Ainda gravaremos teu nome

Paulo Rosenbaum

22 abril 2016 | 12:58


Eu ouvi, mas admito, é possível que você não. O que ouço? Uma música nunca executada. Uma sequência de notas, sons instáveis, sem modulação. O melódico que não bloqueia, a voz que vêm pela raiz. Muda o destino. Emociona sem dó. Ninguém ainda soube explica-la. Não sendo conquistável. Não se deixando apreender. Não sendo reconhecível, teria aparência indescritível. Alguém já disse “a força de todos os homens e a leveza de nenhum”. Dizem que não ela pode ser reduzida, deduzida ou intuída. Para ela, não há relato único, nem simples. Autocrática, obedece apenas à própria experiência. Não se submete a ninguém a não ser ao próprio sujeito. Não expira. Não hesita. Não se dobra. Nunca pode ser compartilhada. Inquieta, a joia é arisca. Notável quando perdida, desvalorizada quando presente. Quem oprime, nunca a vislumbra. Não pode ser comprada, cooptada ou negociada. Afinal, não eram ricos contra pobres, minorias contra maiorias, nem educados contra ignorantes. Não há uma história natural de sua luta: afinal é costume que oprimidos não reconheçam o opressor como tal. Trata-se do inconfessável temor da emancipação. O desconhecimento aflitivo de um futuro que não prevê comando central. Mas o tirano tem noção desse trunfo. Conta com ele. Beatifica-o. Só mesmo num dia como hoje, as vésperas da travessia, onde escravos vão, por escolha, deixar a escravidão. Na noite que irão se inclinar como homens livres. Só hoje a liberdade pode nos envolver. Para isso, rogamos um outro tempo. Um tempo do hoje. Da máxima abertura. Da paz olvidada. Da cessação não mencionada. Hoje, atravessaremos e só adiante notaremos o percurso. O percurso à liberdade.

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