Pequenas belezas (blog Estadão)

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Pequenas belezas

29 maio 2015 | 10:33

belezaxxx

Era só mais um dia fosco, no outono apagado

e tua vida não podia mais ser medida,

nem dimensionada, contida ou revelada,

mistura de cabelo e cenário,

de volume e norma

de constância e forma

tua simetria me sondava à revelia

na pequena beleza que se dissipa,

um perfil que, misterioso, despista

toda curiosidade e assume, num anjo obliquo

meu oficio:

contemplar sem a pretensão de te retratar

e no fim, te perder e me desviar, o método de amar.

hhttp://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pequenas-belezas/

Eduquem-se rapazes! (blog Estadão)

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Eduquem-se rapazes!

educacaodemassasx

Paulo Rosenbaum

27 maio 2015 | 14:58

– Então era só isso? Era esse o diagnóstico? A nova direita precisa se educar? Mas e quanto à velha esquerda, os patronos de sempre, o sistema político que não se recicla?

– Querido, você não compreendeu. Há tradição política tanto numa quanto noutra. Falo desta molecada que está perturbando, não entendem nada de política. Saem às ruas para tumultuar. Você observou que eles não tem uma liderança?

– Espere um pouco. Molecada? Quem são esses moleques?

– Esta rapaziada de classe média que marcha e fala bobagem, que querem fazer tudo na marra, sem negociação. Eles não têm estofo.

– Na marra? Sem negociação com a sociedade? Mas quem faz isso é o atual governo. Está falando do atual governo?

– Uff. Não, filho, falo destes manifestantes, bando de conservadores reacionários. Gente sem noção, subvers…deixa para lá.

– Eu fui na manifestação. Vi gente falando bobagens, mas a maioria pedia mudanças. Todas as classes estavam lá. Não era para, antes de tudo, analisar o fenômeno? Pois dois milhões expressaram seu descontentamento e sua desilusão. O partido exagerou, ou o senhor discorda?

(o professor virou de lado, com a boca reclinada, a língua empurrando o palato)

– Já vivi muito e tenho experiência para dizer que eles não sabem o que fazem. Depois que tudo isso passar, vão ver quem tinha razão. Só há uma verdade, nos últimos 13 anos vivemos uma revolução neste País, como nunca antes. Quem não percebe isso não merece ser ouvido. Os desvios fazem parte do processo. Vou além, quem não está gostando que caia fora. Ouvi dizer que Miami está com tarifas promocionais. Podemos seguir com a aula? Onde estávamos mesmo?

(o aluno levanta)

– Vamos ser doutrinados ou educados? O senhor não disse que a democracia é um jogo? Um jogo de forças, onde a luta justa era por oportunidades iguais? Sua aula é contraditória com sua postura pessoal. Vou ser honesto: não é a primeira vez que eu me sinto oprimido por ter uma opinião diferente da sua. E tem mais estudantes que se sentem assim. Desculpe a ousadia, mas o senhor extrapolou sua função. Se valorizo seu conhecimento, isso não significa que aceito ser persuadido por suas certezas. Como todo mundo aqui, vim para aprender, não ser doutrinado por suas convicções.

– Melhor se sentar e calar essa boca, rapaz.

– Por que?

– Vou chamar os seguranças.

– Isso é ser intelectual progressista? É isso uma democracia?

– Na minha sala mando eu.

– Estamos numa discussão acadêmica? Sua primeira aula foi sobre maiêutica, lembra? Sócrates e o método de indução de perguntas para desenvolver o raciocínio crítico?

– Não eram bem essas as perguntas. Saia da minha aula, agora! O senhor está expulso da discussão acadêmica.

– Esse foi o melhor aprendizado empírico que já tive sobre liberdade de expressão e respeito à diversidade de pensamento. Grato mestre.

(vaias e aplausos)

(aluno senta-se e lentamente começa a recolher seu material)

O professor sai da sala e grita do corredor:

– Seguranças, seguranças!!

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Inadmissível (blog Estadão)

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Inadmissível

Paulo Rosenbaum

22 maio 2015 | 14:44

Assim que largou a lâmina, o criminoso transformou-se em vitima do sistema e em seu auxilio, vieram os defensores da inocência presumida de réu confesso. Sabe qual é a primeira acepção de vítima no dicionário? Um objeto ou ser vivo destruído ou sacrificado por uma causa ou um objetivo. Mas o conceito de vitima está sendo desmontado pela interpretação ideológica. Logo, parte significativa da mídia escolheu reproduzir frases e lamentou pela vítima secundária e entendeu as motivações da vítima primária.

Agradeço sua entrevista, ela elucidará muito o panorama.

