Sobre a resistência da Laje (blog Estadão)

 

Sobre a resistência da laje

Paulo Rosenbaum

13 janeiro 2016 | 13:27

Leio colunistas que torcem a pena para encaixar suas teses sobre o problema da militância deste governo contra a política de outras nações. Por mais objeções que alguém tenha à política interna de Israel fica patente a particular má vontade com que este País é tratado por este governo. Claro que nada disso indulta a reatividade imatura da chancelaria israelense, a qual, sempre que pode, morde a isca. Mesmo porque, quando se trata de jogo de cena é impossível competir com o partido.

E aqui o simbolismo digno de apreciação: o que os países livres representam para a perspectiva lulopetista de mundo?

É equivocado nomear a atual gestão de antissemita: hábeis e múltiplos dissimuladores se escondem hoje sob o manto do antissionismo de ocasião. Para um governo que prefere ditaduras de corte pseudo marxista e autocracia de aiatolás a uma democracia estável, ninguém pode se espantar quando indisposições artificiais com outros países são criadas por supostas diferenças ideológicas.

O problema central do lulopetismo e de seus apoiadores portanto, é com a liberdade de expressão. E não se pode mais considerar só oportunista o endosso tácito dos intelectuais orgânicos do partido a esta e outras celeumas menores, quase todas destituídas de relevância.

O fato é que as manobras diversionistas protagonizadas pela atual gestão federal para sair das cordas atingiram proporções esotéricas. Precisamos ser intransigentes quando se trata de tentativas de adulterar as regras em pleno andamento da partida. Pois é exatamente isso que o Partido, simulando legalidade, vem fazendo não só com os dispositivos constitucionais, mas principalmente com o abuso com que lida com os recursos públicos. Penaliza o contribuinte para cooptar o apoio cada vez mais caro e escasso. Há quem finja não entender que as coisas caminham assim. O abuso e a manipulação com que o executivo vem operando para inabilitar, limitar, de qualquer forma engessar os outros poderes, ferem muito mais do que as normas operativas com o qual a República conta para não arrastada a um novo ciclo autocrático.

É preciso eliminar os meios termos quando se deseja esclarecer aos cidadãos o que se passa numa República temerária. Neste sentido, é que parece ser vital explicitar a fusão entre o sistema e todas as forças que o apoiam, contra os interesses da sociedade civil. Só assim estaremos preparados para que os sinais não sejam tomados como carapaças e as tergiversações de praxe, como carapuças.

Cabe recapitular. A democracia não é apenas um conjunto de normas fixas, baseadas nas escolhas que sufragam nomes em eleições periódicas e sucessivas. O jogo democrático envolve regulações suplementares, sutis, baseadas no bem comum, direitos e deveres das minorias, mediados por acordos intersubjetivos. A transgressão desses dispositivos, coincide com a linha demarcatória entre Estado democrático de direito e outros regimes autoritários de governo.

É sob essa sobrevida selvagem diária, que este governo, desaprovado pela maior parte da sociedade, finge ignorar o próprio estrangulamento.

As pessoas apenas se enganam quanto a provável origem do desmantelamento. Como toda jovem democracia que não se mobilizou preventivamente contra os agentes da perpetuação, a eficaz blindagem que construíram já atingiu algum grau de irreversibilidade.

Portanto, é razoável especular: de qual horizonte surgiria o defenestramento do mal feito organizado, que, por enquanto, nos administra?

Não virá de Curitiba. Nem das instituições. Muito menos da molecada remunerada que depreda sob demanda. Mesmo que a somatória dos fatores acima possa pressionar o resultado final, quem costuma dar desfecho para uma insustentabilidade política dessa envergadura é um outro fenômeno: autofagia.

O poder, fragmentado por contradições, disputas narcisistas, contravenções pecuniárias, e, sobretudo, preservação de pescoços, se dividirá progressivamente.

Isso, até que os últimos em condições viáveis despachem os demais. É então, que estes mesmos, num penúltimo ato e sem conflitos existenciais, costumam se arremessar sobre o telhado.

Nosso problema é saber se a laje resiste.

