Indução à secessão

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Indução à secessão

Paulo Rosenbaum

Pode ser elucidativo examinar a diferença entre desejar e querer. O querer opera no campo consciente, o desejo se expressa pelo inconsciente. O querer tem alguma objetividade, e o que se expressa ali é efetivamente o que está no reino da vontade dos homens.

Desejo é muito mais complicado. Quando alguém lamenta o ódio político a ponto de o tema se transformar em um caso, compêndio e tratado, correndo o risco de culminar em causa, desconfie de desejo.

Ao afirmar que sempre evitou rancor e o detestar, na verdade o sujeito acaba denunciando sua avidez pela matéria. Internamente mobilizado, está determinado a promovê-lo, implantá-lo e finalmente, talvez, desfrutar do que semeou.

Acusar incessantemente o outro de ódio desvela nossa própria hostilidade. Mas isso não é o pior. Se parte significativa dos nossos impulsos tem motivação inconsciente, o que se pode afirmar dos discursos políticos aos quais temos que nos submeter, cada vez mais, assim que os jogos acabarem? Notem que as ações propositivas estão cada vez mais escassas. Vêm sendo substituídas por culpar a outra metade. É evidente que não pode dar certo.

Todo partido que aspira a hegemonia tem sido um pouco mais pródigo nesta arte do que os outros, mas tem sido prática generalizada por aqui aprofundar a fenda para aguçar o conflito. Escondem mais que escancaram. A realidade subjetiva encontra-se oculta. Articulado atrás das aparências, o objetivo é desqualificar o adversário. Isso nos obriga ao especulativo trabalho de descriptografar o impronunciado. De destrinchar entrelinhas. Não há um brasileiro que não se pergunte “mas o que está por trás disso?”. Nada de paranoia. É apenas a violência de mitômanos. Tudo sempre subliminar, tergiversante, escamoteado. Quem foi que falou em maracutaia? A abundância de aloprados se justifica. Preferem que a coisa volte a dar errado do que perder o pleito. Para depois assumirem a nau desgovernada como salvadores do regaço. Ou partirem para uma oposição como nunca se viu antes na história deste país.

Mas, e o Brasil? Esse não importa muito na medida em que é pauta de uma linha só: o controle da sociedade. O poder nunca foi tão cobiçável e ávido. Por que será?, me pergunto. Fama? Necessidade narcisista de comprovar que “a ideia foi minha?”, de que “só nós fizemos”?, ou apenas a nostalgia por enxergar que estamos enfim chegando a um final patético?

Chegamos a acreditar que parecia mesmo ser o fim de um longo processo que estaria retirando o país da barbárie, dragando o atraso, construindo um espaço civilizado e consistente.
“Manipular sentimentos e arregimentar paixões tornou-se especialidade de muitos”

Hoje, escrever se tornou perigoso. Circulam listas negras. A censura, velada, se faz por outras vias. Sempre foi perigoso, mas em nossos dias se sente na pele. Vejam que até correr por aí se tornou uma ameaça. O suspeito pode estar fugindo do crime que acabou de cometer. Foi o caso do professor quase linchado que teve o infortúnio de fazer jogging perto de onde tinha acabado de acontecer um assalto. O retardo da justiça usado como escusa para tomá-la nas próprias mãos.

É assim que acaba se tornando preferível uma manifestação — indelicada, aberta, deselegante — à linguagem despistadora, cabotina, que oculta significados que precisam de segredo, e por isso não podem ser expressos abertamente.

Não foi inventado por eles, porém hoje é o partido da hegemonia não declarada que insiste em nos impingir desgosto, ameaça e farsa como técnicas de domínio. Nas telas, sulcadas nos papéis, ou em mensagens inusitadas, a presença agressiva se multiplica. Mas não pensem os leitores que estarão livres só com isso. Teremos que aguentar réplicas e tréplicas. Dossiês derramados nas telas. Carranca e voz rouca colocando o dedo em riste sobre nossas caras.

