• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Negação da morte e Habitat

14 quinta-feira jun 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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eutanasia, finitude, habitat, Montaigne, morte, ortonasia, RIO+20

Negação da morte e Habitat

Sabemos que o assunto da hora é a RIO+20. Mas outro tema, igualmente importante, está sendo discutido sem merecer o devido destaque. A comissão que se encarregou de modernizar o novo código penal está concluindo os trabalhos, cuja versão final ainda não se conhece, e ali incluiu assuntos críticos. Refiro-me aqui aos que abordam a terminalidade da vida.

A legislação dos Países Baixos autoriza a eutanásia (medidas ativas, proibidas no Brasil) enquanto nos EUA existem grandes batalhas judiciais que só fazem aumentar as controvérsias. A ortonásia (etimologicamente, morte no tempo certo) tem sido por aqui discutida (diferente da anterior, admitida em casos em que a morte é comprovadamente uma questão de horas ou dias) apesar de já extensivamente praticada. Prevê a cessação de tratamentos considerados fúteis e pode incluir o desligamento de máquinas, interrupção de alimentação parenteral etc.

A ética hipocrática da qual os profissionais de saúde são herdeiros preconiza: não se deve interferir em uma doença sabidamente mortal ou incurável. Por outro lado como saber ao certo? Hipócrates também nos adverte sobre a precariedade das convicções e finalmente questiona em seu primeiro aforismo o valor dos prognósticos: a arte é longa, a experiência enganosa, o julgamento difícil.

O filósofo Montaigne abre um de seus Ensaios com “filosofar é aprender a morrer”. Precisamos aprender, mas como nos educar em terreno tão delicado? Até a pena de morte foi discutida — e abolida em boa parte do mundo – então por que intimidar-se com os debates sobre o fim da vida? Não me convence pensar que a distinção esteja entre castigo e alívio terapêutico.

Esquecemos, convenientemente, que fomos inculcados com uma amnésia chamada finitude. Resumindo, somos desmemoriados o suficiente para tocar a vida contra o inexorável que é nossa condição de mortais. Trata-se de estoicismo adaptativo, conforme mostrou Ernst Becker em seu clássico “A Negação da Morte”.

Hoje temos equipes especializadas em “dar conforto” às famílias de pacientes terminais. Foi uma solução superficial que a medicina hospitalocêntrica encontrou para lidar com o tabu. Este é um legítimo dilema da vida contemporânea: o que fazer diante de sofrimentos extremos e de alegada incurabilidade?

Quem terá o direito de opinar e a quem cabe a decisão final? À medicina, ao Estado ou à família? Haverá espaço para ouvir o único que poderia dar qualquer legitimidade ao ato? Nesse caso o desenganado: o sujeito que muitas vezes é impedido de votar por sedação excessiva, afasia ou coma. Pois e se o doente quiser confirmar presença mais alguns minutos, uns dias, quem sabe a semana? Dissecando o termo “desenganado” descobrimos que pode significar dizer a verdade, revelar, ou dissuadir. E quem pode dissuadir alguém acerca da continuidade da própria vida? É evidente que a sedação da dor e a manutenção de uma medicina paliativa são ganhos importantes no trato com doentes em sofrimento severo.

Portanto o problema parece estar mais no campo da psicologia, filosofia e direitos humanos do que propriamente no da deontologia médica ou direito penal. Qualquer equipe pode ligar aparelhos, mas e quanto a desligá-los? Plantonistas da UTI, dos home care, auditores das empresas de seguro saúde estarão autorizados? Afinal quem é que decide em quem não se deve mais “investir”?

É licito supor que mais este desleixo com os vivos que estão no final de um ciclo esteja mesmo na própria raiz da atual predação sistemática que executamos contra nosso habitat. Queremos consumir mais e praguejamos ao ver espuma nos rios e a bagunça climática. Guiados pelo imediatismo tomamos uma rota de caminho único: já que o planeta está envelhecido vamos logo partir para outro. Infelizmente a Rio+20 não terá tempo de discutir esta tênue relação analógica.
Cabe perguntar: não estamos tornando artificial demais um fenômeno natural assim como já fizemos com os partos e o envelhecimento? Que tal voltar a morrer em casa? Não seria mais digno estar consciente para assistir nosso próprio fim? Há preparação e prevenção para várias situações, mas parece que ninguém se preocupou com a morte. Mesmo quando o prognóstico for desfavorável e o enfermo estiver com os dias contados quem pode decidir quando chegou a hora de abortar a vida? Investidos de qual direito impediremos quem esta morrendo de aproveitar o tempo que lhe resta usando o que sobrou de saúde?

Às vezes é preciso coragem para ir contra as soluções que o senso comum apresenta como óbvias. Da mesma forma que temos o dever de recusar uma vida tutelada, não podemos aceitar o papel de carrascos, mesmo que ele venha com a chancela e a benção do Estado.

