• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Pode acontecer hoje (Estadão)

13 sábado abr 2019

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Pode acontecer hoje

Paulo Rosenbaum

06 agosto 2015 | 11:21

forçasXXX

Neutralizem-nos. Desfazer é a palavra. A concessão ao ódio, pueril. A profusão sentimental, irreflexiva. Justiça instantânea, perigosa. Destoar da hegemonia é girar, numa outra direção. Evidente, tudo pode mudar. Uma revolução pode operar no silêncio. A política é lábil, mutante, ciclotímica. Distorçam-na como arte ou torçam nas arenas. Aprender a esquecer como convém aos pactos datados. Vivemos numa não ficção. Um vento não remove um Estado. Mas também não o edifica. O radical limita-se a um vício de informação. O acirramento interessa: para poucos. A ilusão hegemônica está em pé. Não é que o projeto acabou, foi adiado. Rejeitam a ideia de que o mundo não é um menu acabado. Preferem o manual onde, numa balança infinita, só se ensina dois lados.

Não só pelo 16 de agosto, mas porque nossas ações exigem rumo. Usem a rota b. Ninguém quer golpe, bastaria oposição. Desmonta-la, sempre foi um mal negócio. No jogo democrático oposição é vital. Respeitada e respeitável, ela, quando vigora, exerce poder moderador. Se assim fosse, renuncias, afastamento e outras tribulações não seriam traumas. Uma República deveria ser o conjunto das instituições. Sem reunificação (aceitemos o desacordo), sem conluio, (assumamos as disputas) apenas alguma circunscrição da desforra. Comutem por um outro estar. Mudem as flores por vasos mais enxutos. Na vigília digital não há esperança de sono ou coesão. “Contamos com vosso sonambulismo”, eles vêm nos pedindo. Mas, em nossas realidades, não há indício de respiro. Não te falaram que as urbes tirariam todo nosso fôlego? Que a rarefação do poder estava garantida? A confusão, sortida? Era verdade, mas ninguém varou a noite para avaliar.

O jogo democrático não é  exatamente negócio de lobistas. O jogo pode não ser equânime, justo ou coerente, precisa ser pacífico. Exige renuncia à brutalidade, desvio do confronto e, elegância mínima. É que as lutas se despistam nas guerras. Se te convencerem de um destino bomba, não será esquerda ou direita. Que se prolonguem as vidas dos homens sensíveis. Mas que não te assombrem. Nem nos sacrifiquem na idolatria do culto personalista. Dirijam irritações contra a milionésima parte dos abusos. Dos desmandos aos comandos. Adensem os artefatos até se transformarem em palavras. Afiem a civilização. A Pátria seria educadora se comovesse alguém. Nunca é tarde. Mas, a certa altura, perdemos a razão, junto com o sentimento. Rumo ao fundo dizem. Até que a sangria não coagule. Até que os autores meçam-se por cãibras. Até que os analistas mexam nos roteiros que filtram. Até que a Nação seja um cárcere sem fronteiras. A cadeia deveria ser para ninguém. Nem as aberrações das leis, feltro para justificar o arbítrio.

Que ninguém se engane. Os intelectuais podem estar silenciosos mas os poetas não desapareceram. Guardam a visibilidade oscilante. No parapeito de cada surto. No limite do susto. Nas paginas anuladas, borradas de insultos. Nas impressões foscas. Na fuga das rimas. No êxodo do cuidado. Na contagem regressiva dos soluços. Não foi ainda ontem que mudamos tudo? E as unhas de quem sofria encobriam o ruído de quem comia?  Até o fim do dia. Abandonar a surdez para enxergar todos os outros. Enquanto isso, vaga uma meia lua constrita pelo excesso de olhares. Ela não inibe a dor, nem os sonhos. É que o milagre opera na surpresa. Desce ao simples. Pode acontecer hoje.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pode-acontecer-hoje/

Tags: 16 de agosto, blog Rosenbaum Estadão, jogo democrático, pode acontecer hoje, silêncio dos intelectuais

Paulo Rosenbaum
rosenb@netpoint.com.br
rosenbau@usp.br

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Pai? (Estadão)

13 sábado abr 2019

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paipresença

Pai?

Está ouvindo?

Queria levar um papo. Agora é urgente.

Se estiver ai faça um ruído, cutuque a porta, dá uma raspada no gesso, sei lá.

Vou falar, quando puder de algum sinal de vida, combinado?

O que fiquei pensando é que aqui a coisa está tão pesada que a gente já está apelando para qualquer lado. Talvez você pudesse me dar uma força. Temos uma situação como nunca houve neste País — e por favor nem venha com uma daquelas suas gargalhadas. Oh velho, tudo tem sua hora.

