E se hoje acordássemos ninguém? (Estadão)

E se hoje acordássemos ninguém? Nem ilhas nem continentes, religiosos, materialistas ou céticos. E se não nos dividíssemos entre nacionalistas, anarquistas ou fundamentalistas? E se não fôssemos cabos eleitorais das guerras, candidatos ou nações? E se não houvesse mundo algum? E se não estivéssemos separados por fronteiras? E se os países fossem mais que mercados? As pessoas mais que contribuintes? E se considerássemos que ninguém é traidor ou aliado? E se a paz não precisasse de transfusões? E se não precisássemos defender ou atacar? E se nem as utopias correspondessem à realidade? Não por serem beatificas, ideais, finais. Porque a terra não finda. Porque não há Armagedon, apocalipse ou término para o que mal começou. A menos que passemos a adorar a ideia. A menos que os homens passem a viver por nada. E se a vida não estivesse concentrada na sobrevivência? E se ela estivesse entre todos e espalhada? Se recuperasse o significado? Tingiria outros universos? Alcançaria outros estágios de energia? E se os papeis dos jornais formassem pontes? A se a mídia instruísse? E se negássemos todos os marcos? Todas as datações? E se os símbolos criassem comunidades? E se as datas recusassem reduções? E se o tempo não fosse marcado por eventos religiosos, revolução francesa, 100 anos da primeira guerra mundial? E se o Big Bang não mantivesse a expansão? E se não reduzíssemos tudo à nada? E se respeitássemos a singularidade? E se hoje fosse o aniversario do cosmos? E se a gravidade fosse suspensa? E se o sol descesse, a supernova decantasse e a anã ganhasse um azul? E se agora, neste segundo, zerássemos tudo? Assim mesmo, do nada. E se a fissão nuclear ficasse obsoleta? E se o marco zero fosse absoluto? Nada de políticos: imagino oxigenação, ressignificação dos ofícios humanos, fim das tramas. E se passássemos a contar tudo de novo? A história recontada, nova. Outra história. Quando foi a última vez que sentamos e conversamos? E se fosse essa a primeira vez que ouvíssemos nossas vozes? E se nascêssemos?

Compre curtidas (Estadão)

Compre curtidas

Paulo Rosenbaum

segunda-feira 08/09/14

Já faz algum tempo que o “compre curtidas” oferece serviços. Alguém descobriu que oferecer o conforto do apreço virtual pago é um grande negócio. A tabela de preços, antecipo, não têm pechincha. Uma curtida talvez signifique mais que a aquisição do apreço, pode estar no aplicativo narcisista que criamos. Numa sociedade autorreferente, a valorização está […]

Já faz algum tempo que o “compre curtidas” oferece serviços. Alguém descobriu que oferecer o conforto do apreço virtual pago é um grande negócio. Na tabela de preços, antecipo, não têm pechincha. Uma curtida talvez signifique mais que a aquisição do apreço, pode estar no aplicativo narcisista que criamos. Numa sociedade autorreferente, a valorização está em que os outros endossem nosso próprio umbigo. Que graça poderia ter apreciar uma foto, post, ou filme só para nosso deleite? Por isso, compungidos a compartilhar, fazemos as honras, esperando aval. Delegamos o ônus do julgamento das nossas preferências ao mundo externo. Mesmo que essa escolha acabe sendo debitada da conta de nossa autenticidade. Para que o espectador encampe minha proposta, aceitamos concessões que sacrificam a única mensagem que faria sentido transmitir, e morro como original. É mais do que não ter graça, passa a não ter significado fazer a descoberta, se essa não for, imediatamente, comunicada a outrem. O imediatamente não é fortuito, a temporalidade cobra um papel fundamental nos vínculos virtuais. Trata-se de uma espécie de comportamento simbiótico instantâneo. Vale dizer, precisamos que reconheçam que nossa auto referencia é não só válida, como a autenticação do nosso gosto. Ainda que o gosto pessoal possa a vir a ser descartado como não essencial. O importante é agradar as massas. O exemplo abaixo, pode não ilustrar isso diretamente, mas serve como reflexão.