Paulo Rosenbaum médico e escritor. É autor do romance “A Verdade Lançada ao Solo”, (Editora Record).
paulorosenbaum.wordpress.com

Para comentar acessar o link do JB :

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/06/14/negacao-da-morte-e-habitat/

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Elegância Mínima

07 quinta-feira jun 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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culto à personalidade, hegemonia e monopólio do poder, mensalão, partidos políticos, poder e governabilidade, zygmund bauman

Elegância Mínima

Coluna 41 – Elegância Mínima

Trauma estabelecido e o nome da lesão é fratura sociológica exposta. Segundo o sociólogo Zigmund Bauman o poder encontra-se apartado do governo. Vale dizer, o poder não é mais o bastante para garantir governabilidade.

Tem toda a razão.

Talvez seja ainda pior, entramos na era do consumo como único valor permanente. Ao mesmo tempo temos nas mãos uma epidemia de políticos e figuras públicas megalômanas. Além de se atribuir um valor incompatível com a realidade imaginam-se acima das leis e instituições. O bate boca de um ex-presidente foi um destes momentos que representam muito bem este estado de coisas. Não foi só a compostura, esqueceu-se da elegância mínima. O resultado é fazer pouco da sociedade que, a duras penas luta para se tornar mais orgânica, equânime e viável. Gente assim muito provavelmente não tem a menor idéia do mal estar que produz nos cidadãos.

Tivéssemos instituições mais sólidas e maduras não estaríamos todos tão abalados nem tão divididos quando dois sujeitos, em franca improbidade verbal, discutem questões gravíssimas com a mesma superficialidade e truculência de uma disputa banal de trânsito ou de um clássico do futebol.

O consolo é que mais cedo ou mais tarde o lulo-petismo e todo histrionismo agonizará assim como agonizaram outras agremiações que se renderam ao culto da personalidade. A história comum da ascensão e queda do autoritarismo personalista é que, em nome da hegemonia e da gula pelo mando, todos acharam que poderiam prescindir da sociedade e do país que representavam. Por outro lado, na história da humanidade às vezes, um único sujeito pode fazer toda diferença. Para o bem e o mal (que depois da segunda Guerra Mundial provou que é uma entidade real). Para justiçar pseudo-heróis a verdade histórica tarda, mas triunfa.

Os partidos políticos envelheceram. Isso para evitar mencionar o apodrecimento das instituições políticas partidárias e suas implicações. Há urgência de uma reformulação maiúscula. Diante da falência iminente não se pode mais temer a radicalização da discussão. Nada a ver com moldes violentos ou da anacrônica luta de classes. A radicalização que a sociedade deve propor é maior, mais ambiciosa e mais elegante.

Para contornar o óbvio e o senso comum, temos que perder a covardia. O conformismo que nos governa silenciosamente todos os dias sem dar conta que fomos possuídos por uma inércia mortal.

Doravante, salvo milagres, o diagnóstico para a coalização partidária que sustenta o regime é o pior possível. O cripto-autoritarismo, as ondas de corrupção e o neo-fisiologismo poderiam ser só sintomas de uma jovem democracia buscando se acertar. Neste caso, seria mais que desejável que os ratos benévolos – as pessoas de valor que se encontram esmagadas pela malandragem – pulassem do barco para se ajuntar aos que deram o fora a tempo de preservar suas biografias. O otimismo relativo é que há tanta gente boa que se unidos poderiam ser fiadores de um novo movimento.

Entretanto, quando se vê que o navio incha e o adesismo ao poder está inflacionado, passamos a ter obrigação moral com o pessimismo. Estamos num país sem oposição! Bem entendido, oposição lato sensu – não significa necessariamente opor-se sistematicamente aos governos como já fez o PT aprendiz, mas resistir ao interminável saldo de autoritarismo e ineficiência venha de onde vier.

É trágico que não se enxergue no horizonte um único partido com idéias novas, sobretudo límpidas. Dos chavões neo-marxistas aos slogans neo-liberais, passando pelo discurso verde não se vê um único sujeito ou grupo de pessoas capaz de se articular para fazer emergir uma frente “contra todos” que seja emancipada, conseqüente e coerente.

A faxina geral não deveria ser contra a corrupção, muito menos numa CPMI, mas sim dirigida a favor das leis, de julgamento limpo para o mensalão, por exemplo. Há um vício do pensamento nos iludindo com país bombando, crédito fácil e dívidas difíceis. Desde que os monarcas deixaram de ter a primazia da razão e o monopólio do poder, deveríamos ter abandonado o absolutismo salvacionista. Mas por um desses incuráveis pontos cegos que nos adoecem, não conseguimos abrir mão de um redentor.

Inadimplentes, estamos todos pagando o preço da dívida de outrem.

O crediário não é suave, pelo menos as parcelas estão a perder de vista.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

Para fazer comentários e compartilhar acessar o link do jb

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/06/07/elegancia-minima/

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O Crack da segurança pública

02 sábado jun 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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anomia, segurança pública, violencia

O Crack da segurança pública
Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum*+A-AImprimirPublicidade

O título é uma provocação? Infelizmente, caro leitor, não é nada disso! Escrevo para dizer que estou, como milhões de paranóicos, entrincheirado onde moro. Seguindo orientações, fiz investimentos pesados em barricadas de travesseiros e estou atento aos movimentos suspeitos nas ruas do entorno. É que a pizzaria bem ao lado de onde moro sofreu um arrastão antes de ontem e três prédios da minha rua foram “esvaziados” por quadrilhas fortemente armadas nos últimos dois meses. Morar numa região central de qualquer cidade do país é, hoje, tremendo risco. Mas parece que no campo e na periferia não tem sido muito diferente.

