Impedir e reparar

Paulo Rosenbaum

04 dezembro 2015 | 20:22

Impeach – Accuso, insimulo, positulo, flagite, arcesso, criminis accusatus, delatio, criminis insimulatio. (Latin Dictionary, Thomas Morell, London, 1821)

 

Qual paixão política terá nos impelido à divisão? Para bem além do ódio, uma polaridade de superfície. Disfarçada de debate. O embate inútil entre lados inconsistentes. Precisavam confessar o alívio mútuo pela média universal de má qualidade. Mesmo aqueles corações mudados de véspera: o narcisismo não costuma aceitar análises. Nem autocrítica. É urgente fabricar novíssimas sínteses esclarecedoras. Pois há um lago múltiplo à solta. Mergulhados na opressão, reféns do medo nas cidadelas de impunidade, ali nos escondemos da brutalidade. Venho para te contar: a poesia nega que sucumbirá, nem será ilhada para te dar prazer. Marchará às retinas. Imprimirá sua lã ativa. Imporá sua forma mítica. Espalhará sua tinta nômade pelos suportes, os efêmeros, os líquidos, os portáteis. Manchará todos os torniquetes com laços frouxos. Libertará sons sem voz. A abertura tem poder para comutar rituais em trajetórias. A impaciência mitigará a opressão. O nó será preciso, exímio, equânime. Andaremos, mesmo sem eles, apesar deles, contra eles. O adeus aos chantagistas é multilateral, a inabilidade ampla, a conivência permanente. Hoje, outro ciclo entrou para escapar do controle. Estudantes tem luz própria só quando recusam ser fantoches, enquanto a repressão costuma ricochetear a favor do escândalo. Os dois lados se borram e se anulam. E mesmo se, no ímpeto, repetirmos velhos erros, a esperança ficará invencível. A força, alerta. O presente, íntimo. Esqueçam os cínicos,  bloqueiem os estoicos, observem os pragmáticos. O pessimismo, será marca da prudência, um escudo para brindar. Nosso destino, apontado em oposição à leniência geral. Se a história se recusa um final, usemos seus efeitos. A democracia, que não é amorosa, exige máximos consensos e alguma tolerância. Demanda um tensionamento hermenêutico. Há exceções. Menos quando a carga já se excedeu. Quando a fúria hegemônica do partido se instalou contra todos. Quando a cultura do “vale qualquer coisa” minou a cultura do dialogo. Impedimento pois, é legítima resposta à muralha. Impedir é destituir, gravame, obrigação, inibitivo, profilático, fragoso, dissuasivo. Impedir é reparação de dano. Uma barreira à perpetuidade. É um não. Um atalho à escada intransponível. Resposta ao determinismo populista. Arco reflexo ao litígio entre representante e representado. Golpe? Só contra sintaxes atordoadas e mau uso do bem comum. Contra a existência sem vida e à estatização da cultura. Porém, nada de redenção, apologia, trunfo. Roga-se calma objeção à opressão. Inscrever a liberdade é ofício polifônico. Precisão na marcha. Firme reparação dos danos. A coragem precisa derrotar a ameaça. Quando renunciar é impossível, romper a inércia torna-se vital. Gerar saídas é dever. Mudar, a única coisa que realmente importa.