Brasil sem bula (Estadão)

panelacacoXXpng

Trabalho de analista político não é fácil. Parece até que há toda uma arquitetura forjada para ludibriar os intérpretes. Nos noticiários das últimas semanas foi o  partido governista quem girou a outra volta no parafuso espanado. As forças pró e contra ajuste fiscal, uma espécie de versão dos trópicos de movimentos a favor e contra a austeridade, entraram em choque. O problema é que a democracia vai ficando cada vez refém da propaganda. O marketing político, como prefere ser conhecido, é uma viga bem mais potente do que os comerciais de carreira. Do modo como as eleições e a busca pelo eleitor têm se configurado, o que interessa não é debate, conteúdo, ou consistência: a imagem é tudo. Pois, em última análise, o financiamento dos partidos, principal origem dos desvios, a mais primitiva fonte de corrupção, ocorre para custear as multimilionárias campanhas e benesses associadas ao voto.

Agora, constrangidos por escândalos e pela gestão nociva, clamam por diálogo. Na partilha maniqueísta a tática consiste em embaralhar autores com vítimas. Foi assim que surgiu a obra prima, uma neo versão do lulinha paz e amor:  “tem gente que nos odeia” mas, “nós vamos continuar amando”! No mínimo, uma impressionante contribuição para compreender a natureza dos crimes passionais. Em política, a sinceridade não é constitutiva, só que seriedade é vital. Muito mais urgente do que interlocução insistem em investir na divisão da sociedade. O maquiador geral da nação precisava bolar um jeito de mostrar quão probo é o partido. Numa brevíssima análise do discurso dos programas eleitorais a orientação do marqueteiro não poderia ter sido mais clara: eleger algozes externos e apontar para o inimigo oculto.

Quem é que não sabe que sem o ajuste o País declinará mais rapidamente e mais agudamente? Todos compreenderam que a tríade, política econômica, cosmiatria fiscal criativa e os custos da reeleição — patrocinados pelo maior programa de expropriação de estatais do mundo – foi a responsável pelo sarabulho. A maioria sabe que a sangria — recurso recentemente reabilitado na medicina — não será, neste caso, uma terapêutica curativa. Muitos sabem até o óbvio: numa República o que estrangula o governo hoje, enforcará a população logo adiante.

No programa gratuito o ritual manjado: sob o velho apelo emocional as falas foram, ao mesmo tempo, contra a terceirização, apontando porém um conluio do aliado PMDB com a oposição como verdadeiros articuladores do ajuste fiscal. Todos sabem quem é que precisa desesperadamente de credibilidade internacional.  Ousadia é contagiante. Ainda tiveram tempo de insinuar que eles são a verdadeira oposição “contra tudo que está aí”. Simultaneamente, declarou-se apoio à personagem Dilma enquanto faziam ressalvas ao seu plano de governo. Convictos que ninguém iria detectar o paradoxo, vieram novos ataques: as vicissitudes do País é culpa dos pessimistas, dos retrógrados, da elite, da classe média, do operariado ingrato. Na peça publicitária ainda ouvimos que os condenados que recentemente receberam por parte da direção desagravos em praça pública, serão expulsos. Nunca antes na história deste País a esperteza esteve tão concentrada num só horário nobre. Há quem considere “falta de educação” fazer uso do panelaço enquanto representantes do poder exercitam suas laringes. Difícil julgar falta de educação em meio à corrosão da linguagem como instrumento da verdade.

Uma surpresa pode estar reservada aos políticos. Há na sociedade uma maturidade política difusa rondando, e é uma estupidez inibi-la com as habituais etiquetas depreciativas de tendências políticas. Na verdade, tanto faz. Neste sentido, algo está em deslocamento. Têm cabido ao ministro da fazenda costurar verdadeiros pactos de Estado para além dos mesquinharias partidárias. E, para surpresa geral da nação, por mais oblíquas que sejam as reais motivações, coube ao velho PMDB e ao presidente do Congresso representar a oposição. Vai entender.