Manipular sentimentos e arregimentar paixões tornou-se especialidade da casa. Um dia no futuro, a indução de uma secessão vai exigir ser periciada. Quem ganha a vida oferecendo instrumentos de propaganda para induzir choques sociais e fomentar a anomia será responsabilizado quando o pior eclodir. Só quem sobreviver verá.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/07/04/inducao-a-secessao-2/

Psicanálise selvagem (Blog Estadão)

Psicanálise selvagem

Paulo Rosenbaum

quinta-feira 03/07/14

Nossa única missão é ganhar. Foi o que disseram. Depois, vieram ameaças. Quem daqui conhece a história do fantasma do Barbosa? A maioria pensava que falavam de uma outra pessoa. Mas não. Era sobre o goleiro. Na véspera de cada partida nos faziam ver o filminho. Histórias do Maracanazo. Aumentavam o volume. Faziam a gente […]

Nossa única missão é ganhar. Foi o que disseram. Depois, vieram ameaças. Quem daqui conhece a história do fantasma do Barbosa? A maioria pensava que falavam de uma outra pessoa. Mas não. Era sobre o goleiro. Na véspera de cada partida nos faziam ver o filminho. Histórias do Maracanazo. Aumentavam o volume. Faziam a gente decorar o grito de guerra “asco, asco, asco, nada de fiasco”. Depois, tortura. Por três dias tivemos que aguentar o silêncio do estádio em 1950. Aquele ruído dos sapatos descendo das arquibancadas. “Vocês querem que isso se repita, hein hein?” Ficavam berrando. Aí mostravam as manchetes: Vergonha. Morte do futebol e sei lá o que mais. E o professor fazia questão de deixar claro: “ganhar ou morrer”. Ele sempre foi do tipo verdade nua e crua: “vitória não é dever, é obrigação”. Se alguém desse um pio ele se saia com “não é por por vocês nem por mim, é pelo amor à Pátria”. Para ele, essa coisa de meio termo não existia. Nem segundo lugar. Nem fazer bonito. Nem perder com dignidade. Começamos a ficar aflitos. Só um teve peito para perguntar: “Mas e daí se perdermos? Isso por acaso é vergonha, professor?” Olhamos todos ao mesmo tempo para ele. Ou o cara era muito ingênuo ou sei lá. Depois disso, o clima degringolou. Bem que eles tentaram aliviar. Passaram vídeos do Garrincha, da seleção de 70. Esses caras eram mágicos, nós não. Ou eles te deprimem ou te humilham? Lá pelas tantas, um figurão da comissão veio falar dos perigos que corríamos se fracassarmos. Horror mesmo foi antes da penúltima partida: “gente graúda, lá de cima, está de olho em vocês. Depois da Copa, vai ter eleição, preciso falar mais?”. Dali em diante, foi ladeira abaixo. Antes do último jogo, o menino começou a tremer, dava para ver que ele já entrava derrubado. Chorava de dar pena. Foi barra pesada. No dia seguinte, de madrugada, lá pelas 2, veio a doutora. Acordaram todo mundo. Só nós e ela na salão. Ela parecia legal. Falou que todo mundo poderia se abrir. Tudo que fosse dito ali, ficaria entre nós. Eu, que já estava mesmo na reserva, criei coragem e perguntei: por que de repente os outros times não têm medo? Ela enrolou, não sabia o que dizer. Ai o goleiro, o reserva do reserva, desabafou: é muita pressão! Ela sentou numa cadeira, pensou um pouco e falou baixinho: “Por que não tentam ser vocês mesmos?. Divirtam-se com a bola. Não dá para levar tudo a ferro e fogo. Não se levem tão a sério. As pessoas criticam porque querem jogos mais alegres. Sentem falta da molecagem, da ginga, do jeito que só a gente têm. Onde isso foi parar? Deve estar aí dentro de cada um. Não pode ter sumido. Se o esquema tático tá matando vocês, a solução é soltar a criatividade” Todo mundo ficou quieto, olhando para ela. Veio aquele click! Olhamos uns para os outros, sem conversa, sem palavras. Até que o moleque levantou a mão: não pode ser como na concentração da Holanda? A gente se sente meio enjaulado. Parece ditadura, manja? Todo mundo riu. A psicóloga só deu um sorriso e se levantou. Ela ia responder quando atendeu o telefone. Saiu rapidinho da sala. Não dá para jurar, mas acho que ela estava chorando. Perto da porta, antes de sair, deu uma piscadinha para o garoto e falou “Pensem. Não vou poder mais ajudar vocês.” Só depois a gente soube, ela tinha sido demitida. O moleque dançou. Estava escalado para jogar. Uma hora antes do jogo vieram falar que ele tinha sofrido distensão muscular. Quem chorou foi cortado. Aí passou dos limites. Fui de quarto em quarto e falei que a gente tinha que se rebelar. Combinei que se a gente ganhar não vai ter essa de erguer a taça em palácio nenhum. Esse cara da Fifa que se vire com a ira do povo. Nada de rampa ou jaburu. Nada de ficar posando para foto. Aplaudiram e pela primeira vez desde que estou internado aqui, respirei direito. O resto vocês já sabem.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/psicanalise-selvagem-do-escrete/