Um conhecido escritor, por pressão de sua assessoria de imprensa, negociou num pacote de 10.000 curtidas com garantia de aproximadamente 500 comentários. Inicialmente, vibrou com os números que fariam inveja aos amigos, despertariam curiosidade nos editores e o mais importante: novos leitores. O segredo garantido, já que ninguém costuma desconfiar de inflação. Pois a euforia durou pouco, o desgosto um tanto mais. Não porque os comentários não tivessem alguma pertinência, o oposto. No meio daqueles assalariados do discurso, mercenários uniformizados para jogar conversa fora, havia gente com talento. Talvez, considerou, gente tão desesperada como ele. Descobriram que nossa era não remunera inteligência, muito menos composição de textos não especializados. Assim, o que era para ser uma capitalização triunfal, sob a artificialidade para projetar o autor à fama, tornou-se contraproducente. Como se sabe, purismo e ideologia sempre foram inimigos da vida prática. E ninguém mais duvida, a ética inferniza os negócios. O comércio, que transforma o espontâneo e amigos virtuais em vil mercadoria, gerou grave bloqueio criativo. Finalmente, o escritor, parcialmente refeito, se animou em responder cada comentário. Foi quando vislumbrou a saída, não para o fluxo de consciência, mas para o fluxo de caixa. Abandonando a poesia e o romance, passou a oferecer serviços pagos nas redes sociais. Ganhou folego, abandonou a aspiração de ser imortal. Trabalha hoje para um candidato ao senado, redigindo discursos para o horário eleitoral e sumiu das redes sociais.

Interditada (Estadão)

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Interditada

Paulo Rosenbaum

14 novembro 2014 | 12:49

vozvozXX

Tua voz,

tua voz

não será auditada

Tua voz,

sem vez

Tua voz,

sem voto,

Tua voz,

 ouvida adiante

Tua voz,

junto ao ruído do cometa,

Tua voz,

não mais te pertence

Tua voz,

que era a nossa

Tua voz,

tão calada

Tua voz,

que pedia liberdade,

acaba de ser interditada.

Intuição para uma jovem democracia (Estadão)

Intuição para uma jovem democracia

Paulo Rosenbaum

05 janeiro 2015 | 21:55

prismasXX

Nos dias turvos que atravessamos, o mais recente artigo de FHC no Estadão, atestou um raro exemplo de lucidez. Ao mesmo tempo, resta uma lacuna que mereceria ser melhor examinada. As sociedades contemporâneas emanam incontáveis matizes de ideários e crenças políticas. Em muitas análises de nossa esdrúxula situação, desaparecem as sutilezas dialéticas, e as nuances da diversidade se reduzem ao preto e branco. É como se os lados se limitassem à duas forças antagônicas, que, num contraponto tanto permanente como conveniente, lutam pelo poder.

Há sinais claros, na linguagem e nas narrativas, que comprovam a insuficiência da taxionomia esquerda – direita. A palavra centro, pervertida e esgarçada pelo fisiologismo de praxe, também deixou de ser relevante. Como se fosse razoável resumir à duas forças o que existe de vivo como protagonismo político no País. É necessário aceitar que nem todas as causas progressistas são justas e boa parte das conservadoras pode não fazer mais sentido. Não é preciso erudição sociológica para entender que é preciso assumir: falta à oposição a coragem de se declarar independente. Essa seria a grande novidade, o verdadeiramente contemporâneo sugerido pelo artigo do ex presidente.

Por outro lado, quem ousa não se alinhar a nenhum dos dois lados, está, automaticamente, sentenciado ao exílio. O exílio de filiação doutrinária, a orfandade intelectual. Esse grupo imenso — desconfio de significava parcela da população — vem sendo arrastado a um lugar sem nome: o limbo político. É como se por falta de pedigree, organização ou confissão doutrinária, não merecessem espaço, partido ou atenção por parte da classe política. São também ignorados por parte dos intelectuais que preferem sustentar seu status quo diante do poder.

Este lapso de nomenclatura não têm nada de fortuito. A desatenção significa condenar amplas parcelas da população à invisibilidade. Notem que, até hoje, as massas que acorreram às ruas em junho de 2013 não foram devidamente classificadas. Penetras nas teses sociopolíticas, os intrusos não estavam em nenhum script.

