal. Olhar e ver. Emprestar vozes. Somar pingos à tempestade. E ousar ser. Contra todas as revogações em contrário. Intensificar a ousadia quando te dizem que é perigoso. Quando a maioria já se rendeu. Manifestar-se quando todos já murcharam em suas rotinas. Esqueça quem só procura. Quem acha é quem tem a presunção do acerto, da vida não fracassada e da participação justa. E a honra de ter encontrado o que nunca imaginaria? Ninguém pode pedir que esqueçamos do mal feito, a crueldade, os perversos, e a violência ruidosa, mas vale recomendar: que não sejam tomados como a medida de todas as coisas. Aliás, de coisa nenhuma. Em desuso, a paz é o único ingrediente que neutraliza todos os outros.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/devoradores-de-sentido/

Tags: Albert Camus, democracia e telhado de cristal, devoradores de sentido, Freud, Montaigne

Paulo Rosenbaum
rosenbau@usp.br

Interditada (blog Estadão)

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Interditada

Paulo Rosenbaum

14 novembro 2014 | 12:49

vozvozXX

    Tua voz,

não será auditada

Tua voz,

sem vez

Tua voz,

sem voto,

Tua voz,

 ouvida adiante

Tua voz,

junto ao ruído do cometa,

Tua voz,

não mais te pertence

Tua voz,

que era a nossa

Tua voz,

tão calada

Tua voz,

que pedia liberdade,

acaba de ser interditada.

Maniqueísmo instrumental (blog Estadão)

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Maniqueísmo instrumental

Paulo Rosenbaum

12 novembro 2014 | 23:13

Já que o País está dividido ao meio, podemos enfim contar melhor as peças do tabuleiro. Chefões e subordinados do regime não parecem mais temer as circunstâncias que criaram, nem os 51 milhões que não os avalizaram. A única pergunta significativa é por que? Conseguiram a cola perfeita, aquela que gruda em quem se opõe ao projeto de hegemonia. Nos adesivos, nomenclaturas desqualificadoras de ocasião. A pergunta é, como pode uma oposição que opera com tal frieza lidar com um trator cujo motor já deu sinais que está prestes a fundir?

Refrescando a memória coletiva, a oposição pouco se mexeu quando os primeiros indícios de que uma megaoperação de perpetuação no poder estava em curso. Pouco fez quando as evidências apontavam para o núcleo duro do partido. É verdade, torceu pelo magistrado-solo enquanto tentava superar as ameaças que corriam por fora. Quando ele mesmo dimensionou seu isolamento e jogou a toalha, quase nenhuma voz de desagravo.

A oposição apresenta-se hesitante e pouco convincente aos olhos da opinião pública, que espera bem mais do que “convocação de nova CPI em fevereiro”. A sociedade sente-se orfã diante dos fatos correndo na frente das barreiras. Urgência detectável para bem além das “redes sociais” — como algumas mídias preferem se referir aos rumores para circunscrever uma indignação muito mais ampla. Bem mais difusa do que mensagens rancorosas e preconceituosas entre usuários da internet. A sensação é de que os dinossauros estão esticados tomando sol sobre as pedras, em atitude expectante, diante de um regime agônico. Mas, novamente, podem estar enganados quando não consideram que o extravio leva à truculência, como aconteceu em toda República partisã. Nas circunstâncias que temos testemunhado, não há nada de paranoico evocar as circunstâncias que levaram jovens democracias à bancarrota.

O mais recente ícone do fracasso da democracia é o exemplo venezuelano. A oposição, por medo e intimidada pelo populismo chavista encistou-se numa trincheira distante, fria, com boicote, salto alto e esperança de que o desgaste natural desse conta do tirano. Pois, não ocorreu. Pelo contrário. O resultado de fato foi um avanço sem precedentes do que se convencionou chamar de bolivarismo. Palavra que traduz medidas autocráticas e invenções sob medida para justificar o totalitarismo. A “democracia direta”, por exemplo, é a evidente fissura entre a representação política e os votantes. Implementada, a sociedade se viu diante do desmanche dos três poderes. Extinta a auto regulação, os habitantes daquele país passaram a contar exclusivamente com agentes e líderes do executivo. Não é fortuito que a ONU tenha acabado de condenar Caracas por graves desrespeito aos direitos humanos, de prisões ilegais às torturas. A diplomacia brasileira perfilou-se aos países que tratam direitos humanos com mudez seletiva.

