• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

Arquivos do Autor: Paulo Rosenbaum

Céu Subterrâneo (Isto é)

01 domingo set 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Cultura

Paulo Rosenbaum lança livro ‘Céu Subterrâneo’ em São Paulo

Estadão Conteúdo

16/05/16 – 14h10 – Atualizado em 20/10/16 – 14h41

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Blogueiro do jornal O Estado de S. Paulo, o escritor Paulo Rosenbaum lança em São Paulo, nesta terça-feira, 17, o livro “Céu Subterrâneo”. Médico, pós-doutor em Ciência, poeta e romancista, Rosenbaum é também autor de “A verdade lançada ao Solo”, publicado em 2010.

O novo romance tem como pano de fundo o universo do judaísmo – se passa na cidade de Hebron, na Cisjordânia – e conta a história de um escritor que viaja para Israel em busca de suas raízes. O ‘herói acidental’ tem características particulares para tornar a leitura convidativa e cativamente.

O autor também publica crônicas e poesia no ‘Estadão’, no blog Conto de Notícia

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Totens da Perplexidade (Jornal Rascunho)

01 domingo set 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Sujeitos indefinidos peregrinam nas nações entre benfeitorias sem transcendência, laicismos imprecisos. Não se veem campos, sinais de gritos, angústia das […]

> Por PAULO ROSENBAUM

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Ilustração: Rafa Camargo

Sujeitos indefinidos
peregrinam nas nações
entre benfeitorias sem transcendência,
laicismos imprecisos.
Não se veem campos, sinais de gritos, angústia das vítimas
mas, em cada parada,
a cada pequena entranha,
e, dentro da floresta negra,
cavernas preservadas, coleções intactas, predação canônica
a seleção, naturalmente objetivada
pela negação de qualquer sentido.
Não interessa que não vistes,
(nem quem nunca viu),
não importa o alimento dos dizimados
nem quem fez menos silêncio
no vapor da constância.

Saberemos quando vivermos
fora dos esconderijos desacreditados
na sonolência programada
entre qualidades instáveis,
que estão, como nós, extintas.
Nos rios sem leito, paisagens sobre trilhos
no protocolo superado, a melancolia,
e enquanto o mundo repensa uma paz
os resíduos evaporados
fazem do sensorial
a travessia que importa.

No solo tingido,
como furos de flauta
alternam sons,
das curvas do mundo
na atenuação final das vidas.

Se estamos aqui, ainda e assim
permanecemos, no tempo exato
é que nossos olhos
retêm o não expresso
e, como trens, invadimos o mundo com troncos negros
que moem cores,
para fixar nelas,
a medida do carbono.

Da matéria que se impõe
e referenda o espírito,
subtraindo contextos das proporções extremas
atraídas à latitude da ilusão.

Estivemos nos olhos
respiramos nas noites de cristais
recusamos o esfacelamento e o genocídio com certezas do impossível.
Testemunhamos a violência do descuido,
até que a perplexidade
gere seus totens.

Paulo Rosenbaum

pauloRosenbaum-254x250

É médico e escritor. Autor de sete livros na área médica e organizador de outros dois. Publicou o romance A verdade lançada ao solo (Record). É colunista do Jornal do Brasil, na seção Coisas da política. Edita o blog Conto de notícia, publicado regularmente n’O Estado de São Paulo.

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O direito ao sagrado

01 domingo set 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Filosofia & Ciências

02/01/2013

O direito ao sagrado*

Paulo Rosenbaum | Jornal do Brasil

Há um problema sério com a abordagem dos assuntos políticos no Brasil: são sempre os mesmos. Isso tolhe a criatividade dos articulistas e analistas. Na era geral da inconsequência, tudo vai virando uma coisa só. Observem que na guerra das versões o peso das palavras se emancipou do conteúdo, e tudo depende do poder de quem opina. Os argumentos não valem mais, o que conta é o cacife do partido, a força do time, as armas da facção. A verdade é que estamos perdendo a capacidade de análise e entramos de cabeça na guerra de versões. Ficamos reduzidos a um medíocre “contra e a favor”. O julgamento que exaustivamente comentamos já teve tanto o veredito de “político e fruto da mídia golpista” como “o país está sendo passado a limpo”. Como a verdade é um valor oscilante, o mais provável é que nem um nem outro.

Quem ainda pode aturar mensalão com seus círculos infernais? Sucedido por desmandos e conjuntura excepcional desperdiçada? Estamos carecas de saber que, unha e carne, poder e o mal feito chegaram às vias de fato. As mentiras e a negação sistemática são apenas desdobramentos do caos disparado quando se tenta normatizar o vale-tudo. Por isso mesmo temos que reconhecer, já deu. Se ainda prezamos o presente, nossa reinvindicação deveria ser mudanças profundas no bioma político-cultural.

Precisamos de gente que lidere sem se identificar com liderança, humanistas não catedráticos que capturem o que as pessoas sentem, planejadores que entendam o que fazem e legisladores que coloquem as gerações futuras em perspectiva. Não faria nada mal que os intelectuais falassem o não óbvio. Partidos que reconhecessem seus erros pelo bem coletivo. Pois, enquanto o poder republicano estiver nas mãos de gente que bate no peito e se comporta corporativamente, estamos condenados. Condenados a postergar um comportamento republicano.

Não se trata de achar que o passado é melhor que o futuro. Mas também não se trata de viver só pelo futuro. O presente não merece ser mero resíduo, aquilo que sobra do embate entre o que foi e o que será. Se fôssemos resumir nossa era: ganhamos agilidade, perdemos espontaneidade, adquirimos instrumentos científicos, perdemos a sabedoria, temos abundância do comum, nossa carência é do raro, individual e característico de cada um.