Trata-se, lá e agora, de uma multidão cada vez mais expressiva que pretende julgar o mérito das propostas e não de onde elas vêm ou qual viés doutrinário carregam. Portanto existe algo muito mais importante do que esquerda retrógrada e direita golpista. É neste entre, um interregno pouquíssimo explorado, que se encontra a maior parte de gente desencantada. Pessoas que demandam mudanças imediatas. Pessoas impacientes, sedentas por orientação e ações que interrompam o ciclo de desmandos e violações sistemáticas das regras do jogo. Podem ser exigentes e pragmáticas, mas isso não as transforma automaticamente em radicais não democratas. É compreensível que generalizem sua aversão aos políticos, pois são grupos não articulados, que operam na base da indignação sem foco. Aguardam Estadistas que tenham a maleabilidade para compreender que um mundo ideologicamente coeso tornou-se inviável, que a liberdade não pode ser negociada e que é preciso ocupar os espaços para evitar governos com perfil totalitário.

A sociedade multilateral intuiu o perigo. Ela mesma precisa usar as brechas do sistema político para preservar os direitos e obriga-los a descer à ação. Só uma força diagonal, que julgue ideias com autonomia e que não se comporte como bloco ideológico, partido hegemônico ou seita pode prover a união para tirar, enquanto é tempo, nossa jovem democracia do sufoco.

Somos todos judeus? (Estadão)

Somos todos judeus?

Paulo Rosenbaum

09 janeiro 2015 | 15:52

supermassacre

Escrevo sob forte emoção. Sim, agora está confirmado. Era mesmo o supermercado kosher, judaico, e agora me dizem, a inteligência confessou: não existem lobos solitários. Quatro ficaram sem vida. Deve ser porque alcateias separadas agem melhor. E me pergunto partilhamos o mesmo mundo. E alguém por favor responda, qual mundo considera recuperável pessoas que usam sua liberdade para eliminar a dos demais? Então é uma guerra, conflito armado e como responsabilizar a omissão do Estado?  Já não era tragédia anunciada? Esta já passou, a próxima? Como se elegem alvos? Quando se reconhece que uma epidemia de terror não é só evento mimético?

Ocultos ou não em suas consciências, há quem entenda perfeitamente o que se passa. Agora que não é a liberdade de expressão, seria o que? A supressão dos outros. Era para ser assim? Como se identifica o terror? Desconfio que se considerem seres especiais. Ele perguntou na porta da mercearia judaica “você sabe quem eu sou, não?”. Não, não sabemos? Provocar a morte é tomada como passe livre para um mundo melhor. E quem vos ensinou isso? Nenhuma religião ensina ou não deveria ensinar. Os meus amigos acadêmicos acabam de me dizer que a culpa é da xenofobia, do passado colonial, das guerras inacabadas, da culpa judaica. Não discordo completamente, mas, no caso judaico, qual seria a culpa? A ancestral, a atual, a futura? Israel? Em disfarce, um justificacionismo intelectual vergonhoso. O alinhamento ideológico com a barbárie, ainda que atenuado por interpretações históricas criativas.

O discurso do ódio e o incitamento – ativo ou passivo — parece ter uma só direção e ele não conhece ascendência, descendência, idade ou classe social. Trata-se de um mundo forjado no triunfo, disso já sabíamos. Mas há algo novo aqui. E isso explica a perplexidade. Desconhecíamos um princípio narcísico de morte. Por quem serão lembrados? Pela auto extinção? O heroísmo tem enfim novo perfil. Valores como covardia e perversidade são valores neutros, interpretados como parte do martírio exigido. A mancha biográfica transforma-se em distinção. Entre milhões pacíficos eles e seus incontáveis cumplices e co-autores coroam-se como os novos ícones.

Você ainda quer explicar? Esqueça, e não me venha com mas, apesar de, ou considerando bem.

Falo, mas saibam que sou forçado à contenção. Em nossos dias a sátira é perigosa, expor a injustiça pode virar crime e a espontaneidade pode custar caro. Pressinto que não deveria perguntar mas já que a verdade não pode conhecer prudência, – mesmo assim faço.