Os direitos constitucionais dos cidadãos estão todos lá, redigidos na carta, no entanto eles se parecem um pouco com o código de direito do consumidor: vai lá tentar receber teu dinheiro de volta!

A verdade é que o estado tem cada vez mais leis, mas cada vez menos poder para aplicá-las. Quando aplicada, tem sido de modo seletivo. Há razões diretas e indiretas para que não se promova segurança para a maioria da população. Vamos a algumas delas:

-O estado representado pela atual administração federal ainda conserva na memória primitiva e automática a correlação que havia no regime militar entre polícia e repressão política. Ou seja, a repressão tem sempre uma conotação de “direita” enquanto a marginalidade ainda pode ter uma coloração revolucionária. Junte-se a isso, a ingenua consideração de que a correção do problema criminal depende exclusivamente de justiça social.

-É grave saber que o estado não acredita que a ameaça aos seus cidadãos e os insustentáveis índices de violência sejam motivos de preocupação real. Já se ouviu em Brasília gente graúda afirmando com ironia que isso era “medo de burguesia”. O povo mesmo não está ameaçado.

-O estado imagina que a manutenção da ameaça pode, de alguma forma, aumentar o poder de barganha ao se outorgar a primazia da oferta de proteção. Tudo na base do paternalismo tosco que tem caracterizado o populismo latino americano e sua rasteira psicologia para as massas que coloniza.

-A educação formal das novas gerações têm sido pouco criativa, baseada em competição e instiga a agressividade. Tudo sob a fluída evocação do direito de escolha. Ninguém quer a volta das aulas de “moral e cívica”, mas – já que através dos exemplos daqueles que governam não chegaremos a lugar nenhum — um pouco de filosofia e aulas de ética pública e privada não seria má idéia.

-Leniência e assimetrias da lei. Na reforma do código penal legisladores vem descriminalizando pequenos delitos e chamando-os de bagatelas. Mas o que poderia ser um avanço, transforma-se em autorização tácita ao crime se não houver a promoção de medidas sócio-educativas simultâneas ao ressarcimento que o ladrão terá que oferecer à vítima. Agora como é que pode ser que violadores de e-mail de atriz famosa possam ser apenados em até 12 anos de reclusão e os assassinos confessos, violentadores e ladrões do erário, se apenados, se safem com menos de um terço do tempo? Não sou da área, mas isso é desnecessário para enxergar distorções.

-As prisões brasileiras estão entre as mais despreparadas e superlotadas do mundo. As taxas de reincidência e de reinserção social dos egressos demonstram isso amplamente.

–A política de segurança prisional se sofistica muito lentamente. Por exemplo, ainda não se conseguiu um acordo – pasmem, são quase 10 anos de discussão — para que as operadoras de telefonia móvel bloqueiem chips dos celulares que entram aos milhares no sistema prisional. Depois de investimento milionários as salas de telejulgamentos estão ociosas porque não há acordo sobre a constitucionalidade de audiências virtuais. Pode ser até que estejamos na frente em Internet para todos, mas a mentalidade geral persiste retrógrada.

–A política de remuneração de policiais no País (acrescente-se bombeiros) é ridícula e degradante Não porque estas pessoas mereçam privilégios especiais, mas, o exercício de uma profissão que mistura insalubridade com riscos muito reais, merece ter a política de salários completamente revista e reestruturada. Provavelmente a corrupção policial desceria ao patamar administrável.

-Faltam investimentos mais efetivos em inteligência policial, controle de armas nas fronteiras e aprimorar a integração entre as comunidades e a segurança pública.

– Toda policia deveria prevenir e pacificar.

O primeiro golpe nos direitos civis é a ausência de segurança. Mas estamos sem tempo para discutir medidas objetivas. A fofoca política e o bate boca vem em primeiro lugar na audiência. Desde a redemocratização não testemunhávamos impasses institucionais tão graves entre os poderes republicanos: à mercê de gangues, a população pede socorro!

Para quem?

Ps – Estaríamos todos agradecidos com apenas 1% da consideração que os chefes de estado terão durante a RIO+20.

* Paulo Rosenbaum é médico e escritor.

Para comentários e retransmissão acessar: http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/06/02/o-crack-da-seguranca-publica/

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Sociedade dos paradoxos 

24 quinta-feira maio 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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consumo, educação cítica, educação informativa, extrativismo, habitat, RIO+20, Royal Society, Sistemas de produção, sociedade paradoxos, sustentabilidade

Sociedade dos paradoxos

Um grupo de 23 cientistas britânicos da Royal Society , encabeçado por John Sulston, acaba de elaborar um documento – a ser apresentado durante a RIO+20 – que vinculará consumo e pobreza.