PS- Churrasco só amanhã.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/sobre-a-resistencia-da-laje/

 

 

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Poesia de Transição (blog Estadão)

Poesia de transição

Paulo Rosenbaum

09 janeiro 2016 | 1829

Poesia de Transição

“Ao enxergar tua dispersão, uni-me.”, foi o que escrevi para Fernando Pessoa. O título do livro de Mario Sá Carneiro “Dispersão” antecipou a evidência. O estado das coisas nos varre afora. As versões vivem dos simulacros. O momento nos aflige, e, a distração, é quem colide com a objetividade. A perspectiva, substituída por um horizonte nodoso. É preciso dizer que não é auspicioso viver num lugar como esse. O sub-pensamento lidera as pesquisas de opinião. O lugar onde a tirania emula condescendência. E onde o alinhamento automático substituiu a critica. No reino imune dos sindicatos a República perde seus dentes. Estamos num jogo que já terminou. Facínoras construíram a inimputabilidade eterna. Nossa única esperança é a criatividade, a recusa sistemática, a ironia aguda. O sujeito que sobrevive ao que o preside. É o que restou de uma democracia em andrajos? Querem metáforas? Vazar, lambuzar, melar. É o que mais se ouve. Cada uma delas também tem seus desdobramentos simpáticos. Vazar: evasão, invasão, evasivo. Além disso, o escape. O escape através do qual saímos do Estado infantil para um destino incerto. Lambuzar pode ser o fim da língua a deriva. O término do sugador. O dever não é com todos. Que seja ucraniano, paraguaio, ou português. O importante é subir até a cerca. Sair da fronteira hostil. E enxerga-la é, já, ultrapassa-la. Ali reencontraremos a leveza da vida privada. A emancipação do peso que nunca foi nosso. Que os eleitores se enganem. Que os atores se desengajem. Que os subsídios sequem. Que os milhões sejam unidade. Que os deslumbrados se observem. Que os cantores, ouçam. Que os diretores sejam regidos. Que a inversão se consolide por um dia. Por dentro e por fora. Que a vida esteja em desenlace. Que a liberdade transforme os ossos. Que o tronco migre à folha. Que os heróis sumam. Que os acordes ressurjam. Que a poesia de transição substitua-os.

O último baile da pedalada fiscal (blog Estadão)

De longe o Brasil ainda incrementa sua potencia como País de futuro. Futuro do pretérito. Enquanto a maior parte das nações se preocupa em oferecer bem estar aos seus cidadãos — sem idealizações, abundam corruptelas — nosso staff ocupa-se com o que? Doutrinas inúteis, dogmas obsoletos e teorias comprovadamente insustentáveis ecoadas pelo anacronismo militante de boa parte do establishment intelectual. Endosso, que vai se tornando cada vez mais ilegítimo, pois alienado da realidade do País. Mas, de longe, do bem distante, do incomodo ostracismo que voluntaria ou involuntariamente alguém escolhe esconder-se, ficamos cada vez mais sem graça. Perdemo-la especialmente quando, ao nos ver, os habitantes de outras fronteiras abrem os braços para nos perguntar:

—O que aconteceu com vocês?

Resta oferecer os braços de volta, com a expressão precária de que também nós fomos rebaixados à ignorância. Isso remete a uma  trajetória pessoal, quando, durante a ditadura, a família foi “aconselhada” a abandonar o País. Hoje, é outra a natureza do exílio. Quem lutou pela democracia não pode se conformar com o saldo das três últimas gestões desse governo. As anteriores tiveram lá suas mazelas, mas não existe espaço para que alguém ouse compara-las. Tentativas não faltaram, o que faltou foi estabelecer alguma equivalência moral entre as gestões. E qual a diferença essencial? O embate foi habilmente deslocado para conservadores e progressistas. Mero disfarce. O matiz populista é o que fez toda diferença. Essa, a parte óbvia. O que não é evidente, e portanto raramente explicitada, é a inclinação hegemônica do projeto de poder. Negada pelo grupo e subestimada pela oposição e outros analistas políticos, ela avança a despeito de todas as evidências comprometedoras que a envolvem. Não é exaltada porque é exercida numa opacidade à prova de balas. Inspirada num modelo muito próprio, decerto nem chavista nem peronista, trata-se de uma espécie de mutação da malandragem política, um mix de maracutaia baseada em slogans, voluntarismo personalista e narrativas grandiloquentes.