Estamos sendo esmagados, e entre as façanhas da produção incessante, o abusivo acúmulo de matéria e supérfluos. Criamos mais do que podemos consumir, enquanto nosso apetite vira insaciável. Mas não será desta vez que o mundo acabará, ainda que haja muito para moer e muitos moinhos por enfrentar.

O que hoje nos aflige coletivamente é a impossibilidade imediata de acesso ao bem-estar. Em qualquer de suas versões. Ele teria que ser palpável, mas não conduzido só pela realidade objetiva.

Em qual mundo podemos exprimir melhor nossas fragilidades, idiossincrasias e talentos? No do Manifesto Comunista? No planeta das lojas de grife? Quem sabe, entrando na competição selvagem, vestindo a camisa da empresa e dando rasteiras por cargos? Nos estádios de futebol, nas livrarias, nos templos? No filme Cosmópolis, um magnata yuppie qualquer, gênio das finanças, diante do tédio infinito, passa o dia criando demandas para preencher seu insuportável ócio. O filme pode ser controvertido, mas arranha uma metáfora oportuna. Há um oco extraordinário em nossa civilização, e, ao que se saiba, originalmente não nascemos empalhados.

No século marcado pelo ressurgimento das religiões e pelo renascimento de uma busca que transcende ideologias políticas, reina um sentimento paradoxal, difícil de assumir: pelo que lutar? Se nem mesmo as tradições podem oferecer respostas, tampouco sabemos se ainda as queremos. Decerto, não as mesmas de sempre. Estamos fartos das explicações standard da política, da autoajuda, do ceticismo e do fanatismo, do conservadorismo e da vanguarda. Nem a academia nem as artes acompanham a velocidade da sociedade. A alienação é um consolo, mas está longe de ser uma saída.

Que tal reconquistar um direito, que, por prurido intelectual ou endurecimento da alma, nunca foi reivindicado? O direito ao sagrado.


Esta notícia foi publicada no site Jornal do Brasil em 13 de Dezembro de 2012. Todas as informações nela contidas são de responsabilidade do autor.

Também publicado no site da Secretaria de Educação do Paraná. http://www.filosofia.seed.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=474

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Paternar (Blog Estadão)

31 sábado ago 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Também publicado no portal da Glorinha Cohen

PATERNAR – POR PAULO ROSENBAUM

Postado em 24 de agosto de 2019 Por admin ESPECIAL, NÃO DEIXE DE LER

340_especial_1_1Paternar é sobretudo uma experiência transformadora que altera a percepção do dever individual e coletivo.


Não é infrequente que evoquemos o peculiar fenômeno superprotetor das mães italianas e judias e não existe esta correspondência para pais. É evidente que a paternidade tem ficado como um pano de fundo, um detalhe do mundo em uma era de ressignificação do papel dos gêneros. Há infinitas categorias de pais, há aquele que pregam que “tem que rir a cada 15 minutos”, pais proféticos, cientistas, estimuladores, críticos, artistas, aventureiros, construtores, plantadores, artesãos, instrutores, escritores, médicos e professores. Há, sob o espectro do pai, um sentimento que transcende a categoria de autor, na verdade a paternidade apresenta, paradoxalmente, um importante desapego à autoria. Diz-se na tradição judaica que o mundo só pode passar a ter autodeterminação quando o Pai celestial decidiu contrair-se. Não é fortuito que um movimento de recolhimento/expansão, o tzimtzum, também conhecido hoje como big-bang, tenha dado origem ao Cosmos.

Observemos o verbete pai na linguagem dos sinônimos: genitor, aba, gerador, autor dos dias de alguém, primogenitor e procriador. Sem contexto, pode-se facilmente confundir com uma visão opressiva do patriarcado. A paternidade tem ficado sob suspeita, junto com tudo que se refere aos temas da masculinidade. Mas nem tudo no masculino e na paternidade são subprodutos da cultura chauvinista e opressora. Há sinais antigos de que os homens buscam uma forma de compartilhar responsabilidades. Cita-se, por exemplo, um velho rito de solidariedade na cultura irlandesa na qual o marido simula sentir as dores do parto enquanto a mulher dá a luz.* Há, na paternidade, especialmente na contemporânea, aspectos desconhecidos, sequer pesquisados, que poderiam desinregecer o debate.** Pois há um novíssimo pai, aquele que vem emergindo através das mudanças sócio-culturais e que pode “paternar” dividindo direitos e deveres com a companheira.

Na minha experiencia pessoal, a paternidade apresentou a primeira grande revelação com as primeiras palavras das minhas filhas: “Mammãe”. Mais adiante, quando uma delas se referiu ao Criador como “Ela”. Se até o gênero do Onipresente estava em questão, ali já se antevia: o mundo paterno merecia mesmo uma requalificação.

O símbolo que caracteriza o pai é, sobretudo, o de um renunciador, alguém que escolhe anular-se para que os seus sucessores possam existir. Poder-se-ia ir mais longe e parafrasear Freud quando fala das mães, o bom pai é aquele que se torna aos poucos desnecessário.

Será?

A paternidade não é apenas uma efeméride que se encerra quando a autonomia filial toma corpo. Os pais adotivos mostram também que a colaboração genética é apenas um, provavelmente não o mais relevante tópico. Aspectos como prover, cuidar e proteger perduram simbolicamente para além da presença ou existência física daqueles que assumem os filhos. Paternar é, sobretudo, uma experiência transformadora que altera a percepção do dever individual e coletivo. E mesmo com tanta diversidade o que conta é a relação única que, como filhos, desenvolvemos com eles. Do ponto de vista do pai o mais espantoso é, mesmo sem usufruir a sensação de acolher filhos durante nove meses, é poder colaborar na geração de um dos frutos mais curiosos da natureza: sementes que podem viver e gerar árvores muito diferentes daquelas que lhes deram origem.