Como dado preliminar hoje há 1,3 bilhão de pessoas em estado de pobreza absoluta. Não bastasse a cifra escandalosa, temos que considerar que estes números são totalmente dependentes do padrão de consumo nos países desenvolvidos. Só o Brasil representará nos próximos anos 5% do consumo global, enquanto o continente africano responderá com 70% do crescimento populacional do planeta. Há alguma resposta a esta situação? Consumir mais, certo? Segundo os cientistas, não necessariamente, depende de quem consome. Fato que evidencia como o senso comum é cego.

O consumo excessivo e concentrado produz lixo não administrável, além de poluir em escala não civilizada. O consumo é um ato inconsciente. Aliás, um enigma muito bem explorado pelo marketing contemporâneo. O que os publicitários nos ensinaram nestes anos todos é que precisamos precisar. Porém, há muito mais que um único conflito de interesse quando se trata do binômio desenvolvimento industrial e manutenção da biosfera.

Sem atenção planejada e coordenada de uma educação menos informativa e mais crítica, planejamento familiar e radical equalização do consumo, teremos saudades dos tempos em que as conferencias ainda podiam prometer resultados. Nas poucas unanimidades nessa área, uma delas é que estas decisões não são para hoje. Ontem já seria tarde.

Então lá vamos nós aos chavões: comprar movimenta a economia. O excesso de consumo aumenta as discrepâncias sociais. Consumir faz com que a sociedade se torne mais produtiva e competitiva. A industrialização selvagem asfixia e desarticula micro sistemas artesanais e extrativistas de produção jogando populações inteiras à desvalia e ao desamparo social.

O incrível é que é muito provável que todas as afirmações acima sejam verdadeiras ao mesmo tempo. A explicacão de como podemos conviver com tantas contradições é que chegamos à sociedade dos paradoxos.

Dadas as atuais condições desvantajosas do planeta não há mais como sustentar os padrões que as sociedades industrializadas vêm mantendo desde o pós-guerra. Por outro lado, a crise indica que talvez consumir e induzir consumo sejam a única saída. Um consumo mais igualitário poderá favorecer as sociedades e o mundo.

Podemos detestar isso, mas neste ponto da história, em que nos transformamos numa força geológica, estamos em regime forçado de interdependência. É preciso estimular a consciência a trabalhar, já que ela não pega tão facilmente no tranco. Só quando um norueguês perceber que ele aumentará seu risco se não deixar de comprar sua terceira TV de plasma para que um senegalês tenha seu primeiro rádio, o mundo poderá estar ficando menos díspar.

O interesse ativo em manter a população em estado de obscuridade é, infelizmente, a grande força política dominante. Vale dizer, a transparência que se oferece não é a que necessitamos já que o jogo democrático deixou de colocar os interesses coletivos como os mais importantes. E a única coisa que pode nos unir nesse momento é a responsabilidade com o habitat. A ignorância é o estado de maior vulnerabilidade como mostram os estudos epidemiológicos. Por isso, a solução pode estar em medidas mais radicais que o gradualismo que professam os debatedores canônicos.

É chegada a hora de virar a mesa antes que a natureza e os impasses sócio-ambientais nos virem do avesso.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/05/23/sociedade-dos-paradoxos/

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Diários

21 segunda-feira maio 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Um dia, verás.

No outro.

Faremos.

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Equilíbrio instável

17 quinta-feira maio 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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national institute of health

