Códigos da paz (blog Estadão)

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Códigos de paz

Paulo Rosenbaum

20 novembro 2015 | 21:08

O que fazer quando se enfrenta um inimigo que rejeita a paz, porque sabe o que ela significa? Segundo Antonio Houaiss em seu “Sugestões para uma política da língua” de 1960, das 3.000 línguas que se falavam no planeta (sem contabilizar os dialetos), 2.800 estavam em crise de existência. No buffer literário estão representadas apenas quarenta destas línguas, e, somente pouco mais de vinte faladas por mais de dez milhões de indivíduos. Entre os complexos conscientes e inconscientes dos homens que regulam a busca pela deposição das armas ou a disposição bellatrix, estão os significados das palavras com suas cargas inatas. Então, como nos entenderemos?

A paz é um ardil, álibi para moderar impulsos, um alimento que ninguém aceitou. O grande significado da paz, ainda ignoto, não pode ser compartilhado. Não é silencio, concórdia, tranquilidade, ou “ai dos vencidos”. O que a paz não traz, as bombas suprem. Para formar tréguas é preciso coexistir senão na língua, na linguagem. O multiculturalismo, que deveria significar distensão e convívio, transformou-se em multisectarismo. Depois de quase oito décadas distantes do fim da segunda guerra mundial, de Paris a Nairobi, de Beirute a Jerusalém, testemunhamos a corrupção dos alfabetos. Vale dizer, uma degeneração dos códigos. Numa corrosão que alcança a cultura, as redes eletrônicas multiplicaram dialetos e tribos. Os países estão inertes e imersos em seus próprios interesses. Os Estados já estão perguntando para seus habitantes: liberdade ou segurança? Muitas democracias, reféns do populismo (mesmo aquele involuntário pois, ao fim e ao cabo, o que vale é voto na urna) estão ficando paralisadas por contradições cada mais complexas.

O gesso que agora imobiliza o continente europeu tem características especiais. O sonho da união vai se configurando pesadelo, pois é preciso bem mais do que liberdade alfandegária e de circulação para fundir princípios, como sugeriu Stephan Zweig em seu texto “Da unidade espiritual da Europa”. Há uma análise mais ousada do que a superficialidade das teorias conspiratórias de Chomsky: o terror pode estar sendo legitimado sob a manipulação política do medo. Os especialistas afirmam ainda que as comunas terroristas ocuparam o lugar de administrações ausentes — sob um modo operacional similar aos morros cariocas e outros bolsões de violência. Numa aparente contradição, enquanto jihadistas queimam infiéis e massacram civis, crianças ou adultos, ao mesmo tempo  subsidiam  tratamentos médicos caros para pessoas doentes e funcionam sob os auspícios das lideranças tribais, que, em troca, lhes dão sustentação moral e  esconderijo em suas casas e lugares públicos em caso de chuva de mísseis. Os grupos terroristas do Daesch ao Hezbollah, do Hamas ao Boko Haram, suprem lacunas do poder. Além disso, analogamente aos vendedores eletrônicos de fé, oferecem uma saída remunerada à transcendência. O ocidente prefere não constatar um outro gap psicológico óbvio: a crise de sentido das sociedades materialistas. A esquerda, por sua vez , desconsidera a “fome de significado” para atribuir toda responsabilidade à marginalização socioeconômica. O apelo pop dos terroristas é evidente. O falecido playboy belga jihadista, em sua Toyota top de linha, já avisava, sorrindo, que enquanto os outros fazem frete com mercadorias, eles arrastam infiéis. Não, não há nada de islâmico em trucidar para purificar. Mas chega ao limite da psicose a negação com que os líderes mundiais tentam ocultar o caráter jihadista que vem inspirando massacres. Incluindo modalidades “produção independente”, como o esfaqueamento de judeus em Israel e a epidemia de franco atiradores pelo mundo. Quando Umberto Eco teve a coragem de nomear o Isis como o “novo nazismo” uma parcela de progressistas pulou das cadeiras para acusar o escritor de parcialismo e reacionário.