Identifica-se aqueles que escolheram a omissão ou a conivência para “conservar imaculada a coerência”. E quanto aos demais? Continuarão a aceitar o papel de vitimas? A filosofia dominante tornou-se insuficiente, ou comprometida demais, tanto faz, para analisar a gravidade da situação. Que vai muito além da econômica e social. É da natureza da culpa achar que, para fazer alguma frente à injustiça social e aos males do mundo, somos obrigados a aceitar o preço da tragédia. Socializar o atraso não é mesmo tarefa simples. É preciso ir até o fim, forçar o fundo do poço, esquecer qualquer forma de renúncia, desarrumar o que entrava nos eixos e, acima de tudo, ter convicção para forçar teses mitômanas. E ai passar a operar por um lado, como se o milagre fosse auto evidente, e, do outro, culpar a outra metade para imortalizar o conflito encomendado. Vale dizer, a conflagração subsidiada.

Tudo não passaria de especulação se as pessoas não estivessem sendo afetadas pela patologia estoica que acomete a chefe do executivo. Ela e seu grupo,  convictos da predestinação, passam ao largo da opinião pública e, guiados pela improviso, impõem a agenda inepta. E, já que o exílio prolongado perturba a lucidez do exilado, nestes penúltimos dias, o balanço merece a amplitude do otimismo: se dependedessemos das noticias para sobreviver já estaríamos liquidados. Para nossa sorte, a realidade costuma surpreender. O último baile da pedalada fiscal é indício de fim de ciclo. E como o ano, tudo que muda merece comemoração.

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Inversão da República (blog Estadão)

Inversão da República

Paulo Rosenbaum

25 dezembro 2015 | 05:22

Progresso: involuir 20 anos em 13. Retrocesso: modernizar o país. Progresso: desviar dinheiro público para o partido. Retrocesso: penalizar improbidade. Progresso: aparelhar todos os escalões do funcionalismo publico. Retrocesso: aumentar controle de gastos. Progresso: uso de informações privilegiadas para aliados. Retrocesso: meritocracia. Progresso: Riscos públicos na república privada. Retrocesso: Eficiência administrativa. Progresso: distorcer as leis. Retrocesso: poderes independentes. Progresso: aumento do controle sobre as massas. Retrocesso: emancipação das pessoas. Progresso: culto à personalidade e mitificação populista. Retrocesso: democracia participativa. Progresso: demonizar oponentes. Retrocesso: processo dialógico. Progresso: autocracia baseada em consumo. Retrocesso: desenvolvimento baseado em infra estrutura. Progresso Pátria educadora, Retrocesso: País de estudantes.

Progresso: catedráticos militantes Retrocesso: professores críticos. Progresso: não vai ter golpe Retrocesso: leis obedecidas Progresso: poder hegemônico Retrocesso: alternância de poder. Progresso: demonizar a burguesia Retrocesso: pacificar a sociedade. Progresso: transformar velhos talentos em propagandistas do Regime Retrocesso: estimular a leitura. Progresso: status quo Retrocesso: atualização. Progresso: aliança com ditaduras Retrocesso: proximidade com democracias. Progresso: silencio seletivo  Retrocesso: liberdade para a justiça Progresso: chantagem e dossiês. Retrocesso: articulação pelas ideias.