Equilíbrio instável

O brasileiro anda desconfiado. Em recente levantamento feito pela FGV os políticos ocupam o topo do ranking quando se trata de desconfiança da população. Pudera. Se fossemos criteriosos (atenção: criteriosidade não é moralismo) verificaríamos como é difícil manter as aparencias, especialmente quando nossos filhos assistem TV conosco.
Tomem como exemplo a transmissão de uma CPI ao vivo. Velhos arquinimigos trocando afagos, teatralizações horríveis, mentiras e tergiversações. Acareações truculentas (era para ser um parlamento, não delegacia) e o toque circense final: injustificáveis intimidações ao procurador geral da república.
Esqueceram que tem gente sensível e vida inteligente do lado de cá da tela? Ou não dão a mínima para a opinião pública? Os dois? Pois não! Onde é que estamos?
**
A saúde tem sido um dos problemas mais graves do País e os avanços, lentos e insatisfatórios. Qual o diagnóstico?
Vigora a velha ideia distorcida sobre o que é saúde. As vezes, ela é encaixada em tópicos estéticos e procedimentais. O que vale hoje é ser musculoso ou consumir o que é oferecido como a última palavra em tecnologia. O consumo irracional de procedimentos tem se tornado um problema de saúde em si. Muitas vezes, em detrimento da saúde do próprio sujeito.
Excesso de cirurgias – como a bariátrica, por exemplo – e o consumo exagerado de drogas, com ou sem automedicação, colocam o sujeito exposto a tantos males quanto os que eles supostamente estariam tentando corrigir como advertiu abertamente o National Institute of Health dos EUA há alguns anos num extenso relatório.
O fato é que estamos muito distantes de uma medicina apropriada ao sujeito. No Congresso Internacional da Medicina da Pessoa, realizado na Austrália nos anos 50, alguém formulava sinteticamente uma pergunta central. Mesmo subestimada, ainda permanece de importância vital em nossos dias para compreender a medicina: “não há saúde sem uma resposta satisfatória à pergunta: saúde para que?”
Não que não se possa fazer objeção ao incomodo que esta pergunta poderia suscitar naqueles mais pragmáticos. Mas para além deste ponto a pergunta é oportuna, pois nos remete ao conceito de saúde subjetiva: a sensação de bem estar.
O desenvolvimento tecno-cientifico, aplicado às ciências da saúde, conseguiu notável eficácia e controle sobre uma quantidade apreciável de doenças. Mas este mesmo controle, infelizmente, não se estendeu a uma concepção de saúde mais sutil. O máximo que se fez foi contemporizar colocando a palavra “humanismo” na frente dos postos de saúde, clínicas e hospitais. O cuidado, a apreciação subjetiva dos sintomas, a rede de apoio e solidariedade para quem está perdendo a saúde e até a cumplicidade frente ao desespero de quem enfrenta sofrimento não estão dentro do mainframe, que prioriza outros aspectos como critérios de sucesso.
Trata-se de um grande equívoco.
Como negar que as necessidades de cuidado estão para bem além de drogas eficientes e hospitais modernos? Como ignorar que numa sociedade enferma a saúde tenda a ser progressivamente mais instável?
Estamos isolados e, ao mesmo tempo nossa interdependência aumentou, pois como se sentir bem com tanta violência, injustiça social e competição? Como ser saudável numa sociedade que se esqueceu do sentido mais íntimo da cidadania e onde os políticos lato sensu – nossos representantes! — são os ingredientes menos confiáveis dentre todas as camadas sociais?
A resposta talvez esteja no espaço interno. A saúde e sentido correm juntos e dependem da direção que queremos imprimir às nossas vidas. Uma vida que não faz mais sentido, passa, automaticamente, a ser insalubre. O único que pode atribuir sentidos é o próprio sujeito.
Algo que nos traga ao espaço público sem que nos igualemos. Para alcançar a paz e a justiça social podemos prescindir da luta de classes. Por isso é urgente recuperar o valor da subjetividade e as sutilezas do espírito.
Talvez uma boa metáfora para a saúde seja a instalação interativa “equilíbrio instável” de uma recente exposição de arte internacional que se realizou no Brasil. Ali centenas de pequenas peças de acrílico como mesquitas, igrejas, sinagogas e outros templos e edificações eram colocadas em cima de uma grossa mesa circular de vidro, suspensa por um cabo de aço bem no centro. O desafio era mover uma peça sem desequilibrar o tampo de vidro. O objetivo era mover as peças, sem que as oscilações do tampo chegassem a derrubar tudo. Um minúsculo movimento em cada elemento provocava grande turbulência no todo. Quem experimentou mover as peças sabe: não dá para confiar nos instintos.

O equilíbrio instável é pedagógico: a única ancora que vale é a de dentro!

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A verdade lançada ao solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

Para comentar e compartilhar acessar o link do JB

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/05/17/equilibrio-instavel/

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Comentários: “Romance “A Verdade Lançada ao solo” aborda transcendência, política e religião”

15 terça-feira maio 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Tags

justiça, política, religião, transcendência

http://www.verdestrigos.org/wordpress/?p=3044

Romance de Paulo Rosenbaum aborda transcendência, política e religião

O romance “A verdade lançada ao solo” (editora Record) marca a estreia do médico Paulo Rosenbaum na ficção. Ele parte da tradição judaica para questionar o lugar do homem na Terra, aplicando judaísmo e filosofia a fatos históricos. O autor oferece uma visão construtiva em uma época em que se decretou a morte de todas as crenças. Elos inusitados e potentes metáforas desequilibram o leitor em um enredo denso, que mistura drama, aventura, religião e política. (Jornal Alef)

“Romance de Paulo Rosenbaum aborda transcendência,política e religião

Em prosa cheia de imagens originais o escritor lança seu primeiro romance, que aplica judaísmo e filosofia a fatos históricos

Quem criou o criador? Assim, instigando o leitor, começa o livro “A verdade lançada ao solo“, de Paulo Rosenbaum. O livro marca a estreia do médico na ficção, um romance de cunho ensaístico conduzido em três tempos, que parte da tradição judaica para questionar o lugar do homem na Terra.

Em 1856, na aldeia judaica de Tisla, no interior da Polônia, Zult Talb é um rabino com dons proféticos. Ele é o ponto de partida de um itinerário que divaga pelo tempo e corre o mundo: Brasil, Alpes suíços, cidades mediterrâneas e Europa oriental.

Com perspicácia e elegância, Rosenbaum oferece ao leitor uma visão construtiva em uma época em que se decretou a morte de todas as crenças. Elos inusitados e potentes metáforas desequilibram o leitor num enredo denso, que mistura drama, aventura, religião e política” (Blog do livro)

** Paulo Rosenbaum é médico, doutor em ciências pela USP, poeta e escritor. Roteirista e produtor de documentários, atuou como editor de revistas científicas no campo da saúde. Também é pesquisador na área de clínica médica, semiologia clínica, relação médico-paciente, prevenção e promoção da saúde e pesquisa de medicamentos. Com mais de dez livros publicados nas áreas de medicina e poesia, “A verdade lançada ao solo” é seu primeiro romance.