As democracias vem quebrando suas regras e princípios para obter, em troca, alguma governabilidade. Foi assim que o crime organizado se avizinhou do terrorismo para, enfim, aglutinarem-se num tandem bélico.  É óbvio que o Ocidente, mesmo ameaçado, não corre o risco que os escatologistas apregoam. Ainda que tempos obscuros estejam de volta, melhor aceita-los do que nega-los. Velhos inimigos precisam superar diferenças e voltar a aceitar que, com um inimigo comum à espreita, a união será inevitável. Assim como assumir que existem inimigos públicos da humanidade e impor-lhes algum código de paz, de preferência, que contenha tolerância e liberdade. Ninguém saira sozinho dessa enrascada e nem mesmo há garantia de que um consenso provisório terá êxito. É sempre importante lembrar que a pulsão de morte que alimenta fanáticos costuma ter curso errático.

 

 

 

 

 

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Inautêntica Liberdade (Blog Estadão)

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Inautêntica liberdade

Paulo Rosenbaum

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13 novembro 2015 | 10:36

Tudo voa e escoa, na leniência, no desgaste moral, na ousadia recolhida. A paz não é, nunca foi clemente. Quem suporta sacrifício, termina na resignação. Chora a compaixão para reboca-la ao céu. É a leniência, cobrando o preço sem parâmetro. Um coro fechou na frase “aceitaremos qualquer coisa”. Ainda obscuro, há algo entre a caretice e o revolucionário. Um hiato que ninguém decifra. Não é o medonho vazio que devemos temer. Nem a aspereza do sem sentido. É essa servilidade, a aceitação incondicional, a passividade mórbida. Eis os monstros insubjugáveis, indomáveis e aflitivos, que nos facultaram o abismo sem precedentes. De que outra forma explicar miríades de mortes evitáveis? Pode ser por lama, ciúmes, ou baionetas urbanas. Acidentes que não são causas naturais. Fatalidades são fatais para os desprotegidos. Nenhuma cartografia é espontânea. Alguém traçou estes mapas. Não é de agora, mas é que o hoje ofende mais. Degrada ao exagero. A política não responde mais aos chamados e a civilidade tem seus limites. Coincidem com os da cidadania vilipendiada. As ruas poderiam, contidos os desperdícios de convocações inúteis, mostrar que só de uma outra forma será possível. A sociedade se transformou, sob o imobilismo em suas formas de representação. E quem não tem medo dos motins? Das aventuras sem controle? Das marchas invasivas? Da violência em espasmos? Mas já não vivemos algo similar? O selvagem já não imprimiu seu ritmo? Quem ainda tolera a cronicidade dos enganos, desmandos e disfarces? Nunca o cinismo encontrou tanto respaldo. Tantas caras sérias, cantores e escritores fazendo estranhas concessões ao arbítrio. Não há mais vexame intelectual em capitular ao autoritarismo instrumental. A remuneração em medalhas. Num governo impensável, a ilegitimidade fermentou o fisiologismo extremo. A noite, ao modo da casa, esparramam seus soldadinhos pelo mundo. Como praga vitalícia, se repetem mundo adentro. Alguém precisa gritar chega. Não podemos mais nos entregar ao oficio da imolação. Ninguém mais implorará nada. Os desterrados estão, de novo, na mira dos covardes. Não aprendemos a lição e estamos levando um quinau. Na trilha das construções destrutivas assistimos o projeto embrionário do tirano. O ilídimo em triunfo. Se há esperança, ela não está acusar outros, mas reconhecer, estamos submetidos a um regime rente à exceção. Findo o espaço para concessões e com as instituições em seus limites operacionais. Nos caminhões ou sob o barro, nas caravanas ou nas casas, nos prédios e nos pátios, só uma chance para que a grande indignação não se esfole no vazio. Mudar o rumo. Parar tudo, até que o acordo leve em conta as vozes travadas pela engenhosa opressão. A mais ardilosa dentre todas, a inautêntica sensação de liberdade.

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Tags: Blog Estadão Rosenbaum, desgaste moral, engenhosa opressão, inautêntica liberdade, Leniência, passividade, sanha totalitária