O mundo agora assumirá a próxima tarja?

 “somos todos judeus”.

Minha folia é você (Estadão)

Minha folia é você

Paulo Rosenbaum

13 fevereiro 2015 | 13:35

folia

Minha folia é você

Minha folia é você

No momento,  fica

Não prometo nada

E se disserem sosseguem,

Negaremos

A folia transita num violino

Compromissadamente perdido

Comprovadamente visível

Concomitantemente relapso

A folia está nas nuvens,

Nas milhas náuticas

Nos pulsos indomáveis

Que esquecem tudo, juntos

Num particular anticarnaval

Nesse mar sem muros

Na fome da entrega

Toda e qualquer latitude

Deita folia em teu corpo.

Palavras e sentido: austeridade

Palavras e sentido: austeridade

 

Austeridade, palavra horripilante. Pensem bem. Do jeito que vem sendo tratada, com a meteórica familiaridade com que ela agora varre a zona do euro, poder-se-ia pensar que se trata de palavrão, desordem psíquica minor ou até um pacote de maldades embrulhado para presente em dias de estiagem latino americana. Somos forçados a lançar as 3 concepções analógicas de austeridade para tentar compreender como um termo, que há pouco tinha como significado rigor, integro e ascetismo tenha tomado caminhos tão inusitados. Na vertente ascetismo é que ela assume o caráter que os neófitos partidos europeus — admiradores de Chávez e dos regimes latino americanos —  tentam imprimir ao termo. nesta modalidade mortificação, flagelo e penitência, são algumas das implicações verbais do termo.

Claro que na vertente rigor, ela poderia tender à severidade e daí para virga férrea, mordaça, despotismo, arbitrariedade, usurpação, dobrar a cerviz à escravidão e violência. Mas entre o catoniano e o reizete, entre o sultão e missongo há, vale dizer, deveria haver, outros espaços de significados para a palavra. É ai que entra a outra acepção da austeridade, a probidade. Nela encontramos os elementos que fizeram dela o significado com o qual até ontem concebíamos sob nosso torturado senso comum: compostura, homo antiqua fide, barbas honradas, veracidade, pundonor, têmpera, equidade e consciência.

Descobrimos enfim que a trajetória da virtude à vicissitude, que parecia longa e interminável, não é. O tempo é que dita o ritmo dos signos da linguagem e com ele a própria vida. As palavras enfim valem menos ou mais? Talvez valham apenas outra coisa. Numa mutação vertiginosa, significados pulam entre os galhos de florestas que, como estrelas remotas, sequer existem. Os políticos podem estar se defendendo de seus hiatos proposicionais, de suas repetições inócuas, mas sobretudo de sua incapacidade de impedir a privatização do bem comum.

Ódio e política pueril (Estadão)

 Ódio e política pueril

Paulo Rosenbaum

15 março 2015 | 00:33

panelasXX

A burguesia petista e coxinhas de panela vem construindo cenas sem paralelos na extensa história do patético. Alguns se perguntam de onde provém todo esse ódio e intolerância? As fontes são inesgotáveis, mas, como se sabe, sob a traição política, a cólera fica quase indomável. Os mitômanos podem não saber, mas é assim que instigam a grande ferida. No imaginário social, nenhum redentor se atreveria a enganar a boa fé. A infeliz fala recente de quem nos presidi emprestou do seu mentor a tese de “esgotamento do modelo”. Ela pode ser traduzida de outra forma: não confiem demais em quem vos fala. Com a quase extinção dos bodes expiatórios críveis, não há mais a quem culpar. O crack de 29 não colou e a elite branca racista pode ser simultaneamente a classe média morena reacionária. O petróleo, privatizado pelo consórcio. O Estado foi ficando cada vez menos republicano. Os poderes, embaralhados e fatiados. Taxas de ruim/péssimo ameaçam extrapolar os gráficos. É evidente que a sociedade deve estar errada. Como estamos diante de uma administração avessa à crítica, toda chiadeira parece exaltar a convicção no sentido contrário. Não resta a menor dúvida de que a equação se inverteu: doravante, se tudo der certo, a sociedade é quem deverá servir à Pátria.