(cutucão na porta)

De verdade, é presidente que não exerce, vice que não assume, fora que não se vê consenso em lugar algum. Os outros poderes? Você sabe, nem preciso falar. Era para ser parlamentarismo, mas o senhor sabe melhor que a maioria, eles seguem a boiada. Mas nem é isso que está me preocupando. O que está deixando todo mundo maluco é que não há ninguém que ofereça solução. Para bom entendedor. Tem gente que acha que a solução é cadeia geral. Também tem a turma do liberou geral.  Na linha do “restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”. Pobre isso, né? Eu sei bem o que você esta pensando: enquanto eu estava lá em Arembepe vendendo artesanato você estava bem aqui, lutando contra a ditadura e enfrentando os valentões que queriam matar pela causa.  Mas Pai, entenda que aquilo era barra para mim. A alienação sempre foi um alívio. Sabe a coisa de fingir que não é com você? Hoje também tem muita gente nessa. Não quero te decepcionar mas tenho que contar: tem gente pedindo a volta deles.

(raspada de gesso)

Isso mesmo. Como se fosse solução. Mas tem que haver uma saída. Que seja uma redução de dano. Eles preferem sacrificar a República que os cargos. Não dá para chamar gente assim de homens públicos.

Isso aí. Acredita? E a esquerda, lembra a sua querida esquerda? Sinto te dizer que a que está no poder não é mais esquerda muito menos democrática. Defende aliança com ditadores, caça jornalistas, quer controlar a mídia, todos cheios de grana suspeita e se alinharam com os piores tipos para faturar as eleições. Os bem pensantes? Parece que boa parte dos intelectuais está dominada. Pessoal está sem autocrítica ou se beneficia dos abusos, ou ambas. Tá difícil, eu te falei. Desculpa te falar isso tudo bem hoje.

Me perdi, o que estou para te perguntar:  aí é melhor que aqui?  Eu já sei que você vai repetir o que falou a vida toda: “mais vale um minuto aqui do que 1000 anos ai”. Mas é que o tempo aqui está passando cada vez mais rápido.

Era exatamente o que você sempre dizia, isso aqui só vai dar certo quando não tiver mais paizão, o salva pátria, o rei da cocada. O populismo é uma praga que dá certo. Tem um pessoal que quer guerra. Ainda na base do quanto pior melhor. Eles insistem em montar o circo. Tem aqueles irresolutos de sempre com o velho problema, que está mais para psicanálise que para sociologia. Eles não querem se indispor com os históricos, morrem de medo de serem chamados de golpistas. Não assumem a identidade. Já deu. Ninguém tem paciência. E desde quando obedecer a constituição é golpismo? Pai, eu sei que você achava de todos eles e como me arrependo de, na época, não ter concordado contigo. Tua frase exata era “não importa quem está lá, o País vai caminhar, ele é maior que todas as figuras públicas juntas”. Mas não tem duvidas que eles estão escondendo o horizonte das pessoas, fingindo que sabem para onde estão levando. Já se ouviu que não vale a pena salvar, e o pior é que talvez seja isso mesmo.

Ninguém respeita mais nada. O reino dos direitos sem deveres. Incrível que é tal qual você previu. Todo mundo acha que pode tudo, todos estamos na mesma, mas uns estão menos na mesma que outros. E tem mais uma pergunta: o que que você quer de presente de dia dos pais? Te dou algumas opções: uma viagem às vinícolas do sul (dizem que a safra é das melhores), um bote inflável (para o caso sabe?) ou uma revista de figurinhas com os melhores momentos da Copa do Mundo com um encarte “os grandes cartolas da Fifa”.

(sons indecifráveis)

Não é em alemão não. Acredita que reeditaram? Tinha tanta gente tirando da nossa cara que eles acharam que seria pop. Pode rir, eu aguento a gozação, você merece.Paulo Rosenbaum

rosenbau@usp.br

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Máximas e condensações (Estadão)

13 sábado abr 2019

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Máximas e condensações

Paulo Rosenbaum

14 agosto 2015 | 12:47

MinimalismoXXX

O problema em blindar um poder insustentável, é ficar trancado por dentro.

Vale tudo para barrar o nada a ver!

Se eles chamavam de herança maldita a bonança que receberam, fica-se a pensar como chamar o entulho que estão nos legando?

O Estadista precisa de elegância, inclusive a de não contemporizar.

Já que não há satisfação garantida, queremos nosso dinheiro de volta.

Se esse não é mesmo um País sério, por que cargas d’agua ninguém se diverte?

O último a desativar a pauta-bomba, apague o congresso.

A oposição é a situação com alguma cerimônia.

Só aplauda um “caça às bruxas” se sua vassoura estiver turbinada,

Não se pode confundir: às vezes, civilidade exige contundência!

O tempo transforma o inaceitável em rotina.

O problema do julgamento da historia é o veredicto, anunciado entre testemunhas sepultadas.

Perfeitamente compreensível que haja relutância em adotar uma atitude republicana num País cujo governo faz exatamente o oposto.

Fora o subsolo, alguém está captando água?