Progresso: cargos políticos Retrocesso: critérios técnicos Progresso: neooligarquias Retrocesso: horizontalização do desenvolvimento Progresso: maniqueísmo instrumental  Retrocesso: ética, solidariedade e equidade Progresso: flexibilidade moral Retrocesso: responsabilidade fiscal.  Progresso: lideranças grandiloquentes  Retrocesso: Estadistas equilibrados. Progresso: infantilização sistemática. Retrocesso: maturidade analítica. Progresso: neutralizar toda oposição. Retrocesso: embates políticos. Progresso: rigidez ideológica. Retrocesso: captação dos novíssimos tempos. Progresso: centralização de impostos Retrocesso: autonomia federativa Progresso: revisionismo da queda do Muro. Retrocesso: atenção ao presente, contemplação do futuro. Progresso: consagração dos mitômanos. Retrocesso: desmistificação dos consagrados. Progresso: anomia. Retrocesso: estabilidade. Progresso: jogo viciado Retrocesso: regras transparentes Progresso: apesar de você. Retrocesso: amanhã há de ser. Progresso: eleição vitalícia irreversível Retrocesso: impeachment!

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O último whats (blog Estadão)

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O último whats

Paulo Rosenbaum

17 dezembro 2015 | 19:13

-Leia isso aqui!

-“Help?”

-Isso, “help!”.

-Chegou quando?

-Meia noite!

-Estranho!

-Quem enviou?

-Sem remetente, sem destinatário.

-Exato, mensagem na garrafa. Milhões receberam.

-A outra chegou um segundo antes!

-“Embargo geral?”

-Essa!

-Por que escreveriam isso?

– Ah, você não imagina?

– Não faço a mínima.

-Eu te listo mil motivos em um minuto.

– Então conta

– Perdemos critério, esvaziamos o bom senso, estamos governados pelo senso comum, a elite sustenta o poder, estamos sob censura, o crime varou a carne, o sistema tolheu as escolhas individuais. A divisão virou guerra. Os dossiês, armas. As discussões, torcidas organizadas. A judicialização, indevida. Carência de justiça devida. Segredos de Estado. Estado democrático sob cerco. Estado com espectro policial. Você ou qualquer um não pediria ajuda?

— Imploraria.

–Foi até discreto, mas assim? Ao cosmos? Para alguém alhures? Ele é um daqueles que ainda acredita no Céu?.

–E você, não?

(silencio intimidador)

– Não?

– Evoco a quinta emenda.

– Isso não vale nada por aqui. Lembra? Aliás, essa Constituinte aqui não sei não.

— Então te digo que no que não acredito: nessa política, na esquerda retrógrada, direita obtusa, centro acéfalo.

— Vejo que você não enxerga mesmo. Não percebeu os símbolos na linguagem? Impedimento, bloqueio, intervenção, sigilo de justiça, controle da mídia, restrição, liminares, prisão domiciliar oficial, arbítrio, mordaça. Ninguém precisa decretar “somos um governo tirânico”, é auto evidente. Se não acredita, faça seu próprio levantamento. Te digo que é por ai.

— Certo, mas o mistério persiste: quem digitou “help”?

– E quem não o faria? É help mesmo! Socorro, acudam, alguém faça qualquer coisa.

– Você está insinuando o que? Uma inteligência artificial? Capaz de perceber a bagunça e ainda gritar “socorro”?

– E por que não? Fenômeno raro, já registrado antes. Assim como existe uma inteligência individual de cada órgão, existe uma espécie de organização autonômica desconhecida, que age à nossa revelia. Só se manifesta em momentos críticos para a humanidade e poucas vezes abaixo do Equador. Transmissões radiofônicas sem origem, impulsos eletromagnéticos que são próximos e ao mesmo tempo não localizáveis, é como se a radiação cósmica de fundo tivesse uma voz, que as vezes até digita.

-Você tá de brincadeira!

– Não brinco com coisa séria!

(Voz celeste embargada: – Céus)

– Você ouviu, ou vai se fingir de surdo.?

-Ouvi, mas tinha acabado de pingar 3 gotas de Rivotril

(voz celeste grave : – I rest my case) (tradutor automático: Para mim, deu)

– Essa eu ouvi.

(ruídos de tremor de dentes)

– To te falando!

(voz celeste : – Fui)

– Olha aqui, o whats voltou.

– Milagre!

– Mas embargaram só no Brasil?

– Parece que sim.

– Arábia Saudita?

– Não. Isso é coisa muito nossa. Em nenhum outro lugar na Terra fariam isso.