Os traços de esgotamento estão por toda parte. Há sinais, signos e símbolos de que uma grande inviabilidade persistirá. Mesmo endossando a recusa ao catastrofismo, ninguém tem mais o direito de ficar peneirando mel. O laços de contra e a favor vão se estreitando, até não se saber mais quem é quem. Vai ficando difícil manter a honestidade intelectual e, ao mesmo tempo, apontar para direita ou esquerda. A complexidade social sempre superou a capacidade de apreensão analítica. Recorrer à luta de classes ou golpe militar revela o viés: estamos num sistema de notação maniqueísta. O anarco-marxismo e o atraso fanático escancaram a face pueril de nossas práticas políticas. Daí o emboloramento, a incoerência, o desatino programático. A anemia em líderes razoáveis. No malabarismo impossível, a maioria luta para exigir (e exigir-se) uma fidelidade ideológica que não mais existe.

Defende Cunha aliado, detesta Dilma malcriada. A favor de Calheiros com aversão ao procurador. O exército alternativo convocado para conter o golpe que, onírico, viria a calhar para salvar o projeto. “Viva a Petrobras” dizia Gabrielli em Salvador à frente de militantes com carteira assinada. Na CPI, na TV ou nas coletivas as falas, a retórica, o discurso, a impostação, a mímica, a gestalt de mais esse simulacro de verdade. Verdade? Decerto subjetiva, uma aporia sujeita à interpretações. Ninguém negará que mesmo um conceito pouco palpável exigiria contornos mínimos de realidade.

E com quem podemos contar?  Intelectuais subsidiados pelo partido? Blogs financiados por fundos partidários? Oposição encalacrada? Institutos de pesquisa controlados pelo poder? Para onde se olha enxerga-se as marcas da hegemonia. A doença se alastra. É que a colonização tem pressa. Se houvesse um manual de bons modos para além do conselho de ética e da controladoria geral da união, a manifestação deveria não só ser pacífica, mas solene. Agora não se trata de festa democrática, revanchismo ou enfrentamento. É a maturidade e o solene que podem encampar a seriedade do momento. A eleição passou. Inútil tentar culpar quem nos meteu nessa. Se há algo para aproveitar em uma marcha adulta é recobrar a consciência de uma saída.

Yom Hashoah (Estadão)

Dia em memória às vítimas do Holocausto (Yom Hashoah) 

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Mais uma vez você vem falar  do Shoah?

E mais uma vez somos obrigados a ouvir?

Quer esquecer essa história? Seria bem melhor para todos.

Admita, você não compreendeu: se esqueço, desapareço. Se você esquecer, desapareceremos todos.

Não como pessoa, ninguém evapora como espírito, não se somem com as marés, não desintegramos como barrancos em inundações

Costumamos evaporar quando não fazemos mais sentido, mas existem ebulições prematuras. Se quiséssemos, viveríamos pelos segundos. E, se nossa contagem viesse numa outra unidade? Uma que desprezasse o tempo e redescobrisse outros ritmos.

Impressão minha? Seu sorriso mudou?

Não, não é capricho. Nada de apologias, nacionalismos, nem cumplicidade neurótica. Bastaria ter sabido que existi, a única exigência de toda memória.

Por que insisto em fixar-me em tuas lembranças?

Nada pessoal, não vivo por vingança. Permite uma intimidade? Num dos campos senti: toda memória está vinculada à história. Entende? Nós somos assustadores.

Não, isso também não é para evocar sua consciência, despertar a Misericórdia. Você sabe tão bem quanto eu que a pena é uma nostalgia sem objeto, uma culpa sem noção do mal.

Exato. Como você, também não me comovo facilmente.  De acordo, detestáveis aqueles que se constringem sem levantar da cadeira, ridículos os que se movem sob a indignação remota.

O meu ponto?

Exijo que a dor, essa dor, suba junto com o vapor que nos destruiu, Faço questão que mortalha alguma seja reverenciada. Que os números tatuados se transformem numa álgebra benigna.