Contraste é tudo: a gestão é de tal forma nociva, que parece que a anterior foi razoável.

Ódio é um regime político infantil, já a ironia nasceu para desmontar os velhacos.

Lava jato imune à crise hídrica.

Ninguém quer golpe, bastaria oposição!

Quem foi que disse que era a solução? Menos, apenas soluto.

O Estado foi tão aparelhado que fez sumir qualquer zona franca.

O mais imperdoável nas ações deles é nos obrigar apoiar pessoas para as quais, num outro contexto, jamais daríamos suporte.

Reparem que, quando se trata de momentos difíceis,algumas neutralidades são mais neutras que outras.

As coisas são reguladas, mantidas e divulgadas através dos dados oficiais. Como lidar com a oficialidade quando ela passa a ser um simulacro da verdade?

Tudo, mas especialmente o involuntário, é intencional.

Uma coisa é ódio, outra, desejo furioso por justiça.

Conseguimos: temos suspeitas acima de qualquer cidadão!

Emudecem imaginando recompensas pela mordaça, e acordam algemados.

O Itamarati, que na língua tupi-guarani significa “pedras brancas”, cogita seriamente mudar o nome para yruhu, caixa preta.

Andam dizendo que as manifestações podem falir por falta de substrato ideológico consistente. E quanto à falência de todo resto?

Mais uma destas coisas que só mesmo por aqui: temos a mais peculiar das oposições, uma oposição a favor.

A meritocracia existe, só foi para o fim da fila porque os outros eram indicados.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/maximas-e-condensacoes/

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Hoje, o inesperado! (Estadão)

13 sábado abr 2019

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Hoje, o inesperado!

Paulo Rosenbaum

13 setembro 2015 | 01:08

shana_Tova_5776_5ye_

Hoje é muito, a noite do mundo. Hoje é fundo, ao largo de tudo. Dia da escala primeva, pristina. Movimento, obra prima. Hoje se sabe, o valor é enganoso, a certeza, inútil, a decisão, instável. Hoje é o dia sem recuos. Não se enganem. Não é só o homem: são as forças, todas as capacidades, e todas as verdades. O que comove. Hoje, o divisor de águas, o inverso do ciclo, a sede que move. Hoje é a estação para mudanças. Troca de faixa. Inversão do estável. Reciclagem do estático. Reverso do mesmo. A fusão que nos escapa. O planisfério se dilata. A prata das bocas escapa. A vez do sutil. Do repleto. Dos códigos gerais. Dos sonhos orgânicos. Dos extratos românticos. Das mulheres em graça. Da infância sem pena. Da mutação, plena. Hoje, instante para brincar com os mundos. Saudar o recomeço. Saldar a nostalgia. Hoje, vigência do inesperado. Não é só mais um ano novo. Chegamos às vésperas,  o triunfo do justo. Ao ímpeto da inércia. A resistência recobrou alento afora. A recompensa, aqui, agora. Nas alegrias sem fundamento à evasão do firmamento. É do horizonte que a notícia emerge. Com olhos nos céus. Ovos perfeitos e livro sem defeitos. Sob letras grafadas em tudo. Agora que as vozes venceram o silêncio dos mudos. A derrota da tirania exige persistência. Paciência, mesmo sem maná, shaná tová.

Tags: ano novo, blog Rosenbaum Estadão, derrota da tirania, dia de mudança, maná, shaná tová

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/hoje-o-inesperado/

Paulo Rosenbaum

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Licença para odiar (Estadão)