– O que não entendo é por que uma Inteligência desse porte pediria nossa ajuda?

– Filho, era uma expressão: torrou, excedeu todos os limites, de saco cheio. Entendeu? Nem Ele aguentou!

– Mas não era brasileiro?

-Se naturalizou argentino, ontem.

-Então é mesmo o fim.

– O País acabou.

(chega uma mensagem de texto paga: – O País nem começou. PS- Podem me acordar se surgirem novidades. PS2- Por via das dúvidas, o novo passaporte é provisório)

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Um golpe chamado democracia(Blog Estadão)

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Um golpe chamado democracia

Paulo Rosenbaum

12 dezembro 2015 | 17:11

 As regras do jogo vão ficando cada vez mais curiosas, e abstratas. O juízo pode não ser justo, a República se torna um partido, e os apoiadores do regime unidos aos  poucos intelectuais equivocados e a maior parte guarnecidos com subsídios federais, podem se dar ao luxo de abandonar toda critica. São dois mundos. O poder, separado da plateia. Como numa ópera intensa, o escândalo dos sopranos amordaça os ouvintes. O sonho dobra-se à calamidade. Normalmente, se você comete um deslize paga pelos erros. Se alguma vez tua musica desafinou, acontece, perderás audiência. Se tua carta é infantil o desgaste será inevitável. Paga-se multa por quitar a divida em atraso. E a inadimplência segue a mesma lógica. Ninguém pode ter a prerrogativa de justificar crimes pela lógica das circunstâncias. Sanções não são perseguições individuais, nem encrenca com a singularidade. Normas civilizam, e minimizam o inevitável desgoverno das complexas sociedades contemporâneas.

Todo juiz é, deveria ser, servo de uma consciência que não lhe pertence, não completamente. Ao nos desviar da educação e troca-la por slogans com as bênçãos do marketing político, sofremos com outros sintomas do atalho equivocado na economia que falece sem espernear. Que declina junto com empregos e renda. Trata-se de um asfixia brutal, ainda que não mecânica. O nem tão gradual declive é derivado de um erro crônico,  calculado mas nunca assumido.  Sem autocrítica, o mal feito continuado é encarado sem drama, como ponto pacifico de um sistema que passou a se considerar acima das leis por estar respaldado por votos.  Tudo isso já seria o bastante, mas há algo bem pior. O estrangulamento dos centros do saber, quando a educação foi sendo substituída por adestramento de militâncias. A decadência de editoras, leitores e, por fim, a agonia do livro são mais que simbólicas. O rebaixamento cultural é um embolo que ejeta a razão para nos inocular estagnação. É o melancólico final de um ciclo de experiências que nos empurravam para um novo e decrescente estatuto da cidadania.

Quem ainda presta atenção à realidade sabe que vivemos um “não é possível” todos os dias. Um apuro por dia com a marca perversa do desprezo pela opinião pública. O fato mais impressionante, dentre todos aos quais assistimos, é a persistência de uma dialética tosca, insuficiente, mal composta. As brigas, incêndios de escolas e vandalismo parlamentar são detalhes. Quem quer contestar a legitimidade de pedir o impedimento de quem foi eleito, precisa antes responder: como quem não foi eleito, mas nomeado por outro poder, pode ter o poder de julgar representantes votados? Foram essas alianças fracas que estornaram o saldo, para decretar um destino imprevisível.

Mas nem sempre destoamos desde o principio. Houve um breve interregno em que algum diálogo era plausível. Não mais. Os tensionamentos voaram para bem além das palavras.  A nova casta de beneficiários do regime são partidários do impasse. Não que as instituições não funcionem, elas só parecem ter perdido a memória de sua função: trazer conforto e segurança para a maioria. Vivemos numa não declarada sociedade de posicionamentos antecipados, onde o argumento anda valendo muito pouco.  Quando desceram ao protocolar para satisfazer o imediatismo de suas convicções desprezaram a democracia. Para quem obstaculiza a constituição, democracia é golpe. Ficamos solitários e sem ninguém. A solidão é um rastilho, o sem ninguém, a pólvora. Restou-nos o nosocomio no qual se transformou uma política coalhada de eleitos mas sem Estadistas.