Retóricas sem futuro (Blog Estadão)

Esperem! Haverá evocação de equivalência moral. A omissão será ela mais uma vez, a chancela. Serão chamados de resistência, milicianos, combatentes. O critério de nomenclaturas vêm morrendo. Quem usa terroristas pode ser etiquetado de direita. O que, de forma nenhuma, se contorna é que vivem de horror. Semeiam descontrole. Colhem bem mais do que aram. Serão as justificativas de sempre. O luto de sempre. O catálogo de desculpas. Mortos não reclamam. Cadáveres não advogam. Crianças  executadas não reivindicam. Fala-se muito por elas. Faz-se nada. Olho por olho, vingança e reciprocidade são retóricas sem futuro. O futuro de todos vai sendo caçado. Ninguém percebe? Tudo, menos olhar para a tragédia. Tudo, menos apreender o contexto. Crime execrável, hediondo, sinistro e maléfico. Bárbaro. Mas se querem a realidade: acontecerá de novo e mais outra vez.

Precisa ser tragédia? Dois povos tomaram viver lado a lado como danação? Perderam a capacidade de conversar e, hoje, passaram ao desprezo mútuo. Internados na insanidade. No ancestral metabolismo da matança. Mas existem outras mortes. Menos evidentes. O silencio e a leniência. O condicional. O talvez se. O se vocês tivessem. Ninguém mais quer consolo. Cansei de “meus sentimentos”. Repudio pêsames. Anulem-se condolências. Uma única bandeira.  Sabotar a paz, o único emblema visível. Mas paz não é, nunca será, auto imolação. Nem pedir cabeças. É chegada a hora dos incineradores espalharem as cinzas. De inocentes. De instrumentos. A vida é um objeto.  Matar a sangue frio é dobrar a morte à uma causa. A diplomacia vai de jargão em jargão. Auto restrição. Controle. Afinal é a civilização. Governos constituídos precisam se conter. Menos com estadistas que se acalmam com a naturalização do inconcebível. Com a aceitação do insustentável. Assumo a parcialidade, mas só a miopia voluntária para não notar a enorme diferença entre os dois lados.

Podem persistir na equação de equivalência. Mas não. Inútil. Não foi um holocausto qualquer. A chacina desses garotos revelará bem mais do que gostaríamos de enxergar.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/retoricas-sem-futuro/

 

Invisíveis ao Poder (JB) [coluna vetada]

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Coisas da Política

Hoje às 06h00

Invisíveis ao Poder

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Gosto se discute. Eis que será preciso contestar o velho ditado senso comum de que religião, política e futebol são temas indiscutíveis. Dado nosso contexto, seria possível aceitar pacote de tabus consentidos? Como é que não se discute política? Agindo exatamente como nossos representantes costumam fazer: desqualificar a outra metade. Matam dois coelhos com uma só paulada. Não dialogam sobre o que interessa e contornam a insatisfação crescente da opinião pública. Por quê? 

