Para que servem os ciclos? Uma retrospectiva focal. Nas várias civilizações o ano novo é um construção cultural. Observando a nPara que servem os ciclos? Uma retrospectiva focal. Nas várias civilizações o ano novo é um construção cultural. Observando a natureza, tudo tem ritmo e duração. Houve até um filósofo, Pinheiro dos Santos, que propôs a ritmoanálise, uma espécie de análise dos ciclos individuais.
Existe uma infinidade de ciclos: biológicos, meteorológicos, psicológicos e espirituais Neste sentido, o tempo é uma espécie de régua que mensura e avaliza a duração, enquanto a intensidade impõe a cadencia. A natureza dupla do tempo é análoga aquela da luz, onda e partícula. Nosso organismo é um exemplo de que somos devedores de uma certa anarquia que se autocontrola. Funcionamos graças aos sistemas de retroalimentação. Os chamados biofeedbacks determinam a homeostase (estado saudável) ou a falta dela nos sujeitos. No final das contas, os ciclos são uma disritmia “controlada” responsável pela auto-regulação. Isso vale para o bioma, o clima, os organismos e também para a política. Este foi um ano em que um ciclo de governo e de gerenciamento político pode estar chegando ao término. Ainda que o executivo e o legislativo tenham repetido sua habitual e decepcionante inércia histórica.
De que outro modo qualificar o dislate quando o chefe de uma das casas legislativas tenha sido convidado a devolver dinheiro arrepiado da União pelo transporte para implantar cabelos? Ou que a linguagem do executivo, sempre auto-eloquente e triunfalista sirva para ocultar a gravidade da situação da economia? Por outro lado o julgamento do mensalão mostrou um vigor contracorrente de uma das instituições republicanas. A última e única com alguma autonomia frente a um poder que nem renega mais a sanha partisã e totalitária. As manifestações de junho de 2013 foram, de longe, o acontecimento mais inusitado e impactante das últimas décadas. Fenômeno que mereceria monopolizar qualquer retrospectiva. Com sorte, teremos alguns minutos nas agendas televisivas contra o dobro para campeões do automobilismo.
No caso das juninas, a perplexidade inicial dos analistas revelou-se diretamente proporcional à surpreendente capacidade com que a sociedade é capaz de reagir sob situações transbordantes. Não eram só os R$ 0,20, nem os 51 bi dos estádios, nem a cascata de desmandos do poder central. O verdadeiro caldo têm sido a lamentável gerência a qual os cidadãos estão sendo submetidos. Por sua vez, as redes sociais e o tempo real acabaram com o mito da mansidão bovina inata dos trópicos. Era um fim de ciclo, e como todo término, uma morte simbólica. É que algo precisa desaparecer para que nasça o novo. E alguém duvida dos transbordamentos que nos aguardam? Se tudo tem uma finalidade não seria diferente na teleologia dos ciclos. Uma das funções do ciclo é evitar o colapso. Assim como alguém com muita dor “desliga” seus sistemas biológicos para preservar a vida, o ano de 2013 será apagado para que possamos entrar com fôlego e vida na nova fase. De preferencia, sem traumas para renascer.
Livros médicos do século XIX, costumavam anunciar: “férias – quando as pessoas se afastam completamente de suas atividades usuais por um período não inferior a sessenta dias”.
Nas raízes etimológicas a palavra “negócio” significa negação do ócio. Concebemos descanso como meta, uma espécie de recompensa pelo déficit de lazer, uma resposta à precariedade dos repousos. Se o homem é um ser industrioso, e, se até os corpos são entidades que produzem, não nos escandalizemos com a pressão que nos fazemos mesmo quando se trata das esperadas férias remuneradas.
Na incapacidade de relaxar estamos praticamente convocados, obrigados, compulsoriamente obrigados à diversão.
A categoria “remunerada” pois, não é detalhe e a mensagem, auto evidente. Nossa sociedade é pródiga em lembrar que precisamos atender demandas da vida prática. Só que elas são inquietantemente infinitas.
Livros médicos do século XIX, costumavam anunciar: “férias – quando as pessoas se afastam completamente de suas atividades usuais por um período não inferior a sessenta dias”.
Nas raízes etimológicas a palavra “negócio” significa negação do ócio. Concebemos descanso como meta, uma espécie de recompensa pelo déficit de lazer, uma resposta à precariedade dos repousos. Se o homem é um ser industrioso, e, se até os corpos são entidades que produzem, não nos escandalizemos com a pressão que nos fazemos mesmo quando se trata das esperadas férias remuneradas.
Na incapacidade de relaxar estamos praticamente convocados, obrigados, compulsoriamente obrigados à diversão.
A categoria “remunerada” pois, não é detalhe e a mensagem, auto evidente. Nossa sociedade é pródiga em lembrar que precisamos atender demandas da vida prática. Só que elas são inquietantemente infinitas.