Como o Brasil não vem com bula, é fácil confundir o que é tratamento com efeitos colaterais.

Brasil sem bula (Estadão)

panelacacoXXpng

Trabalho de analista político não é fácil. Parece até que há toda uma arquitetura forjada para ludibriar os intérpretes. Nos noticiários das últimas semanas foi o  partido governista quem girou a outra volta no parafuso espanado. As forças pró e contra ajuste fiscal, uma espécie de versão dos trópicos de movimentos a favor e contra a austeridade, entraram em choque. O problema é que a democracia vai ficando cada vez refém da propaganda. O marketing político, como prefere ser conhecido, é uma viga bem mais potente do que os comerciais de carreira. Do modo como as eleições e a busca pelo eleitor têm se configurado, o que interessa não é debate, conteúdo, ou consistência: a imagem é tudo. Pois, em última análise, o financiamento dos partidos, principal origem dos desvios, a mais primitiva fonte de corrupção, ocorre para custear as multimilionárias campanhas e benesses associadas ao voto.

Agora, constrangidos por escândalos e pela gestão nociva, clamam por diálogo. Na partilha maniqueísta a tática consiste em embaralhar autores com vítimas. Foi assim que surgiu a obra prima, uma neo versão do lulinha paz e amor:  “tem gente que nos odeia” mas, “nós vamos continuar amando”! No mínimo, uma impressionante contribuição para compreender a natureza dos crimes passionais. Em política, a sinceridade não é constitutiva, só que seriedade é vital. Muito mais urgente do que interlocução insistem em investir na divisão da sociedade. O maquiador geral da nação precisava bolar um jeito de mostrar quão probo é o partido. Numa brevíssima análise do discurso dos programas eleitorais a orientação do marqueteiro não poderia ter sido mais clara: eleger algozes externos e apontar para o inimigo oculto.

Quem é que não sabe que sem o ajuste o País declinará mais rapidamente e mais agudamente? Todos compreenderam que a tríade, política econômica, cosmiatria fiscal criativa e os custos da reeleição — patrocinados pelo maior programa de expropriação de estatais do mundo – foi a responsável pelo sarabulho. A maioria sabe que a sangria — recurso recentemente reabilitado na medicina — não será, neste caso, uma terapêutica curativa. Muitos sabem até o óbvio: numa República o que estrangula o governo hoje, enforcará a população logo adiante.

No programa gratuito o ritual manjado: sob o velho apelo emocional as falas foram, ao mesmo tempo, contra a terceirização, apontando porém um conluio do aliado PMDB com a oposição como verdadeiros articuladores do ajuste fiscal. Todos sabem quem é que precisa desesperadamente de credibilidade internacional.  Ousadia é contagiante. Ainda tiveram tempo de insinuar que eles são a verdadeira oposição “contra tudo que está aí”. Simultaneamente, declarou-se apoio à personagem Dilma enquanto faziam ressalvas ao seu plano de governo. Convictos que ninguém iria detectar o paradoxo, vieram novos ataques: as vicissitudes do País é culpa dos pessimistas, dos retrógrados, da elite, da classe média, do operariado ingrato. Na peça publicitária ainda ouvimos que os condenados que recentemente receberam por parte da direção desagravos em praça pública, serão expulsos. Nunca antes na história deste País a esperteza esteve tão concentrada num só horário nobre. Há quem considere “falta de educação” fazer uso do panelaço enquanto representantes do poder exercitam suas laringes. Difícil julgar falta de educação em meio à corrosão da linguagem como instrumento da verdade.