Retrocesso e Equivalência (Blog Estadão) #AgoraÉQueSãoElas

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Retrocesso e equivalência

Paulo Rosenbaum

08 novembro 2015 | 03:19

retrocessoIII

Mais uma tese arguida, e de novo, predomínio temático. A palavra mais usada na última semana? Retrocesso. Usada como troca de acusação. Troquem progresso por sucesso. Recesso por recuo. Mudem estampas. Mexam nas cores. Rosa e azul, turquesa ou branco. Uma confusão dessas só pode se estabelecer em terreno de ideias colonizadas. Mudamos para uma frequência abertamente iletrada. O antônimo de ideológico chama-se agora confrontação. O oposto de reflexão, contestação. Toda discussão sobre gênero, irrelevante. Manifestem-se ainda que tarde. Invadam sem dó. Vale abolir a autocensura. Divulgar o que der na tampa. Emitir plebiscitos unitários. Enaltecer o monologo. Trata-se da erotização do vale tudo. O grande juri de uma só pessoa. A glamorização da estupidez. O estilo? Sempre livre e direto. Para os cultores das opiniões formadas o que conta é deitar dedo no teclado. O que vale é soltar o verbo. Não ler a fundo, virou virtude. Ocupação formal, coisa para boçal. A arte, um toque decorativo. A cultura, luxo recreativo. Toda penalidade, e suas variações desagradáveis — sanções, prisões, restrições e moralizações — devem ser abolidas. Não há, nunca houve déficit fiscal, pedalada institucional ou acordo nacional. Um estoicismo de resultados foi fumado e bateu. Está levando todas. A regra vai ficando clara, não há regras. A corrupção, ofuscada pela maquiagem. A lei, golpismo disfarçado de justiça. A constituição, uma carta de intenções, mal redigida e sub digerida. Todo processo está sujeito ao avesso da interpretação. O contraditório depende da oratória. E as provas documentais são desatinos acidentais. Afinal, o que é retrocesso? Literalmente? Andar ao arrepio, tornar à vaca fria. Político? Aqui, agora. Analogicamente? Retrocesso é um borracha amnésica, que sempre volta para recusar a devida equivalência entre as pessoas.

Minha contribuição ao #AgoraÉQueSãoElas : um microconto de Lydia Davis extraído de seu “The collected Stories”, um trecho do mestrado de minha esposa, a psicóloga Silvia Fernanda Rosenbaum “Permanência e transformação: a paternidade”, além de uma poesia da estudante de design de moda, atriz e poeta Hanna Rosenbaum.

Insomnia by Lydia Davis

My body aches so —

it must be this heavy bed pressing up against me

*****

Silvia Fernanda Rosenbaum

Os símbolos culturalmente disponíveis, sendo com frequencia contraditórios, têm suas possibilidades metafóricas limitadas pelos conceitos normativos. Estes são prescritivos, afirmando o masculino e o feminino através de dogmas religiosos, educativos, científicos políticos ou jurídicos.

Se tais campos doutrinários podem ter sido – e o são – abertamente contestados, segundo Joan Scott a história posterior é escrita como se estas posições normativas fossem o produto do contexto social e não do conflito. A mitificar o presente – o novo pai — através de uma narrativa sobre um passado consensualmente retrógrado — o velho pai — a hierarquia de gênero atual é obnubilada, apagada, em certo sentido negada. A hierarquia de gênero é coisa do passado. Neste sentido é possível concordar com Lallemand, quando afirma sobre a puericultura francesa: tudo tem que mudar para que tudo fique igual.

*******

Hanna Rosenbaum

Mata que cresce nas artérias,

Tanta flor de cimento,

concreto e argamassa,

não quebra,

não desarma,

edifica mais muralha,

Cada andar uma ferida que seca,

cicatriza por fora,

derrete por dentro,

Barreiras sólidas,

Planejadas a tanto tempo,

E o desejo eterno,

De que um dia,

Algum trator arrebente

*****

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Só as ruas esvaziam palácios (blog Estadão)