13 sábado abr 2019

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Licença para odiar

Paulo Rosenbaum

06 outubro 2015 | 00:52

Democracia_e_misti

O que testemunhamos no atual poder moribundo, é, no mínimo, indigno. Quem negará que o partido do governo foi pródigo em plantar a cizânia, instigar a litigância e flertar com a intolerância? Mas é a extrapolação da aversão que merece algum exercício de autocrítica. Hoje, no enterro de um veterano político petista ligado ao poder, houve mais uma incitação ao ódio. Incitação póstuma, desnecessária, primitiva. Compreende-se a indignação, a revolta. Sob a escassez absoluta de soluções justas e duradouras, as pessoas rendem-se ao reino do senso comum. A falta de mediadores minimamente confiáveis aguça a sensação de inutilidade. Somos inúteis num sistema político de duvidosa eficácia. Assim ficamos a mercê dos abusos de poder, dos bullyings do Estado, da impotência imposta por uma interpretação retrógrada de democracia. Sem critérios, sob publicações prematuras, as quais, por exemplo, elevam a pena capital como ideário de solução para a segurança pública, exterminar adversários, massacrar discordantes. Só que doença, morte e sofrimento pessoal não devem fazer parte da civilidade política. Alguns signos precisam manter alguma invulnerabilidade. A força da sociedade está numa união instável contra o governo. As ruas, o último reduto de oposição. O ataque deveria ser direcionado ao poder, e toda objeção focar num programa que antagonizasse os desmandos, e evitasse desperdícios como catarses direcionadas às pessoas.Tomamos diferenças como ameaças, e respondendo ao ameaçador, nos convencemos de que estamos rodeados de inimigos. Eles existem, mas a maior parte só adota outro sistema de compreensão política. Precisamente ai uma armadilha tomou forma, ainda que sob roteiro pré justificado: a licença para odiar. É vital explicitar que descarta-se libelos de amor, paz de convescote e uniões impossíveis. Despreza-se sentimentalismos informais e a neutralidade conivente. A gestão do partido pode ter sido campeã no quesito promotora de conflitos, e, quase com certeza, protagonizou insuperável programa de poder sustentando no fisiologismo e na corrupção. A última, ao contrário do que todos os indícios apontam, apenas um detalhe do planejamento estratégico. A verdadeira novidade esteve na determinação e na furiosa convicção de que tudo precisava ser destruído para que a nova ordem viesse à tona.Outro fenômeno que ainda ocupará tempo de historiadores e psicanalistas é o incrível séquito de apoiadores acríticos, hoje infiltrados em todos os cantos da administração pública, nas redações e naquilo que conhecíamos outrora como centros de saber. Para estes, defender esta gestão tornou-se, então, questão de sobrevivência. Para todos nós, sobrevivência perigosa, uma vez que o poder migrou da acefalia à posse do grande manipulador. Nota-se então o desejo nostálgico que tomou conta dessas mentes. Bom notar que eles não mais militam, apenas precisam justificar-se por terem sustentando o insustentável e racionalizado o incompreensível. E foi por tanto tempo, e sob tantas formas que hoje sussurram intimamente “longe demais, tarde demais, profundo demais para arrependimentos”. E mesmo aqueles veículos midiáticos que receberam e continuam recebendo generosas verbas publicitárias desta administração, vem se afastando da neutralidade suspeita. O poder perdeu a moral e a razão, não necessariamente nessa ordem. Difícil precisar o grande erro estratégico: subestimar as instituições que reputavam subjugadas e rendidas ao sindicalismo de resultados? Pegos de surpresa pelo que um desses ministros definiu como “ingratidão” do povo? Ou simplesmente o mais infantil dos equívocos: terem acreditado nos próprios slogans? Que ninguém se engane quanto a capacidade de regeneração do populismo. A República, reduzida a um instrumento partidário e como toda tendência totalitária, escolheriam terra arrasada ao triunfo de um novo consenso. Portanto, a descrença atual do brasileiro não é bem com a democracia, como parece dar a entender a última pesquisa do tema (Ibope/setembro, 2015). A decepção é, antes, com o que imaginaríamos conquistar ao sair de longa e sombria tutela militar autoritária. Na contramão das teses, a história por aqui acontece como fraude e se repete como mistificação.

Tags: blog estadão, conto de notícia, história acontece como fraude, história se repete como mistificação, licença para odiar

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Geração espontânea e terroristas avulsos (Estadão)

13 sábado abr 2019

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Geração espontânea e terroristas avulsos 

Quais as etapas que um sujeito deve percorrer entre entrar em seu veículo, escolher o alvo, acelerar contra este a uma velocidade significativa, abalroar uma ou mais pessoas, descer do veiculo e golpear à faca, adaga, lâmina ou machadinha até acabar com uma vida? Há um terrorismo exposto e um latente prestes a irromper. Quais as chances de que uma epidemia homicida atinja várias mentes sincronizadamente? Pois os cidadãos de Israel tem sido alvo de múltiplos e sistemáticos ataques terroristas. Os fatos, porém, tem sido expostos de uma forma surpreendentemente neutra. Sob as vozes monotônicas e testeiras eletrônicas da mídia televisiva, tem-se a impressão de que os ataques precisam ser naturalizados. Terroristas avulsos surgiriam às dezenas ao modo de geração espontânea. Ações terroristas ex-nihilo se propagam sob a ação de esfaqueadores em transes assassinos. Da forma como nos apresentam os eventos, a impressão é que, subitamente, uma parte dos palestinos e árabes israelenses — os perpetradores dessas ações contra alvos civis inocentes — tiveram, ao mesmo tempo, a mesmíssima inspiração.  A sensação quase subliminar que se pode ouvir ao largo das transmissões é ambígua: “um horror”, e ao mesmo tempo “devem ter feito algo para merecer”.

Quem não reconhece que a raiz profunda desta e de outras crises passadas e futuras são os erros políticos recorrentes dos governantes israelenses e palestinos em achar uma solução para a tragédia que se abate sobre os dois povos? O perturbador é que parte significativa da mídia insiste em pulverizar os atos nitidamente terroristas como “sublevação legítima”, “insurgência política”, “resposta à ocupação”e, mais recentemente, o criativo “fúria contra a proibição de fiéis muçulmanos rezar na esplanada das Mesquitas”. A notória má vontade da mídia mundial com Israel e seus habitantes teria origem num antissemitismo latente? A desonestidade intelectual estacionada em acusações irresponsáveis como a de que ali vigora um “regime de apartheid”? Essa latência  floresce irrigada a cada mínima gota. É como se um argumento subliminar estivesse a postos para ser sacado contra a mítica pré condenação judaica. Manchetes omissas diárias — sem contar as abertamente  judeofobicas dos jornais árabes e iranianos —  estampadas nas páginas de jornais terminam inculcando uma percepção completamente distorcida da realidade social e política da região.