Como assim isso é novo para mim? Não soube? Acabam de conceber, é oficial: no nosso País temos só vítimas, as primárias e as secundárias. Sobraram alguns crimes, mas o grosso não é mais isso. Todo mundo hoje é uma vitima. Aproveitando a ocasião o Sr. poderia explicar o que quis dizer com ” isso é inadmissível?”

O que ninguém pode aceitar? Perfeito. Permite adiantar para o Sr? Ontem, encontrei um dicionário subjetivo e queria muito submete-lo à sua apreciação. Pode ser? O senhor não tem tempo? Posso ler. É só mesmo um verbete, o ” inadmissível” . Já está na mão. Mais tarde não. Não deu para perceber? O tempo está esgotado. Acho que o senhor não compreendeu bem. Não é meu tempo ou o seu, não há mais tempo para ninguém. Onde o encontrei? Isso importa? Por que o senhor está correndo? Não tem problema, vou caminhando do seu lado. Não se preocupe, sempre consegui ler andando. Já que o senhor não está parando começo aqui mesmo:

– Inadmissível: podem ser facas inimputáveis. Equivalência moral entre criminoso e vítima. Estado omisso. Segurança entregue à sorte. Desprezo sistemático pela sociedade. Indignação forjada. Educação postergada Alianças de ocasião. Perdão à revelia da criatura imolada. Concorda? Mas como, se ainda nem comecei? Veja só o que acaba de dizer. Em meios aos atenuantes, vítimas continuam vítimas. A injustiça social é explicação ou desculpa? Vale para a Lagoa e Alemão, Copacabana e Galeão? O senhor não acha que o vale vida não deve conhecer latitude, longitude nem vicissitude? Tem gente que não é responsável pelos próprios atos? Então, por favor, explique qual é a idade da moral? Tudo bem, vamos então mudar para ética. Que seja. Por acaso o senhor ouviu o que estão dizendo por ai? Eu sei, eu sei, é tanta coisa para escutar que é melhor ficar surdo. Mas tive a paciência de gravar para que vossa excelência ouvisse.

“Sob injustiça não pode haver paz, logo, vale tudo”

Espantoso não? Não estou insinuando nada, a fita é muito clara. O senhor e seus aliados estão deixando a coisa andar? Eu entendi, claro que entendi. É para deixar todos em igualdade de condições. Socializar a desigualdade. E como é que as coisas se ajeitarão? Não é bem assim? Então explique, sou todo ouvidos. Será na coletiva? Ah, na palestra de doutor honoris causa. E qual o título da vossa aula magistral excelência?

“A medida certa para que o Estado não sucumba nem ao capitalismo selvagem nem ao populismo de ocasião?”

Quero estar lá. E logo depois, para onde vai a comitiva? Inauguração de fábrica chinesa de rojões? Qual será o tema do discurso? Meio batido. Ouvir o que ela tem a dizer sobre o “Pátria educadora”? Não vai dar. O senhor está me convidando? Cadeira VIP para a imprensa? Quanta honra, mas justo nessa tarde terei compromisso. Mas isso é muita indiscrição excelência. É meio delicado, mas para o senhor posso contar. Tenho agendada uma audiência no tribunal de pequenas causas. Não, nada sério. É que resolvi processar o Estado. Não, nada disso. Não sou um desses querelantes malucos. A causa é mais do que justa. Promete guardar segredo? Não, não estou brincando. O processo está tramitando há anos. O juiz foi ameaçado, testemunhas precisaram ser escoltadas, e o senhor não imagina quantas vezes tivemos que adiar o julgamento. Agora será em local secreto. A causa? Estou pleiteando o direito de permanecer vivo.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/inadmissivel-2/

Terra papagallis (blog Estadão)

Terra Papagallis

Pappagallis

Em 1522 um explorador português fez, involuntariamente, uma bizarra nomeação para designar a região que, mais tarde, conheceríamos como Brasil. O mapa, também conhecido como “mapa do almirante” conservou um elemento premonitório. Bem no centro do registro cartográfico — que apresentava apenas um esboço da região norte  –  estava grafado:”Terra papagallis” ou “Terra dos papagaios”. Mais do que a referencia de um naturalista consciencioso ou de um biólogo medieval, apresentava-se ali um aspecto antecipatório da identidade do País.