A vida produtiva se impõe, seja sob o disfarce dos artesãos em Arembepe ou para os que escolheram empreender com quisoques de coco verde em Natal. Lá ou acolá, estamos submissos à mesma lógica das máquinas eficientes. A última atenuação é que agora a vida alternativa dos homens contemporâneos precisa incluir algum contato com a natureza. Num País vasto como este, ainda subsistem regiões pouco exploradas. Mas quem não visitava uma cidade litorânea ou turística há 20 anos, testemunhará a extensão do massacre.
O boom de construções e a ocupação desordenada praticamente eliminou possibilidades de contato com áreas livres. Os negócios vão, lentamente, dando cabo das últimas áreas ociosas, assim como, lá atrás, acabaram com a perspectiva de vida calma e segura nas metrópoles. Vigora uma tensão natural e permanente entre desenvolvimento e contemplação. E a palavra “sustentável” não parece ser a solução.
O que então significa hoje o ócio, para além do direito de não trabalhar? Parece ter perdido significado numa sociedade que hipervaloriza o privado que merecia ser público. Além disso, ninguém mais parece se importar com o que deveria permanecer radicalmente privado, como o direito à alienação política e à liberdade de expressão.
Não foi preciso esperar o pregão das bolsas. Faz tempo que já estava decidido: depreciem o homem lúdico frente ao homem fábrica.
O agravante é não assumir que somos, ou viramos, uma espécie de promessa reversa, aquela que nunca se cumpre. Não se olvidem que estamos às vésperas de um ano eleitoral com Copa. Com tamanha maquiagem, vivemos fingindo não perceber que estamos em plena pulverização de recursos, enquanto a América Latina fervilha em sua atávica insolvência.
O pior de tudo nunca foi a indolência do bom selvagem terceiro mundista. O realmente deplorável foram as falsificações sucessivas que nos conduziram ao marco zero do blefe central de que já éramos um paraíso de primeiro mundo.
Aplicativos para datas de aniversários são mesmo revolucionários: lembramos de pessoas que demoramos anos para esquecer. Às vezes, a falta de memória é um alivio. Mas o que é que te custa cumprimentar um desafeto? O bonzão da turma, o nerd podado, a professora sacana da graduação? Antes, esquecer dos eventos natalícios era comum, em compensação a ofensa passava rápido. Hoje em dia? Simplesmente imperdoável. Como pode haver uma desculpa? É só clicar, e no ato o outro já sabe que você despendeu tempo. Na lógica do capitalismo acionário selvagem, tudo se limita a negociar tempo. Mesmo que espremer o mouse não dure nada, eis o germe do network, a força que comanda nossos dias. No mundo digital países inteiros podem afundar ou emergir em horas, que dirá de gente de carne e osso? O mundo está mais veloz, ainda que ninguém possa dar certeza de que isso é uma virtude.
Numa época cibertecnológica, sob o império das startups, criaram-se novíssimas obrigações. Por exemplo, você está intimado a responder rapidamente. Bonificações da vigilância dos passos alheios? Informações preciosas. Nunca foi tão fácil desmontar desculpas esfarrapadas. Seu contato fugia de você com a batida “vida corrida”, “ando ocupadíssima”? Basta ficar atento, uma hora dessas ele vai postar piadas e fotos. Quem precisa de Snowden para saber que somos monitorados? Pior, automonitorados. O anonimato é que nos protegia desses micos. Hoje, ninguém mais pode se esconder. Até os eremitas foram defenestrados.
Já existe uma psicometria, as provas empíricas evidenciam: é mais fácil brigar online. Na net, ofensas tendem a soar mais sérias e pessoais do que realmente são. Já o contrário não é verdadeiro. Reconciliação online é coisa rara. No velho telefone, havia sempre o conserto através do tom da palavra, o mal-estar contornado com fala macia, suspiros ou chantagem emocional. A voz pode quebrar a sisudez de quem queria encrenca. Não é a mesma coisa quando você grava e envia a mensagem nos androides e smartphones, ali não há diálogo, a conversa é truncada como num walk talk.
Além disso, temos que aguentar as abreviaturas, gírias e sons onomatopaicos que inventaram nas redes sociais. São de chorar. Da risada kkk aos símbolos, são todas reduções insuportáveis além de musicalmente desastrosas.
Analisem também a quase extinta tradição das missivas autógrafas, sim, aquelas enviadas pelo correio. O tempo se encarregava de dissolver o mal-entendido. Terminar um relacionamento por carta poderia nem mesmo se concretizar, caso o desencantado fosse ágil o suficiente para interceptá-la antes que alcançasse a futura ex. Quantas histórias mudaram graças à lentidão postal e aos falcões peregrinos sem gps?