Abundam questões territoriais, jurídicas e culturais em permanente disputa, mas quem é curioso ou cultiva um pouco de amor à análise política sabe que Israel é um dos países com maior liberdade religiosa e de gênero em todo o mundo, e, decerto, o mais multicultural entre as nações do oriente médio. E, com todos os defeitos inerentes implicados, uma democracia estável. Pois as pessoas deveriam também saber que o desenvolvimento econômico nos territórios palestinos está entre os maiores registrados na região e não é fortuito que a taxa de escolaridade por lá também seja bastante alta. Não há nada de fortuito ou coincidência mística que o novo ciclo de ataques tenham se iniciado alguns dias depois do discurso do presidente da autoridade palestina Mahmoud Abbas, quando declarou que considerava nulos os “acordos de Oslo”. É sintomático que o anúncio tenha sido feito num momento histórico no qual o relevância do conflito esteja em evidente declínio na agenda dos países ocidentais. Com tópicos quentes como guerra civil na Síria, estado islâmico, Ucrânia e fortes indícios da retomada de uma novíssima guerra fria, o imbróglio palestino-israelense não é mais prioridade para ninguém. Abbas captou a nova realidade e talvez tenha pretendido instrumentalizar uma escalada para recobrar a relevância perdida. Porém, a conclamação ao ódio e à indução ao terror, ainda que cifrada, é um novo e perigoso precedente na escala de equívocos políticos. No reino dos justificacionismos não há, nunca houve, solução para contendas.  A busca pela pacificação é provavelmente um dos impulsos mais contra-instintivos em nossa espécie. Quando não existe ninguém realmente pensando em paz, o vazio pode vir como signo de guerra. Oxalá o futuro nos reserve menos lamentos e mais civilização.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/geracao-espontanea-e-terroristas-avulsos/


Paulo Rosenbaum
rosenb@netpoint.com.br
rosenbau@usp.br

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Geração espontânea e terroristas avulsos (Estadão)

13 sábado abr 2019

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Geração espontânea e terroristas avulsos

Quais as etapas que um sujeito deve percorrer entre entrar em seu veículo, escolher o alvo, acelerar contra este a uma velocidade significativa, abalroar uma ou mais pessoas, descer do veiculo e golpear à faca, adaga, lâmina ou machadinha até acabar com uma vida? Há um terrorismo exposto e um latente prestes a irromper. Quais as chances de que uma epidemia homicida atinja várias mentes sincronizadamente? Pois os cidadãos de Israel tem sido alvo de múltiplos e sistemáticos ataques terroristas. Os fatos, porém, tem sido expostos de uma forma surpreendentemente neutra. Sob as vozes monotônicas e testeiras eletrônicas da mídia televisiva, tem-se a impressão de que os ataques precisam ser naturalizados. Terroristas avulsos surgiriam às dezenas ao modo de geração espontânea. Ações terroristas ex-nihilo se propagam sob a ação de esfaqueadores em transes assassinos. Da forma como nos apresentam os eventos, a impressão é que, subitamente, uma parte dos palestinos e árabes israelenses — os perpetradores dessas ações contra alvos civis inocentes — tiveram, ao mesmo tempo, a mesmíssima inspiração.  A sensação quase subliminar que se pode ouvir ao largo das transmissões é ambígua: “um horror”, e ao mesmo tempo “devem ter feito algo para merecer”.

Quem não reconhece que a raiz profunda desta e de outras crises passadas e futuras são os erros políticos recorrentes dos governantes israelenses e palestinos em achar uma solução para a tragédia que se abate sobre os dois povos? O perturbador é que parte significativa da mídia insiste em pulverizar os atos nitidamente terroristas como “sublevação legítima”, “insurgência política”, “resposta à ocupação”e, mais recentemente, o criativo “fúria contra a proibição de fiéis muçulmanos rezar na esplanada das Mesquitas”. A notória má vontade da mídia mundial com Israel e seus habitantes teria origem num antissemitismo latente? A desonestidade intelectual estacionada em acusações irresponsáveis como a de que ali vigora um “regime de apartheid”? Essa latência  floresce irrigada a cada mínima gota. É como se um argumento subliminar estivesse a postos para ser sacado contra a mítica pré condenação judaica. Manchetes omissas diárias — sem contar as abertamente  judeofobicas dos jornais árabes e iranianos —  estampadas nas páginas de jornais terminam inculcando uma percepção completamente distorcida da realidade social e política da região.