Desculpo-me previamente com a família Psittacidae e sua extraordinária capacidade para repetir palavras escutadas. Graças ao órgão fonador análogo às cordas vocais humanas, capacidade de memorizar e desejo de comunicação, estas aves são capazes de reproduzir sons, palavras e, no caso do papagaio de Churchill, discursos e slogans. Pois estamos retornando às origens da terra dos papagaios. Todos os dias, temos que lidar com cópia de opiniões. Poderia ser só imitar as espetaculares qualidades daqueles pássaros. Mas é muito pior. Impressiona a quantidade de tagarelices, boatos, comentários, opiniões e postagens inúteis e inconsistentes que circulam através dessas janelas digitais.

O que mais chama a atenção em meio à infinidade de absurdos e toneladas de pixels é a veracidade hostil com que muitos apresentam as papagaiadas. Isso é, com certeza absoluta discorrem de “elite branca racista” ao “bolivarianismo continental”, do “complô da imprensa golpista” ao “golpe militar já”, dos “exércitos paralelos” aos “banhos de sangue”, sem esquecer da propaganda contra minorias regionais ou mesmo vetar, transformando em tabu conservador, qualquer discussão sobre a mudança da lei para a idade penal.

Em assuntos internacionais o viés é ainda mais perturbador “O Isis, criação dos EUA”, “O 11 de setembro, armação da CIA”, “Israel aplica o apartheid“, e generalizações afins complementam o antiamericanismo associada à incansável militância antissemita.

Evidentemente, extrapolações e fofocas em ritmo viral não são monopólio de direita ou da esquerda. Há até aqueles que vivem disso profissionalmente. As versões circulam soltas, sem gravidade e impunes, apensas ao espaço sem autor definido, na base do pseudônimo, do perfil falso, da malandragem que pode ser incógnita ou assinada, subsidiada ou não. Nas últimas eleições, por exemplo, o governo contou com a ajuda destes instrumentos para dar uma mãozinha na desconstrução dos outros candidatos.

Muitos, sem entender das áreas que pretendem dissertar, conduzem narrativas de ódio pueril e contagioso, elevando ainda mais a conta da intolerancia, cujo saldo devedor vai aparecendo nas ruas e deve mostrar a fatura no próximos extratos eleitorais. Campeões supremos desses abusos de opinião ainda são os representantes do governo federal. O interminável número de malversação do vernáculo entre ministros de Estado, notas desastrosas, gaguejos, desmentidos e meias verdades servem como demonstrações empíricas.

A viralização de conteúdos extravagantes, também merece ser tomada como outra evidência das reproduções impensadas. Trata-se de uma descuidada substituição das nossas vozes. Ao copiar e colar. Ao passar adiante. Ao compartilhar, sem reflexão ou inspeção do conteúdo, emprestamos nossos discursos. Alugamos nossa opinião sem fiador. E, as vezes, emitimos voto favorável para quem rechaçamos. Difamação, calúnia e desconstrução estão ao alcance de qualquer um. Um mal entendido postado não causaria nada sem a legião anônima de compartilhadores.  Sob essa escolta hostil, com a justiça tarda e falha, uma mera opinião pode custar a carreira, a família e, eventualmente, a vida.

Há uma espécie de ecolalia institucional que faz as pessoas repassarem, em ritmo automático, o que outras dizem. Não se trata somente de não ir checar as fontes, o que já seria bem problemático, mas de assumir para si e promulgar as conclusões de outrem. É o triunfo do formador de opinião, agora sem resistência autocritica. É o reino do marketing puro. A oposição aliada, que escolheu a relativização absoluta, também não fica muito atrás. Neste caso, pode ser só um efeito nonsense colateral.

Este contexto asfixia o pensamento. E não é só uma forma lenta de assassinar o diálogo. É a rota mais curta para que a democracia pareça uma ideia inviável e a sociologia da ignorância ou um aventureiro qualquer, reassuma o comando do País.

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Sabiam, mas não tragaram (blog Estadão)

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—O plano, perfeito, as circunstâncias, ideais, a resistência, mínima, o apetite, máximo. Então senhores há algum enigma aqui, o que pode ter dado errado?

(batidas de lápis contra mesa de vidro)

—O produto senhor, o produto. Encareceu demais.
–Mas como é que pode? Então paguem! O que estão esperando? Esvaziem os fundos, torrem as reservas, façam o que for preciso. O que? Por que essa cara?
—É que…deveríamos ter aprendido, não funciona, nunca funcionou.
— Mas como é que você ousa? Que tal pedir desconto? Abatimento? E se for no atacado?

(limpeza de garganta ineficaz) (ruídos indecifráveis, sugestivos de lamentos)

– Não dá. Precisamos aprender com a história chefe.
— Você ouviu isso? O que ele está me dizendo?

(murros secos, seguido de gemido contido)

— A realidade companheiro: só a realidade (suspiros) Simplesmente não deu, ninguém pode comprar a sociedade inteira.