* **Cf. Rosenbaum, Silvia Fernanda R. “Permanência a Transformação, Paternidade na Revista Pais e Filhos” Dissertação de Mestrado, PUC-SP 1998.


Paulo Rosenbaum – Médico e escritor, assina a coluna semanal “Coisas da Política”, no JB – Jornal do Brasil.

Possui graduação em Medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP-1986), mestrado em Medicina (Medicina Preventiva) pela Universidade de São Paulo (1999) e doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo (2005), pós doutor pela Universidade de São Paulo.(2010). Saiba mais.

 

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Mure, o visionário que nos trouxe a homeopatia. (Jornal da Tarde, 1999)

31 sábado ago 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Mure, o visionário que nos trouxe a homeopatia
Paulo Rosenbaum*

Dr Benoît MURE (1809-1858)Em novembro de 1840 desembarcava no Rio de Janeiro o médico francês Benoît Mure, que se tornaria o introdutor da homeopatia no Brasil, chegando a dispor de sua fortuna pessoal para difundir a medicina e direcioná-la para o tratamento de escravos e de “excluídos pela sociedade”

 

Ao contrário do que muitos acreditam, a homeopatia tem uma longa história política e institucional neste país. Passou por várias fases de ascensão e queda e neste fim de século parece estar recobrando seu fôlego. A homeopatia foi oficialmente introduzida no Brasil por um discípulo direto de Samuel Hahnemann, o francês Benoît Jules Mure.

Benoît Mure (1809-1858) é um importante personagem na história da medicina brasileira especialmente no contexto da homeopatia. Deixou influências e as repercussões de seu trabalho continuam.

Montpellier     Mure chegou ao país depois de realizar uma peregrinação na Europa, aonde difundiu e divulgou os princípios da então nova arte médica. Palermo (na Sicília), Paris, Cairo e Malta estiveram em seu roteiro de propaganda homeopática.

Quando desembarcou no Rio de Janeiro a bordo da barca francesa Eole em novembro de 1840, Mure estava com 31 anos de idade e repleto de projetos visionários. Sua história repete a de muitos outros: recuperava-se de uma tuberculose pulmonar que o acometeu quando esteve sob o tratamento homeopático ministrado por Sebastião Des Guidi, discípulo de Hahnemann e introdutor da homeopatia na França. Filho de um rico burguês de Lyon, Mure formou-se em medicina em Montpellier (um reduto da medicina vitalista).

Docteur Comte Sébastien DES GUIDI (1769-1863)     Este tratamento bem-sucedido, sucedeu outro sem êxito, levado adiante por um dos mais famosos médicos da França no início do século XIX, o clínico Magendie.

No entanto, vemos que os ímpetos científicos de Mure são intensos demais para serem apenas os frutos de uma gratidão pela medicina que o salvou de um quadro tuberculoso. Mure encontra a lógica – como o médico e naturalista alemão Constantine Hering já havia feito – e captura o método de Hahnemann, isto é o que particulariza sua preferência pela homeopatia.

O introdutor da homeopatia no Brasil, influenciado pelas idéias de Fourier e Jacotot, resolve fundar em Santa Catarina uma colônia societária falansteriana, na península formada pelo Rio São Francisco, denominada de Colônia do Sahy.

 

     Um plano ao imperador

Constantin Hering - Parimaribo - Surinam     Conforme os registros coletados por Galhardo, sabe-se que em 18 de setembro de 1841 foram apresentados ao imperador os colonos societários franceses, juntamente com Mure. Esta colônia foi o propósito inicial da vinda de Mure, que era o representante oficial da Union Industrielle de Paris (Mure, 1999). Mure foi apresentado ao imperador para expor seu plano de ação:

“Venho, em nome de todas as classes sofredoras que aspiram em França a mudar de posição, pedir a vossa majestade os meios de gozar, debaixo de um governo tutelar, do fruto legítimo de seu trabalho.” (Mure apud. Galhardo, 1928: 280).

Compreende-se, a partir desta atitude militante de Mure, sua luta ulterior, quando incorporou a seu projeto de expansão da homeopatia o tratamento dos escravos e dos socialmente excluídos do Brasil imperial. Neste contexto compreendem-se também as mobilizações política mais recentes, quando homeopatas engajaram-se nas lutas políticas e sociais do país.

Segundo o homeopata e historiador da homeopatia Galhardo, coube a um deles, Antonio Ildefonso Gomes, a redação do primeiro documento brasileiro dirigido ao Congresso Nacional, solicitando, por escrito, a restrição da escravidão. Terá sido Benoît Mure quem funda a Escola de Homeopatia do Rio de Janeiro, em 1844, embrião do futuro Instituto Hahnemanniano do Brasil, oficialmente fundado em 1859.

O médico francês era um utopista, um incorformado, e sobretudo um sujeito dotado de uma invencível tenacidade. Trata-se daqueles que acreditam que o desenvolvimento científico só é de fato evolução quando há progresso ético simultâneo. Daí compreende-se porque ocupava um substancial espaço no contexto sócio-científico do Brasil de 1840.

 

     Medicina social

Benoit Mure     Mure tenta devolver a vitalidade ao pensamento médico do recente império brasileiro. Faz preleções pelo futuro da arte médica, é prosélito de uma medicina social mais ativa, passa a defender significados e propósitos de sua particular concepção dos objetivos da saúde pública.