Uma surpresa pode estar reservada aos políticos. Há na sociedade uma maturidade política difusa rondando, e é uma estupidez inibi-la com as habituais etiquetas depreciativas de tendências políticas. Na verdade, tanto faz. Neste sentido, algo está em deslocamento. Têm cabido ao ministro da fazenda costurar verdadeiros pactos de Estado para além dos mesquinharias partidárias. E, para surpresa geral da nação, por mais oblíquas que sejam as reais motivações, coube ao velho PMDB e ao presidente do Congresso representar a oposição. Vai entender.

Como o Brasil não vem com bula, é fácil confundir o que é tratamento com efeitos colaterais.

Nossa mãe comum (Estadão)

Mother_ComumXX

Primeiro pense em suas características analógicas: extensa, viva, ativa e acolhedora. Depois, expanda a imaginação: causa, nascença, processão, proveniência, principio, elemento, objeto, razão, respeito, matriz, manancial gênese geradora, sementeira, primum mobile, vera causa, principio fontanal, causa final, teta, embriogenia, embrião, rebento, germe, plúmula, étimo, núcleo, raiz, levantar, engendrar, criar, desbrolhar, induzir, inspirar, criar, influir, motivar, proporcionar, fecundação, infundir.

O próximo passo natural seria tomar maternidade como efeito: parto, rebento, primícias, criatura, sóbole, ceifa, colheita, safra, messe, seara, aroma, derivar, emanar, hereditário, profetício, fontanal, fruto, ninhada, infante, descendentes.

Uma, antecedente constante, a outra, consequência constante. Há uma mãe para além da vida que gera. Mais abrangente, mais dispersa, e muito mais preocupada que as suas, as nossas e as vossas. Há uma mãe que mesmo não sendo mãe, provê acima de todos os limites e para todos os gêneros.

Uma mãe que não é só revivescente e regeneradora. A progenitora que inexaurível, nos nomeia desde o imemorial. A mais multípara dentre todas. Aquela que mais ramifica e cujo terreno não infindo e sem margens, exala a perpetuação.

Uma mãe, cuja obra prima é um produto coletivo e indeterminado. E, dentro da infinidade de pólens erráticos e lençóis freáticos, recicla as gerações subsequentes.

A mãe de todas as mães é só uma natureza negligenciada. A galáxia máxima. A forma gestacional. Cores que mudam e transmigram. Ocupa o mundo sublunar, o uranorama, o cariz do céu.

Tua é a gravidade presente e teu domínio se estende à própria Terra. Às custas de bilhões de anos cresceste e fizeste crescer neste mundo transitório: acaso dos dados ou um plano ignoto? No conjunto de vidas que te povoa, a máxima soma, nosso bioma. E é em teu seio e superfície que, através das gradações progressivas, todos permanecemos.

Tuas filhas e filhos, herdeiros longínquos desse ventre ininterrupto ainda te desconhecem. Te tomam como entidade distante e autônoma. Ainda não notaram a sucessão: as criaturas que cuidam de quem lhes deu origem. Tua natureza amazona e misteriosa, mostra o acabamento e o capricho com que o feminino se ocupa em todos os recantos.

A mãe natureza não tem ciúmes: saúda todas que, como ela, destinam-se a originar e cuidar. Para as mães ativas e aposentadas, vaidosas e hippies, as únicas e as coletivas, as filósofas e as pragmáticas, as que nunca mais veremos, as que já foram e as que estão chegando, as amáveis e as severas, as sozinhas, as que jamais criaram, as que não puderam cuidar, as que se perderam e as que se isolaram, aquelas que nunca conceberam, as que mudaram e aquelas que visitamos hoje.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/mae-comum/

Sabiam, mas não tragaram (Estadão)

Sabiam, mas não tragaram.

Paulo Rosenbaum

12 maio 2015 | 10:04

sabiamXXXXpng

—O plano, perfeito, as circunstâncias, ideais, a resistência, mínima, o apetite, máximo. Então senhores há algum enigma aqui, o que pode ter dado errado?

(batidas de lápis contra mesa de vidro)

—O produto senhor, o produto. Encareceu demais.