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Mãe Comum (blog Estadão)

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Primeiro pense em suas características analógicas: extensa, viva, ativa e acolhedora. Depois, expanda a imaginação: causa, nascença, processão, proveniência, principio, elemento, objeto, razão, respeito, matriz, manancial gênese geradora, sementeira, primum mobile, vera causa, principio fontanal, causa final, teta, embriogenia, embrião, rebento, germe, plúmula, étimo, núcleo, raiz, levantar, engendrar, criar, desbrolhar, induzir, inspirar, criar, influir, motivar, proporcionar, fecundação, infundir.

O próximo passo natural seria tomar maternidade como efeito: parto, rebento, primícias, criatura, sóbole, ceifa, colheita, safra, messe, seara, aroma, derivar, emanar, hereditário, profetício, fontanal, fruto, ninhada, infante, descendentes.

Uma, antecedente constante, a outra, consequência constante. Há uma mãe para além da vida que gera. Mais abrangente, mais dispersa, e muito mais preocupada que as suas, as nossas e as vossas. Há uma mãe que mesmo não sendo mãe, provê acima de todos os limites e para todos os gêneros.

Uma mãe que não é só revivescente e regeneradora. A progenitora que inexaurível, nos nomeia desde o imemorial. A mais multípara dentre todas. Aquela que mais ramifica e cujo terreno não infindo e sem margens, exala a perpetuação.

Uma mãe, cuja obra prima é um produto coletivo e indeterminado. E, dentro da infinidade de pólens erráticos e lençóis freáticos, recicla as gerações subsequentes.

A mãe de todas as mães é só uma natureza negligenciada. A galáxia máxima. A forma gestacional. Cores que mudam e transmigram. Ocupa o mundo sublunar, o uranorama, o cariz do céu.

Tua é a gravidade presente e teu domínio se estende à própria Terra. Às custas de bilhões de anos cresceste e fizeste crescer neste mundo transitório: acaso dos dados ou um plano ignoto? No conjunto de vidas que te povoa, a máxima soma, nosso bioma. E é em teu seio e superfície que, através das gradações progressivas, todos permanecemos.

Tuas filhas e filhos, herdeiros longínquos desse ventre ininterrupto ainda te desconhecem. Te tomam como entidade distante e autônoma. Ainda não notaram a sucessão: as criaturas que cuidam de quem lhes deu origem. Tua natureza amazona misteriosa, mostra o acabamento e o capricho com que o feminino se ocupa em todos os recantos.

A mãe natureza não tem ciúmes: saúda todas que, como ela, destinam-se a originar e cuidar. Para as mães ativas e aposentadas, vaidosas e hippies, as únicas e as coletivas, as filósofas e as pragmáticas, as que nunca mais veremos, as que já foram e as que estão chegando, as amáveis e as severas, as sozinhas, as que jamais criaram, as que não puderam cuidar, as que se perderam e as que se isolaram, aquelas que nunca conceberam, as que mudaram e aquelas que visitamos hoje.

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Brasil sem bula ou Sarabulho e Ajuste (blog Estadão)

Brasil sem bula

Paulo Rosenbaum

08 maio 2015 | 17:40

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Trabalho de analista político não é fácil. Parece até que há toda uma arquitetura forjada para ludibriar os intérpretes. Nos noticiários das últimas semanas foi o  partido governista quem girou a outra volta no parafuso espanado. As forças pró e contra ajuste fiscal, uma espécie de versão dos trópicos de movimentos a favor e contra a austeridade, entraram em choque. O problema é que a democracia vai ficando cada vez refém da propaganda. O marketing político, como prefere ser conhecido, é uma viga bem mais potente do que os comerciais de carreira. Do modo como as eleições e a busca pelo eleitor têm se configurado, o que interessa não é debate, conteúdo, ou consistência: a imagem é tudo. Pois, em última análise, o financiamento dos partidos, principal origem dos desvios, a mais primitiva fonte de corrupção, ocorre para custear as multimilionárias campanhas e benesses associadas ao voto.

Agora, constrangidos por escândalos e pela gestão nociva, clamam por diálogo. Na partilha maniqueísta a tática consiste em embaralhar autores com vítimas. Foi assim que surgiu a obra prima, uma neo versão do lulinha paz e amor:  “tem gente que nos odeia” mas, “nós vamos continuar amando”! No mínimo, uma impressionante contribuição para compreender a natureza dos crimes passionais. Em política, a sinceridade não é constitutiva, só que seriedade é vital. Muito mais urgente do que interlocução insistem em investir na divisão da sociedade. O maquiador geral da nação precisava bolar um jeito de mostrar quão probo é o partido. Numa brevíssima análise do discurso dos programas eleitorais a orientação do marqueteiro não poderia ter sido mais clara: eleger algozes externos e apontar para o inimigo oculto.

