Crédito foto – Sergio Prieto (que com sua equipe Samu – hexacampeã brasileira e vice campeã mundial categoria sprint RIO 2014)

Onze kilometros, remando. Remar é sobre-impulsionar, deslocar-se em ritmo, selecionar aguas e intuir a derrota final da inércia. Os remos transformam a percepção do tempo, revelam a variedade das pás instintivas, e, num momento, eles já se tornaram os únicos instrumentos disponíveis para alterar toda direção. Desviar a rota é mover-se em lemes improvisados. Em seis com ou doze sem, uma canoa é desafio para flutuadores. A embarcação que nos move numa adaptação vigorosa e imprecisa. O destino está bem ali para nos dissolver a resistência.  Cada margem é a ultrapassagem do que deixamos para trás. Quem rema sabe que o sinal da eficácia está no movimentos dos corpos, na equipe que vaga junta. Colaboração autonômica e instintiva. Um time vertebral que age como organismo. Sem o conjunto nada seria assim. A marcha, regida como orquestra cadencia a alternância das águas, mini marés, propulsões seguidas de relaxamento. A progressão deixa seu rastro fantasma na superfície. Um fio dissipável. Fibras exatas de carbono se alternam com remadas precisas com madeiras empunhadas. Se o pulso é individual, o pulsar, pertence ao grupo. O reino dos deslocamentos é um império de ondas passadas. De ultrapassagens simbólicas e emparelhamentos sem cronômetros. Quanto aos corações, é a união de bombas ativas que constroem fins comum. O treino sob o sol desrepresa a represa.  Torna-a uma só continuidade com a cidade ao fundo. A liberdade é um atributo indistinguível, só reconhecida sob o peso dos céus abertos e dos espaços sem fronteiras e delimitações. A canoa, uma arca de sobreviventes, deslizou sobre o terreno e a instabilidade fez seu serviço. Contra o estado estável, o universo poderia ser dividido entre as atividades que rivalizam com o mundo e aquelas que o complementam sem grandes pretensões.

Se houvesse uma síntese, a experiência com a canoa viria, unida a todas as embarcações — aquáticas terrestres e áreas — seria nos devolver à esperança de viver sob a natureza em espaços abertos. Remando.