-–Mas como é que pode? Então paguem! O que estão esperando? Esvaziem os fundos, torrem as reservas, façam o que for preciso. O que? Por que essa cara?
—É que…deveríamos ter aprendido, não funciona, nunca funcionou.
— Mas como é que você ousa? Que tal pedir desconto? Abatimento? E se for no atacado?

(limpeza de garganta ineficaz) (ruídos indecifráveis, sugestivos de lamentos)

– Não dá. Precisamos aprender com a história chefe.
— Você ouviu isso? O que ele está me dizendo?

(murros secos, seguido de gemido contido)

 

— A realidade companheiro: só a realidade (suspiros) Simplesmente não deu, ninguém pode comprar a sociedade inteira.

Terra Papagallis (Estadão)

Terra Papagallis

Paulo Rosenbaum

21 maio 2015 | 00:58

Pappagallis

Em 1522 um explorador português fez, involuntariamente, uma bizarra nomeação para designar a região que mais tarde conheceríamos como Brasil. O mapa, também conhecido como “mapa do almirante” conservou um elemento premonitório. Bem no centro do registro cartográfico — que apresentava apenas um esboço da região norte  –  estava grafado, “Terra papagallis” ou “Terra dos papagaios”. Mais do que a referencia de um naturalista consciencioso ou de um biólogo medieval, apresentava-se ali um aspecto antecipatório da identidade do País.

Desculpando-me previamente com a família Psittacidae e sua extraordinária capacidade para repetir palavras escutadas. Graças ao órgão fonador análogo às cordas vocais humanas, capacidade de memorizar e desejo de comunicação, estas aves são capazes de reproduzir sons, palavras e, no caso do papagaio de Churchill, discursos e slogans. Estamos retornando às origens da terra dos papagaios. Todos os dias, temos que lidar com cópia de opiniões. Poderia ser só imitar as espetaculares qualidades daqueles pássaros. Mas é muito pior. Impressiona a quantidade de tagarelices, boatos, comentários, opiniões e postagens inúteis e inconsistentes que circulam através dessas janelas digitais.

O que mais chama a atenção em meio à infinidade de absurdos e toneladas de pixels é a veracidade hostil com que muitos apresentam as papagaiadas. Isso é, com certeza absoluta discorrem de “elite branca racista” ao “bolivarianismo continental”, do “complô da imprensa golpista” ao “golpe militar já”, dos “exércitos paralelos” aos “banhos de sangue”, sem esquecer da propaganda contra minorias regionais ou vetar como tabu conservador qualquer discussão sobre a mudança da lei para a idade penal. Em assuntos internacionais o viés é ainda mais perturbador “O Isis, criação dos EUA”, “O 11 de setembro, armação da CIA”, “Israel aplica o apartheid“, e generalizações afins complementam o antiamericanismo associada à incansável militância antissemita.

Evidentemente, extrapolações e fofocas em ritmo viral não são monopólio de direita ou da esquerda. Há até aqueles que vivem disso profissionalmente. As versões circulam soltas, sem gravidade e impunes, apensas ao espaço sem autor definido, na base do pseudônimo, do perfil falso, da malandragem que pode ser incógnita ou assinada, subsidiada ou não. Nas últimas eleições, por exemplo, o governo contou com a ajuda destes instrumentos para ajudar na desconstrução dos outros candidatos.

Muitos, sem entender das áreas que pretendem dissertar, conduzem narrativas de ódio pueril e contagioso, elevando ainda mais a conta da intolerancia, cujo saldo devedor vai aparecendo nas ruas e deve mostrar a fatura no próximos extratos eleitorais. Campeões supremos desses abusos de opinião ainda são os representantes do governo federal. O interminável número de malversação do vernáculo entre ministros de Estado, notas desastrosas, gaguejos, desmentidos e meias verdades servem como demonstrações empíricas.