Quem é que não sabe que sem o ajuste o País declinará mais rapidamente e mais agudamente? Todos compreenderam que a tríade, política econômica, cosmiatria fiscal criativa e os custos da reeleição — patrocinados pelo maior programa de expropriação de estatais do mundo – foi a responsável pelo sarabulho. A maioria sabe que a sangria — recurso recentemente reabilitado na medicina — não será, neste caso, uma terapêutica curativa. Muitos sabem até o óbvio: numa República o que estrangula o governo hoje, enforcará a população logo adiante.

No programa gratuito o ritual manjado: sob o velho apelo emocional as falas foram, ao mesmo tempo, contra a terceirização, apontando porém um conluio do aliado PMDB com a oposição como verdadeiros articuladores do ajuste fiscal. Todos sabem quem é que precisa desesperadamente de credibilidade internacional.  Ousadia é contagiante. Ainda tiveram tempo de insinuar que eles são a verdadeira oposição “contra tudo que está aí”. Simultaneamente, declarou-se apoio à personagem Dilma enquanto faziam ressalvas ao seu plano de governo. Convictos que ninguém iria detectar o paradoxo, vieram novos ataques: as vicissitudes do País é culpa dos pessimistas, dos retrógrados, da elite, da classe média, do operariado ingrato. Na peça publicitária ainda ouvimos que os condenados que recentemente receberam por parte da direção desagravos em praça pública, serão expulsos. Nunca antes na história deste País a esperteza esteve tão concentrada num só horário nobre. Há quem considere “falta de educação” fazer uso do panelaço enquanto representantes do poder exercitam suas laringes. Difícil julgar falta de educação em meio à corrosão da linguagem como instrumento da verdade.

Uma surpresa pode estar reservada aos políticos. Há na sociedade uma maturidade política difusa rondando, e é uma estupidez inibi-la com as habituais etiquetas depreciativas de tendências políticas. Na verdade, tanto faz. Neste sentido, algo está em deslocamento. Têm cabido ao ministro da fazenda costurar verdadeiros pactos de Estado para além dos mesquinharias partidárias. E, para surpresa geral da nação, por mais oblíquas que sejam as reais motivações, coube ao velho PMDB e ao presidente do Congresso representar a oposição. Vai entender.

Como o Brasil não vem com bula, é fácil confundir o que é tratamento com efeitos colaterais.

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O retorno do bumerangue (blog Estadão)

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O retorno do bumerangue

Paulo Rosenbaum

24 abril 2015 | 15:27

metafora

Eu vou bem e você? Faz tempo. Senta ai. É verdade, perto das eleições tive que te bloquear. Eu sinto também. Mas não me arrependo. Não tenho respostas, só perguntas. Você pode até dizer que não, mas eu sei. Lembro de cada um dos aforismos: era o “nunca antes na história”, depois vieram “só nós fizemos”, e depois aquela fileira de slogans. Agora vocês nem disfarçam mais.

Dúvida? Então vou fazer esse papel para ti. Sabe por que? Vão forçar os blogs pagos para comentar o de sempre. As mesmas velhas ladainhas contra o partido. Vocês são incansáveis, mas sabe quem vos dobrará? Não, não espero nada da realidade. Quem está dando o troco não é o Congresso, não são as ruas, são as metáforas obsedantes que vocês deram vida. Sim, explico. Sabe aquelas ilusões criadas? Lembra das promessas impagáveis? O sonho à granel? Da campanha eleitoral desconstrutiva? Pois foram elas que estão assombrando o poder num espetacular retorno do bumerangue. Pois é, são elas que estão agarrando suas canelas. Fantasmas podem ser imponderáveis mas, por um estranho capricho, cobram ingressos mais caros. Pessoalmente não creio em assombração, mas acredito em inflação, desatino, despreparo, e em massa falida que vai rolando até gerar o déficit universal. Sem querer ser insistente: um dia, não precisa ser agora, você vai me dizer como é que se quebra uma empresa com monopólio do petróleo. Não tem nada de pirraça. Chame de curiosidade metafísica.