Abundam questões territoriais, jurídicas e culturais em permanente disputa, mas quem é curioso ou cultiva um pouco de amor à análise política sabe que Israel é um dos países com maior liberdade religiosa e de gênero em todo o mundo, e, decerto, o mais multicultural entre as nações do oriente médio. E, com todos os defeitos inerentes implicados, uma democracia estável. Pois as pessoas deveriam também saber que o desenvolvimento econômico nos territórios palestinos está entre os maiores registrados na região e não é fortuito que a taxa de escolaridade por lá também seja bastante alta. Não há nada de fortuito ou coincidência mística que o novo ciclo de ataques tenham se iniciado alguns dias depois do discurso do presidente da autoridade palestina Mahmoud Abbas, quando declarou que considerava nulos os “acordos de Oslo”. É sintomático que o anúncio tenha sido feito num momento histórico no qual o relevância do conflito esteja em evidente declínio na agenda dos países ocidentais. Com tópicos quentes como guerra civil na Síria, estado islâmico, Ucrânia e fortes indícios da retomada de uma novíssima guerra fria, o imbróglio palestino-israelense não é mais prioridade para ninguém. Abbas captou a nova realidade e talvez tenha pretendido instrumentalizar uma escalada para recobrar a relevância perdida. Porém, a conclamação ao ódio e à indução ao terror, ainda que cifrada, é um novo e perigoso precedente na escala de equívocos políticos. No reino dos justificacionismos não há, nunca houve, solução para contendas.  A busca pela pacificação é provavelmente um dos impulsos mais contra-instintivos em nossa espécie. Quando não existe ninguém realmente pensando em paz, o vazio pode vir como signo de guerra. Oxalá o futuro nos reserve menos lamentos e mais civilização.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/geracao-espontanea-e-terroristas-avulsos/


Paulo Rosenbaum
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Retrocesso e equivalência (Estadão)

13 sábado abr 2019

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Retrocesso e equivalência

Paulo Rosenbaum

08 novembro 2015 | 03:19

retrocessoIII

Mais uma tese arguida, e de novo, predomínio temático. A palavra mais usada na última semana? Retrocesso. Usada como troca de acusação. Troquem progresso por sucesso. Recesso por recuo. Mudem estampas. Mexam nas cores. Rosa e azul, turquesa ou branco. Uma confusão dessas só pode se estabelecer em terreno de ideias colonizadas. Mudamos para uma frequência abertamente iletrada. O antônimo de ideológico chama-se agora confrontação. O oposto de reflexão, contestação. Toda discussão sobre gênero, irrelevante. Manifestem-se ainda que tarde. Invadam sem dó. Vale abolir a autocensura. Divulgar o que der na tampa. Emitir plebiscitos unitários. Enaltecer o monologo. Trata-se da erotização do vale tudo. O grande juri de uma só pessoa. A glamorização da estupidez. O estilo? Sempre livre e direto. Para os cultores das opiniões formadas o que conta é deitar dedo no teclado. O que vale é soltar o verbo. Não ler a fundo, virou virtude. Ocupação formal, coisa para boçal. A arte, um toque decorativo. A cultura, luxo recreativo. Toda penalidade, e suas variações desagradáveis — sanções, prisões, restrições e moralizações — devem ser abolidas. Não há, nunca houve déficit fiscal, pedalada institucional ou acordo nacional. Um estoicismo de resultados foi fumado e bateu. Está levando todas. A regra vai ficando clara, não há regras. A corrupção, ofuscada pela maquiagem. A lei, golpismo disfarçado de justiça. A constituição, uma carta de intenções, mal redigida e sub digerida. Todo processo está sujeito ao avesso da interpretação. O contraditório depende da oratória. E as provas documentais são desatinos acidentais. Afinal, o que é retrocesso? Literalmente? Andar ao arrepio, tornar à vaca fria. Político? Aqui, agora. Analogicamente? Retrocesso é um borracha amnésica, que sempre volta para recusar a devida equivalência entre as pessoas.

*****

Minha contribuição ao #AgoraÉQueSãoElas : um microconto de Lydia Davis extraído de seu “The collected Stories”, um trecho do mestrado de minha esposa, a psicóloga Silvia Fernanda Rosenbaum “Permanência e transformação: a paternidade”, além de uma poesia da estudante de design de moda, atriz e poeta Hanna Rosenbaum.

Insomnia by Lydia Davis

My body aches so —

it must be this heavy bed pressing up against me

*****

Silvia Fernanda Rosenbaum

Os símbolos culturalmente disponíveis, sendo com frequencia contraditórios, têm suas possibilidades metafóricas limitadas pelos conceitos normativos. Estes são prescritivos, afirmando o masculino e o feminino através de dogmas religiosos, educativos, científicos políticos ou jurídicos.

