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Eternidade do instante

Paulo Rosenbaum

16 outubro 2015 | 18:35

InstanteXXXXX

Você pode não querer falar no assunto, entrar em negação, debruçar-se sobre o tema ou bloquear quem insiste, mas o fenômeno persiste: só temos a eternidade do instante. Num mundo de passagem para que insistir no conforto das coisas que permanecem? Se ao menos a arte de construir agendas fosse outra. Reparem, não há, nunca houve, nada sólido. Não me refiro ao materialismo, que dura e é solenemente subestimado pelos cultores de soluções políticas mágicas. Ou alguém viu algum inveterado anti capitalista atacar o culto à matéria? As criações mentais dos homens são precárias. Tão frágeis que a história chega a perder o rumo. E bem na nossa frente, não se dão conta da não linearidade do momento. Sim, há um sentido para a história. Imediato, imanente e presente. Fantasie momento como uma espécie de neutrino extraviado. Uma unidade dispersa. Uma partícula que pode ou não se soltar do resto. Efemérides elásticas. Um vestígio que rompe com o antes, e logo se desfaz do depois. Por isso, o agora é único e premente. E, ao contrário da nostalgia, da memória que evoca, e do que foi nossas cansativas colaborações do que é o tempo, o agora é nossa chance de vida provável. Uma chance. Enquanto procrastinadores e antecipados estão condenados a perder, nós viemos para estar. E, se a política é a grande efeméride, deve ser desconstruida a cada letra, a cada segundo. Ela não manda, nem comanda, e não importa o que o se diga, não deve colonizar a existência. Toda fração de tempo merece ser vivida sem que ela determine tudo. Viver por ela é perder a ficção, que, ao mesmo tempo, é a realidade. Os hiper racionalizadores que nos perdoem, mas ainda temos algum chão antes de abrir mão da fantasia. Por isso mesmo o instante é a revelação, a singularidade, a faísca do big bang. É uma expansão sem moldura. Que se negue a constância, desminta-se a rotina. Erga-se o tijolo da descontinuidade. Que o barro seque nos grãos da ampulheta. Numa erosão lancinante, o engano perdura duplo: passado e posteridade. Imaginem universos constituídos por “jás”. Imaginem percursos sequenciais que apagam pegadas. Sem negação ou oposição à eternidade, é que seu tempo não pode ser comandado pela liberdade. Porque dessa eternidade somos súditos passivos, inoperantes, resignados. O mundo da ação exige originalidade e atualização das invenções. Imaginem toda pauta reconstituída com atualidade. Imaginem-se na aventura inaugural do homem. Conceba uma política de esvaziamento. Sonhe com a alienação programada. Abandono das ideologias, conceitos, da toda vida baseada em rastros. Imaginem a vida liberta das arqueologias, das ameaças, dos rumores inquietantes, das promessas invasivas, da democracia aprendiz. Se fôssemos mais homens e mulheres do presente, desprezaríamos ao mesmo tempo o pó, o passado e o futuro. Para quem só consegue enxergar hedonismo será preciso reconfirmar: todo prazer pode estar no viver aqui, já.

Tags: abandono das ideologias, big bang, blog conto de noticia, constância e descontinuidade, estar aqui, eternidade do instante, fração do tempo, imanente, instante, já, materialismo, neutrinos, o que é o tempo?, singularidade

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