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Natureza do tempo

Muitos historiadores já declararam que sempre deparam com a falta de evidencia direta das coisas. No romance o “O sentido de um fim” de Julian Barnes, um pequeno diálogo, aqui ligeiramente modificado, torna-se pertinente:

“–Nada pode substituir a ausencia do testemunho!

–De certa forma não. Mas os historiadores precisam tratar a explicação de um evento dada por um participante, com certo ceticismo. Normalmente, a declaração feita com um olho no futuro é a mais suspeita.

–Se o Sr. acha!

–E estados de espírito podem, muitas vezes, ser inferidos a partir de ações. O tirano raramente envia bilhete manuscrito solicitando a eliminação de um inimigo.”

Como o excerto tenta mostrar, será que a história é, de fato, apenas uma versão escrita pelos vitoriosos com pitacos de lamúria dos derrotados? Isso significa que não há, nem nunca houve um sentido objetivo para conhecer nossas trajetórias? Será que o método…

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“O Primeiro Homem”

De Albert Camus, planos e notas manuscritas para o livro “O Primeiro Homem”(datilografados por Francine Camus) achadas na valise dele em 4 de janeiro de 1960:

“Nós, os homens e as mulheres dessa época, neste país, nós nos abraçamos, nos afastamos, tornamos a nos abraçar, enfim nos separamos. Mas durante todo esse tempo não deixamos de nos ajudar mutuamente, a viver com essa maravilhosa cumplicidade daqueles que tiveram que lutar e sofrer juntos. Ah! o amor é isso — o amor por todos”

Natureza do tempo

Natureza do tempo

Muitos historiadores já declararam que sempre deparam com a falta de evidencia direta das coisas. No romance o “O sentido de um fim” de Julian Barnes, um pequeno diálogo, aqui ligeiramente modificado, torna-se pertinente:

“–Nada pode substituir a ausencia do testemunho!

–De certa forma não. Mas os historiadores precisam tratar a explicação de um evento dada por um participante, com certo ceticismo. Normalmente, a declaração feita com um olho no futuro é a mais suspeita.

–Se o Sr. acha!

–E estados de espírito podem, muitas vezes, ser inferidos a partir de ações. O tirano raramente envia bilhete manuscrito solicitando a eliminação de um inimigo.”

Como o excerto tenta mostrar, será que a história é, de fato, apenas uma versão escrita pelos vitoriosos com pitacos de lamúria dos derrotados? Isso significa que não há, nem nunca houve um sentido objetivo para conhecer nossas trajetórias? Será que o método sempre amputará – talvez método implique nisso — parte  da realidade e analise só o que lhe convém?

Se a história não é neutra, como confiar em qualquer relato, narrativa ou conhecimento? Afinal, se a história, como ciência das humanidades, é um procedimento científico, deve haver como aferir se o que se afirma de um periodo corresponde ou não à veromelhança. (o máximo que podemos aspirar em relação à verdade).

Nossa sorte é contarmos com contextos e efeitos. Efeitos são os registros dos impactos – estes mais ou menos confiáveis – para detectar se os eventos realmente produziram os resultados que deles se afirma.

Há uma patologia comum, da qual parcela significativa da esquerda padece. Para ela e seus soldados acríticos, os desvios serão esquecidos – vale dizer deletados — quando os “resultados sociais” forem melhor conhecidos. Uma bobagem perigosa! Em geral, este é o epicentro da corrosão, o grande argumento que, desde sempre, todos os regimes lançaram mão para justificar abusos e fomentar desejos autoritários.

Este pode ser um dos diagnósticos para a afasia da oposição, que, inerte, assiste aos desmandos e manobras federais. Sim, há motivos de sobra para desconfiar do tom pseudo conciliatório, um dia depois das posses. E como a oposição insinua que não pode – será que não? – ir contra a bonança produzida às custas do descontrole orçamentário, imobiliza-se diante do aberto e imodesto uso da máquina do Estado por parte da administração federal. Sem um pio, como qualquer resistencia espera ser bem sucedida?

 Assim, por uma omissão que têm custado a todos nós a supremacia de uma dinastia, a oposição escolheu dois caminhos, igualmente desastrosos: coçar a cabeça à espera de alguma ideia brilhante ou torcer para que os escandalos sucessivos se convertam em asfixia política.