Só as ruas esvaziam palácios

Paulo Rosenbaum

30 outubro 2015 | 10:11

RUAS_PALACIOS

A política, depois de percorrer um abismo sobrenatural, desceu ao inacreditável. É com ele que devemos nos acostumar. É um momento no qual toda análise escapa à objetividade. A leitura do quadro atual, saturada, alcançou um lugar comum: tudo é insuportavelmente igual e a contaminação indistinta. Todas as visões confluem à superfície. Principiante ou veterano, tanto faz, qualquer um que se debruce sobre a atmosfera do Brasil atual não consegue ir além dos relatos descritivos, ou das narrativas ideológicas maquiadas de investigação jornalística. E não se pode simplesmente condená-los. É preciso compreender que um quadro assim pediria um outro sistema de notação. Trata-se de um método ainda não inventado. Pois o panorama não é o de um caos comum. Experimentamos uma estranha falta de esperança. Aquela que extingue toda perspectiva, mas que subsiste em nossos corações e mentes. Apesar de toda pancadaria, sobra algum fragmento de credulidade. De que outro modo explicar a naturalidade com que aceitamos a situação depois de tudo que testemunhamos? Estaríamos anestesiados com a intensidade do implausível? A franca espoliação do País nos legou à desvitalização. De colapso em colapso, assistimos a desorganização. Anomia para a qual ninguém apontou solução. Temos que considerar com seriedade a hipótese de que pode não haver uma. As raras respostas se concentraram na saída da crise. E como sair de uma crise construída, que não pode ser alcançada sem a conivência de toda a sociedade? Só que reduzir o dolo a um passivo exclusivo do “outro”, nos coloca sob custódia de um juízo que ninguém domina. Viramos reféns da intolerancia e do maniqueísmo. E, principalmente, sofremos nas mãos de quem domina a ciência do marketing político. A regra do jogo foi erguida, vitalícia, para que ao marchar em falso, migremos sem sair do lugar. Uma educação foi forjada para obter gerações amorfas. Incapazes de sair sem incendiar algum patrimônio. Adestrados para avançar contra inimigos, sempre ao sabor da indicação de alvos pré selecionados. Ninguém por aqui carrega cartazes: “Nossa fome é de renda” nem “Onde está a infraestrutura?” Há muito tempo o sentimentalismo e a paixão se tornaram o padrão para as adesões políticas. A racionalidade,  a análise e a decência são para os que ainda aceitam o contrato social. Esse vale só para o mundo externo. O poder abusa. Usa o belo discurso para gerar uma lógica auto-referente. O resultado desta didática empírica é cunhar uma única moeda, uma única linguagem, num único objetivo: acumular matéria e prover todos os meios para obtê-la. Nas margens dos palácios dos três poderes, e, dentro deles, vigora a lógica do time, da corporação, do alinhamento automático. É bem mais do que um simples Cor X San, Fla-Flu ou Gre-Nal. Estamos submetidos a um regime de fidelidade mórbida. Ou seja, não importa o que aconteça com o País, não interessa a performance, tampouco a eficácia. E nem venha falar de ética. Por favor, não exiba os vídeos que certificam os crimes. Prefiro não ver. São montagens. É a sua interpretação dos fatos. Sua câmera tem lentes compradas. Isso mesmo, são pagas para distorcer a realidade. A realidade? Sou o único com a prerrogativa para classifica-la. Não estamos em Cuba ou Caracas. Estamos num lugar bem mais perigoso: no hiato despersonalizador. Onde oposição e situação combinaram um revezamento baseado na irresponsabilidade. A República é hoje um desmanche suburbano. Onde o poder emana do povo e será exercido à sua revelia. O Estado se virou contra a cidadania. O bom selvagem, convocado desde o Instituto, desceu das arvores para se vingar das elites, enquanto a burguesia arrependida ensaia seu último carnaval de rua. Quem apoia a violência como método, corta a própria carne para defender o opressor. E faz parte desse malabarismo ocultar os nomes impressos nos passaportes. Mágicos  suprapartidários e transnacionais. A adesão acrítica pode ser analisada pelo prisma da ausência de horizonte. Afinal, a inércia também é uma escolha, senão a principal. Na letargia, endossamos a paralisia. Só as ruas esvaziam palácios, porque, as vezes, a única forma de se libertar da insanidade é a convulsão.

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Eternidade do Instante (blog Estadão)