É particularmente espantoso que comentaristas e catedráticos nacionais – subsidiados ou não pelo erário — apontem para uma “nova direita” e uma “extrema direita ideológica” sem, ao mesmo tempo, apontar para o contexto real do parto destas forças. Seria por lealdade nostálgica por aquilo que já foi concebido como os valores progressistas? Faz tempo que o populismo autoritário vem ajudando a deslocar o centro para os extremos. Forças democráticas, da direita à esquerda em desacordo com o onipotência, foram empacotadas, comprimidas e reduzidas à “reação”, agora com insinuações de golpismo. O petismo, sacrificando o fiapo de coerência com seu comportamento e alianças, estas sim, à direita daqueles que são acusados de conservadores, instruiu uma aposta. E ela esta exatamente neste contingente de indignados sem filiação clara, manipulados para insuflar teses conspiratórias. Isso ajuda a propagar com mais facilidade seu maniqueísmo instrumental.

Recobram a desinibição para prosseguir no planejamento oportunista de reformas macro institucionais, à revelia da opinião pública. Não foi só ter levado o pleito na base da calúnia e difamação dos adversários. Não foram só acordos secretos com a ditadura cubana. Não são só os decretos arrivistas. Não é só a imposição de conselhos populares controlados pelo partido. Não é só a luta para extinção do Senado. Não são só financiamentos públicos de campanhas de candidatos dos países vizinhos. Não é só a complacência com governantes totalitários. E não se limita a grudar em um partido tampão como o PMDB, para ganhar aparência mais amigável perante a “nova classe média” que, em segredo chamam de “desprezível baixa burguesia”. Mas, principalmente, a autoconfiança político-jurídica que foram angariando para sustentar todas estas operações. Na clandestinidade atuam com uma única finalidade, já escancarada, de aglutinar-se como poder único.

Trata-se portanto de um regime que finge que não governa, para enfim trabalhar em sua especialidade, a oposição. Isso é muito sugestivo. Sugestivo de que estamos diante de um governo que já age num registro sub oficial. À sombra da legitimidade constitucional. Não porque quer, mas porque atingiu uma espécie de zênite transgressor, e sob o excesso de denúncias, acobertou uma verdade muito mais comprometedora que os alardes dos maus feitos que agora vazam por todos os lados. Por todos os lados, menos para o corredor central do Planalto. E enquanto se convencem de que a impunidade é o prêmio laudatório à grandiosidade de sua causa, o País encolhe, e nós junto.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/maniqueismo-instrumental/

Os cristais do Muro (blog Estadão)

Os cristais do Muro

Paulo Rosenbaum

09 novembro 2014 | 16:54

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Esta noite, Kristallnacht. Será contada como resumo de todas as outras. A areia compacta se misturou ao fogo. E o calor, guiou a flama ao mundo. A mesma que incinera livros e pessoas. Livros e pessoas. Repare e repita. Livros e pessoas livros e pessoas, livros pessoas. Até que sumam as distinções. Falta pouco. Uma página após outra. Uma pessoa após outra. As mesmas almas. As mesmas linhas. A mesma gramatura. Os temas é que mudam. Uma noite de cristais não é, nunca foi, só uma noite. E os cristais, não são só, estilhaços. Os destroços que deixam, inauguraram uma fase chamada fim. O concurso da exclusão. A obrigação do mal. Ela declara o ciclo: a peste emocional é viral. E tuas mãos, hoje, não trançam mais as pedras. Nos gatilhos eletrônicos, o rancor é digital. A violência ousa justificação. Os ossos não apontam, silenciam. A cor da intolerância já se adapta. A impossibilidade do outro vive das invisibilidades. Do ódio difuso. Se todas as narrativas estivessem aqui, talvez, tua boca falaria com tuas palavras. Mas, quem foi perdeu a voz. Exceto pelas memórias, eles hoje só respiram nos céus. E é nesta data dupla. Um quarto de século atrás, outro muro recebeu marteladas. Quando a destruição recobra seu caráter reconstitutivo. Os resíduos, relíquias. O tijolo, cristal. A regeneração vem dos que veneram a liberdade. As mudanças, pelas mãos que negam a hegemonia. Ao custo de vidas potenciais e heróis sem identidade. Por isso, eis a noite propensa a ser dia. Dia no qual cacos se fundiram ao concreto. Juntos, inscreveram a recusa infinda na história. Num lema, provisório, impreciso, incondicional, mas, como poucas vezes antes, presente: nunca mais.

