Não compreendo a mídia. Aliás, há muito desisti.

Claro, sempre se soube. Havia interesses ocultos em jogo, faz parte do jogo de joão-bobo disfarçado de democracia representativa, mas não é que os jornais de São Paulo quiseram fazer uma campanha “pelo Metro na Rua Sergipe”.

Eu particularmente não sei se apoio ou não a ideia. Depende, depende se o governo do estado e a prefeitura da cidade vão se empenhar na melhora do policiamento no bairro (praticamente abandonado neste quesito), ser mais célere na limpeza das ruas, e, finalmente, fazer os estudos técnicos que realmente beneficiem as pessoas. As pessoas esperam sobriedade do poder público quando for tomar uma decisão importantíssima como o traçado das estações. Não se pode mudar ou retocar trajetos de trens com base na gritaria nem durante uma intuição em entrevistas para colunistas sociais.

Por fim, a cobertura jornalística parece esquecer-se de que muitos dos benefícios que aconteceram nos últimos anos na cidade de São Paulo foi decorrência direta da mobilização das Associações de Bairros, e grupos de moradores, que cansados da anomia sentada no poder público, sentiram que era da mobilização de pequenas populações o que efetivamente poderia assegurar seus direitos.

Pois não é que passaram a criminalizar — a partir de uma declaração isolada, bizarra e mal construída sintaticamente — a população inteira do Bairro por se opor, ou questionar, tanto faz, se uma estação escavada a uma distância irrisória de outra — a estação Consolação que fica no final da Rua Piauí — é prioridade para o bairro ou não.

Ai veio a melhor parte: não só a população do bairro, na avaliação alienada e superficial de alguns jornalistas, teria um “sentimento antipovo”, como parte deste sentimento viria de judeus com neurose fóbica. Foi o suficiente para que a corrente estúpida se formasse. Não valeria a pena comentar a façanha do gentio beócio autor da tal frase se ela não fosse uma tradução de um sentimento entalado na garganta e na cabeça (não necessariamente nessa ordem) de muita gente.

Importante reparar que, nesse caso, não há porque encarar o fenômeno como uma manifestação isolada, intempestiva, no afã de provocar ruído e risada fácil. Desta vez, não se trata das coisas rasantes enraizadas na baixaria televisiva, se trata, é isso que importa, de fenômeno mundial, grave, politicamente relevante.

O direito de opinar, de celebridades às pessoas comuns, não pode sofrer sanções, seria censura. De acordo. Mas há, em toda esta confusão intencional e mal intencionada algo mais que mera perversão divertida. Há uma intolerância generalizada em curso que, às vezes, convenientemente, embaralha tudo.

Preconceitos, como já nos ensinou a hermenêutica filosófica, não podem ser desprezados. Eles não só existem como vez e outra sua força reprimida vem à tona, eclodindo de forma nua, inaudita, e, às vezes, execrável. A verdade simplesmente escapa das bocas. Por outro lado, a promoção da cultura da paz é um elemento essencial para qualquer civilização e ela – se é que ainda há o que possa — asseguraria os direitos civis. Um dos papéis da imprensa sempre foi de uma forma ou outra, promovê-la. Há urgência nisso. Todo Estado e toda mídia que manipula e/ou promova, ativa ou passivamente, hostilidade entre pessoas, etnias ou classes sociais deviam ser banidos pela própria sociedade. Neste sentido, o filme “Z” de Costa Gravas, é um exemplo profético atordoante.

Vejam só o aumento exponencial de declarações abertamente antijudaicas de astros, ícones da moda e diretores de cinema. Desde o fim da segunda guerra não se viam tantos atos de vandalismo e hostilidade contra os judeus na Europa. A onda de hostilidades anti-imigrantes que varre o mundo também se nutre do mesmo sangue, a sanha do ódio ao estrangeiro, vale dizer, aos “extranhos” entre nós.

Isso tudo, associado à escalada de governos xenófobos, de extrema direita ou de esquerda fascista — enfim reunidos de novo numa causa comum — em boa parte do velho continente e aqui na América Latina, nos conduz à conclusões e prognósticos desfavoráveis e, talvez, mais que nunca, faça valer a máxima de que a história ensinaria, desde que ainda houvessem alunos.

Inquietante observar que, sem muita consciência, quase acriticamente, a mídia jornalística parece estar replicando e transformando declarações neonazistas e de intolerantes em manchetes informativas. Apesar de obscurecer a verdade o sensacional vende, mas nem sempre, a neutralidade é uma virtude.

Ódio ao estrangeiro está na raiz desta nova sombra que invade o mundo. Mas há uma escolha: a maioria precisa renunciar à sua plataforma política de desejar uma sociedade homogênea.

Deixem as minorias viver em paz!

Paulo Rosenbaum, Médico, Phd. e pós doutor (FMUSP), poeta e escritor. Roteirista e produtor de documentários (“O nome do Cuidado” com Leo Lama) foi também editor de revistas científicas no campo da saúde. Com mais de dez livros publicados (medicina e poesia), “Verdade Lançada ao Solo” publicado pela Record, é seu primeiro romance.