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Eternidade do instante

Paulo Rosenbaum

16 outubro 2015 | 18:35

InstanteXXXXX

Você pode não querer falar no assunto, entrar em negação, debruçar-se sobre o tema ou bloquear quem insiste, mas o fenômeno persiste: só temos a eternidade do instante. Num mundo de passagem para que insistir no conforto das coisas que permanecem? Se ao menos a arte de construir agendas fosse outra. Reparem, não há, nunca houve, nada sólido. Não me refiro ao materialismo, que dura e é solenemente subestimado pelos cultores de soluções políticas mágicas. Ou alguém viu algum inveterado anti capitalista atacar o culto à matéria? As criações mentais dos homens são precárias. Tão frágeis que a história chega a perder o rumo. E bem na nossa frente, não se dão conta da não linearidade do momento. Sim, há um sentido para a história. Imediato, imanente e presente. Fantasie momento como uma espécie de neutrino extraviado. Uma unidade dispersa. Uma partícula que pode ou não se soltar do resto. Efemérides elásticas. Um vestígio que rompe com o antes, e logo se desfaz do depois. Por isso, o agora é único e premente. E, ao contrário da nostalgia, da memória que evoca, e do que foi nossas cansativas colaborações do que é o tempo, o agora é nossa chance de vida provável. Uma chance. Enquanto procrastinadores e antecipados estão condenados a perder, nós viemos para estar. E, se a política é a grande efeméride, deve ser desconstruida a cada letra, a cada segundo. Ela não manda, nem comanda, e não importa o que o se diga, não deve colonizar a existência. Toda fração de tempo merece ser vivida sem que ela determine tudo. Viver por ela é perder a ficção, que, ao mesmo tempo, é a realidade. Os hiper racionalizadores que nos perdoem, mas ainda temos algum chão antes de abrir mão da fantasia. Por isso mesmo o instante é a revelação, a singularidade, a faísca do big bang. É uma expansão sem moldura. Que se negue a constância, desminta-se a rotina. Erga-se o tijolo da descontinuidade. Que o barro seque nos grãos da ampulheta. Numa erosão lancinante, o engano perdura duplo: passado e posteridade. Imaginem universos constituídos por “jás”. Imaginem percursos sequenciais que apagam pegadas. Sem negação ou oposição à eternidade, é que seu tempo não pode ser comandado pela liberdade. Porque dessa eternidade somos súditos passivos, inoperantes, resignados. O mundo da ação exige originalidade e atualização das invenções. Imaginem toda pauta reconstituída com atualidade. Imaginem-se na aventura inaugural do homem. Conceba uma política de esvaziamento. Sonhe com a alienação programada. Abandono das ideologias, conceitos, da toda vida baseada em rastros. Imaginem a vida liberta das arqueologias, das ameaças, dos rumores inquietantes, das promessas invasivas, da democracia aprendiz. Se fôssemos mais homens e mulheres do presente, desprezaríamos ao mesmo tempo o pó, o passado e o futuro. Para quem só consegue enxergar hedonismo será preciso reconfirmar: todo prazer pode estar no viver aqui, já.

Tags: abandono das ideologias, big bang, blog conto de noticia, constância e descontinuidade, estar aqui, eternidade do instante, fração do tempo, imanente, instante, já, materialismo, neutrinos, o que é o tempo?, singularidade

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Geração espontânea e terroristas avulsos (blog Estadão)

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Geração espontânea e terroristas avulsos

Quais as etapas que um sujeito deve percorrer entre entrar em seu veículo, escolher o alvo, acelerar contra este a uma velocidade significativa, abalroar uma ou mais pessoas, descer do veiculo e golpear à faca, adaga, lâmina ou machadinha até acabar com uma vida? Há um terrorismo exposto e um latente prestes a irromper. Quais as chances de que uma epidemia homicida atinja várias mentes sincronizadamente? Pois os cidadãos de Israel tem sido alvo de múltiplos e sistemáticos ataques terroristas. Os fatos, porém, tem sido expostos de uma forma surpreendentemente neutra. Sob as vozes monotônicas e testeiras eletrônicas da mídia televisiva, tem-se a impressão de que os ataques precisam ser naturalizados. Terroristas avulsos surgiriam às dezenas ao modo de geração espontânea. Ações terroristas ex-nihilo se propagam sob a ação de esfaqueadores em transes assassinos. Da forma como nos apresentam os eventos, a impressão é que, subitamente, uma parte dos palestinos e árabes israelenses — os perpetradores dessas ações contra alvos civis inocentes — tiveram, ao mesmo tempo, a mesmíssima inspiração. A sensação quase subliminar que se pode ouvir ao largo das transmissões é ambígua: “um horror”, e ao mesmo tempo “devem ter feito algo para merecer”.

Quem não reconhece que a raiz profunda desta e de outras crises passadas e futuras são os erros políticos recorrentes dos governantes israelenses e palestinos em achar uma solução para a tragédia que se abate sobre os dois povos? O perturbador é que parte significativa da mídia insiste em pulverizar os atos nitidamente terroristas como “sublevação legítima”, “insurgência política”, “resposta à ocupação”e, mais recentemente, o criativo “fúria contra a proibição de fiéis muçulmanos rezar na esplanada das Mesquitas”. A notória má vontade da mídia mundial com Israel e seus habitantes teria origem num antissemitismo latente? A desonestidade intelectual estacionada em acusações irresponsáveis como a de que ali vigora um “regime de apartheid”? Essa latência floresce irrigada a cada mínima gota. É como se um argumento subliminar estivesse a postos para ser sacado contra a mítica pré condenação judaica. Manchetes omissas diárias — sem contar as abertamente judeofobicas dos jornais árabes e iranianos — estampadas nas páginas de jornais terminam inculcando uma percepção completamente distorcida da realidade social e política da região.