Se tais campos doutrinários podem ter sido – e o são – abertamente contestados, segundo Joan Scott a história posterior é escrita como se estas posições normativas fossem o produto do contexto social e não do conflito. A mitificar o presente – o novo pai — através de uma narrativa sobre um passado consensualmente retrógrado — o velho pai — a hierarquia de gênero atual é obnubilada, apagada, em certo sentido negada. A hierarquia de gênero é coisa do passado. Neste sentido é possível concordar com Lallemand, quando afirma sobre a puericultura francesa: tudo tem que mudar para que tudo fique igual.

*******

Hanna Rosenbaum

Mata que cresce nas artérias,

Tanta flor de cimento,

concreto e argamassa,

não quebra,

não desarma,

edifica mais muralha,

Cada andar uma ferida que seca,

cicatriza por fora,

derrete por dentro,

Barreiras sólidas,

Planejadas a tanto tempo,

E o desejo eterno,

De que um dia,

Algum trator arrebente

*****

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/retrocesso-e-equivalencia/

Tags: #agoraequesaoelas, Blog Estadão Rosenbaum, definição de retrocesso, genero, Hanna Rosenbaum, Lydia Davis, pedalada fiscal, Permanência transformação: a paternidade, Retrocesso, retrocesso e equivalência, Silvia Fernanda Rosenbaum

Paulo Rosenbaum
rosenbau@usp.br

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Inautêntica liberdade (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Inautêntica liberdade

Paulo Rosenbaum

13 novembro 2015 | 10:36

lenienciaXXXjpg

Tudo voa e escoa, na leniência, no desgaste moral, na ousadia recolhida. A paz não é, nunca foi clemente. Quem suporta sacrifício, termina na resignação. Chora a compaixão para reboca-la ao céu. É a leniência, cobrando o preço sem parâmetro. Um coro fechou na frase “aceitaremos qualquer coisa”. Ainda obscuro,  há algo entre a caretice e o revolucionário. Um hiato que ninguém decifra. Não é o medonho vazio que devemos temer. Nem a aspereza do sem sentido. É essa servilidade, a aceitação incondicional, a passividade mórbida. Eis os monstros insubjugáveis, indomáveis e aflitivos, que nos facultaram o abismo sem precedentes. De que outra forma explicar miríades de mortes evitáveis? Pode ser por lama, ciúmes, ou baionetas urbanas.  Acidentes que não são causas naturais. Fatalidades são fatais para os desprotegidos. Nenhuma cartografia é espontânea. Alguém traçou estes mapas. Não é de agora, mas é que o hoje ofende mais. Degrada ao exagero. A política não responde mais aos chamados e a civilidade tem seus limites. Coincidem com os da cidadania vilipendiada. As ruas poderiam, contidos os desperdícios de convocações inúteis, mostrar que só de uma outra forma será possível. A sociedade se transformou, sob o imobilismo em suas formas de representação. E quem não tem medo dos motins? Das aventuras sem controle? Das marchas invasivas? Da violência em espasmos? Mas já não vivemos algo similar? O selvagem já não imprimiu seu ritmo? Quem ainda tolera a cronicidade dos enganos, desmandos e disfarces? Nunca o cinismo encontrou tanto respaldo. Tantas caras sérias, cantores e escritores fazendo estranhas concessões ao arbítrio.  Não há mais vexame intelectual em capitular ao autoritarismo instrumental. A remuneração em medalhas. Num governo impensável, a ilegitimidade fermentou o fisiologismo extremo. A noite, ao modo da casa, esparramam seus soldadinhos pelo mundo. Como praga vitalícia, se repetem mundo adentro. Alguém precisa gritar chega. Não podemos mais nos entregar ao oficio da imolação. Ninguém mais implorará nada. Os desterrados estão, de novo, na mira dos covardes. Não aprendemos a lição e estamos levando um quinau. Na trilha das construções destrutivas assistimos o projeto embrionário do tirano. O ilídimo em triunfo. Se há esperança, ela não está acusar outros, mas reconhecer, estamos submetidos a um regime rente à exceção. Findo o espaço para concessões e com as instituições em seus limites operacionais. Nos caminhões ou sob o barro, nas caravanas ou nas casas, nos prédios e nos pátios, só uma chance para que a grande indignação não se esfole no vazio. Mudar o rumo. Parar tudo, até que o acordo leve em conta as vozes travadas pela engenhosa opressão. A mais ardilosa dentre todas, a inautêntica sensação de liberdade.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/inautentica-liberdade/#

Tags: Blog Estadão Rosenbaum, desgaste moral, engenhosa opressão, inautêntica liberdade, Leniência, passividade, sanha totalitária

Paulo Rosenbaum

rosenbau@usp.br

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Linguagem e códigos de paz (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Linguagem e códigos de paz