Quer ir por tópicos? Vamos lá. Histeria anti comunista. É mesmo uma reatividade infeliz. Concordo que entramos numa cultura incomoda: o senso comum de mau gosto. Mas o que me dizes da redação estúpida nos fóruns da esquerda conservadora? O que vocês ainda não entenderam é que justiça social não é mais monopólio da agenda socialista. Qualquer cidadão esclarecido reconhecerá isso. Reconciliação nacional? Só depois que vocês pularem do barco. E já passou da hora. Venham todos de cara limpa e aí veremos se rola um diálogo. Já há um consenso: nenhuma reconciliação virá através de vocês. Aliás, se tiver que vir, nascerá à revelia do poder. Será um destes efeitos colaterais inesperados. Em pelo menos um aspecto vocês estão de parabéns. Curioso? Conseguiram uma façanha: reunificar a sociedade contra um projeto totalitário.

Ingratidão e falta de reconhecimento da nova classe média? Pense de outra forma: o povo aceita ser humilhado, ofendido, pisoteado, jogado às feras, tripudiado e esquecido. Vá ás ruas e me desminta sem fazer gracinha. A sociedade, esta entidade abstrata, pode ser passiva, pacata, alegre mas tem o seguinte, não tolera ser sabotada, muito menos instrumentalizada. Ela não tem essa percepção? Vai nessa! Até os gênios do marketing político vão jogar a toalha quando o produto estiver prestes a perder o prazo de validade. Quando apodrece, costumam sumir. Moralismo? Demagogia? Chame como quiser, eu já apelidei de índice de volatilidade do eleitor.

Sabotagem, como se sabe, é especialidade dos agentes tiranos que abundam à esquerda e à direita. E a enganação útil pode também vir do centro. O importante aqui é conhecer a índole do sabotador, ele age por vingança. Neste caderno de teses de agora, por exemplo. Me explica o que é que é aquilo? Nota-se que vocês não aproveitam a parte boa do envelhecimento.

Eu também li aquela matéria. Bom saber que nem você concorda. De cara, intui o desproposito. É evidente que a maioria dos insatisfeitos não é do “tea party dos trópicos”. Qualquer análise sem contexto acaba virando fofoca. O que eles são? Sei lá, chame-os de chimarrão quente, massa difusa, matéria escura sem etiqueta.

Dos dois lados há sempre gente falando bobagem, grupelhos nostálgicos e vingativos, milícias que querem desforra. Mas a maioria está cruzando os braços, e não é por greve. É uma atitude nova, típica dos observadores. De gente que perdeu a paciência, mas não o bom senso. Enquanto vocês apostam na reincidência e nos truques manjados a maioria está parando para pensar.

Impeachment? Se há lei para impedi-la de continuar, por que não usa-la? Se não há, a quem interessa criminalizar quem se opõe ao poder? Ontem todos os canais estavam mostrando uma ofensiva midiática do partido. Vocês ainda apostam cegamente no poder da propaganda. Só esqueceram que o meio é a mensagem. O que chega para as pessoas não é o desejado, mas o meio pelo qual vocês tentaram a persuasão. A mensagem se perdeu pelo caminho. Sobra a mentiras, ardis, estratagemas, e maracutaias.

Ok, podemos mudar de assunto. Se vamos jogar fora o que vocês fizeram pelo País? De forma alguma, tchê! Mas os acertos não apagam as pegadas. O corolário de equívocos de vocês já virou marca registrada. É herança maldita contra terra arrasada.

Só que isso aqui ainda é uma República.

Por favor, dá para abaixar o tom? Aceito a desculpa. Percebe? Essa arrogância inflamada não faz sentido. Ninguém fica feliz – ou não deveria ficar – com tanta gente enroscada, presa e processada. Mas esse é o salário do abuso. Se ao menos fossem aprendizes mais discretos. Se abandonassem o projeto da pátria homogênea e da hegemonia partidária.

Ideário da burguesia? Céus! Senhor, um desafio: saia agora às ruas e veja se a insatisfação está confinada. Veja se está delimitada a uma classe social. Saia e veja quantos estão fazendo as contas do que estão perdendo com a volta dos espíritos descontrolados que vocês libertaram das catracas: inflação, estagnação, insegurança, desatino fiscal.

Saia e constate quantos se arrependeram. O que se deve fazer? Comecei este papo mandando a real: eu nunca disse que tinha uma solução. Se pede conselho eu resumiria num só item: façam autocritica e mudem. Sem ela, não há conversação.

De dentro desta grande instituição asilar controlada pela ideologia, o fanatismo e a convicção, a realidade está sendo obrigada a dormir do lado de fora. Está sugerindo que a saída é o aeroporto? Posso te afirmar que já ouvi, não faz muito, essa mesmíssima ameaça. Mas somos como a mula teimosa. Não vamos desistir do Brasil. Não que não seja tentador. Percebemos que persistir é a única forma de dar um cansaço no delírio de proveta que vocês pariram. Passar bem você também.