Eis uma era onde o instantâneo amarra o arrependimento. No telegrama, por exemplo, sempre a obrigatoriedade da economia de palavras. Torpedo não tem volta. Não tem nada mais direto. Mandou, chegou. Seja lá qual for seu provedor, qualidade do cabo e velocidade contratada, as sentenças se apresentam chapadas, lineares, às vezes obtusas. O que se escreve fica lá, grafado, esculpido na rocha do espaço é para sempre. Não tem choro nem dá para corrigir. O “não era bem isso que eu quis dizer” ou o “você não entendeu direito” não funcionam como antes. Definitivamente, somos uma sociedade cada vez mais impulsiva.
Há que contabilizar nosso orgulho também. A maldita cobrança pela coerência impede o remorso. Quase que perdemos o direito de mudar de ideia. Isso é um problemão: estar permanentemente de acordo com você mesmo é um porre.
Intérprete analisa sinais de ‘falso’ tradutor em funeral
Ficou parado e imóvel. Deixou cair chaves das mãos. Queria ter filmado cada palavra, mas não conseguiu alcançar o celular. Entendeu os trechos importantes da mensagem:
“o dia glorioso chegou hoje, a libertação está próxima” “você aí que me ouve, seja muitas coisas ao mesmo tempo”, “saia por aí, coincida com você mesmo”
– Num funeral?
–E dai?
Não soube explicar por que, mesmo parado, ficou pululando no mesmo lugar. Nem por que a vida se abriu instantaneamente. Diferente, era muito diferente. Não o efêmero de praxe. Seu dia fez o click no estalo. Quando imaginaria “escutar” aquilo do homem poderoso?
Só depois leu, no noticiário do dia seguinte: o tradutor não compreendia um só sinal da linguagem dos surdo-mudos. Pensam que ele se importou?
–O significado? Eu mesmo atribuo.
Na mesma tarde deixou tudo para trás, móveis, comida, família, e abriu um ateliê no pé na montanha.
A má notícia tem o poder de transformar o conjunto de normalidades em uma montanha de equívocos. É quase da mesma fonte motivacional que nos torna fascinados pelo bizarro, pelo grotesco e pelo exótico. Adoramos pontos fora da curva, mas raramente os exploramos pelo lado interessante: criatividade, o inusitado, a plasticidade e a flexibilidade. Não que possamos ser acusados de pessimistas, os velhos do Restelo, ou abutres esperando anúncio de infortúnios. As más novas acabam tendo o poder de romper com a normalidade. Não nos deteríamos na manchetePedestres andam livremente pelas calçadas mas imediatamente correríamos para ler Pedestres são arrastados da calçada até o fosso.
É no mínimo curioso como somos especialmente atraídos pelo trágico. Digo, particularmente atraídos. A tragédia nos inspira solidariedade, compassividade e evoca o sentimento gregário. Ao mesmo tempo, também nos ocorre, simultaneamente, quão sortudos fomos por não termos sido nós as vítimas do infortúnio. É que ao contrário da fantasia do senso comum não somos unos. Somos constitucionalmente fragmentados e o tempo todo tentando recolar pedaços para parecer vasos uniformes. Seria mais honesto nos definirmos como trincas avulsas que se aglutinaram por interesse.
Mas, e quanto às más notícias quotidianas que se repetem à exaustão? Que os governantes não fizeram o que tinham que fazer? Que a sociedade reage, não por diversão ou ganas de vandalizar mas contra a repetição da velha inércia? Liberadas, raiva difusa e o ódio sem foco, são perigosos e carregam a centelha do autoritarismo.
É que as pessoas sabem, vagamente, intuitivamente, o que precisa ser feito para que todos tenham uma vida melhor, mas nunca pararam para perguntar pela metodologia. Esperam isso de quem foi eleito. Mas quem disse que eles detêm o método? Ao mesmo tempo, nos recusamos a fazer parte de algo que nós mesmos temos o poder de determinar, pelo menos por enquanto, diretamente, através das urnas.
Será que perdemos a sutileza? Aquele sentimento que permite uma interpretação lúdica da realidade? Ou o massacre psíquico da rotina foi tão bem sucedido que agora o bom humor depende dos comediantes? Se de fato perdemos o refinamento necessário para enxergar atrativos no comum, no dia a dia, na vida como ela é, dependeremos então de artefatos químicos para nos imunizarmos contra o crônico desalento das notícias?
Mas isso pode estar sofrendo uma inversão. A realidade mais desta vez se incumbiu de nos pregar a peça. O manancial de escândalos e novas deprimentes que chegam até nós por todos os lados pode estar finalmente encontrando uma espécie de teto. Um basta que alcançou o zênite. Desenvolvemos tanta tolerância ao mal feito que podemos estar passando à resignação, último estágio do abandono.