Contra uma prática exclusora ele inclui em seu projeto o tratamento dos escravos e das classes sociais sem acesso à medicina da Corte. De fato, a homeopatia foi, durante todo período de escravidão, a única medicina usada pelos escravos, uma vez que reunia duas qualidades indispensáveis: baixo custo e eficiência.

Há uma curiosa mistura nas propostas de Mure: o socialismo está sempre atrelado à passionalidade religiosa. Mas é precisamente esta característica que o coloca numa lista muito particular do gênero humano: trata-se daquele tipo de sujeito incansável. Ele era um ideólogo obstinado e perspicaz e sabia, como a socióloga e professora do Instituto de Medicina Social da UERJ Madel Luz mostrou, da necessidade de apoio político e aval acadêmico para conseguir bases mais estáveis para a homeopatia.

Então, Mure mobiliza-se para alcançar este apoio pressionando instituições, fazendo contatos políticos e buscando por vários meios um estatuto mais respeitável para o saber homeopático.

Seu objetivo era conseguir um parecer favorável da academia médica para a então nova escola médica. Consegue o reconhecimento, mas a um preço muito alto, já que o recurso midiático que usou como palanque para o apoio político também serviu de base para os ataques subseqüentes. Uma verdadeira guerra se estabelece nos grandes jornais da época, especialmente no Diário do Comércio e a homeopatia vira uma polêmica nacional.

Dr José Emygdio Rodrigues GALHARDO (1876-1942)     Coube ao médico brasileiro Duque Estrada ser o primeiro a aplicar, em alguns casos específicos, a homeopatia no Brasil. (Galhardo 1928, 275). Sob sua liderança, publica-se um panfleto popular para fixar nos postes do Rio de Janeiro e São Paulo com a finalidade de conter a pandemia de cólera.

Duque Estrada defende o tratamento homeopático para conter a epidemia de febre amarela e escreve para a Câmara dos Deputados propondo uma subvenção de 100 contos de reis destinada à criação de uma enfermaria para tratamento homeopático.

“O senador Vasconcelos votou na abolição da medicina oficial, toda a liberdade deve ser dada ao médico para curar pelo sistema de sua escolha” (Carvalho, 1857: 9).

A colônia societária do Sahy não vingou. Mas Mure vislumbra a difusão da homeopatia como uma perspectiva não menos nobre e a implementa em vários estados.

Ele e seus colaboradores, fazem verdadeiros planejamentos de marketing: pensam em expandir a propaganda a outros estados através de emissários, e em 1847 é instalada a Sociedade Homeopathica Bahiana, Filial do Instituto Homeopático do Brasil.

 

     Fortuna pessoal

No final de 1847 também inaugura-se um Hospital Homeopático, sob a presidência de Duque Estrada. Vários consultórios populares eram abertos tanto no Rio de Janeiro como em Salvador. Os recursos para tudo isto, ao menos inicialmente, parecem ter vindo da fortuna pessoal que Mure trouxe para o País como herança.

Os consultórios gratuitos foram criados pelos homeopatas em 1843 e vendo seu sucesso junto à população e o aumento da adesão popular ao tratamento a Academia Imperial de Medicina, também resolve abri-los em 1848.

Dr João Vicente MARTINS (1808-1854 )     Já com a saúde abalada, ao que parece devido à reativação de sua tuberculose pulmonar, e tendo já pedido a exoneração do cargo de diretor que ocupava na Escola Homeopática do Brasil, Mure despede-se do Brasil, de onde parte em abril de 1848. Vicente Martins assumiu a Escola Homeopática e a reestruturou dando-lhe uma corpo curricular mais arrojado.

Depois da partida de Mure – que falece no Cairo, dez anos mais tarde, em 1858 –, observa-se o surgimento de novas organizações homeopáticas: “Sociedade Hahnemanniana”, “Academia Médico-Homeopática”, assim como cresce o número de publicações clássicas e originais. Impulsionados e subsidiados pelo Instituto Homeopático do Brasil, é a vez de outros estados receberem mais informações sobre a homeopatia;

No contexto sócio-histórico da primeira metade do século 19, o que os homeopatas pioneiros, incluindo Mure e seus colaboradores, fizeram pela difusão da homeopatia neste país, com seus erros e acertos, só pode ser definido, sem exageros apologéticos, como um trabalho excepcional. Por isto seu trabalho teórico é de uma importância insubstituível, tanto no entendimento da situação político-institucional atual e pregressa da homeopatia brasileira, assim como da própria prática clínica de hoje.

Mas é através de sua obra empírica/experimental que seu projeto adquiriu dimensão mundial. Mure, em seu “Patogenesia Brasileira e Doutrina da Escola Médica do Rio de Janeiro”, dirige e compila uma série de 39 patogenesias (experimentos metódicos de substâncias medicamentosas) com substâncias obtidas, selecionadas e preparadas segundo a farmacotécnica homeopática, em um período histórico cujas dificuldades científicas eram literalmente descomunais. Edições de seu livro aparecem em 1853 (Estados Unidos) e 1859 (Espanha).

 

Uma opção natural para a medicina

O mundo científico já havia reconhecido de forma especialmente generosa os trabalhos dos viajantes e naturalistas que catalogaram (científica e iconograficamente) a exuberante flora e fauna deste país. É o caso dos médicos holandeses Piso e Marcgrave (integrantes da comitiva de Maurício de Nassau), de Saint-Hilaire, dos botânicos Spix e Martius e de pesquisadores menos famosos do século XIX como Freire Alemão, Velloso, Almeida Pinto, Caminhoá e Peckolt.

