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Publicado no BRASIL247 (acompanhem o link – http://200.189.161.92/pt/247/cultura/4155/A-tirania-da-poesia-e-a-ditadura-das-m%C3%ADdias.htm)

A tirania da poesia e a ditadura das mídias

O digno de ser publicado passa por um turbilhão de interesses, a maior parte deles, alheio à literatura

09 de Junho de 2011 às 19:51
A tirania da poesia: marginalidade e ostracismo cultural.
Dizem que a leitura, em certos casos, deve ser uma concessão do leitor ao autor. Reluto, mas deve ser verdade.
Porque alguém deveria ler um livro até o fim? Quem redigiu o contrato? Quem assumiu este compromisso? A compra de um objeto como é o caso de um livro não significa absolutamente nada. E quando se trata de poesia tudo piora. A poesia é tirânica, como certa vez disse Cristovão Tezza citando Bakthin. Eles podem ter razão. Não só por ser concebida de uma forma muito mais livre do que o texto romanesco, ficção ou prosa. A poesia dita seus próprios ritmos, dirige seus passos.
Claro que a tendência da contemporaneidade é não aceitar poetas herméticos, ou autores que se deixam entorpecer pela beleza das palavras ou pela estética do sofrimento. Pelo menos a mensagem está bem explicitada. Desta vez, veio muito clara e distinta. A antimusa contemporânea prefere poetas minimalistas, ou que elegem o discurso quase jornalístico, de preferência, que beire o real. Mas quem se importa com o que a contemporaneidade pensa? Há uma hegemonia do pensamento. É um paradoxo, na era que a diversidade é cantada em verso e prosa, vemos o poder cada vez mais concentrado.
Importante saber que a estética e a filosofia que domina nossas dias não passa de apenas um femtosegundo na trajetória cultural dos homens. Um instantâneo das tendências do mundo. Tudo para dizer que a poesia — a mais incompreendida (não a mais incompreensível) das atividades literárias — é, por isso mesmo, a mais importante, senão o único ofício relevante do escritor.
A poesia pode misturar tudo, sem se render à ninguém. Seu capricho, que prometia atestar seu despotismo, acaba carregando o quididativo, o próprio da fala humana. A poesia faz todo sentido. Mais um motivo para que a qualidade do texto não possa estar sob a tutela dos professores de literatura — isso deveria estar devidamente atestado. Seja pela abundância de erros de avaliação, falta de critérios ou simplesmente pressa, ou pelos paradoxos entre a análise formalista da academia e os resultados efetivos de uma criação (os sucessos de público com fracasso de crítica e vice versa). Há enorme viés quando a apreciação vem dos editores de redação de cadernos culturais, e um problema quase insolúvel quando a sorte de um livro está nas mãos dos críticos de literatura. Não porque falte erudição (na verdade, há excesso) mas porque faltam críticos com formação realmente plurívoca, que enxerguem dotes e talentos para além das referencias estéticas e culturais dominantes. No dizer de Schopenhauer: talvez falta gente com cabelos próprios; há perucas em demasia.
Como um médico ou um economista ousa formular um texto fora de sua área? Ou um compositor redigir melhor que um literato, um neófito produzir uma obra prima? O fato é que há uma espécie de “reserva de mercado” para especialistas. Ajuda a entender melhor se compreendermos o modo pelo qual os preconceitos operam. E melhor ainda, como prosperam. A hermenêutica filosófica aponta o flagelo do expertocentrismo como responsável pela desfiguração do conhecimento e, principalmente, pela cisão, prematura, violenta, injustificável entre ciências humanas e naturais. Este apartamento gerou um vácuo insanável entre saber prático e sabedoria, separando homens de ciência e letras, pensar e ousar sentir.
Como resultado há um ruidoso tribalismo nas revistas especializadas. Nelas há arrogância injustificável (sim, pode haver uma arrogância justificável), autoreferencia exagerada, e, há, sobretudo, monopólio. O monopólio jornalístico da cultura, assunto exaustivamente comentado, mas persistente. Pois quando a liberdade se faz presente num texto, ele conquista, vale dizer, deveria conquistar, naturalmente, o direito de existir. Deveria ser quase que condenado a visibilidade. Claro que nem todos escrevem bem. E o gosto pode ser discutido. Vale a pena? Depende com quem.
Analogamente ao que Georges Canguilhem disse que sobre a filosofia: “não há boa ou má filosofia”, pode-se parafraseá-lo para afirmar que não há boa ou má poesia. Pode haver poesia sem consistência, pueril, imatura, ou que não nos agrada. A literatura, a dramaturgia e as artes estão sob o mesmíssimo dilema.
Quando se trata de patrocínio do Estado para projetos culturais, as coisas podem ingressar facilmente na categoria de “espantosas”. A coisa pública tornou-se praticamente refém das idiossincrasias dos governantes e venham de onde vier, doem a quem quiserem, os critérios serão parciais e quase sempre semi injustos. Todos merecem patrocínio, neste sentido, o mais justo, seria, talvez, nenhum. A comunidade, ou a avaliação por pares, também resolve muito pouco este dilema já que endossam a tal “expertocracia” que costuma priorizar, sempre, o próprio sistema digestivo.
Todo poeta convicto pede liberdade e alardeará que esta exclusão equivale a uma expulsão do mundo visível. Porque, pelo menos aí, detecta-se uma ditadura, um padrão monológico que, talvez supere, com folga, a tirania da poesia. A hegemonia das mídias culturais trava o debate mudando o registro das coisas decidindo o que é bom ou não por critérios que danam os conteúdos.
O digno de ser publicado — do colunista que merece destaque nas páginas iniciais e manchetes aos privilégios editoriais promíscuos — passa por um turbilhão de interesses, a maior parte deles, alheio à literatura. Assim fica dificil para quem consulta jornais (a mídia eletrônica, a sucessora, segue o mesmo descaminho) ter acesso ao que é produzido, — a esta altura do artigo podemos finalmente classificar — no submundo. Blogs, mídias sociais e alternativas são recursos, vale dizer inglórios, da exaustão contra o solipsismo.
Contra minhas próprias convicções anteriores, sou obrigado, tardiamente, a concordar: as pessoas não escolhem a marginalidade, são guiadas à ela, diligentemente. Isso durará até que os sons periféricos se infiltrem nas cabeças fechadas e destravem, por dentro, os sentidos abafados do mundo de espelhos.
Paulo Rosenbaum

Sobre paulorosenbaum

Paulo Rosenbaum, Médico, Phd. e pós doutor pela USP, poeta e escritor. Roteirista e produtor de documentários foi também editor de revistas científicas no campo da saúde. Com mais de dez livros publicados (medicina e poesia), “Verdade Lançada ao Solo”, publicado pela Record, é seu primeiro romance.