Poder-se-ia chamar isso de improbidade oposicionista, e o resultado prático já está anunciado: perderam o bonde.

Ainda não perceberam, que mesmo que apareça aquela prova material, uma gravação, um filme, o tal ato de ofício, assinado e rubricado, com firma reconhecida em cartório, o triunfo eleitoral deste regime está, por hora, garantido.

Não é fortuito que muitos ganhadores das últimas eleições sejam ex-oposicionistas que pularam do navio para salvar suas peles e embarcaram na fragata governista, ávida por adesistas, venham de onde vierem.   

Já que, como diz o refrão, está tudo dominado e não há mesmo com quem contar, que tal embarcar na alienação controlada e esquecer um pouco a miséria psíquica da política?

Faz tempo que gente independente da neuropsiquiatria descobriu  que existe uma amnésia benévola, implantada em nós como respiro. Então, na próxima rodada, seja mais generoso, esqueça o método e despache o destino para as merecidas férias.  

Assim vamos aprendendo, solitários, que o tempo é apenas um lugar onde a memória seleciona lembranças como  bem entender.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/01/03/natureza-do-tempo/

O mundo não termina, o mundo nem começou.

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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

Coisas da Política

Hoje às 06h30

O mundo não termina, o mundo nem começou

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum – médico e escritor

Se o fim do ano é um registro que separa o passado do futuro, onde andará o presente? Como responde uma criança ansiosa pelo futuro quando os pais lhe indagam por que ela não aproveita o presente em vez de desejar o amanhã? Em algum momento essa resposta já foi dada:

— É que o presente dura tão pouco!

Ela pode ter razão. O que está, já foi. O que virá nem veremos, ou teremos que imaginar e apostar. O passado apenas parece ser um registro mais fiel, sobretudo mais memorizável. Mas lembramos com seletividade, como nos avisam os biólogos. Temos filtros bem instalados. Somos leitores cheios de ismos, e alguém nos doutrinou na religião, na filosofia, na ideologia política. E o que vimos este ano? Um julgamento que, apesar das pernadas, da gritaria, das falsas analogias, mudou o rumo das coisas. Pela primeira vez na história do pais um embate nos trouxe para bem perto das entranhas do poder. Mais de 150 advogados, intermináveis sessões da Corte e a excessiva espetacularização. Era o palco completo. As penas e a punição importam bem menos do que o simbolismo. Vislumbrou-se ali que, mesmo à revelia, “os mais iguais que os outros” podem estar em pé de igualdade com qualquer um. Que os poderosos são passíveis de penalidades, que ninguém é invulnerável para sempre, que existe uma organização da sociedade civil, que as instituições funcionaram, que há muito por fazer para sairmos da barbárie em que se transformou o manejo da coisa pública. E o mais importante: há mais diversidade política do que sonham nossas filosofias.

Sim, as mesmas guerras. Sim, a velha rotina de massacres non sense. As mesmíssimas cidades sem segurança pública. Os impostos tirados e distribuídos na derrama. Gente que foi embora e gente que chegou. A mesma falta de estadistas, a mesma lenga-lenga dos malandros otários. O mundo é assim, mas, para nossa sorte, sua dinâmica está longe de ser decifrada. Essa é a parte nobre da ignorância sobre como funciona a espantosa Gea. A bola azul rodopia no espaço e não quer nem saber no que vai dar. E isso, senhores, notável exemplo para ser forçado a viver o aqui e agora. Só assim a imanência pode fazer parte da transcendência.

Mas a retrospectiva do período também mostrou que times que sofrem podem se regenerar, que as partículas podem ser aceleradas sem que o mundo rache, que a ciência poderá sair do beco obscuro descobrindo que o segredo de muitas curas está no próprio organismo e que há, felizmente, muito mais saúde que doença. Mas este período mostrou, antes de tudo, falta muito mais do imaginamos para o fim. O mundo não termina, o mundo nem começou.