Agora que nos aproximamos dos 500 anos do descobrimento, seria importante promover resgates e rever ícones. Faltou reconhecer ao trabalho de Mure, especialmente pelo estudo da fauna e da flora do País. Além disto o autor vai muito além de uma catalogação farmacodinâmica/farmacognósica. Não se detém em fazer uma mera recompilação dos efeitos medicinais ou de indicações terapêuticas das substâncias obtidas das fontes da medicina indígena e popular, muito comuns nos tratados dos botanistas. Ele conduz, dirige e coordena a apresentação de medicamentos, muitos inéditos, acreditando na prodigalidade de uma natureza generosa que oferece meios curativos geograficamente próximos dos povos que deles os necessitam.

Apresenta listagens de sintomas obtidos através da experiência metódica. Faz isto usando as recomendações hahnemanianas quando adota os critérios de uma Higantropharmacologia (estudo dos efeitos das substâncias medicinais sobre o homem) quando são registradas as observações dos efeitos – objetivos e subjetivos — sobre a totalidade.

O trabalho experimental organizado por Mure não é somente ainda apropriado para subsídios de pesquisa histórica, e mesmo instrumento terapêutico, como de fato representou um incomum marco na preservação da biodiversidade. Isto em uma época na qual tais preocupações eram virtualmente inexistentes. Diríamos então que o trabalho deste idealista é provocador, original e acima de tudo dos mais modernos se considerarmos que há um boom de pesquisas atuais buscando novas substâncias medicinais nas florestas tropicais, investigação que o Instituto Homeopático do Brasil já conduzia desde 1843.

Pode-se observar em “Patogenesia Brasileira”, o esforço do trabalho experimental de Mure e João Vicente Martins (assim como outros colaboradores), o esforço de uma geração comprometida com a busca criativa de novas visibilidades para a medicina, os sujeitos e até para o próprio modelo social. Visionários que, como eles, dispuseram-se a achar as substâncias medicinais, a ir à pesquisa de campo e organizar uma matéria médica brasileira com elementos obtidos dos reinos da natureza, muitos deles ignorados (ou apenas catalogados) por outros ilustres viajantes

Paulo Rosenbaum, especial para o JT
rosenb@netpoint.com

*Copyright © Paulo Rosenbaum 2002
Photos Copyright © Homéopathe International 2002
Photo de Montpellier réalisée par Sylvain Cazalet

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Populismo e cultura da transgressão. (Blog Estadão)

31 sábado ago 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Crédito da imagem:           Nilda Raw OST 2019

A América Latina é uma espécie de gueto populista ininterrupto. Desde a iluminada estratégia revolucionária de substituir a luta política para promover a “luta armada” contra as ditaduras — o que segundo historiadores atrasou sensivelmente a abertura — a transgressão e os crimes passaram a ter conotação ideológica indulgente quase  automática. Eles foram da apropriação do erário público aos desvios de função — que ao fim e ao cabo corroeriam o princípio do rodízio no poder. O plano, já explicitado, era dissolver a democracia representativa com reeleições ininterruptas para então deflagrar o totalitarismo sindical tropical.  

Sob a alegação de garantir o estado democrático de direito, segmentos do império da justiça herdeiros do equivoco, desejam agora transferir mordaças à sociedade e ficam tentados a reinstaurar a censura. E a neo tribunocracia já  admite ser tutelada pela sociedade e a opinião pública. Desprezam abertamente aqueles a quem deveriam servir e obedecer.

Foi assim que uma epidemia de surdez coletiva dos auditores tornou-se normativa. Muitos preferem um Estado comandado por facções ligadas aos mais diversificados tipos de transgressão — que infernizam a vida dos cidadãos sem escolta armada — ao Estado que ocupando-se novamente da abandonada segurança pública é acusado de “policial”. E, sob o slogan “resistência” muitos apoiam medidas que sabotam indiscriminadamente as tentativas de reconstrução do País. Neste caso, poderiam tentar responder como um Estado aparelhado e dominado por agentes cooptados para um projeto hegemônico de poder a qualquer preço, poderia se libertar do vício? Empiricamente familiarizado com as disposição mental dessa gente, é previsível que aleguem em defesa p’ropria que a pequena burguesia não compreendeu bem a libertação que propunham. Argumento recentemente insinuado pela filósofa que prega o extermínio da classe média. Há, neste sentido, um apreço pelo perverso que defende a única boa causa que presta. A inversão ética seria apenas mais uma tela surreal se eles não estivessem falando sério e municiados com suas longas teses e notas bibliográficas de rodapé.

A guerra em curso já deixou um saldo maior do que bem do que os 60.000 mortos,  feridos,  desemprego e recessão. Para além destes, herdamos uma sociedade cindida, não mais em divisões binárias, mas multi fragmentada. Uma corrida cujo desfecho será observar quem cruzará primeiro a linha de chegada para receber a faixa  “todos contra todos”.

Evidentemente, aquele que foi o beneficiário final do fenômeno da deseleição não tem ajudado a apaziguar a sociedade. Longe disto, ao desqualificar todos os que a ele se opõem, sua performance não civilizatória pode anular todo esforço salutar para reparar o descontruído. O declive máximo poderá trazer de volta o atraso pior, aquele que acabou de ser removido do poder. Apenas para satisfazer os céticos, é o que acaba de acontecer mais ao Sul do continente.  

Tudo seria exagero se não estivéssemos caminhado para bem longe do centro político, resultado de décadas de uma oposição dócil, cooptada por regalias e regada a dinheiro público.  A geração perdida, apesar de uma safra de juízes e promotores corajosos, revelou como foi ficando evidente a nocividade da concentração de poder nas mãos forenses. É que a mitificação costuma descer à cabeça do herói e o culto unanime à personalidade é o primeiro sintoma da moléstia incurável idolatria gravis.