Abundam questões territoriais, jurídicas e culturais em permanente disputa, mas quem é curioso ou cultiva um pouco de amor à análise política sabe que Israel é um dos países com maior liberdade religiosa e de gênero em todo o mundo, e, decerto, o mais multicultural entre as nações do oriente médio. E, com todos os defeitos inerentes implicados, uma democracia estável. Pois as pessoas deveriam também saber que o desenvolvimento econômico nos territórios palestinos está entre os maiores registrados na região e não é fortuito que a taxa de escolaridade por lá também seja bastante alta. Não há nada de fortuito ou coincidência mística que o novo ciclo de ataques tenham se iniciado alguns dias depois do discurso do presidente da autoridade palestina Mahmoud Abbas, quando declarou que considerava nulos os “acordos de Oslo”. É sintomático que o anúncio tenha sido feito num momento histórico no qual o relevância do conflito esteja em evidente declínio na agenda dos países ocidentais. Com tópicos quentes como guerra civil na Síria, estado islâmico, Ucrânia e fortes indícios da retomada de uma novíssima guerra fria, o imbróglio palestino-israelense não é mais prioridade para ninguém. Abbas captou a nova realidade e talvez tenha pretendido instrumentalizar uma escalada para recobrar a relevância perdida. Porém, a conclamação ao ódio e à indução ao terror, ainda que cifrada, é um novo e perigoso precedente na escala de equívocos políticos. No reino dos justificacionismos não há, nunca houve, solução para contendas. A busca pela pacificação é provavelmente um dos impulsos mais contra-instintivos em nossa espécie. Quando não existe ninguém realmente pensando em paz, o vazio pode vir como signo de guerra. Oxalá o futuro nos reserve menos lamentos e mais civilização.

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Contragolpe (blog Estadão)

Contragolpe

Paulo Rosenbaum

08 outubro 2015 | 18:39

Contragolpe

–Simplesmente brilhante, se não fosse quem é chamaria de genial.

–Ele é que não gostou nem um pouco.

–Está exilado?

–É o que dizem: discípulo supera o mestre.

–Isso não é ingratidão?

–Desde quando gratidão deve ser obrigação?

— Já soube dos últimos apoios? Gente decente.

–Você não viu o último Ibope?

–Doze pontos e em alta, sabe o que significa?

–Conseguiu virar.

— Fato, virou mesmo.

–Rompeu com o partido e ainda teve a coragem de fazer o rapa. Cortou, demitiu. Despachou os fisiológicos de mala e cuia.

— E ainda assim conseguiu reverter? Como pode? Totalmente inesperado. Não entendo. Se era tão simples, por que ela não gritou independência antes?

–Por que? Está de brincadeira? Você conhece bem esse Partido?

–Se conheço? Credo, já fiz parte.

–Pois é.

–E todos aqueles notáveis que toparam na hora participar do governo interino? Esse foi o verdadeiro milagre. Quem poderia imaginá-la como Estadista?

— Milagre, essa é a palavra, mas foi a sequência toda, a coisa toda.

— Intrigante. Me pergunto como fez tudo isso sozinha? E a outra surpresa então? O discurso foi voltando ao normal, nenhuma maravilha claro, só o normal dela.

–Você foi falando e me veio a luz. A impressão é que ela voltou a pensar. Vai ver que foi depois de escrever a cartinha de renúncia, sei lá um efeito paradoxal.

–Foi ditada?

–Ele, pessoalmente!

–Ouvi dizer que ela rasgou no dia seguinte.

–Na frente dele.

–Quem diria? Depois explodiu e falou tudo na lata, daquele jeitinho delicado dela.

— E Ele?

–Ficou pálido, tentou reagir, foi então que ela chamou a segurança e colocou ele para correr, berrando para não se meter mais com ela.

–Que cena. Você estava na sala?

–Daria tudo para ver. A copeira espalhou a notícia.

–Acho que foi desde lá que a coisa mudou de figura.

–Radical. E os resultados? Em anos, pela primeira vez, consensos, reformas, linha de política externa independente e alinhada com governos sérios, ruptura com ditadores, retomada de diretrizes, pacto pela estabilidade, responsabilidade fiscal.

–Até aquela situação gravíssima do petróleo foi revertida.

— Impressionante.

–Isso foi depois da votação no TSE?