Agora pode sentir? Captou meu estado?

Tento de outra forma: isso não tem a ver com religião, nem raças, etnias, partidos ou, classes sociais. Céus, crianças estão cercadas: judias, árabes, negras e caucasianas.

A natureza dos genocídios?

Permanecerá tão misteriosa como a gravidade. Com autorias indeterminadas: da Europa à Grécia, da Armênia à Síria, da Ruanda ao Iraque, da Bósnia ao Sudão, do passado ao futuro.

Viu? O assustador nunca esteve fora ou distante. É preciso repetir: nós somos assustadores. Todo holocausto é um adiamento, uma fusão sem fim, um negócio movido por manivelas humanas.

Agora você chora? Só que ainda não terminei.

Precisei  vagar entre livros, em meio aos escombros e também nas paisagens intactas da natureza remanescente. Precisei viajar desafiando bósons, sob asteroides que carreavam água. Precisei ouvir lamentos de cada povo e elemento só para poder te ver. Precisei superar a ignorância, suportar a decadência. Precisei desviar dos fornos e gazes. Precisei contornar escravos e tiranos.  E mesmo chegando a estes confins de mundo, enfrentando provável arrependimento, reuni forças para te dizer que o homem pode ser diferente. Que se abandonarmos a vida reativa, a ação tem chance de prevalecer. Uma tradição como a vossa merece sobreviver se disser de novo, um novo.

A outra escolha? Resignar-se à repetição. Nesse caso, nem com todo esforço mudaremos a insignificância ou escaparemos dos  sustos.

O retorno do bumerangue (Estadão)

O retorno do bumerangue

Paulo Rosenbaum

24 abril 2015 | 15:27

metafora

Eu vou bem e você? Faz tempo. Senta ai. É verdade, perto das eleições tive que te bloquear. Eu sinto também. Mas não me arrependo. Não tenho respostas, só perguntas. Você pode até dizer que não, mas eu sei. Lembro de cada um dos aforismos: era o “nunca antes na história”, depois vieram “só nós fizemos”, e depois aquela fileira de slogans. Agora vocês nem disfarçam mais.

Dúvida? Então vou fazer esse papel para ti. Sabe por que? Vão forçar os blogs pagos para comentar o de sempre. As  mesmas velhas ladainhas contra o partido. Vocês são incansáveis, mas sabe quem vos dobrará? Não, não espero nada da realidade. Quem está dando o troco não é o Congresso, não são as ruas,  são as metáforas obsedantes que vocês deram vida. Sim, explico. Sabe aquelas ilusões criadas? Lembra das promessas impagáveis? O sonho à granel? Da campanha eleitoral desconstrutiva? Pois foram elas que estão assombrando o poder num espetacular retorno do bumerangue. Pois é, são elas que estão agarrando suas canelas. Fantasmas podem ser imponderáveis mas, por um estranho capricho, cobram ingressos mais caros. Pessoalmente não creio em assombração, mas acredito em inflação, desatino, despreparo, e em massa falida que vai rolando até gerar o déficit universal. Sem querer ser insistente: um dia, não precisa ser agora, você vai me dizer como é que se quebra uma empresa com monopólio do petróleo. Não tem nada de pirraça. Chame de curiosidade metafísica.

Quer ir por tópicos? Vamos lá. Histeria anti comunista. É mesmo uma reatividade infeliz. Concordo que entramos numa cultura incomoda: o senso comum de mau gosto. Mas o que me dizes da redação estúpida nos fóruns da esquerda conservadora? O que vocês ainda não entenderam é que justiça social não é mais monopólio da agenda socialista. Qualquer cidadão esclarecido reconhecerá isso. Reconciliação nacional? Só depois que vocês pularem do barco. E já passou da hora. Venham todos de cara limpa e aí veremos se rola um diálogo. Já há um consenso: nenhuma reconciliação virá através de vocês. Aliás, se tiver que vir, nascerá à revelia do poder. Será um destes efeitos colaterais inesperados. Em pelo menos um aspecto vocês estão de parabéns. Curioso? Conseguiram uma façanha: reunificar a sociedade contra um projeto totalitário.