Esta elásticidade da subjetividade aplicada à arte do direito nos conduziu ao paradoxo: geraremos um obscurantismo maior do que o objeto criminoso a ser combatido? No contexto das desconstruções sistemáticas da autoridade política qualquer síndico de prédio poderia adquirir o aval – da noite para o dia – para transformar-se no inspetor todo poderoso, num justiceiro social com foro privilegiado, ou num parlamentar que se outorgará poder para algemar membros do Ministério Público.

Acentua-se assim de um lado uma moralidade ultra legalista que insiste criar bolhas de pseudo jurisprudência sob democracias devastadas por escrúpulos retardatários. E, de outro, os arautos do linchamento sumario.

Foi assim que o populismo avançou com seu discurso supremacista e só um milagre impedirá seu lastro destrutivo. Resta-nos recorrer à nostalgia por outro futuro e interpelando a história, perguntar:

– Até quando?

 

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Ensaios contra a inércia da repetição e da neutralidade diante da Shoah* Paulo Rosenbaum** Publicado no Arquivo Maaravi

01 sábado jun 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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via Ensaios contra a inércia da repetição e da neutralidade diante da Shoah* Paulo Rosenbaum** Publicado no Arquivo Maaravi

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Ensaios contra a inércia da repetição e da neutralidade diante da Shoah* Paulo Rosenbaum** Publicado no Arquivo Maaravi

01 sábado jun 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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NASCIMENTO, Lyslei. Despertar para a noite e outros ensaios. Belo Horizonte: Quixote-Do, 2018. 178p.

Ensaios contra a inércia da repetição e da neutralidade diante da Shoah*

 

Paulo Rosenbaum**

São Paulo, Brasil – rosenbau@usp.br

 

Em Despertar para a noite e outros ensaios, Lyslei Nascimento realiza uma abordagem multifacetada sobre a Shoah, também conhecido por Holocausto. Como é notório, mas nunca inoportuno frisar, trata-se do exterminio sistemático de judeus como Politica de Estado, levada a cabo pelo regime nacional socialista alemão com apoio e omissão de outros povos e Estados Nacionais. Ao mesmo tempo, a coletânea lança um facho de esclarecimento sobre o contra-intuitivo retorno – ou o fim de uma curta e hesitante hibernação – do antissemitismo em nossos dias.

De acordo com Wander Melo Miranda, que prefacia o livro, “na forma de vestigios, rastros ou residuos, a reminiscencia se constitui no intervalo entre o não contar para esquecer e o narrar para sobreviver”.1

 

Talvez porque estejamos diante de uma violência tão inimaginável que a linguagem não consiga abarcá-la por completo. A partir desse ponto de vista, a situação-limite da Shoah é sombria. No entanto, não estamos num vazio, mas entre fragmentos, ruínas e cinzas, “coisas” em estado de dicionário, como queria Carlos Drummond de Andrade, que parecem trazer de longe, ou de não tão longe na história, “entre o ser e as coisas”, vozes que não podem ser apagadas.

(Lyslei Nascimento)

 

Ao se dedicar a estudar livros e filmes, portanto, aspectos iconograficos e literarios, Nascimento atravessa um vertiginoso painel de autores e cenas que não só impressionam pela amplitude e pela erudição, como tambem, e principalmente, por trazer à vida uma literatura não solicitada. Isto é, a pesquisadora retoma as vozes não audiveis, as escassas, aquelas ainda — e para sempre – indiziveis, que – numa era na qual, erroneamente, considerava-se sepultado o espectro de intolerancia etnico-racial – não encontram mais lugar para testemunhar. Esse restauro das vozes adquire especial importância ao testemunharmos a onda em curso que procura reescrever com penas revisionistas a historia. Como se a aplicação de tintas mutantes resolvessem o problema produz-se, sob a alegação de cunho vergonhosamente ideológico, neo-ideologias justificacionistas.

Como afirma a ensaista no capitulo em que evoca, muito oportunamente, dois poetas brasileiros que também se ocuparam do tema da Shoah, Vinicius de Moraes e Jorge Amado:

A imperiosa necessidade de se revisitar o episodio da Shoah, delinea-se, para o escritor e para o leitor, como um empreendimento impossível de ser apreendido e contornado, mas nunca soterrado”.2

Isso significa que a escavação se processa em camadas e, assim como o arqueólogo, autor e leitor devem recolher, por intermédio do paradigma indiciário daquele que foi um dos mais abomináveis eventos da história ocidental, fragmentos e ruinas, para, enfim, reconstituir aquilo que o pesquisador italiano Carlo Ginzburg chamou de micro-historia. Para o autor de Mitos, emblemas e sinais, o exame da história pode obter outra abrangencia ao incorporar os aspectos qualitativos e individuais dos grandes eventos cronologicos. Trata-se de uma investigação que procura se apropriar e inspecionar as particularidades quase idiossincrasicas dos fenomenos históricos.

É com esse enfoque epistemológico que a autora esmiuça – por intermédio do cuidadoso levantamento literário-iconográfico – os arquivos culturais produzidos pelos vários enfoques hermenêuticos inspirados pela Shoah e afiança que nela ficou evidente a igualdade da condição humana, independente de quaisquer fatores culturais ou religiosos.