Paulo Rosenbaum

20 novembro 2015 | 21:08

O que fazer quando se enfrenta um inimigo que rejeita a paz, não pela incompreensão, mas exatamente porque sabe o que ela significa? Segundo Antonio Houaiss em seu “Sugestões para uma política da língua” de 1960, das 3.000 línguas que se falavam no planeta (sem contabilizar os dialetos), 2.800 estavam em crise de existência. No buffer literário estão representadas apenas quarenta destas línguas, e, destas, somente pouco mais de vinte faladas por mais de dez milhões de indivíduos. Entre os complexos conscientes e inconscientes dos homens que regulam a busca pela deposição das armas ou a disposição bellatrix, estão os significados das palavras com suas cargas inatas. A paz é um ardil, álibi para moderar impulsos, um alimento que ninguém aceitou. O grande significado da paz, ainda ignoto, não pode ser compartilhado. Não é silencio, concórdia, tranquilidade, ou “ai dos vencidos”. O que a paz não traz, as bombas suprem. Para formar tréguas é preciso coexistir senão na língua, na linguagem. O multiculturalismo, que deveria significar distensão e convívio, transformou-se em multisectarismo. Depois de quase oito décadas distantes do fim da segunda guerra mundial, de Paris a Nairobi, de Beirute a Jerusalém, testemunhamos a corrupção dos alfabetos. Vale dizer, uma degeneração dos códigos. Numa corrosão que alcança a cultura, as redes eletrônicas multiplicaram dialetos e tribos. Os países estão inertes e imersos em seus próprios interesses. Os Estados já estão perguntando para seus habitantes, abertamente: liberdade ou segurança? Muitas democracias, reféns do populismo (mesmo aquele involuntário pois, ao fim e ao cabo, o que vale é voto na urna) estão ficando paralisadas por contradições.

 O gesso que agora imobiliza o continente europeu tem características especiais. O sonho da união vai se configurando pesadelo, pois é preciso bem mais do que liberdade alfandegária e de circulação para fundir princípios, como sugeriu Stephan Zweig em seu texto “Da unidade espiritual da Europa”. Há uma análise mais ousada do que a superficialidade das teorias conspiratórias de Chomsky: o terror pode estar sendo legitimado sob a manipulação política do medo. Os especialistas afirmam ainda que as comunas terroristas ocuparam o lugar de administrações ausentes — sob um modo operacional similar aos morros cariocas e outros bolsões de violência. Numa aparente contradição, enquanto jihadistas queimam infiéis e massacram civis, crianças ou adultos, podem ao mesmo tempo pagar tratamentos médicos caros para pessoas doentes e funcionam sob os auspícios das lideranças tribais, que, em troca, lhes dão sustentação moral e guarita em suas casas e lugares públicos em caso de chuva de mísseis. Os grupos terroristas do Daesch ao Hezbollah, do Hamas ao Boko Haram, suprem uma lacuna. Analogamente aos vendedores eletrônicos de fé oferecem uma saída remunerada à transcendência. O ocidente finge não constatar um gap psicológico óbvio: a crise de sentido das sociedades materialistas. A esquerda, por sua vez , desconsidera a “fome de significado” para atribuir toda responsabilidade à marginalização socioeconômica. O apelo pop dos terroristas é evidente. O falecido playboy belga jihadista, em sua Toyota top de linha, já avisava, sorrindo, que enquanto os outros fazem frete com mercadorias, eles arrastam infiéis. Não, não há nada de islâmico em trucidar para purificar. Mas chega ao limite da psicose a negação com que os líderes mundiais tentam ocultar o caráter jihadista que vem inspirando massacres. Incluindo modalidades “produção independente”, como o esfaqueamento de judeus em Israel e a epidemia de franco atiradores pelo mundo. Quando Umberto Eco teve a coragem de nomear o Isis como o “novo nazismo” uma parcela de progressistas pulou das cadeiras para acusar o escritor de parcialismo e reacionário. Pelos procedimentos já divulgados, as práticas do terror beiram a degradação da espécie. Custa-nos garantir-lhes direitos de seres humanos. Talvez seja mesmo necessário, para horror da hipocrisia, cassar-lhes essas regalias.

  As democracias quebram suas regras e princípios para obter, em troca, alguma governabilidade. Foi assim que o crime comum se avizinhou do terrorismo para, enfim, aglutinarem-se num tandembélico.  É óbvio que o Ocidente, mesmo ameaçado, ainda não corre o risco que os escatologistas apregoam. Ainda que tempos obscuros estejam de volta, melhor aceita-los que combate-los com estoicismo. A coragem precisa do medo para emergir. O que importa é que velhos inimigos superem diferenças e voltem a aceitar que, com um inimigo comum à espreita, alguma união será inevitável. Onde partilhem que existem inimigos públicos da humanidade e aceitem algum código de paz, de preferência que contenha tolerância e liberdade. Ninguém se safará sozinho dessa enrascada e nem mesmo há garantia de que um consenso provisório tenha êxito: a pulsão de morte costuma ter um curso errático.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/linguagem-e-codigos-de-paz/

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