Uma América ao sul continua retida. Um território que não se reconquista sem mudanças. Pode e deve haver mais de uma porta de emergência. No entanto, todas elas pedem destrancamento corajoso. Mesmo tendo receio de que este não é o caminho ideal, mesmo que os cientistas políticos oscilem, e que mesmo que grupos tentem sabota-lo, ele já é irreversível. É que a ameaça costuma redobrar a determinação. Quando um império desfavorável tenta colocar ferrolhos e liminares no fim do túnel, nós, os reféns da claustrofobia inventada intuímos: é agora ou nunca. Precisamos sair. E sair a pé. E aos milhões. Afinal, domingo parece ter sido feito para isso.

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Impedir e Reparar (blog Estadão)

Impedir e reparar

Paulo Rosenbaum

04 dezembro 2015 | 20:22

Impeach – Accuso, insimulo, positulo, flagite, arcesso, criminis accusatus, delatio, criminis insimulatio. (Latin Dictionary, Thomas Morell, London, 1821)

 

Qual paixão política terá nos impelido à divisão? Para bem além do ódio, uma polaridade de superfície. Disfarçada de debate. O embate inútil entre lados inconsistentes. Precisavam confessar o alívio mútuo pela média universal de má qualidade. Mesmo aqueles corações mudados de véspera: o narcisismo não costuma aceitar análises. Nem autocrítica. É urgente fabricar novíssimas sínteses esclarecedoras. Pois há um lago múltiplo à solta. Mergulhados na opressão, reféns do medo nas cidadelas de impunidade, ali nos escondemos da brutalidade. Venho para te contar: a poesia nega que sucumbirá, nem será ilhada para te dar prazer. Marchará às retinas. Imprimirá sua lã ativa. Imporá sua forma mítica. Espalhará sua tinta nômade pelos suportes, os efêmeros, os líquidos, os portáteis. Manchará todos os torniquetes com laços frouxos. Libertará sons sem voz. A abertura tem poder para comutar rituais em trajetórias. A impaciência mitigará a opressão. O nó será preciso, exímio, equânime. Andaremos, mesmo sem eles, apesar deles, contra eles. O adeus aos chantagistas é multilateral, a inabilidade ampla, a conivência permanente. Hoje, outro ciclo entrou para escapar do controle. Estudantes tem luz própria só quando recusam ser fantoches, enquanto a repressão costuma ricochetear a favor do escândalo. Os dois lados se borram e se anulam. E mesmo se, no ímpeto, repetirmos velhos erros, a esperança ficará invencível. A força, alerta. O presente, íntimo. Esqueçam os cínicos,  bloqueiem os estoicos, observem os pragmáticos. O pessimismo, será marca da prudência, um escudo para brindar. Nosso destino, apontado em oposição à leniência geral. Se a história se recusa um final, usemos seus efeitos. A democracia, que não é amorosa, exige máximos consensos e alguma tolerância. Demanda um tensionamento hermenêutico. Há exceções. Menos quando a carga já se excedeu. Quando a fúria hegemônica do partido se instalou contra todos. Quando a cultura do “vale qualquer coisa” minou a cultura do dialogo. Impedimento pois, é legítima resposta à muralha. Impedir é destituir, gravame, obrigação, inibitivo, profilático, fragoso, dissuasivo. Impedir é reparação de dano. Uma barreira à perpetuidade. É um não. Um atalho à escada intransponível. Resposta ao determinismo populista. Arco reflexo ao litígio entre representante e representado. Golpe? Só contra sintaxes atordoadas e mau uso do bem comum. Contra a existência sem vida e à estatização da cultura. Porém, nada de redenção, apologia, trunfo. Roga-se calma objeção à opressão. Inscrever a liberdade é ofício polifônico. Precisão na marcha. Firme reparação dos danos. A coragem precisa derrotar a ameaça. Quando renunciar é impossível, romper a inércia torna-se vital. Gerar saídas é dever. Mudar, a única coisa que realmente importa.