As viralizações de conteúdos peculiares também podem ser tomadas como outra evidência das reproduções impensadas. Trata-se de uma descuidada substituição de nossas vozes. Ao copiar e colar. Ao passar adiante. Ao compartilhar, sem reflexão ou inspeção do conteúdo, emprestamos nosso discurso. Alugamos nossa opinião sem fiador e, as vezes, emitimos voto favorável para quem rechaçamos. Difamação, calúnia e desconstrução estão ao alcance de qualquer um. Um mal entendido postado não causaria nada sem a legião anônima de compartilhadores.  Sob essa escolta hostil, com a justiça tarda e falha, uma mera opinião pode custar a carreira, a família e, eventualmente, a vida.

Há uma espécie de ecolalia institucional que faz as pessoas repetirem em ritmo automático o que outras dizem. Não se trata somente de não ir checar as fontes, o que já seria bem problemático, mas de assumir para si e promulgar as conclusões de outrem. É a reificação do formador de opinião, agora sem resistência autocritica. É o reino do marketing puro. A oposição aliada, que escolheu a relativização absoluta, também não fica muito atrás. Neste caso, pode ser só um efeito nonsense colateral.

Dito de outro modo, é um contexto que asfixia o pensamento. Esse não é só uma forma lenta de assassinar o diálogo. É a rota mais curta para que a democracia pareça uma ideia inviável e a sociologia da ignorância ou um aventureiro qualquer, reassuma o comando do País.

Terra Papagallis (Estadão)

Terra Papagallis

Paulo Rosenbaum

21 maio 2015 | 00:58

Pappagallis

Em 1522 um explorador português fez, involuntariamente, uma bizarra nomeação para designar a região que mais tarde conheceríamos como Brasil. O mapa, também conhecido como “mapa do almirante” conservou um elemento premonitório. Bem no centro do registro cartográfico — que apresentava apenas um esboço da região norte  –  estava grafado, “Terra papagallis” ou “Terra dos papagaios”. Mais do que a referencia de um naturalista consciencioso ou de um biólogo medieval, apresentava-se ali um aspecto antecipatório da identidade do País.

Desculpando-me previamente com a família Psittacidae e sua extraordinária capacidade para repetir palavras escutadas. Graças ao órgão fonador análogo às cordas vocais humanas, capacidade de memorizar e desejo de comunicação, estas aves são capazes de reproduzir sons, palavras e, no caso do papagaio de Churchill, discursos e slogans. Estamos retornando às origens da terra dos papagaios. Todos os dias, temos que lidar com cópia de opiniões. Poderia ser só imitar as espetaculares qualidades daqueles pássaros. Mas é muito pior. Impressiona a quantidade de tagarelices, boatos, comentários, opiniões e postagens inúteis e inconsistentes que circulam através dessas janelas digitais.

O que mais chama a atenção em meio à infinidade de absurdos e toneladas de pixels é a veracidade hostil com que muitos apresentam as papagaiadas. Isso é, com certeza absoluta discorrem de “elite branca racista” ao “bolivarianismo continental”, do “complô da imprensa golpista” ao “golpe militar já”, dos “exércitos paralelos” aos “banhos de sangue”, sem esquecer da propaganda contra minorias regionais ou vetar como tabu conservador qualquer discussão sobre a mudança da lei para a idade penal. Em assuntos internacionais o viés é ainda mais perturbador “O Isis, criação dos EUA”, “O 11 de setembro, armação da CIA”, “Israel aplica o apartheid“, e generalizações afins complementam o antiamericanismo associada à incansável militância antissemita.

Evidentemente, extrapolações e fofocas em ritmo viral não são monopólio de direita ou da esquerda. Há até aqueles que vivem disso profissionalmente. As versões circulam soltas, sem gravidade e impunes, apensas ao espaço sem autor definido, na base do pseudônimo, do perfil falso, da malandragem que pode ser incógnita ou assinada, subsidiada ou não. Nas últimas eleições, por exemplo, o governo contou com a ajuda destes instrumentos para ajudar na desconstrução dos outros candidatos.