Porque o que interessa é faturar as eleições, o resto é detalhe. Só se esquecem de que turbinar a animosidade não é bom para ninguém. Este é o caráter do jogo no qual se disputa: ganhe quem ganhar, alguém será transformado em resíduo, sobra, o lado derrotado, a metade perdedora. Destarte, os 49% vencidos somarão, no mínimo, quase metade da população do país. Para desespero de quem aspira ser hegemônico, estes são os fatos. Só um governo civilizado poderia arcar com o ônus que nos aguarda a partir do dia 1 de janeiro de 2015. 

 A metáfora da Copa é pleonasmo, mas vem bem a calhar. Podem se incomodar, mas essa competição esportiva não deixa de ser uma forma de expressão do darwinismo de resultados: alguém precisa perder, morrer, de qualquer forma sumir, para que a evolução prossiga em paz. Só a desrazão faz com que vibremos com disputas. É sob o domínio da afetividade violenta que entramos em férias coletivas. Vamos assumir que é a paixão que assume temporariamente o controle dos corações e mentes. 

Eis um império instável, ciclotímico, e sujeito a guinadas bruscas. Todas estratégias a serem evitadas em campanhas políticas já que o ganho de levar a taça a um custo tão alto gerará – ou já gerou – sérios empecilhos para governar. Vale dizer, governar não é simular administração enquanto se finge que algum estranho pilota. Governar é assumir responsabilidades e propor mudanças que atendam a toda a sociedade, incluindo aqueles que estão rejeitando a administração. 

É preciso interromper o ciclo dos filiados, apadrinhados, subsidiados e patrocinados com dinheiro público, promiscuidade letal para a democracia. Para sair da crise institucional – pode ser branda, mas é evidentemente crítica – é preciso ter a coragem para propor e sustentar uma mentalidade realmente inclusiva.  A outra escolha é a aposta catastrófica de segmentar o país e jogá-lo aos termos da violência e da secessão.       

Numa democracia autenticamente representativa são propostas, apenas elas, que deveriam estar no centro do debate. E, num caminho em que cabe todo mundo, senão, nada feito. Não discutir política é bloquear aquele que seria o único resgate razoável para a palavra “cidadania”. Esse termo bastardizado, maltratado, esvaziado de significado na boca vazia da maioria dos legisladores. Só há cidadania com representação e participação. Porém, a criação de instrumentos oportunistas de inclusão – como os tais conselhos populares – só fazem reforçar a desconfiança da sociedade em relação às intenções de golpear acordos. 

Da tentativa perturbadora de que um único partido obtenha hegemonia para reformar o Estado. Argamassa velha não sustenta reboques, e decerto a sociedade se reunificará contra aventuras.   Antes, haveria de se educar pessoas para escapar da armadilha do carisma populista – todo populismo, de qualquer matiz, direita, esquerda, centro, é de índole totalitária – que só uma mudança significativa nos rumos da educação, que vá para bem além de vagas gratuitas e critérios raciais. Desarmar a sociedade não é retirar o direito de se defender do Estado. Não basta recolher pistolas e rojões das ruas, mas concatenar discurso e atitude, articular diálogo com transparência. Talvez esta seja a chance de recobrar a esperança, isso pode significar nos tornar menos invisíveis ao Poder.  

Treino e castigo (Blog Estadão)

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Treino e Castigo

Paulo Rosenbaum

sexta-feira 27/06/14

Come essa bola! Arrebenta com eles. Mete a boca. Cãibras? Lembra da glória, fama e grana. Ouro no fim do túnel. Teu passe vai dobrar. Eles não entendem. Tem que ter a manha. Levar vantagem. Microfone abriu, fica na sua. Nunca fale em bicho. A gente faz tudo por idealismo. Tudo pela Pátria. Sacou? Estraçalha. […]

