De longe o Brasil ainda incrementa sua potencia como País de futuro. Futuro do pretérito. Enquanto a maior parte das nações se preocupa em oferecer bem estar aos seus cidadãos — sem idealizações, abundam corruptelas — nosso staff ocupa-se com o que? Doutrinas inúteis, dogmas obsoletos e teorias comprovadamente insustentáveis ecoadas pelo anacronismo militante de boa parte do establishment intelectual. Endosso, que vai se tornando cada vez mais ilegítimo, pois alienado da realidade do País. Mas, de longe, do bem distante, do incomodo ostracismo que voluntaria ou involuntariamente alguém escolhe esconder-se, ficamos cada vez mais sem graça. Perdemo-la especialmente quando, ao nos ver, os habitantes de outras fronteiras abrem os braços para nos perguntar:

—O que aconteceu com vocês?

Resta oferecer os braços de volta, com a expressão precária de que também nós fomos rebaixados à ignorância. Isso remete a uma  trajetória pessoal, quando, durante a ditadura, a família foi “aconselhada” a abandonar o País. Hoje, é outra a natureza do exílio. Quem lutou pela democracia não pode se conformar com o saldo das três últimas gestões desse governo. As anteriores tiveram lá suas mazelas, mas não existe espaço para que alguém ouse compara-las. Tentativas não faltaram, o que faltou foi estabelecer alguma equivalência moral entre as gestões. E qual a diferença essencial? O embate foi habilmente deslocado para conservadores e progressistas. Mero disfarce. O matiz populista é o que fez toda diferença. Essa, a parte óbvia. O que não é evidente, e portanto raramente explicitada, é a inclinação hegemônica do projeto de poder. Negada pelo grupo e subestimada pela oposição e outros analistas políticos, ela avança a despeito de todas as evidências comprometedoras que a envolvem. Não é exaltada porque é exercida numa opacidade à prova de balas. Inspirada num modelo muito próprio, decerto nem chavista nem peronista, trata-se de uma espécie de mutação da malandragem política, um mix de maracutaia baseada em slogans, voluntarismo personalista e narrativas grandiloquentes.

Identifica-se aqueles que escolheram a omissão ou a conivência para “conservar imaculada a coerência”. E quanto aos demais? Continuarão a aceitar o papel de vitimas? A filosofia dominante tornou-se insuficiente, ou comprometida demais, tanto faz, para analisar a gravidade da situação. Que vai muito além da econômica e social. É da natureza da culpa achar que, para fazer alguma frente à injustiça social e aos males do mundo, somos obrigados a aceitar o preço da tragédia. Socializar o atraso não é mesmo tarefa simples. É preciso ir até o fim, forçar o fundo do poço, esquecer qualquer forma de renúncia, desarrumar o que entrava nos eixos e, acima de tudo, ter convicção para forçar teses mitômanas. E ai passar a operar por um lado, como se o milagre fosse auto evidente, e, do outro, culpar a outra metade para imortalizar o conflito encomendado. Vale dizer, a conflagração subsidiada.

Tudo não passaria de especulação se as pessoas não estivessem sendo afetadas pela patologia estoica que acomete a chefe do executivo. Ela e seu grupo,  convictos da predestinação, passam ao largo da opinião pública e, guiados pela improviso, impõem a agenda inepta. E, já que o exílio prolongado perturba a lucidez do exilado, nestes penúltimos dias, o balanço merece a amplitude do otimismo: se dependedessemos das noticias para sobreviver já estaríamos liquidados. Para nossa sorte, a realidade costuma surpreender. O último baile da pedalada fiscal é indício de fim de ciclo. E como o ano, tudo que muda merece comemoração.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-ultimo-baile-da-pedalada-fiscal/