Nem os esportes nem a atividade profissional nem a vida competitiva podem fazer sentido. E se invertêssemos tudo e valorizássemos mais o empate? Prezar o equilíbrio das forças, ao invés de aplaudir o vencedor e vaiar o derrotado? Nem pensar. Não é espantoso e não se pode culpar ninguém. Tudo isso vem de berço, a base de nossa cultuada educação ocidental. Pode parecer zen demais, mas, e se os governos tivessem a audácia de ser impessoais? De ter a cara de todos e não só a de quem recebe mais votos? E se os políticos formassem coalizações onde todos se fizessem representar e tivessem voz? E se a diversidade fosse não só radicalmente respeitada como tomada como modelo de convívio social? E se as prisões não fossem átrios do submundo, mas lugares para um apartamento social com finalidade reconstitutiva?

Se as escolas não discriminassem, a educação poderia ser esperança no presente e não no futuro do pretérito. Querer vencer, ser o melhor, o primeiro, o mais acessado, o mais bem sucedido e o mais votado não é salvação, é a raiz da patologia. Não, senhor, ninguém precisa se converter à fracassomania, apenas entender que, exauridos, estamos cansados de repetir as mesmas manchetes por meses a fio. Deve haver algum lugar onde a utopia flua fácil e nós, todos nós, possamos ter dias melhores.

Esse lugar já existe, se chama presente mais que perfeito.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/12/27/o-mundo-nao-termina-o-mundo-mal-comecou/

Brasiliana USP publica Obras Completas de Hipócrates

Biblioteca Brasiliana disponibiliza obra de Hipócrates online Publicado em Cultura por Redação em 19 de dezembro de 2012 |  
 
A Biblioteca Brasiliana da USP disponibilizou em seu site a coleção Oeuvres complètes d’Hippocrate, em 10 volumes, de Hipócrates. A obra é uma das coleções mais conhecidas da história da medicina.
O texto de apresentação é de Paulo Rosenbaum, médico, escritor, doutor em Ciências, pós-doutor em Medicina Preventiva e pesquisador associado do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).
O texto e a obra podem ser acessados neste link.
 
http://www5.usp.br/20846/biblioteca-brasiliana-disponibiliza-obra-de-hipocrates-online/

Mais informações: (11) 3091-1154, email brasiliana@usp.br

Ver também na página principal do site da USP

-A Home 04-06-2020

 

 

 

 

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O direito ao sagrado

 

Há um problema sério com a abordagem dos assuntos políticos no Brasil: são sempre os mesmos. Isso tolhe a criatividade dos articulistas e analistas. Na era geral da inconsequência, tudo vai virando uma coisa só. Observem que na guerra das versões, o peso das palavras se emancipou do conteúdo e tudo depende do poder de quem opina. Os argumentos não valem mais, o que conta é o cacife do partido, a força do time, as armas da facção. A verdade é que estamos perdendo a capacidade de análise e entramos de cabeça na guerra de versões. Ficamos reduzidos a um medíocre “contra e a favor”. O julgamento que exaustivamente comentamos já teve tanto o veredito de “político e fruto da mídia golpista” como  “o País está sendo passado a limpo”. Como a verdade é um valor oscilante, o mais provável é que nem um nem…

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O direito ao sagrado

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O direito ao sagrado

 

Há um problema sério com a abordagem dos assuntos políticos no Brasil: são sempre os mesmos. Isso tolhe a criatividade dos articulistas e analistas. Na era geral da inconsequência, tudo vai virando uma coisa só. Observem que na guerra das versões, o peso das palavras se emancipou do conteúdo e tudo depende do poder de quem opina. Os argumentos não valem mais, o que conta é o cacife do partido, a força do time, as armas da facção. A verdade é que estamos perdendo a capacidade de análise e entramos de cabeça na guerra de versões. Ficamos reduzidos a um medíocre “contra e a favor”. O julgamento que exaustivamente comentamos já teve tanto o veredito de “político e fruto da mídia golpista” como  “o País está sendo passado a limpo”. Como a verdade é um valor oscilante, o mais provável é que nem um nem outro.

 

Quem ainda pode aturar mensalão com seus círculos infernais? Sucedido por desmandos e conjuntura excepcional desperdiçada? Estamos carecas de saber que, unha e carne, poder e o mal feito chegaram às vias de fato. As mentiras e a negação sistemática são apenas desdobramentos do caos disparado quando se tenta normatizar o vale-tudo. Por isso mesmo temos que reconhecer, já deu. Se ainda prezamos o presente, nossa reinvindicação deveria ser mudanças profundas no bioma político-cultural.