Sendo assim, para a ensaista:

 

Nascimento passeia com destreza no seu campo de analise que é o da literatura comparada e consegue, por meio das muitas referências culturais e historiográficas, situar o leitor para além do campo da indignação pura e da perplexidade paralisante. Ela nos faz pensar nos múltiplos aspectos da Shoah, investindo, de um lado na “voz dos vencidos” e, de outro, situando a catástrofe no campo de uma fenomenologia ainda – ou perpetuamente – incompreensível. Ao mesmo tempo, a pesquisadora não cai na armadilha do “fato histórico” como inexorabilidades inexplicáveis. Ela investe seu esforço na resposta vigorosa que a arte e a cultura se esforçaram para reparar o indizível.

A autora oferece, desse modo, uma síntese de seu trabalho: a Shoah, apesar do vasto e importante material produzido pela história, pelo cinema, pela literatura e artes em geral, ainda sofre reveses de discursos revisionistas e negacionistas. No mundo e, infelizmente, também no Brasil. Nesse sentido, o critério para a seleção desses ensaios foi estudar alguns escritores e artistas que, a contrapelo dessa tentativa de esquecimento e de soterramento contemporâneos, produzem suas obras como alertas à valorização e ao respeito à vida.

Sem ceder ao obscurantismo e tal qual a metodologia das discussões talmúdicas, a ensaísta se recusa ao reducionismo: não existe uma à guisa de conclusão”, nem mesmo uma insinuação de desfecho. Assim como em outros genocídios quando “o homem é o lobo do homem” não há sinal de término, nenhum indicio de que aporias éticas possam ser elucidadas por meio e uma racionalidade asséptica. Quando se trata de holocausto, o predomínio é de uma razão exaurida, ainda que jamais vencida. Por isso, não será exagero afirmar que o livro tem um tônus desbravador na luta contra a inércia da repetição e da neutralidade.

As exortações vem de comunicações pessoais da própria autora. Nesse sentido, mesmo sabendo que não conseguirá tudo, o escritor, o artista, e nós, os leitores, devemos ser incansáveis e equilibrar-se, portanto, entre o sono (o sonho) e a vigilia é fundamental. Vivemos num tempo de monumentos estéreis, nesse sentido, os pequenos relatos que escapam à grandiloquência devem ser trazidos á  luz, sem mistificações.

 

“Cercar o fato historico em sua barbárie e contorná-lo pela palavra ou pela arte, costurando textos e registros infames, é sobretudo, lançar-se numa tarefa que, de antemão, já se anuncia como incompleta, residual, barbara”. 3

 

A extensão da terra devastada do que, tambem, já foi chamado de “o maior drama da história ocidental” e as repercussões transgeracionais do genocidio organizado pelos nazistas sempre impedirão qualquer sintese e, provavelmente, obnubilarão a tentação da explicação única, cabal.

É desse espanto e dessa impossibilidade de reduzir o evento que nasceram as mais variadas explorações que a pesquisadora escrutiniza nestes ensaios.

Para quem tem dúvidas de que se trata de um livro com vocação canônica, basta atentar ao sumário. Ele já desvela, desde o início, a extensão e a abrangência da pesquisa de Lyslei Nascimento: “Despertar para a noite: a memória da Shoah”; “Jorge Luis Borges contra o nazismo”; “Poetas em tempos sombrios: Vinicius de Moraes e Jorge Amado”; “A miniaturização do mundo em A Guerra no Bom Fim, de Moacyr Scliar”; “Ver: Shoah: o romance e a enciclopédia em David Grossman”; “Crime no gueto: Os anagramas de Varsóvia, de Richard Zimler”; “Humor e Shoah: O trem da vida, de Radu Mihaileanu”; “O tango e o tango dos Rashevski” e “Arquivos possíveis: Sob céus estranhos, de Daniel Blaufuks”.

Em cada um desses tópicos, o leitor atravessará um universo de perspectivas incomuns. A autora poderia limitar-se à análise sociológica da literatura, mas, sem a abandonar, ela arrisca-se para compreender a dimensão poética dos textos. E é precisamente essa originalidade que, ao percorrer as péginas, o leitor não deixará de notar uma das caracteristicas marcantes no texto: a ousadia não alinhada, o raro traço da independência intelectual.

Um livro essencial, sólido, concebido e escrito em um período histórico no qual até a busca pela verdade tornou-se estéril e rarefeita.


1 MIRANDA, 2018, p. 13-17. 2 NASCIMENTO, 2018, p. 77.

2
Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 13, n. 24, maio 2019. ISSN: 1982-3053.

 

3

NASCIMENTO, 2018, p. 77.

Recebido em: 30/03/2019. Aprovado em: 10/04/2019.

* Uma versão desta resenha foi publicada no jornal O Estado de São Paulo (São Paulo, 4 jan. 2019), disponível em: https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de- noticia/despertar-para-a-noite/.
** Medico e Doutor em Ciencias pela Universidade de São Paulo, poeta e romancista.

 

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Inquietude de si ou Epimeleia (Blog Estadão)

01 sábado jun 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Um experiente professor de Medicina sugeria — o tempo não pode ser administrado intuitivamente — que deveríamos organizar a duração da existencia da seguinte forma:

33% dizima periódica: família,

33% dizima periodica trabalho

33% dízima periódica, questões pessoais.

A pergunta fundamental é como preservar o espaço reservado para as idiossincrasias pessoais geralmente esmagado pelas outras demandas. Estudos mostram que quanto mais integrados em redes sociais, virtuais ou não, a sensação de isolamento e solidão é relatada com cada vez mais frequente. A psiquiatra engendrou como patológicas as categorias “anti-social”, “fobia social” e “misantropia” portanto nosologias dignas da tentação de preconizar terapêuticas medicamentosas. Porém é muito difícil afirmar se e quando estas situações requerem a aplicação de psicofármacos sem uma munuciosa investigação. Uma investigação existencial. Infelizmente nem sempre esta etapa ocorre. E ela não pode ser feita só através de exames laboratoriais. Avaliar a subjetividade e fazer os diagnósticos diferenciais pode exigir bem mais do que uma boa anamnese.