Ingratidão e falta de reconhecimento da nova classe média? Pense de outra forma: o povo aceita ser humilhado, ofendido, pisoteado, jogado às feras, tripudiado e esquecido. Vá ás ruas e me desminta sem fazer gracinha. A sociedade, esta entidade abstrata, pode ser passiva, pacata, alegre mas tem o seguinte, não tolera ser sabotada, muito menos instrumentalizada. Ela não tem essa percepção? Vai nessa! Até os gênios do marketing político vão jogar a toalha quando o produto estiver prestes a perder o prazo de validade. Quando apodrece, costumam sumir. Moralismo? Demagogia? Chame como quiser, eu já apelidei de  índice de volatilidade do eleitor.

Sabotagem, como se sabe, é especialidade dos agentes tiranos que abundam à esquerda e à direita. E a enganação útil pode também vir do centro. O importante aqui é conhecer a índole do sabotador, ele age por vingança. Neste caderno de teses de agora, por exemplo. Me explica o que é que é aquilo? Nota-se que vocês não aproveitam a parte boa do envelhecimento.

Eu também li aquela matéria.  Bom saber que nem você concorda. De cara, intui o desproposito. É evidente que a maioria dos insatisfeitos não é do “tea party dos trópicos”. Qualquer análise sem contexto acaba virando fofoca. O que eles são? Sei lá, chame-os de chimarrão quente, massa difusa, matéria escura sem etiqueta.

Dos dois lados há sempre gente falando bobagem, grupelhos nostálgicos e vingativos, milícias que querem desforra. Mas a maioria está cruzando os braços, e não é por greve. É uma atitude nova, típica dos observadores. De gente que perdeu a paciência, mas não o bom senso. Enquanto vocês apostam na reincidência e nos truques manjados a maioria está parando para pensar.

Impeachment? Se há lei para impedi-la de continuar, por que não usa-la? Se não há, a quem interessa criminalizar quem se opõe ao poder? Ontem todos os canais estavam mostrando uma ofensiva midiática do partido. Vocês ainda apostam cegamente no poder da propaganda. Só esqueceram que o meio é a mensagem. O que chega para as pessoas não é o desejado, mas o meio pelo qual vocês tentaram a persuasão. A mensagem se perdeu pelo caminho. Sobra a mentiras, ardis, estratagemas, e maracutaias.

Ok, podemos mudar de assunto. Se vamos jogar fora o que vocês fizeram pelo País? De forma alguma, tchê! Mas os acertos não apagam as pegadas. O corolário de equívocos de vocês já virou marca registrada. É herança maldita contra terra arrasada.

Só que isso aqui ainda é uma República.

Por favor, dá para abaixar o tom? Aceito a desculpa. Percebe? Essa arrogância inflamada não faz sentido. Ninguém fica feliz – ou não deveria ficar – com tanta gente enroscada, presa e processada. Mas esse é o salário do abuso. Se ao menos fossem aprendizes mais discretos. Se abandonassem o projeto da pátria homogênea e da hegemonia partidária.

Ideário da burguesia? Céus! Senhor, um desafio: saia agora às ruas e veja se a insatisfação está confinada. Veja se está delimitada a uma classe social. Saia e veja quantos estão fazendo as contas do que estão perdendo com a volta dos espíritos descontrolados que vocês libertaram das catracas: inflação, estagnação, insegurança, desatino fiscal.

Saia e constate quantos se arrependeram. O que se deve fazer? Comecei este papo mandando a real: eu nunca disse que  tinha uma solução. Se pede conselho eu resumiria num só item: façam autocritica e mudem. Sem ela, não há conversação.

De dentro desta grande instituição asilar controlada pela ideologia, o fanatismo e a convicção, a realidade está sendo obrigada a  dormir do lado de fora. Está sugerindo que a saída é o aeroporto? Posso te afirmar que já ouvi, não faz muito, essa mesmíssima ameaça. Mas somos como a mula teimosa. Não vamos desistir do Brasil. Não que não seja tentador. Percebemos que persistir é a única forma de dar um cansaço no delírio de proveta que vocês pariram. Passar bem você também.