 

Expropriação do futuro (Blog Estadão)

Fonte: Expropriação do futuro (Blog Estadão)

Expropriação do futuro (Blog Estadão)

Expropriação do futuro

Paulo Rosenbaum

28 novembro 2015 | 23:11

ExpropriaçãoXX

Enquanto o governo federal vive com os “nervos à flor da pele” um contrapensamento persiste: “e quanto a nós, o povo”?  Quando os golpes vem de todos os lados, quem consegue falar de outro assunto? O golpe não é mais aquele que perfura o osso, nem tramas urdidas nos bastidores, é o que nos disseca para descortinar a expropriação do futuro. A maioria dos eleitos destrata quem não pode se defender. Mas há um golpe maior, aquele que ameaça o direito à vida. Ao abandono da saúde pública segue-se o descaso com a segurança pública. Até quando o nociva seita do politicamente correto habilitará o protagonismo de minorias populistas? Submissos à irresponsabilidade o déficit mina a República. Ou alguém enxerga justiça quando a coação modula o mundo? Quando não há mais rigor em nada? Quando milhões estão em prisão domiciliar informal? Sim, precisamos admitir, fora a asfixia do bioma a céu aberto, temos estatísticas de uma tragédia de Paris por dia, 143 assassinatos a cada 24 horas. Descontada a acefalia do poder, há uma gravíssima distorção em curso. Decorrente dela, mas muito mais ampla daquela operada no campo político.  Se não é uma crise do capitalismo, (e não é) testemunhamos um espasmo das sociedades materialistas? Ao menos diagnosticaremos onde é que está o fracasso?  O descarte do valor das tradições, para quem devemos a construção da civilização ocidental ? Ou a falência é o resultado da resignação crônica? Qual foi o ardil que nos impeliu à descrença? Não há Supremo que nos devolva o que nos foi retirado, pois não é mais o País que está sendo roubado: estamos sendo subtraídos dele. Aqui, a ordem dos fatores altera a reflexão. O País policial é espelho de um território sem leis. O Estado totipotente afronta a cidadania. As instituições, por mais sólidas que aparentem, não tem o poder mágico de prescindir dos homens que as compõem. São portanto homens, sem rostos, sem máscaras, sem culto à personalidade, que poderiam fortalece-las. Se o presente é caos anunciado, refaçamos toda trajetória. Se queremos ir além do império dos juízes, se é essencial subjugar o senso comum, exige-se outra espécie de regeneração. Algum valor supra ideológico, republicano, sobretudo generoso, para nos alinhar com um outro futuro. Isso requer mais que impeachment, renuncia, ou reformas para obstar as mudanças climáticas: exigirá a transformação da ordem. Como o imponderável que regula o mundo, a novíssima resposta viria de onde menos se espera. De uma geração que articule outra perspectiva? De gente que entende o bem estar como prioridade máxima? De uma reinserção de valores para bem além do acúmulo de matéria? Uma novíssima pedagogia? Enquanto conservadores e progressistas se filmam num inacabável selfie, outra via deve nascer para consertar as coisas. Já que ninguém pode encomendar uma nova Renascença, nem decretar outra era humanista, poderíamos rezar juntos e correr o risco de ser atendidos.

 

Códigos de paz (blog Estadão)

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Códigos de paz

Paulo Rosenbaum

20 novembro 2015 | 21:08

O que fazer quando se enfrenta um inimigo que rejeita a paz, porque sabe o que ela significa? Segundo Antonio Houaiss em seu “Sugestões para uma política da língua” de 1960, das 3.000 línguas que se falavam no planeta (sem contabilizar os dialetos), 2.800 estavam em crise de existência. No buffer literário estão representadas apenas quarenta destas línguas, e, somente pouco mais de vinte faladas por mais de dez milhões de indivíduos. Entre os complexos conscientes e inconscientes dos homens que regulam a busca pela deposição das armas ou a disposição bellatrix, estão os significados das palavras com suas cargas inatas. Então, como nos entenderemos?

