Os cristais do Muro

Paulo Rosenbaum

09 novembro 2014 | 16:54

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Esta noite, Kristallnacht. Será contada como resumo de todas as outras. A areia compacta se misturou ao fogo. E o calor, guiou a flama ao mundo. A mesma que incinera livros e pessoas. Livros e pessoas. Repare e repita. Livros e pessoas livros e pessoas, livros pessoas. Até que sumam as distinções. Falta pouco. Uma página após outra. Uma pessoa após outra. As mesmas almas. As mesmas linhas. A mesma gramatura. Os temas é que mudam. Uma noite de cristais não é, nunca foi, só uma noite. E os cristais, não são só, estilhaços. Os destroços que deixam, inauguraram uma fase chamada fim. O concurso da exclusão. A obrigação do mal. Ela declara o ciclo: a peste emocional é viral. E tuas mãos, hoje, não trançam mais as pedras. Nos gatilhos eletrônicos, o rancor é digital. A violência ousa justificação. Os ossos não apontam, silenciam. A cor da intolerância já se adapta. A impossibilidade do outro vive das invisibilidades. Do ódio difuso. Se todas as narrativas estivessem aqui, talvez, tua boca falaria com tuas palavras. Mas, quem foi perdeu a voz. Exceto pelas memórias, eles hoje só respiram nos céus. E é nesta data dupla. Um quarto de século atrás, outro muro recebeu marteladas. Quando a destruição recobra seu caráter reconstitutivo. Os resíduos, relíquias. O tijolo, cristal. A regeneração vem dos que veneram a liberdade. As mudanças, pelas mãos que negam a hegemonia. Ao custo de vidas potenciais e heróis sem identidade. Por isso, eis a noite propensa a ser dia. Dia no qual cacos se fundiram ao concreto. Juntos, inscreveram a recusa infinda na história. Num lema, provisório, impreciso, incondicional, mas, como poucas vezes antes, presente: nunca mais.