Come essa bola! Arrebenta com eles. Mete a boca. Cãibras? Lembra da glória, fama e grana. Ouro no fim do túnel. Teu passe vai dobrar. Eles não entendem. Tem que ter a manha. Levar vantagem. Microfone abriu, fica na sua. Nunca fale em bicho. A gente faz tudo por idealismo. Tudo pela Pátria. Sacou? Estraçalha. Acaba com eles filho. Vê se dá sangue. Poe raça na jogada. Gana, tem que ter gana. Explode o timeco. Está ouvindo lá fora? Essa gritaria? Estão te chamando para o pau. Humilha. Põe para baixo. Mete o pé. Levou uma, dá duas. Deixa vir o instinto. Faz com raiva. Cada disputa é sua vida. É guerra. Matar ou morrer. Ninguém vê nada. Soca quando subir. Entra de sola. Provoca. Cava. Cai na entrada da área. Xinga baixo. Usa a unha. Obrigado filho. Uso a psicologia para ganhar.

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Não era bem isso. Você ferrou com tudo. Era canela. Cotovelo, falei cotovelo. Você sabe o que é solar? Deu errado. É esse campo vigiado. Toco, falei toco. Deu muito na cara. Coisa feia. Muito bruta. Dente é Corte marcial. Acabou para você. Volta sozinho. Vergonha. Honre o espírito esportivo. Quem te falou para ser bicho? Não me conformo. Onde é que você estava com a cabeça? Era só um jogo.

Três garotos (Blog Estadão)

Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe? Pedir perdão. Por que eu pediria desculpas? Por ser adulto.

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Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe? Pedir perdão. Por que eu pediria desculpas? Por ser adulto. Por não ter […]

Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe?

Pedir perdão.

Por que eu pediria desculpas? Por ser adulto. Por não ter feito nada para impedir que as coisas chegassem a esse ponto. Está confuso? Vou explicar.

Sei que pode estar muito frio ou muito calor. Sei do medo e da fome. Como qualquer um que é arrancado dos pais, vocês…

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A fé nasce das zebras (Blog Estadão)

 

 

Ela veio enviesada, rodopiante. Parou no travessão. Tudo parou. As ruas incertas: entupidas ou desertas. A grama não rola. Some o impacto seco do pé contra a bola. Alegria é rede estufada?  O eixo da bola, imóvel. Bicicleta sem aro. Trivela sem ângulo. Peito do pé descalibrado. Engessamos beleza com cascas. Resíduo de estrelas bordadas. Maior do mundo. Melhor do mundo. Mais caro do globo. Narcisismo de estádio. Propaganda de técnicos. Garganta dos narradores. Ex-jogadores, ex-goleiros, ex-gandulas, ex- zagueiros, ex-espectadores. Locução entravada, convocatória, admoestadora. Está comprovado. Somos uma sociedade retrospectiva. Retroativa. A fatura virá na ressaca. São bilhões para milhares. O brilho dos artistas está ilhado. Cercado por cartolas de todos os lados. Sem mágica, os coelhos emigraram. Imolamos a arte com luxo. A esfera, engolida por esquemas táticos. A bola, oprimida. Tragada por quadrados. Destravar a liberdade é parar com tanta frescura. Mandar de bico aos céus. Time era conjunto, equipe, tabela. Não há, nunca houve, time de um só. Casa bem com nossa cena política. Culto à personalidade, messianismo de ocasião, soberba do chefe.  Será o esporte redentor? Distração costuma ser manobra diversionista. As novidades destes jogos estão sendo externas. Laranjas de Amsterdã, riquezas das encostas, caminhos de Santiago, carrossel mexicano e a América que redescobre os pés. Antes que esqueçamos: pagantes não tem culpa. Vaia não é jogral. Arena não é palanque. Melancolia não é pessimismo. Nasce dos desejos arredios. De que desse certo. Da poesia movediça das promessas. Do horizonte indecifrável. Do logo mais. Do que vem depois. Da discrepância entre o que é e o que poderia ter sido. Da deselegância normativa. Da violência naturalizada. Do desprezo institucionalizado. Da abolição da criatividade. Da postergação das regras. Toda euforia é uma prévia do desgosto. Não, não creio. Quando levantarem o circo veremos o tamanho do descampado. Longa quarta de cinzas. Nenhuma redenção virá do futebol. Nem a esperança das urnas. Talvez, de onde menos se espera. Afinal, a fé nasce das zebras.

