Natureza do tempo

Muitos historiadores já declararam que sempre deparam com a falta de evidencia direta das coisas. No romance o “O sentido de um fim” de Julian Barnes, um pequeno diálogo, aqui ligeiramente modificado, torna-se pertinente:

“–Nada pode substituir a ausencia do testemunho!

–De certa forma não. Mas os historiadores precisam tratar a explicação de um evento dada por um participante, com certo ceticismo. Normalmente, a declaração feita com um olho no futuro é a mais suspeita.

–Se o Sr. acha!

–E estados de espírito podem, muitas vezes, ser inferidos a partir de ações. O tirano raramente envia bilhete manuscrito solicitando a eliminação de um inimigo.”

Como o excerto tenta mostrar, será que a história é, de fato, apenas uma versão escrita pelos vitoriosos com pitacos de lamúria dos derrotados? Isso significa que não há, nem nunca houve um sentido objetivo para conhecer nossas trajetórias? Será que o método sempre amputará – talvez método implique nisso — parte  da realidade e analise só o que lhe convém?

Se a história não é neutra, como confiar em qualquer relato, narrativa ou conhecimento? Afinal, se a história, como ciência das humanidades, é um procedimento científico, deve haver como aferir se o que se afirma de um periodo corresponde ou não à veromelhança. (o máximo que podemos aspirar em relação à verdade).

Nossa sorte é contarmos com contextos e efeitos. Efeitos são os registros dos impactos – estes mais ou menos confiáveis – para detectar se os eventos realmente produziram os resultados que deles se afirma.

Há uma patologia comum, da qual parcela significativa da esquerda padece. Para ela e seus soldados acríticos, os desvios serão esquecidos – vale dizer deletados — quando os “resultados sociais” forem melhor conhecidos. Uma bobagem perigosa! Em geral, este é o epicentro da corrosão, o grande argumento que, desde sempre, todos os regimes lançaram mão para justificar abusos e fomentar desejos autoritários.

Este pode ser um dos diagnósticos para a afasia da oposição, que, inerte, assiste aos desmandos e manobras federais. Sim, há motivos de sobra para desconfiar do tom pseudo conciliatório, um dia depois das posses. E como a oposição insinua que não pode – será que não? – ir contra a bonança produzida às custas do descontrole orçamentário, imobiliza-se diante do aberto e imodesto uso da máquina do Estado por parte da administração federal. Sem um pio, como qualquer resistencia espera ser bem sucedida?

 Assim, por uma omissão que têm custado a todos nós a supremacia de uma dinastia, a oposição escolheu dois caminhos, igualmente desastrosos: coçar a cabeça à espera de alguma ideia brilhante ou torcer para que os escandalos sucessivos se convertam em asfixia política.

Poder-se-ia chamar isso de improbidade oposicionista, e o resultado prático já está anunciado: perderam o bonde.

Ainda não perceberam, que mesmo que apareça aquela prova material, uma gravação, um filme, o tal ato de ofício, assinado e rubricado, com firma reconhecida em cartório, o triunfo eleitoral deste regime está, por hora, garantido.

Não é fortuito que muitos ganhadores das últimas eleições sejam ex-oposicionistas que pularam do navio para salvar suas peles e embarcaram na fragata governista, ávida por adesistas, venham de onde vierem.   

Já que, como diz o refrão, está tudo dominado e não há mesmo com quem contar, que tal embarcar na alienação controlada e esquecer um pouco a miséria psíquica da política?

Faz tempo que gente independente da neuropsiquiatria descobriu  que existe uma amnésia benévola, implantada em nós como respiro. Então, na próxima rodada, seja mais generoso, esqueça o método e despache o destino para as merecidas férias.  

Assim vamos aprendendo, solitários, que o tempo é apenas um lugar onde a memória seleciona lembranças como  bem entender.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/01/03/natureza-do-tempo/