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Dia em memória às vítimas do Holocausto (Yom Hashoah) (Blog Estadão)

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Dia em memória às vítimas do Holocausto (Yom Hashoah) 

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Mais uma vez você vem falar  do Shoah?

E mais uma vez somos obrigados a ouvir?

Quer esquecer essa história? Seria bem melhor para todos.

Admita, você não compreendeu: se esqueço, desapareço. Se você esquecer, desapareceremos todos.

Não como pessoa, ninguém evapora como espírito, não se somem com as marés, não desintegramos como barrancos em inundações

Costumamos evaporar quando não fazemos mais sentido, mas existem ebulições prematuras. Se quiséssemos, viveríamos pelos segundos. E, se nossa contagem viesse numa outra unidade? Uma que desprezasse o tempo e redescobrisse outros ritmos.

Impressão minha? Seu sorriso mudou?

Não, não é capricho. Nada de apologias, nacionalismos, nem cumplicidade neurótica. Bastaria ter sabido que existi, a única exigência de toda memória.

Por que insisto em fixar-me em tuas lembranças?

Nada pessoal, não vivo por vingança. Permite uma intimidade? Num dos campos senti: toda memória está vinculada à história. Entende? Nós somos assustadores.

Não, isso também não é para evocar sua consciência, despertar a Misericórdia. Você sabe tão bem quanto eu que a pena é uma nostalgia sem objeto, uma culpa sem noção do mal.

Exato. Como você, também não me comovo facilmente.  De acordo, detestáveis aqueles que se constringem sem levantar da cadeira, ridículos os que se movem sob a indignação remota.

O meu ponto?

Exijo que a dor, essa dor, suba junto com o vapor que nos destruiu, Faço questão que mortalha alguma seja reverenciada. Que os números tatuados se transformem numa álgebra benigna.

Agora pode sentir? Captou meu estado?

Tento de outra forma: isso não tem a ver com religião, nem raças, etnias, partidos ou, classes sociais. Céus, crianças estão cercadas: judias, árabes, negras e caucasianas.

A natureza dos genocídios?

Permanecerá tão misteriosa como a gravidade. Com autorias indeterminadas: da Europa à Grécia, da Armênia à Síria, da Ruanda ao Iraque, da Bósnia ao Sudão, do passado ao futuro.

Viu? O assustador nunca esteve fora ou distante. É preciso repetir: nós somos assustadores. Todo holocausto é um adiamento, uma fusão sem fim, um negócio movido por manivelas humanas.

Agora você chora? Só que ainda não terminei.

Precisei  vagar entre livros, em meio aos escombros e também nas paisagens intactas da natureza remanescente. Precisei viajar desafiando bósons, sob asteroides que carreavam água. Precisei ouvir lamentos de cada povo e elemento só para poder te ver. Precisei superar a ignorância, suportar a decadência. Precisei desviar dos fornos e gazes. Precisei contornar escravos e tiranos.  E mesmo chegando a estes confins de mundo, enfrentando provável arrependimento, reuni forças para te dizer que o homem pode ser diferente. Que se abandonarmos a vida reativa, a ação tem chance de prevalecer. Uma tradição como a vossa merece sobreviver se disser de novo, um novo.

A outra escolha? Resignar-se à repetição. Nesse caso, nem com todo esforço mudaremos a insignificância ou escaparemos da perplexidade.

Para bem além do Tambor (blog Estadão)

Gunther grassa

Paulo Rosenbaum

14 abril 2015 | 09:31

guntIII

Para bem além do tambor*

Em 2012, o recém falecido escritor Gunther Grass publicou uma poesia abertamente antissemita, usando Israel como pano de fundo. Ninguém duvida que o ganhador do Nobel de 1989 tenha lá motivos para expor o país hebreu e adicionar seu nome à legião infame que dá credibilidade à intolerância que cresce pela Europa, e pelo mundo. Graças a campanha de demonização, comunidades judaicas inteiras vivem hoje cerceadas, sob constante ataque em várias cidades europeias. Notável que parte desse endosso subliminar tenha vindo da própria intelligentsia. Da extrema direita conhecíamos as proposições xenófobas. Mas hoje ela também se oculta na retórica daquilo que em dias nostálgicos, costumávamos conhecer como esquerda. O que restou das proposições que deram origem à defesa das minorias, da liberdade e da justiça sem tirania? Precisamos recuperar a memória: é verdade, houve um um dia uma esquerda democrática.

Hoje, rendida ao anacronismo baseado quase que exclusivamente na demonização anti-imperialista e na grandiloquência mais nostálgica que autocrítica. O apoio de intelectuais, inclusive nativos, e artistas europeus ao jihadismo, por exemplo – autojustificado como contra-propaganda ianque, não sobrevive à nenhuma análise séria. É da natureza da racionalização buscar meios para justificar impulsos inconscientes.