Vou te dizer o que é golpe: (blog Estadão)

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Vou te dizer o que é golpe:

Paulo Rosenbaum

06 novembro 2014 | 17:54

 

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O transe que tomou conta do país, longe do fim, agora decanta alguma clareza.  O da saturação. Notou que cada pedra do muro de Berlim, guardada como souvenir ou vendida em leilões on line, revela um significado que te escapa? Sinto não ter te convencido que não queremos mais controle. Que o Estado que te seduz não nos interessa. É o anti-desejo do mundo. Que recusamos menos liberdade, não importa o que você ofereça em troca? Se somos minoria? Até anteontem. Parece que teu consolo, e a de muitos outros, é diagnosticar  indignação como sintoma de direita. Calma. A insatisfação sem dono é um junho que ainda paira no ar. Nem progressista, nem conservador. Lembra que vocês criaram o ensaio “massas sem rumo”. A mesma que agora buscou respiro nas urnas. Que desafiou teus planos tiranos. E abriu clareira. Mas, para você, argumentos nunca foram suficientes. Os princípios? São úteis quando favorecem tua ideologia monopsista. Eu sei. Só seu grupo sabe como tirar o mundo da miséria.Vocês podem ter a formula, não a governabilidade. Um pouco de coragem para ouvir com atenção: recusamos ser o laboratório das tuas idiossincrasias políticas.

Agora que pensas que o jogo terminou e garante  que estão limpos – como se acreditássemos — vou te dizer o que é golpe:

Golpe é a opacidade. Golpismo é tergiversar sobre dados reais. É golpe acusar os demais de golpistas. Golpe é enaltecer o sectarismo. É golpismo mentir à opinião pública. Golpe é, enquanto atacas, simular que está sendo golpeado. Golpear é subsidiar regimes de exceção com nosso erário. Golpe é imaginar ser dono de olho único em meio à cegueira generalizada. Golpear é ameaçar os desprotegidos com cassação das bolsas.  Golpismo é apontar nossas paranoias, enquanto municias agendas paralelas. É Golpe ofertar o que já foi ofertado. Golpe é conluio com ditadores. Golpear é servir-se da República como partido. Golpe é a manipulação política do medo. Golpistas simulam condescendência e endurecem pelas costas.  Golpe é reduzir o País a dois lados. Golpe é insuflar a litigância.  É golpismo vingar-se em quem não se curva. Golpe é usar a democracia para adultera-la. Institucionalizar o aparelhamento é um senhor golpe. Golpe é monopolizar a justiça. Golpear é operar nos bastidores. É Golpista amordaçar a liberdade de expressão. É golpismo tomar sufragistas como clientes. Golpe é acusar quem não governa pelas omissões de quem o deveria fazer. Demonizar oponentes: golpe. É golpista dedurar o palanque alheio. Golpe é sumir com o reflexo para se ocultar no espelho. Golpe é não assumir.

Ps – Não é golpe dar ouvidos a 51 milhões de vozes.

para comentar:

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/vou-te-dizer-o-que-e-golpe-2/

 

 

Amanhecemos embrutecidos (blog Estadão)

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Diz-me, o que te oprimiu?

O tilintar eletrônico, o torno, as bolsas de ocasião?

As consequências já superaram as causas?

Não são eles, somos nós

A repulsa prescinde ódios

Precede a ética

Impossível pensar,

É possível sentir: aquele coração nunca foi valente

Pulsou, covarde

E a tirania, vem a cavalo

O poder mal incensou-se das urnas

Para, no dia seguinte, esquecer tudo

Para impor

Permutar tua liberdade

E, nós,

Órfãos de vozes,

Reféns das armadilhas!

Da avidez pelo poder

Amanhecemos embrutecidos.

Preconceituosos, ofendidos e perplexos

Para descobrir que brutalizar,

Não é só mais uma arma, mas a principal

Racha-se sem alarde

Conclama-se ao conflito,

Trama-se sob martelos e tribunas

E a fala desmente as bocas

Na conversa que apostava na falência dos diálogos

Não somos nós, somos todos

Mesmo assim, o momento

Demanda intransigência

Restam  luto,

Desobediência civil e resistência não violenta:

Diz-se que quando os reis se despem

Só o engano reluz:

E não é ouro.