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Liberdade sem expressão.

10 quinta-feira maio 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A liberdade sem expressão.

Ouviam-se rumores de que o governo iria enfrentar o poder da imprensa, mais
genericamente “os meios de comunicação”. Pois foi o que sintetizou esta
semana o ex-coordenador da campanha presidencial. Numa enquete sobre delírios
de hegemonia, em Brasília, deu disparado em primeiríssimo lugar o controle
social da imprensa a la chinesa, em segundo, dobradinha Putin-Medelev – e sua
capacidade de desbaratar a oposição — em terceiro a blindagem total ao mundo
externo do sistema politico da Coreia do Norte. Por motivos óbvios deste
último não se conhece todos os detalhes. No final das contas o delírio é o mesmo: controlar a mídia, internet  inclusive, com mão de ferro. Ninguém esconde mais o sonho totalitário de uma
imensa mordaça vedando a boca dos cidadãos. Para que tanta liberdade de
expressão? Um porta-voz está de bom tamanho.

Mais uma vez a análise da linguagem traiu as intenções do poder. Nenhum
governo gosta de imprensa. E é para ser assim mesmo. Trata-se de uma
arqui-inimizade desejável. A ideia da República prima pela diversidade de
vozes e pontos de vista. É o que tornaria o permanente jogo democrático, um
sistema mais civilizado que outros.

O proposital uso do futuro do pretérito sugere condicionalidade, pois o jogo
estaria sendo jogado, se as regras fossem claras. Mas cadê o regulamento?
Para quem está sendo criticado e não vê a liberdade como valor absoluto a
tentação do controle é permanente. Isso não significa que a imprensa não
cometa falhas e excessos. Muitas vezes seu poder é desproporcional e
arbitrário: destrói, calunia, injuria ou incensa, adula e promove. Mas é
sempre melhor correr este risco com possibilidade de retificação, que
sacrificar a liberdade de expressão.

Segundo a ANJ 29 jornalistas foram assassinados em 2011, quatro deles
brasileiros. Muito blogueiros, radialistas, comentaristas e analistas
políticos estão na lista negra somente à espera que seus desafetos promovam o
acerto de contas. Isso sem contar o número de juízes ameaçados. Um horror,
não concordam? E por que ninguém se escandaliza? Porque estamos nos
acostumando à barbárie política como procedimento legítimo. Se os ameaçados
fossem mais pragmáticos deveriam fazer como num filme de Hollywood, em que o
sujeito acidentalmente descobre crimes públicos e privados e vendo que
ninguém poderá protege-lo, negocia sua vida com o submundo criminoso. Ótimo
negócio, sua vida contra segredos resguardados.

A ideia de calar as pessoas – com ameaças, assassinatos ou censura – não
parece insensata para os defensores do estado totalitário.
Isso nos leva ao mundo das ficções, onde, no futuro, só teremos imprensa
mascarada, com autores e articulistas devidamente protegidos por pseudônimos
e anonimato.

Quem denunciará ou enfrentará o poder?

Por isso mesmo cresce no Brasil e no mundo uma imprensa altamente
domesticada, boazinha, que sobrevive dos subsídios e benesses do Estado. Para
garantir a boquinha parte da sociedade se cala. Essa nao é a dignidade que se
espera da atividade jornalistica. A imprensa subordinada à opinião popular não pode ser
chamada de jornalismo. Insubmissa, sua missão deve ser informar e ajudar
construir uma opinião pública mais crítica. Muitas vezes deve arcar com o
peso de ser a voz dissonante. Não se constrói cidadãos mais críticos com
sensacionalismo ou cooptados por quem governa. Independência e a liberdade
caminham juntas. A verdade é que poucas cabeças ficam incólumes ao arrastão
ufanista- populista

O vazamento de fotos da atriz famosa ocupou páginas centrais dos jornais e
quase um terço de tempo dos telejornais mais assistidos. Perdão aos
otimistas, mas isso reflete o estado de miserabilidade psíquica. Não foi um
décimo do tempo dado aos jornalistas emboscados ou ao repórter que para
provar como tudo é devassável comprou on-line dados bancários sigilosos e
fiscais, inclusive de ministros de estado.

Pois a imprensa adesista que não pode ser oposição é conivente com os
pistoleiros que fazem o serviço de remoção das pedras nos sapatos de gente
poderosa. A imprensa branca é tão ou mais nociva que as outras porque
enquanto estas podem ser acusadas de buscar o lucro fácil das manchetes a
primeira tem sido diretamente instrumentalizada pelo dirigismo partidário.

Infelizmente vivemos uma espécie de patrulhamento, organizado por um poderoso
aparelhamento, que despista todos com a perigosa cortina da eliminação
gradual de autonomia dos três poderes. Mesmo quando a legítima defesa pode
ser juridicamente evocada, ela não pode ser o abono intelectual para
acobertar os abusos do Estado.