A pulsão atual está nua: é capaz de se alinhar com qualquer rebeldia que, por exemplo, pegue em armas contra colonizadores e supostos espoliadores da nação. Por isso mesmo, estampas racistas viraram rotina. O baú de infâmias, antes lacrado, rompeu nas mídias sociais e o fenômeno é mundial. Periodistas e articulistas continentais armam suas pistolas e diariamente disparam um tiro no próprio pé, bem no meio das redações.

O poder de persuasão dos escritores sempre foi superestimado, mas quando alguém empresta sua pena à causa, seja ela qual for, precisa assumir o risco de que a obra toda inscreve-se no tribunal histórico. O problema do julgamento da historia é o veredicto, sempre anunciado entre testemunhas sepultadas.

Gunther grassa e ele não está sozinho nessa vertente devidamente acomodada no manto anti-israelense. A ele aglutinaram-se nesses anos exércitos terroristas, pensadores marxistas, campus universitários e massas desinformadas. As vezes, recorre-se a fantasias diversionistas para atingir o alvo final. É decerto muito mais confortável ser identificado como obstinado antagonista do Estado hebreu, que caçador de judeus.

Dizem alguns que condenar um País não é, necessariamente, atacar seu povo, sua etnia ou a religião que professam os que ali habitam. Depende. Para o bem ou para o mal, Israel tem sido encaixado numa perspectiva de “pacote”. Mesmo considerando a existência de um milhão e meio de cidadãos árabes-israelenses, a condenação quase maciça da Mídia às ações governamentais daquele País (é preciso recordar que a hostilidade nunca cessou, mesmo quando o País era governado por uma coalização de centro esquerda) traz sempre uma única conotação, a de se trata afinal de um “país de judeus”. Pois é essa evocação subliminar, às vezes explicitada, que confere às críticas ao País o caráter de condenação coletiva do povo judaico. Não se pode sufocar a cronologia. Muito antes do massacre dos cartunistas do Charlie Hebdo e das pessoas no supermercado Hipercasher, a campanha judeofóbica estava sendo propagada no continente. Pois, passada a comoção, ela persiste incólume.

O conflito israelo-palestino, enorme fonte de tensão, ainda assim somente um precário pano de fundo para a retomada da intolerância.  Os nazistas foram derrotados pelos países aliados, não o mito do judeu dominador. O ciclotimico resgate de mitologias destrutivas parece ser um motor sem interruptor.

O socialista Gunther passou décadas omitindo de sua biografia sua militância nazista na 10ª Panzerdivision Waffen-SS, pois, como admitiu depois, isso “prejudicaria a carreira”.  Se os sábios de Estocolmo apenas soubessem. De qualquer modo, o antissemita se associa ao seleto grupo de antecessores, como o poeta fascistófilo Erza Pound e até redatores contemporâneos como Tarek Ali. Não faz muito, o paquistanês analisou os desvios dos americanos e israelenses sem dar o menor contrapeso à belicosidade do regime iraniano, a sanha xenófoba de regimes islâmicos contra minorias cristãs e de outras etnias em vários países árabes, enfim escancarada com a grife midiática do estado islâmico. A desonestidade intelectual passa, necessariamente, pela seletividade com que se elegem os alvos.

Se o Estado de Israel comete erros – e decerto os comete – eles não devem ser separados do contexto que cercam as circunstâncias em que são cometidos, ainda que, para alguns deles, não deve haver complacência. Há uma amnésia programática que abandona o conceito de proporção e equivalência moral. O regime expansionista dos aiatolás, problema bem mais nocivo ao mundo, assim como o abandono do povo sírio à própria sorte, é que deveria pesar na consciência da diplomacia ocidental. O acordo nuclear poderia caracterizar um inédito avanço e seria mais significativo se forçasse o clero xiita a reconhecer Israel e interromper suas incursões violentas na região.

Uma estranha passividade hipnotizou a vida. O mundo, testemunha de explosões de intolerância e fanatismo não está interessado em refrear o empuxo de guerra entre os povos. Bastaria observar a calma que reina na naturalização das hostilidades como “choque de civilizações”. O “choque” que vai ganhando vida: eis a maior suspeita de nem sequer termos alcançado o estatuto de civilização.

A história já cansou de demonstrar o preço pago por omissões, desta vez pode não haver mais desconto para fornecedores.

*Artigo reescrito a partir de publicação original na revista Sibila, 09 abril de 2012

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/gunther-grassa/