 

Precisamos de gente que lidere sem se identificar com liderança, humanistas não catedráticos que capturem o que as pessoas sentem, planejadores que entendam o que fazem e legisladores que coloquem as gerações futuras em perspectiva. Não faria nada mal que os intelectuais falassem o não óbvio. Partidos que reconheçam seus erros pelo bem coletivo. Pois enquanto o poder republicano estiver nas mãos de gente que bate no peito e se comporta corporativamente, estamos condenados. Condenados a postergar um comportamento republicano.

 

Não se trata de achar que o passado é melhor que o futuro. Mas também não se trata de viver só pelo futuro. O presente não merece ser mero resíduo, aquilo que sobra do embate entre o que foi e o que será. Se fossemos resumir nossa era: ganhamos agilidade, perdemos espontaneidade, adquirimos instrumentos científicos, perdemos a sabedoria, temos abundancia do comum, nossa carência é do raro, individual e característico de cada um.

 

Estamos sendo esmagados, e entre as façanhas da produção incessante, o abusivo acumulo de matéria e supérfluos. Criamos mais do que podemos consumir, enquanto nosso apetite vira insaciável. Mas não será desta vez que o mundo acabará, ainda que haja muito para moer e muitos moinhos por enfrentar.

 

O que hoje nos aflige coletivamente é a impossibilidade imediata de acesso ao bem estar. Em qualquer de suas versões. Ele teria que ser palpável, mas não conduzido só pela realidade objetiva.

 

Em qual mundo podemos exprimir melhor nossas fragilidades, idiossincrasias, e talentos? No do manifesto comunista? No planeta das lojas de grife? Quem sabe, entrando na competição selvagem, vestindo a camisa da empresa e dando rasteiras por cargos? Nos estádios de futebol, nas livrarias, nos templos? No filme “Cosmópolis”, um magnata yuppie qualquer, gênio das finanças, diante do tédio infinito, passa o dia criando demandas para preencher seu insuportável ócio. O filme pode ser controvertido, mas arranha uma metáfora oportuna. Há um oco extraordinário em nossa civilização, e ao que se saiba, originalmente não nascemos empalhados.

 

No século marcado pelo ressurgimento das religiões e pelo renascimento de uma busca que transcende ideologias políticas, reina um sentimento paradoxal, difícil de assumir: pelo que lutar? Se nem mesmo as tradições podem oferecer respostas, tampouco sabemos se ainda as queremos. Decerto não as mesmas de sempre. Estamos fartos das explicações standard da política, da auto ajuda, do ceticismo e do fanatismo, do conservadorismo e da vanguarda.  Nem a academia nem as artes, acompanham a velocidade da sociedade. A alienação é um consolo, mas está longe de ser uma saída.

 

Que tal reconquistar um direito, que por prurido intelectual ou endurecimento da alma, nunca foi reivindicado? O direito ao sagrado.  

 

Paulo Rosenbaum é médico e escritor.

É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

 

paulorosenbaum.wordpress.com

 

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Há um ano testemunhei imagens de luzes oscilantes no Kotel: vamos encarar as velas de chanuka como uma resistência não a um opositor, não a um mundo perverso, não aos tiranos da vez, não às irrestíveis forças que nos pressionam ao afastamento do si mesmo. Vamos encarar a festa das luzes como um ponto onde as perspectivas se confundem com as expectativas. Sem ingenuidade, com vigor, e, principalmente com a vida entregue ao fogo sagrado: a doce imagem da imanência chamuscada com transcendência. Flambem-se!

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Imanência chamuscada com transcendência

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Há um ano testemunhei imagens de luzes oscilantes no Kotel: vamos encarar as velas de chanuka como uma resistência não a um opositor, não a um mundo perverso, não aos tiranos da vez, não às irrestíveis forças que nos pressionam ao afastamento do si mesmo. Vamos encarar a festa das luzes como um ponto onde as perspectivas se confundem com as expectativas. Sem ingenuidade, com vigor, e, principalmente com a vida entregue ao fogo sagrado: a doce imagem da imanência chamuscada com transcendência. Flambem-se!