Paulo Rosenbaum è mèdico e escritor. Autor de ‘A verdade lançada ao solo’
(Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

 

 

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/05/10/liberdade-sem-expressao/?from_rss=None

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Confabulação das Florestas, fanatismo e veto.

03 quinta-feira maio 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Codigo Florestal

Confabulação das Florestas, fanatismo e veto.  

Nos últimos tempos a melhor notícia produzida por aqui foi sem dúvida a significativa queda da mortalidade infantil. Os índices caíram de forma expressiva – 47% nos últimos 10 anos. Muito desse resultado veio de mais investimento na atenção básica, segurança alimentar e nos agentes de saúde. Mesmo assim, trouxe alívio discreto: ainda estamos bem atrás de vários países latino-americanos e há uma estrada até alcançarmos índices de primeiro mundo.

Para compensar, teremos que encarar nas próximas semanas uma das piores notícias ambientais, tema intimamente ligado à saúde das pessoas — justamente no contexto que antecede a RIO+20. Inaceitável que assunto tão vital como nossa legislação florestal — um patrimônio natural, irrepetível e de escandalosa biodiversidade – ficasse nas mãos de um punhado de ineptos. Considerando o continente brasileiro, fica óbvio que qualquer estudo mereceria aprofundamento, pesquisa por região, planejamento e prazos maiores.

Há um viés ideológico oculto, que merece explicitação. Na visão imediatista e pragmática dos responsáveis pela revisão, recursos extraídos do meio ambiente não passam de apêndice utilitarista, o que, convenhamos, é ignorância inadmissível para quem pretende legislar. Como se não bastasse, atribuiu-se novo significado à palavra “sustentabilidade”: aquilo que oferece mais lucro em menor prazo, com aparência de baixo impacto ambiental.

Fica claro, portanto, que nem este Congresso nem o Estado — isso envolve também o nível estadual e municipal — estão à altura da tarefa estratégica de pensar o Brasil para as próximas gerações. Cito os principais tópicos do espírito “flexibilizador” que norteou a reforma do Código Florestal para que o leitor julgue se há exagero:

  • permissão para o cultivo      em áreas de preservação de preservação permanente. (APP)
  • a diminuição da      conservação da flora em margens de rios.
  • a isenção de multa e      penalidade aos agricultores que desmataram;
  • liberação do cultivo no      topo de morros.

Com o foco centrado nas pastagens e culturas extensas dos ”desenvolvimentistas” poucas vezes um conflito de interesses ficou tão escancarado. 

Compreende-se a gritaria e os pedidos de veto, mas ou estão todos cegos ou há um surto generalizado de ingenuidade. A manipulação é clara e a mídia mordeu a isca ao reproduzir manchetes: “congressistas derrotam o Planalto!” Não se trata de omissão deles, é opção política mesmo! Tudo é processado como se a administração federal estivesse alheia ao tramite dos projetos de lei que os parlamentares mutilaram a gosto até conseguirem a desfiguração do texto original. Ora, o governo tomou parte nisso e, agora, com canetada, quer sagrar-se herói.  

O problema vai muito além da provável anistia aos profissionais da serra elétrica ou da metrificação para preservar margens dos rios e nascentes. O X da questão é que se juntarmos alienação da sociedade, gula do agronegócio, impossibilidade de vigilância e nossa diversidade geográfica cairemos numa equação temerária. O desmatamento quintuplicou desde a saída de Marina Silva. Estudos sérios prevêem a desertificação de áreas do centro oeste e Amazônia em prazos inferiores a cinquenta anos enquanto o cerrado agoniza. Suspeita-se que o custo das generosas concessões do novo código signifique a extrema unção para a Mata Atlântica.

Mas quem dá a mínima para visão prospectiva? No jargão dos que querem “tocar para frente” qualquer oposição é ecofanatismo! Se considerar ecossistemas como sistemas vivos e pressentir quão vitais são à nossa espécie, então sim, vamos assumir de vez: fanatismo, por que não? Não senhores, ninguém quer atraso! A pergunta não é “quem se opõe a um País desenvolvido?”, mas “qual preço a sociedade pagará por progresso?”

Os ecossistemas em si constroem um código muito mais abrangente. Recentemente descobriu-se que plantas possuem sistema de alerta sofisticado, acionado quando agredidas ou ameaçadas. Sob ataque, certas espécies vegetais podem amargar o gosto de suas folhas para se tornar menos apetitosas aos herbívoros. Provavelmente macro e microbiomas possuem sistemas similares de adaptação, comunicação e reação.

Na confortável sensação da falsa-democracia que vivemos, onde os mecanismos da vontade popular estão esmagados pela cosmiatria dos pleitos pouco representativos e o grande negócio comanda as decisões políticas, só nos resta rezar. Que as árvores e os biomas tomem a iniciativa para resistir aos crimes que estamos prestes a concluir.

Façamos um minuto de silencio, quem sabe alguém escute a confabulação das florestas.  