Muitos, sem entender das áreas que pretendem dissertar, conduzem narrativas de ódio pueril e contagioso, elevando ainda mais a conta da intolerancia, cujo saldo devedor vai aparecendo nas ruas e deve mostrar a fatura no próximos extratos eleitorais. Campeões supremos desses abusos de opinião ainda são os representantes do governo federal. O interminável número de malversação do vernáculo entre ministros de Estado, notas desastrosas, gaguejos, desmentidos e meias verdades servem como demonstrações empíricas.

As viralizações de conteúdos peculiares também podem ser tomadas como outra evidência das reproduções impensadas. Trata-se de uma descuidada substituição de nossas vozes. Ao copiar e colar. Ao passar adiante. Ao compartilhar, sem reflexão ou inspeção do conteúdo, emprestamos nosso discurso. Alugamos nossa opinião sem fiador e, as vezes, emitimos voto favorável para quem rechaçamos. Difamação, calúnia e desconstrução estão ao alcance de qualquer um. Um mal entendido postado não causaria nada sem a legião anônima de compartilhadores.  Sob essa escolta hostil, com a justiça tarda e falha, uma mera opinião pode custar a carreira, a família e, eventualmente, a vida.

Há uma espécie de ecolalia institucional que faz as pessoas repetirem em ritmo automático o que outras dizem. Não se trata somente de não ir checar as fontes, o que já seria bem problemático, mas de assumir para si e promulgar as conclusões de outrem. É a reificação do formador de opinião, agora sem resistência autocritica. É o reino do marketing puro. A oposição aliada, que escolheu a relativização absoluta, também não fica muito atrás. Neste caso, pode ser só um efeito nonsense colateral.

Dito de outro modo, é um contexto que asfixia o pensamento. Esse não é só uma forma lenta de assassinar o diálogo. É a rota mais curta para que a democracia pareça uma ideia inviável e a sociologia da ignorância ou um aventureiro qualquer, reassuma o comando do País.

Inadmissível (Estadão)

Inadmissível

Paulo Rosenbaum

22 maio 2015 | 14:44

inadmissível.XXXXpng

Assim que largou a lâmina, o criminoso transformou-se em vitima do sistema e em seu auxilio, vieram os defensores da inocência presumida de réu confesso. Sabe qual é a primeira acepção de vítima no dicionário? Um objeto ou ser vivo destruído ou sacrificado por uma causa ou um objetivo. Mas o conceito de vitima está sendo desmontado pela interpretação ideológica. Logo, parte significativa da mídia escolheu reproduzir frases de um parente compreensivo. Este lamentou pela vítima secundária mas entendeu as motivações da vítima primária.

Agradeço sua entrevista, ela elucidará muito o panorama.

Como assim isso é novo para mim? Não soube? Acabam de conceber, é oficial: no nosso País temos só vítimas, as primárias e as secundárias. Sobraram alguns crimes, mas o grosso não é mais isso. Todo mundo hoje é uma vitima. Aproveitando a ocasião o Sr. poderia explicar o que quis dizer com ” isso é  inadmissível?”

O que ninguém pode aceitar? Perfeito. Permite adiantar para o Sr? Ontem, encontrei um dicionário subjetivo e queria muito submete-lo à sua apreciação. Pode ser? O senhor não tem tempo? Posso ler. É só mesmo um verbete, o ” inadmissível” . Já está na mão. Mais tarde não. Não deu para perceber? O tempo está esgotado. Acho que o senhor não compreendeu bem. Não é meu tempo ou o seu, não há mais tempo para ninguém. Onde o encontrei? Isso importa?  Por que o senhor está correndo? Não tem problema, vou caminhando do seu lado. Não se preocupe, sempre consegui ler andando. Já que o senhor não está parando começo aqui mesmo:

– Inadmissível: podem ser facas inimputáveis. Equivalência moral entre criminoso e vítima. Estado omisso. Segurança entregue à sorte. Desprezo sistemático pela sociedade. Indignação forjada. Educação postergada Alianças de ocasião. Perdão à revelia da criatura imolada. Concorda? Mas como, se ainda nem comecei? Veja só o que acaba de dizer. Em meios aos atenuantes, vítimas continuam vítimas. A injustiça social é explicação ou desculpa? Vale para a Lagoa e Alemão, Copacabana e Galeão? O senhor não acha que  o vale vida não deve conhecer latitude, longitude nem vicissitude? Tem gente que não é responsável pelos próprios atos? Então, por favor, explique qual é a idade da moral? Tudo bem, vamos então mudar para ética. Que seja. Por acaso o senhor ouviu o que estão dizendo por ai? Eu sei, eu sei, é tanta coisa para escutar que é melhor ficar surdo. Mas tive a paciência de gravar para que vossa excelência ouvisse.

“Sob injustiça não pode haver paz, logo, vale tudo”

Espantoso não? Não estou insinuando nada, a fita é muito clara. O senhor e seus aliados estão deixando a coisa andar? Eu entendi, claro que entendi. É para deixar todos em igualdade de condições. Socializar a desigualdade. E como é que as coisas se ajeitarão? Não é bem assim? Então explique, sou todo ouvidos. Será na coletiva? Ah, na palestra de doutor honoris causa. E qual o título da vossa aula magistral excelência?

“A medida certa para que o Estado não sucumba nem ao capitalismo selvagem nem ao populismo de ocasião?”

Quero estar lá.  E logo depois, para onde vai a comitiva? Inauguração de fábrica chinesa de rojões? Qual será o tema do discurso? Meio batido. Ouvir o que ela tem a dizer sobre o “Pátria educadora”? Não vai dar.  O senhor está me convidando? Cadeira VIP para a imprensa? Quanta honra, mas justo nessa tarde terei compromisso. Mas isso é muita indiscrição excelência. É meio delicado, mas para o senhor posso contar. Tenho agendada uma audiência no tribunal de pequenas causas. Não, nada sério. É que resolvi processar o Estado. Não, nada disso. Não sou um desses querelantes malucos. A causa é mais do que justa. Promete guardar segredo? Não, não estou brincando. O processo está tramitando há anos. O juiz foi ameaçado, testemunhas precisaram ser escoltadas, e o senhor não imagina quantas vezes tivemos que adiar o julgamento. Agora será em local secreto. A causa? Estou pleiteando o direito de permanecer vivo.

O Estado a sério – Trem para 1 (Estadão)

O Estado a sério (1) – Trem para um

Paulo Rosenbaum

18 junho 2016 | 19:50

 

Cônscios de tudo que um Estado não deve ser, este blog iniciará uma série de micro crônicas sobre o relacionamento

que um Estado levado a sério deve conservar com cada cidadão. 

“Uma companhia de trens japonesa resolveu preservar aberta a estação de Kami-Shirataki, localizada em Hokkaido.

A curiosidade é que a estação funciona apenas para uma pessoa: a adolescente Kana Harada.”

Extraído da tradução do Daily Mail pelo Jornal Ciência (matéria de Merelyn Cerqueira)

Mais de 25 anos depois Kana voltou à plataforma abandonada, estacionada no mesmo lugar, e a apresentou para as duas filhas adolescentes.

— Viram? Era bem aqui! E era um dia como hoje. O trem chegando fazia a neve jorrar para todos os lados. Eu sempre me acomodada no vagão do meio.

— Mãe, arriscou entusiasmada a mais nova. Um trem só para você?

— É verdade, lembram? Saiu no jornal. Sonho sempre com isso.

— Uma rainha, completou a mais velha, parece história de um livro.

— Eu também pensava isso. Achava egoísmo que ele viesse aqui só para mim. Sentia que eu não merecia aquilo.