Se pretendemos saídas, talvez a solução não seja expectativa por novas externas mas desenvolver aquelas mídias raras, livres e sem censura, as produzidas de dentro para fora
Na época até se cogitou. Nunca estivemos tão próximos da transformação. As motivações afluíam às ruas em pautas espontâneas, numa imensa maré justa. Na Paulista, alguém pichou no muro do banco “it’s revolution, baby”. O promissor é que parecia um motim pela utopia. Mesmo contra quem tomou a iniciativa, as marchas não tinham originalmente caráter socialista, capitalista, anarquista, nem sindicalista. O problema, descobrimos depois, é que não era nada. Não saímos do lugar. De lugar nenhum para lugar algum. Graças à força, tanto maciça como difusa, nada, absolutamente nada, mudou. Se o país acordou diferente, resubmergiu, letárgico, deficitário e mambembe. Um movimento que se recusou a crescer da potencia para o ato. Se há uma razão para o paradoxo? Ainda não avaliamos a capacidade do poder amortecedor do tipo de Estado que está sendo erguido no Brasil. Ninguém de fato apreendeu a extensão da metáfora “uso da máquina”, o motor obsedande do poder central.
Mas se não recebemos uma reforma política, trouxeram-nos bodes expiatórios. O fato é que vivemos já num país policial que não só tolera, como naturalizou a violência. As inéditas punições desvelaram mais o sistema de privilégios políticos que a justiça. A chave do jogo é antiga como a história, todas as cartas estão marcadas. O poder assimila e neutraliza qualquer golpe. Sempre que a notícia estarrecedora vazar, artesãos de dossiês serão acionados. É na base da embromação que violações sistemáticas contra a liberdade de expressão podem se igualar a um acidente rodoviário, brigas de torcidas ou….a um decote. Onde a discussão sempre migra ao lugar errado e a indignação do final de semana acaba na segunda, na terça ou é sepultada na quarta de cinzas. Não é bem que sejamos um povo sem memória, somos o país da desmesura. Não compartilhamos uma medida básica, evidente e racional: direitos precisam se ajustar aos deveres. Como se explica que alunos jurem um professor de morte sem que toda pedagogia esteja comprometida até a medula? Pois este é o dia a dia de quem ensina. Um país onde o direito ao privado, inclusive à propriedade, é ameaçado toda vez que nas plenárias, se inflamam os oligarcas do partido. Já suportamos demais. Aceitamos a concepção racialista se impor na base da canetada, o clientelismo que passou a ser, senão a única, a principal política de inclusão social.
O cidadão não pode ser culpado por políticos não terem compreendido a dinâmica histórica que transformou radicalmente o mundo. O analfabetismo e a ingenuidade política subsidiam a regressão e o anacronismo que tomou posse da América Latina. Se é exagero por que choques civis se espalham nas grandes cidades argentinas e milícias paranoicas se ampliaram na Venezuela? E o que será que nos espera por aqui? Decerto teremos mais um ano tumultuado, onde manifestantes não ultrapassarão a ideologia do estorvo, prejuízo coletivo e a destruição.
Por isso, junho de 2013, nunca será maio de 1968. A única coisa comum entre as datas pode ser o signo do fracasso.
Mas, se em Paris os professores e estudantes tinham algum valor e voz na sociedade, e só por isso, puderam se insurgir com consistência, no nosso caso, por cooptação, medo e manipulação, corremos o risco de morrer em praias incontinentes. Antes, muito antes que qualquer utopiazinha nos dê o ar da sua graça.
Continuamos sonhando, o combate contra a esperança, luta perdida. Sempre damos um jeito de vislumbrar saídas. O beco está escuro? Iluminar-se-á. As coisas não andam? Movemo-las. O sistema é um obstáculo? Ele passará, nós permaneceremos. Reconstruiremos tudo, pedaço a pedaço. Ruínas e terra devastada nunca foram impedimento. Ainda que possamos nos render à paralisia provisória nossas tintas ainda ardem, afrescos que não envelhecem. Novos em folha, temos a intuição, refaremos o essencial. Os organismos se reconstroem, a cada potencial elétrico usado, nossas vidas giram conforme o rotor do DNA: 180.000 ciclos por segundo. Somos hélices, e irrompemos sem lâminas. Não há mais medo da mutilação, da dor, da sofreguidão, e toda separação é só recomeço. Vislumbramos os destinos e conservamos o instinto. Destinados a mais de um caminho, vimos sábios perdidos, areias descalças, e vida inoportuna. Ao mesmo tempo, a corda arrefecida, o sorriso imprudente, e a sede mitigada. E se todo restauro é mesmo provisória, o caminho até a união é a única realidade. A duração, só cansaço da matéria, o pendulo das sombras sempre volta à luz.
Por isso estamos vivos. Vivos para dizer que sim. É inexequível, o único possível.