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record).

paulorosenbaum.wordpress.com

Para acessar artigo, retransmitir, compartilhar e comentar use o link

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/05/03/confabulacao-das-florestas-fanatismo-e-veto/

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Os nós das amarras e a Utopia

26 quinta-feira abr 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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utopia

Os nós das amarras e a Utopia

 

A presidente andou reclamando das“amarras” que prendem o País, e lhe devolvemos: que tal deslindar os nós? Quem dita a política monetária e fiscal? Quem vem construindo déficit  público progressivo e ajudando a manter o “balança, mas não cai” dos mercados financeiros? Quem inchou o funcionalismo federal? Quem estimulou a dívida e inadimplência das classes sociais emergentes? A pergunta seguinte pareceria trágica não fosse óbvia: então por que não governam? A resposta não é fácil, é perturbadora: não são eles que governam! 

Sim, há um poder oculto. Mas ele não é fruto do imperialismo. Ele é a força cega da matéria que, em nossa era, tomou proporções absurdas, dominantes e hegemônicas.

O dinheiro pode não ter cor nem cheiro, mas sua movimentação maciça é quase garantia de brisa insalubre. A história da industrialização mais expressiva do Brasil passa pela instalação das grandes multinacionais montadoras de veículos. As fábricas alemãs, com raríssimas exceções, fizeram fortuna com trabalho escravo e extensa pilhagem nazista para depois se espalhar pelo mundo. Soviéticos e europeus colonizaram e se expandiram até onde foi possível e, assim como o Império Romano, somente quando o número de escravos ficou insuficiente para controlar tantos territórios e colônias o poder precisou encolher.

Os norte-americanos, além de absorver a tecnologia armamentista e nuclear dos nazistas, instrumentalizaram o plano Marshall para alavancar a economia, até ali estagnada pela grande depressão. Isso só para ficar nestes dois séculos. Como se vê a origem do grande capital não tem nada de produção limpa. O Brasil à exceção das máculas na Guerra do Paraguai, tem uma ficha menos poluída que a média. O Pais teria à frente uma histórica e significativa janela de oportunidades, mas a ausência de autocrítica do PT, de uma oposição corajosa e a qualidade dos partidos da pseudo-coalização pode colocar tudo a perder.

Para Thomas Moore, autor de“Utopia”, há uma síntese política: governos se unem às classes dominantes para corroer os direitos de todos. Grande novidade! Mas, há sim uma novidade. Existe uma Utopia, essa possível: recuperar a criatividade e buscar uma vida mais simples. Pode não haver solução duradoura para nada. Decerto nenhuma definitiva. Aqui concordam capitalistas, socialistas, pragmáticos, céticos e crentes. Então o consenso é que no mundo real deve prevalecer a ideia de provisoriedade, de revezamento, de troca de poder. As terras não são feudos de ninguém. A floresta jamais poderia ser pastagem futura ou miragem para reflorestadores. A ideia de sustentabilidade extraviou-se tanto na boca dos ruralistas quanto na dos ecologistas.

As grandes fortunas deveriam obedecer um teto de acúmulo, depois do qual os donos teriam que redistribuí-las como achassem melhor. Mas tudo que ouvimos do coro monotemático nas arquibancadas é: Estado, Estado, Estado!

Por alguns motivos precisamos aprender a dizer não ao Estado como solução. O principal deles é que sempre que este senhor se arvorou em colocar a mão na riqueza, privada ou pública, o patrimônio geral encolheu. O Estado abocanhador – seja lá de que matiz ideológico for — é o monstro contemporâneo e a alternativa imediata a ele parece ser o velho regime patriarcal (na verdade um arroubo teenager) dos que ainda querem um administrador policial tutelando a vida das sociedades. Pois parece que estamos conseguindo unificar um pouco o pior dos dois mundos com o sócio-capitalismo selvagem de Estado.  

Somos assim tão pobres em imaginação?

Voltando às amarras de Dilma, não só os impostos que pagamos são descalibrados e desproporcionais como o mecanismo psicológico da manutenção dessas aberrações é o de sempre: o abuso está justificado pela sonegação epidêmica. Que tal um teste? Tornem os impostos menos confiscatórios e coloquem-nos para serem gerenciados e controlados pela própria sociedade?  Vamos inverter a lógica? Doravante nenhuma emenda parlamentar pode mais ser aprovada sem o aval dos setores sociais independentes, incluindo análise mensal da folha de pagamento dos três poderes. Perdão aos bem pensantes, mas a situação é tão grave que o risco dessa provocação demagógica tornou-se muito menos grave que o cinismo institucional generalizado. Quem duvida disso que assista pela TV a construção teatral da nova CPI nas últimas sessões parlamentares.

Até agora movimentos de ocupação das ruas ou marchas de indignação não produziram resultados concretos. Tiveram apenas o mérito de manter acesa a idéia de que estar em pé é premissa para seguir.

O caminho? Diante de tanta inércia e resignação pode não importar tanto quanto a certeza de que estamos nos deslocando.       

 *Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com  

para retransmissão e comentários acesse o link do JB

 http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/04/26/os-nos-das-amarras-e-outra-utopia/

 

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/04/26/os-nos-das-amarras-e-outra-utopia/

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