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Anos de psicoanálise. Dezenas de horas em meditação. Contemplação e vida no campo. Fins de semana relaxantes.

As vezes nada ensina tanto quanto uma verdadeira pancada. Um estrondo, uma notícia súbita, uma morte, um carro que desliza, um võo que derrapa, um susto que se toma, uma ameaça consistente, real e concreta, que nos chantageia a vida — pode ser em meio ao mar do marasmo ou dentro da tranquilidade construída.

Estamos todos à merce desta educação pelo susto. E ela não pode ser planejada. Para ela não há carreira, tempo certo, não há sequer previsão.

Ele (o susto) passou a educar desde que não podemos mais chegar à maturidade alguma (nem sonhar com maturidade permanente) através da razão, da reflexão ou de uma consciência programada. O limite para todas as racionalizações dementes está dado pela vida pouco criativa a que somos forçados a viver. Culpemos o meio, ou qualquer um.

A resistencia ao meio, tomada pela psiquiatria como comportamento anti-social é nossa única garantia. Se a maioria conseguiu te arrastar às médias posso adiantar: voce fracassou. Não há outra equação possível. Por outro lado, a mera resistência, limitar-se a ela não te garante nada, a não ser que voce se conforme fácil. E não tenho a mínima ideia de qual é saída.

Educar-se é uma tarefa permanente, mas é o excesso de planejamento que corrói a intuição. Ai é que começa o papel dos baques, do imprevisível, do inesperado.

É uma pequena brecha, essa que temos que construir entre nossas consciencias e quem somos. A capacidade de ouvir do inesperado e aprender com ele é um enorme trecho de existência, simplesmente engulido pela educação formal. As aulas de psicologia — se não fossem o que são — deveriam começar no jardim de infância para que as crianças não sejam assombradas pelos fantasmas dos complexos dos pais. Porque isso dura uma vida. Para que dois, em cada tres movimentos respiratórios, não sejam de outros em nós. A aquisição de ares próprios talvez seja a tarefa mais importante, ainda que a menos compreendida pela medicina e pela psicologia.

Fácil? Quem falou isso?

Necessário?

Não, urgente!