 A paz é um ardil, álibi para moderar impulsos, um alimento que ninguém aceitou. O grande significado da paz, ainda ignoto, não pode ser compartilhado. Não é silencio, concórdia, tranquilidade, ou “ai dos vencidos”. O que a paz não traz, as bombas suprem. Para formar tréguas é preciso coexistir senão na língua, na linguagem. O multiculturalismo, que deveria significar distensão e convívio, transformou-se em multisectarismo. Depois de quase oito décadas distantes do fim da segunda guerra mundial, de Paris a Nairobi, de Beirute a Jerusalém, testemunhamos a corrupção dos alfabetos. Vale dizer, uma degeneração dos códigos. Numa corrosão que alcança a cultura, as redes eletrônicas multiplicaram dialetos e tribos. Os países estão inertes e imersos em seus próprios interesses. Os Estados já estão perguntando para seus habitantes: liberdade ou segurança? Muitas democracias, reféns do populismo (mesmo aquele involuntário pois, ao fim e ao cabo, o que vale é voto na urna) estão ficando paralisadas por contradições cada mais complexas.

 O gesso que agora imobiliza o continente europeu tem características especiais. O sonho da união vai se configurando pesadelo, pois é preciso bem mais do que liberdade alfandegária e de circulação para fundir princípios, como sugeriu Stephan Zweig em seu texto “Da unidade espiritual da Europa”. Há uma análise mais ousada do que a superficialidade das teorias conspiratórias de Chomsky: o terror pode estar sendo legitimado sob a manipulação política do medo. Os especialistas afirmam ainda que as comunas terroristas ocuparam o lugar de administrações ausentes — sob um modo operacional similar aos morros cariocas e outros bolsões de violência. Numa aparente contradição, enquanto jihadistas queimam infiéis e massacram civis, crianças ou adultos, ao mesmo tempo  subsidiam  tratamentos médicos caros para pessoas doentes e funcionam sob os auspícios das lideranças tribais, que, em troca, lhes dão sustentação moral e  esconderijo em suas casas e lugares públicos em caso de chuva de mísseis. Os grupos terroristas do Daesch ao Hezbollah, do Hamas ao Boko Haram, suprem lacunas do poder. Além disso, analogamente aos vendedores eletrônicos de fé, oferecem uma saída remunerada à transcendência. O ocidente prefere não constatar um outro gap psicológico óbvio: a crise de sentido das sociedades materialistas. A esquerda, por sua vez , desconsidera a “fome de significado” para atribuir toda responsabilidade à marginalização socioeconômica. O apelo pop dos terroristas é evidente. O falecido playboy belga jihadista, em sua Toyota top de linha, já avisava, sorrindo, que enquanto os outros fazem frete com mercadorias, eles arrastam infiéis. Não, não há nada de islâmico em trucidar para purificar. Mas chega ao limite da psicose a negação com que os líderes mundiais tentam ocultar o caráter jihadista que vem inspirando massacres. Incluindo modalidades “produção independente”, como o esfaqueamento de judeus em Israel e a epidemia de franco atiradores pelo mundo. Quando Umberto Eco teve a coragem de nomear o Isis como o “novo nazismo” uma parcela de progressistas pulou das cadeiras para acusar o escritor de parcialismo e reacionário.

  As democracias vem quebrando suas regras e princípios para obter, em troca, alguma governabilidade. Foi assim que o crime organizado se avizinhou do terrorismo para, enfim, aglutinarem-se num tandem bélico.  É óbvio que o Ocidente, mesmo ameaçado, não corre o risco que os escatologistas apregoam. Ainda que tempos obscuros estejam de volta, melhor aceita-los do que nega-los. Velhos inimigos precisam superar diferenças e voltar a aceitar que, com um inimigo comum à espreita, a união será inevitável. Assim como assumir que existem inimigos públicos da humanidade e impor-lhes algum código de paz, de preferência, que contenha tolerância e liberdade. Ninguém sairá sozinho dessa enrascada e nem mesmo há garantia de que um consenso provisório terá êxito. É sempre importante lembrar que a pulsão de morte que alimenta fanáticos costuma ter curso errático.

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