— Não merecia? Estranhou Yoko, a mais velha.

— Durante um tempo. Mas que meu pai, seu avô, me explicou uma coisa que nunca esqueci.

— Mãe, você está chorando?

— Lacrimejando, só lacrimejando querida.

— O que o vovô explicou?

— Que não devia me sentir culpada, era exatamente assim que deveria ser.

— Mãe? As duas se voltaram curiosas. O que mais o vovô disse?

— Disse que todos deveriam saber disso, mas ninguém conseguia perceber.

— Saber o que? As meninas estavam curiosas e sob o frio, exalavam o hálito quente de neblina.

— Que essa preocupação é a verdadeira natureza de um Estado. Que o governo é sério quando se preocupa com o bem estar de cada um.

E é esse exemplo que serve para que continuemos a cuidar uns dos outros. Um lado e outro, as coisas se complementam.

As meninas e a mãe se abraçam, agora também lacrimejam.

PS- (agradeço a Carmen Monteiro que postou o artigo)

Ainda gravaremos teu nome (Estadão)

Ainda gravaremos teu nome

Paulo Rosenbaum

22 abril 2016 | 12:58


Eu ouvi, mas admito, é possível que você não. O que ouço? Uma música nunca executada. Uma sequência de notas, sons instáveis, sem modulação. O melódico que não bloqueia, a voz que vêm pela raiz. Muda o destino. Emociona sem dó. Ninguém ainda soube explica-la. Não sendo conquistável. Não se deixando apreender. Não sendo reconhecível, teria aparência indescritível. Alguém já disse “a força de todos os homens e a leveza de nenhum”. Dizem que não ela pode ser reduzida, deduzida ou intuída. Para ela, não há relato único, nem simples. Autocrática, obedece apenas à própria experiência. Não se submete a ninguém a não ser ao próprio sujeito. Não expira. Não hesita. Não se dobra. Nunca pode ser compartilhada. Inquieta, a joia é arisca. Notável quando perdida, desvalorizada quando presente. Quem oprime, nunca a vislumbra. Não pode ser comprada, cooptada ou negociada. Afinal, não eram ricos contra pobres, minorias contra maiorias, nem educados contra ignorantes. Não há uma história natural de sua luta: afinal é costume que oprimidos não reconheçam o opressor como tal. Trata-se do inconfessável temor da emancipação. O desconhecimento aflitivo de um futuro que não prevê comando central. Mas o tirano tem noção desse trunfo. Conta com ele. Beatifica-o. Só mesmo num dia como hoje, as vésperas da travessia, onde escravos vão, por escolha, deixar a escravidão. Na noite que irão se inclinar como homens livres. Só hoje a liberdade pode nos envolver. Para isso, rogamos um outro tempo. Um tempo do hoje. Da máxima abertura. Da paz olvidada. Da cessação não mencionada. Hoje, atravessaremos e só adiante notaremos o percurso. O percurso à liberdade.

https://correio.usp.br/service/home/~/156dba5b6d4d51850f15ef56d1addd71.opus?auth=co&loc=pt_BR&id=335312&part=2 (mensagem sonora – copie e cole no seu browser)

O que não vimos ? (Estadão)

O que não vimosX

Não vimos barcos, nem velas

no horizonte, chão espesso,

nem piso, nem recomeço

Não vimos volta

 do exílio, iminente

as salvaguardas, fluídas

No isqueiro, imenso

Não vimos a censura,

de revista em revista

nos privar da leitura

Não vimos calçadas,

E, perdendo o átomo,

Miramos o concreto

a matéria, o minério

Não vimos tempestade, nem areia,

enquanto sonhos se revezavam,

as provas, robustas,

o tirano acuado

mas, no rito do impedimento

migramos de volta ao relento

Enxerguemos no tempo,

 dobra do espaço,

obliqua janela,

notável advento,

a indecifrável rota

que finda o tormento.