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Convenção de bastidor (Blog Estadão)

Convenção de bastidor

Paulo Rosenbaum

segunda-feira 23/06/14

    Desce a cortina e fecha essa porta. Deixa entrar só aqueles 50. O que vocês querem me dizer? Vou falar só uma vez: não está acontecendo nada. Tudo dominado. Duvidam? Quais sinais? É foguetório desses pessimistas medíocres. O País parado? Onde? Dá para ver daí? Todo mundo  tomando seu rumo, estádios lotados. Onde […]

 

 

Desce a cortina e fecha essa porta. Deixa entrar só aqueles 50. O que vocês querem me dizer? Vou falar só uma vez: não está acontecendo nada. Tudo dominado. Duvidam? Quais sinais? É foguetório desses pessimistas medíocres. O País parado? Onde? Dá para ver daí? Todo mundo  tomando seu rumo, estádios lotados. Onde é que você viu bagunça? É isso mesmo companheira, a criatura só fica de joelhos diante do seu mentor. [com um dedo faz suave carinho na bochecha dela, que pisca docilmente] Inflação? Estagnação? Ninguém está comprando nada? Mas não pode ser. A fórmula de mercado interno esgotou? Obriguem! João, cria aí o slogan. Pode ser “se não consumir seu saldo vai sumir”. [aplausos] Muito terrorismo? E esse daqui? “compre sem carência, esqueça a inadimplência”. [aplausos] Obrigado. Talento de repentista. A militância não me deixa mentir! [risadas, seguidas de aplausos]. Quem não gostou? Então inventa outra coisa e não torra. Que culpa tenho se enxergam tudo distorcido? Não foi aquele nosso conselheiro quem falou de pessimismo acima do razoável? Esse mesmo, o do milagre. Quem produz está achando que estamos em marcha lenta? Abre esse cofre. O pessoal da economia discorda? Sou eu quem ganha eleições. Nunca precisei de técnica nenhuma, vou na intuição. Agora é jogar o ódio em cima deles. Querem ver como toda essa violência é de mentirinha? Segura a verba e eles murcham. Vão estrilar? Avisa que depois da Copa voltam a receber. Faz o seguinte, promete adicional de periculosidade. Não! Isso não vou admitir. Não tá na hora de prurido ético, nem dessa bobajada toda de legalidade. Vamos nomeando, nomeando, entenderam? Agora já é meio tarde para pular do barco. Deixa comigo a vingança contra quem quiser sair. Lembram? Fazemos hoje para colher depois. Agora é isolar quem critica. A pequena burguesia? Estão bravinhos porque foram expulsos do jogo, carta fora do baralho é sempre problema. Resolvemos isso aumentando a esmola. Sabem o que interessa? Que quem é peso pesado ainda está comendo na nossa mão. Construímos para o futuro. Jornalistas? Vamos espremer, mas na hora certa. Mídia faz a própria barriga. Viu que pegaram um sósia e inventaram tudo? Explorem as gafes, invertam as coisas, como alguém já disse: vamos faturar!. Chegou a hora de detonar esse bando de vagais. [gritos de “fascistas, fascistas”]. Não tem microfone escondido aqui, né? O que acharam do “nunca antes, nestes 500 anos?” [gritos e assobios] Criei ali na hora. E onde já se viu a gente ter que se esconder nos estádios que a gente pagou? Dá para bolar um jeito de parar esse negócio? Tudo bem, elite branca foi mal. Acha outro. Põe a culpa nos argentinos. [assobios e ovação] Pega mal? Chamem nossos filósofos, eles sabem como fazer direitinho. O que acham de “classe média argentada mal agradecida”? Não dá? Sei lá, então encontre outro bode. Eu vi, eu vi que você reverteu. Deu certo, eles ficaram constrangidos. Mandou bem. O pessoal agora tá com pena dela. Explora mais isso. E se fosse um hino? O controle da mídia? Estão falando que é o que? Stalinismo? E se falarmos que é “para que o povo não seja tapeado”? Meio batido? [risadas] Agora dá para calar a boca queridos? Me deixem pensar [silencio absoluto]. Calma. [leva as mãos a cabeça, concentrado] Estou tendo uma daquelas ideias. Escrevam, coloque aí: democracia é povo bem informado. Tira as palavras controle e regulamentação. É isso que está pegando. Vamos fazer como sempre [ele pisca em direção aos membros da executiva] No cartaz coloque “mais mudanças”. Claro, sem explicar nada. Manda fazer uma listinha de quem fala mal. Paredón? Não filho, hoje em dia não dá mais, tá fora de moda. Se os caras ficarem comportadinhos, continuam. Saiu da linha, a gente mete pressão. O de sempre, moita, surdina, louprofaile. Tá acompanhando? Vamos em cima dos veículos. Meteu o pau? É só dizer o seguinte: se esse fulano continuar a escrever isso vamos realocar verbas da publicidade etc e coisa e tal. [aplausos ininterruptos]. É sutil. Só dar a entender. Ameaça sem ameaçar, sacou? Assim que se arrepia os outros. Perfeito! É para isso que você é bem pago. Gostei de ver. [aplausos em pé] Vamos lá, que a moçada tá esperando. [urros indecifráveis]