–Acho que não. Aquilo era para ser a pá de cal.

–O enterro

–Foi ali que deve ter caído a ficha.

–Começou no dia em que o TCU rejeitou. Na hora, tentou o papo furado de “variante golpista”, depois aceitou. Parece que então se trancou dois dias, detonou aquela dieta maluca, atacou os chocolates e puff: voltou outra. Acharam que iam interditar quando chamou a cadeia de rádio e pediu desculpas. Foi sincera pela primeira vez desde que entrou para a política. Lembra do que ela falou do marketeiro?

— Não.

— Que ele era tão eficiente, mas tão eficiente que fez todo mundo acreditar nos slogans falsos que criava.

–Espera um pouquinho. Falta um pedaço nessa história. Por favor me faz alguma analise. Do jeito que está não entra na cabeça.

–Se quiser posso arriscar, não vai ser lá essas coisas. Eu te diria o seguinte: ela percebeu que virou escrava do partido. Se no inicio eles só sabotavam de leve, depois o jogo foi ficando aberto e pesado. Ela deve ter tido algum tipo de insight. Resumindo, ela acordou. E não é nada fácil, imagine ser marionete daquele sujeito. A gota água foi sacar: a) ela seria jogada no limbo b) que quando ela caísse fora, ele encarnaria o papel da oposição.

–Foi-se o tempo no qual só principiantes não entendiam o Brasil, hoje em dia nem marmanjões veteranos encaram a tarefa.

–Bom, no caso dela era virar a mesa ou ir ao sacrifício.

–Ela se livrou da peste.

–Peste?

— Peste emocional, vírus da convicção, epidemia de vale tudo, a calamidade que varreu o Brasil.

— Muito estranho. Insisto em culpar o milagre. Como escreveu o o filósofo “só o improvável tem alguma chance de ser possível”

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Licença para odiar (blog Estadão)

Licença para odiar

Paulo Rosenbaum

06 outubro 2015 | 00:52

O que testemunhamos no atual poder moribundo, é, no mínimo, indigno. Quem negará que o partido do governo foi pródigo em plantar a cizânia, instigar a litigância e flertar com a intolerância? Mas é a extrapolação da aversão que merece algum exercício de autocrítica. Hoje, no enterro de um veterano político petista ligado ao poder, houve mais uma incitação ao ódio. Incitação póstuma, desnecessária, primitiva. Compreende-se a indignação, a revolta. Sob a escassez absoluta de soluções justas e duradouras, as pessoas rendem-se ao reino do senso comum. A falta de mediadores minimamente confiáveis aguça a sensação de inutilidade. Somos inúteis num sistema político de duvidosa eficácia. Assim ficamos a mercê dos abusos de poder, dos bullyings do Estado, da impotência imposta por uma interpretação retrógrada de democracia. Sem critérios, sob publicações prematuras, as quais, por exemplo, elevam a pena capital como ideário de solução para a segurança pública, exterminar adversários, massacrar discordantes. Só que doença, morte e sofrimento pessoal não devem fazer parte da civilidade política. Alguns signos precisam manter alguma invulnerabilidade. A força da sociedade está numa união instável contra o governo. As ruas, o último reduto de oposição. O ataque deveria ser direcionado ao poder, e toda objeção focar num programa que antagonizasse os desmandos, e evitasse desperdícios como catarses direcionadas às pessoas.Tomamos diferenças como ameaças, e respondendo ao ameaçador, nos convencemos de que estamos rodeados de inimigos. Eles existem, mas a maior parte só adota outro sistema de compreensão política. Precisamente ai uma armadilha tomou forma, ainda que sob roteiro pré justificado: a licença para odiar. É vital explicitar que descarta-se libelos de amor, paz de convescote e uniões impossíveis. Despreza-se sentimentalismos informais e a neutralidade conivente. A gestão do partido pode ter sido campeã no quesito promotora de conflitos, e, quase com certeza, protagonizou insuperável programa de poder sustentando no fisiologismo e na corrupção. A última, ao contrário do que todos os indícios apontam, apenas um detalhe do planejamento estratégico. A verdadeira novidade esteve na determinação e na furiosa convicção de que tudo precisava ser destruído para que a nova ordem viesse à tona.Outro fenômeno que ainda ocupará tempo de historiadores e psicanalistas é o incrível séquito de apoiadores acríticos, hoje infiltrados em todos os cantos da administração pública, nas redações e naquilo que conhecíamos outrora como centros de saber. Para estes, defender esta gestão tornou-se, então, questão de sobrevivência. Para todos nós, sobrevivência perigosa, uma vez que o poder migrou da acefalia à posse do grande manipulador. Nota-se então o desejo nostálgico que tomou conta dessas mentes. Bom notar que eles não mais militam, apenas precisam justificar-se por terem sustentando o insustentável e racionalizado o incompreensível. E foi por tanto tempo, e sob tantas formas que hoje sussurram intimamente “longe demais, tarde demais, profundo demais para arrependimentos”. E mesmo aqueles veículos midiáticos que receberam e continuam recebendo generosas verbas publicitárias desta administração, vem se afastando da neutralidade suspeita. O poder perdeu a moral e a razão, não necessariamente nessa ordem. Difícil precisar o grande erro estratégico: subestimar as instituições que reputavam subjugadas e rendidas ao sindicalismo de resultados? Pegos de surpresa pelo que um desses ministros definiu como “ingratidão” do povo? Ou simplesmente o mais infantil dos equívocos: terem acreditado nos próprios slogans? Que ninguém se engane quanto a capacidade de regeneração do populismo. A República, reduzida a um instrumento partidário e como toda tendência totalitária, escolheriam terra arrasada ao triunfo de um novo consenso. Portanto, a descrença atual do brasileiro não é bem com a democracia, como parece dar a entender a última pesquisa do tema (Ibope/setembro, 2015). A decepção é, antes, com o que imaginaríamos conquistar ao sair de longa e sombria tutela militar autoritária. Na contramão das teses, a história por aqui acontece como fraude e se repete como mistificação.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/licenca-para-odiar-2/