Três garotos (Blog Estadão)

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Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe? Pedir perdão. Por que eu pediria desculpas? Por ser adulto. Por não ter […]

Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe?

Pedir perdão.

Por que eu pediria desculpas? Por ser adulto. Por não ter feito nada para impedir que as coisas chegassem a esse ponto. Está confuso? Vou explicar.

Sei que pode estar muito frio ou muito calor. Sei do medo e da fome. Como qualquer um que é arrancado dos pais, vocês estão aflitos, descuidados e perdidos. Mas é bom que saibam, vocês não estão órfãos.

Estamos todos aqui, vigília total. E não só rezando, nem pedindo, nem implorando. Estamos naquele estado no qual acreditamos mais ainda numa proteção sobrenatural. Parece maluquice, mas não é sobre isso que queria falar. Queremos que vocês saiam logo daí. Sei que é fácil falar. Mas é preciso que vocês saibam que uma hora dessas vocês sairão da caverna, da toca, do buraco. O destino de todos os cativeiros é a liberdade.

Por isso, preciso contar que quando vocês voltarem, além de cobertores, comida preferida de cada um e roupas frescas, nós vamos nos esforçar como nunca.

Como nunca, porque precisamos reconhecer que nós não fizemos o máximo. Não só por não poder enxergar e proteger vocês, mas, principalmente, por não termos chegado à paz. Sem paz, tudo acaba sendo distorcido, como, por exemplo, eles terem levado vocês para longe de nós.

Não sabemos se eles são uma organização, terroristas ou milicianos. Nem mesmo se são aqueles homens que geralmente vivem disfarçados de gente religiosa para justificar o injustificável.

Não sabemos se eles estão deixando que vocês vejam os jogos, ouçam notícias, ou recebam jornais. O que importa mesmo é não esquecer, nem por um minuto, que vocês estão aqui, conosco, grudados em nossos corações e mentes. E mesmo que o mundo ainda não tenha feito o devido esforço para encontra-los, e que muitos se esqueçam do que está acontecendo, é bom que vocês entendam que a maior parte de nós pensa em vocês, dia e noite.

Já li que o mundo só terá nova cara quando os filhos dos outros tiverem a mesma importância que os nossos. Vejam como é importante não generalizar: saibam que um garoto palestino escreveu e organizou uma petição para que quem levou vocês, entenda que não conta com o apoio dele.

Ele não pertence à vossa etnia, não é da mesma classe social, provavelmente não é nem mesmo dessa região. Sua tribo não poderia ser mais distante. Olhando de longe, talvez até pudesse ser confundido com um inimigo.

Por que fez isso? Por que se arriscou? Por que correu o risco de ser a voz que discorda? Porque sabe o valor da liberdade? Pode ser. Mas arrisco dizer que é porque ele enxerga vocês como iguais, crianças, adolescentes como ele, jovens como ele.