Tags: blog estadão, conto de notícia, história acontece como fraude, história se repete como mistificação, licença para odiar

Exílio entre nós (Blog Estadão)

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Exílio entre nós

Paulo Rosenbaum

30 setembro 2015 | 13:08

exiliox

Entre nós e o exílio

vigora o deserto,

mirem o planalto,

 o poder tingido

exílio entre nós,

Num desterro cantado

uma sombra, vincada

no sal espesso, trincado

o palácio esvaziado

Nos céus, a justiça flutua,

no cronograma tardio

no senso acrobático do destino

aprisionado pelo poder, desatino

Entre nós, exílio, último gatilho.

Governados pela omissão

Nas marcas adulteradas da democracia

alguma resistência resgataria a missão,

Modular forças, fazer cessar a tirania

Entre nós e o exílio, a corte

Olhar para o futuro é desfolhar o rústico do passado,

é esquecer que tudo está dado

 numa outra unidade de tempo, recomeço esperado

que cada um saiba reparar

o que ainda há para salvar.

Reparo e Perdão (Yom Kippur) (Blog Estadão)

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Reparo e perdão (Yom Kippur)

Paulo Rosenbaum

22 setembro 2015 | 16:27

Perdão como Bordão

Esqueçam simetria. Desfaçam equilíbrios. As balanças hoje podem perder qualquer relevância. Perdão é desrazão. Afinal, qual sentido teria conceder anistia sem reciprocidade? A concessão é irracional. A unilateralidade é enganosa. O bordão chamado perdão é perturbador. É quando nossa insônia precede a gentileza. Quando o humor enfrenta seus decretos. O desafio é lento e violento. Perdão poderia ser um método, uma instância operacionalizada na fraternidade. Antes de desligar, pense no desproporcional esforço para contratar o sentimento oposto. Habitualmente, escolhemos a disputa. Enquanto o ódio é uma meta, a tolerância não recompensa. O perdão nada repara. Há, portanto, um indulto que nos agrega e existem ofícios sem justiça. Por outro lado, precisamos reconhecer o imperdoável. Há uma ofensa contra todos os homens, imitigável. Nesse caso, perdão algum pode revogar o ônus. E o que entendemos de rancor? Para o talmudista devemos aprender com as crianças: “as crianças escolhem ser felizes do que estarem certas”. No repente pouco psicanalítico poderia nos ocorrer esquecer para avançar. Renunciar à pressa dos vereditos. A justiça exige espaço. Nós, pacificação. O perdão não trás quitação, cicatrização, anulação ou redenção. O perdão nos obriga a renunciar às certezas. Trata-se de fenômeno antinatural que confronta as leis da adaptação. Abrir mão dos argumentos é aceitar não julgar. Se a beleza do dia do Perdão nasce desse paradoxo, sua ética perdura pela simplicidade: viva e deixar viver.