Ele, mais do que os povos contaminados pelo ódio e viciados na guerra, sabem que vocês não tem nenhuma culpa pelo jogo que os adultos escolheram jogar. De algum modo, ele compreendeu que tudo isso é uma grande insanidade. Para ele não importa que a maioria ao seu redor ache natural sequestrar crianças. E por ter compreendido isso talvez ele tenha feito o que milhões deveriam fazer sempre que gente inocente sofre: recusar a loucura. Mesmo aquela que parece sensata para a maioria.

É óbvio que não significa que possamos nos dar ao luxo da ingenuidade. As vezes, para conter os loucos, temos que usar força, pelo menos até que a crise passe. Até que eles não ofereçam mais risco para os outros, nem para eles mesmos.

Ainda assim precisei escrever isso para vocês e explicar: impressionante o número de amigos que aparecem numa hora dessas.

Deixo meu abraço, minha carta, e renovo meu pedido de perdão. Para que vocês saibam que não importa o que estejam fazendo, nem para onde estejam levando vocês: têm muita mais gente aí do que vocês podem enxergar.

Não vai demorar. Muitos outros vão se unir a nós. Muitos outros vão saber. Milhões terão coragem de escrever. Diversas nações e torcidas. Incontáveis gritarão por aí que nenhuma religião, tribo ou País, vai ser capaz de manter para sempre os argumentos que destroem a paz. Fiquem conscientes que vocês hoje a representam. A liberdade de vocês pode significar mais que o alívio do reencontro, pode representar a abolição de maus decretos e prisões. A liberdade de vocês pode movimentar o que está parado há muito tempo.

Posso sentir daqui. Percebo que seus corações estão pesados. Sei que choram, que soluçam, que pedem pelos seus pais. Se há algum bom motivo para que vocês se alegrem? Daqui em diante redobraremos os esforços para que nenhuma criança do mundo sofra pelos erros dos adultos.

Forte abraço e shalom

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Entrevista concedida ao Alexandre Machado na Coluna “Com a palavra, o livro”

 

médico e romancista apresenta sua literatura ligada à temática das tradições

Ele participa da coluna Com a palavra, o livro e divulga seu novo projeto que ainda busca uma editora para publicá-lo

O médico, poeta e romancista Paulo Rosenbaum  teve seu primeiro romance, intitulado “A Verdade Lançada ao Solo”, lançado em 2010. O livro publicado pela editora marcou sua estreia na ficção. A temática é a tradição judaica e o questionamento do lugar do homem na Terra, aplicando judaísmo e filosofia a fatos históricos.

Com a boa repercussão de sua primeira obra de ficção e uma resenha que será publicada em 2015 no “Handbook of Latin American Studies”, uma publicação da Biblioteca do Congresso, Washington, D. C Vol. 60,  ele ganhou uma bolsa literária para escrever em Israel, que resultou em uma experiência única com andanças e contato com autores locais. Lá, buscou capturar o estado das coisas no país. Após escrever o texto, está em busca de uma editora que apoie seu novo projeto e o publique. “É uma discussão sobre a ressignificação da tradição. Como judeu brasileiro tive a vivência de um retorno às raízes, e queria entender melhor minha própria experiência”, diz o médico e escritor em entrevista no De Volta ‘Pra’ Casa.

“Acabei escrevendo uma ficção,  um livro que remete a tradição do primeiro homem, o homem primordial. Conta a tradição talmúdica que os corpos de Adão e Eva estão enterrados na Tumba dos Patriarcas, uma cidade particularmente conflituosa de Israel. Acabei indo para lá e acabei vivendo o clima e descobrindo aspectos únicos e muito curiosos, que marcam aquele lugar, numa das cidades mais antigas da Terra”, conta. Como sugestão para a coluna Com a palavra, o livro, ele deixou duas referências que o marcaram: ‘Jó’, de Joseph Roth e ‘A queda’, de Albert Camus.

Ouça a entrevista completa através do link:

http://culturafm.cmais.com.br/de-volta-pra-casa/o-medico-e-romancista-paulo-rosenbaum-apresenta-sua-literatura-ligada-a-tematica-das-tradicoes