Categorias nosológicas da psique podem ser confundidas com características pessoais tais como de sujeitos reservados, com desejo de solidão, hábitos melancólicos, isolamento reflexivo, apartamentos regulares visando estados meditativos. Não é impróprio dizer que graças a elas, criatividade e imaginação fertilizam o mundo. Também é redundante lembrar que boa parte da literatura e obras artísticas icônicas não teriam vindo à luz sem o respeito à estas naturezas.

Os introspectivos, aliás, tem sido alvos de uma prática terapeutica selvagem. São casos de overdiagnosed e bullyings voluntários ou involuntários carreados pelos esteriótipos alardeados pelas mídias e reproduzidos nas salas de aula, escritório e espaços de convivência. Eles seriam, até prova em contrário, seres incomodos, potencialmente perigosos ao conjunto social. Uma acusação que se confunde com o risco. Como ousam? O crime? Recusar-se a pertencer às tribos e egregoras sociais.

São territórios inconfundivelmente distintos: casos graves merecem tratamento clínico medicamentoso, especialmente quando há sofrimento e angústia pela incapacidade de participação e integração. Por outro lado existem características que não podem ser etiquetadas com tanta facilidade. Trata-se não de moléstia, mas de atos da vontade humana. Alguns nascem com uma sensibilidade especial: o discernimento mais fino entre o eu os outros.  Há quem escolha, por vezes, cultuar a invisibilidade.  Entre a integração com a massa de sujeitos indiscerníveis ou orientarem-se ao si mesmo, alguns consideram mais aprazível experimentar emancipar-se dos conglomerados. Podem sofrer, mas ainda assim reafirmam seu direito de exercer as características pessoais.

Boa parte dos casos de individuos assim chamados outsiders não são mórbidos. Entretanto nao é incomum que suas preferências tendam a imputar-lhes diagnósticos preconceituosos, muitas vezes injustos. Não se pode esquecer da manipulação ideológica. A gravíssima investida política contra a liberdade quando o sistema de saúde soviético instruía rotular dissidentes políticos como “refusiniks” então considerada por lá uma doença mental.

Agora invertarmos o raciocínio: qual levantamento estatístico não se renderia a quantidade de pessoas perfeitamente normais e socialmente adaptadas que cometem crimes bárbaros e atos cruéis? Sabidamente há individuos perfeitamente integrados em comunidades cuja ideologia coletiva de doutrinação de sujeitos  — dos jihadismo aos supremacistas — com ideias e comportamentos incomparavelmente mais deletérios do que os vilipendiados nerds, que, por sua vez, apenas gostariam de ser deixados em paz.

Sua inadequação, antes, refere-se a um padrão construído por uma normatização que nasceu das estatísticas, de consensos psiquiátricos e de critérios vulgarizados pelo senso comum. O freak, o esquisitão, o excentrico, o zoado, o podado, o caladão, é, enfim aquele que foge do desvio padrão estatístico.

Da mesma forma pouco se pondera o quanto as multidões são melancólicas. A força que ela emana está no efêmero, nas exuberâncias dissipáveis, na transcendência horizontal, como sagazmente apontou Aldous Huxley. Dificil para a maioria inverter o trabalho do pensamento e perceber que sempre que o sujeito desaparece atrás das médias é você quem está sendo apagado. Por instantes cogite: e se a aparente instabilidade da solidão revelar um mérito oculto? E se as pessoas que decidem viver mais isoladas desenvolvessem mais sonhos e inspirações do que agrupamentos eufóricos pouco criativos?

As coletividades tendem a impor a decisão de como deves viver. A ética que deves obedecer. O comportamento que deves adotar. Se este é o preço do convívio é preciso responder: sacrificas tuas idiossincrasias pelo que?

Normalmente sacrifícios envolvem uma decisão heróica: construir a abstinência construtiva, aceitar um retiro que emancipa, ou aderir à renúncia que elege o bem comum como prioridade. Destarte, nenhum altruísmo deveria impedir o exercício das particularidades de cada sujeito.

Para os adeptos da solidão voluntária a vida social compulsória é apenas um desvio de função. Isso é, para quem sente assim, a obrigatoriedade ao convívio grupal é um substitutivo, uma tortura que ocupa o lugar da vida interior pois compete com a prioridade vital: ocupar-se de si mesmo. Para os gregos essa busca pode ser sintetizada através do termo epimeleia. Inquietude de si, ou “ocupar-se de si mesmo” e com suas próprias coisas não significa desinteressar-se pelos demais, tampouco mergulho narcisista, mas achar uma justa medida num acerto mais generoso consigo mesmo.

E o mais comum — em todas as épocas — é que o espaço de quem dá preferencia para dar voz ao espaço interior seja expulso pela vida artificial, engolido pelo excesso de arredores. Em nossos dias a agudização se dá pela falsa percepção de que estamos sempre acompanhados por algum tipo mágico de algoritmo solidário e do elogio do compartilhamento como um mérito per se.

Sociólogos afirmam que os espaços de privacidade tal como a conhecemos estão com os dias contados. Numa sociedade que vive conclamando tolerância à diversidade que tal prezar a introspecção. E enaltecer o “ocupar-se de si mesmo?”

Sua fração ideal de 33% e quebrados agradece.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/elogio-da-epimeleia/

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O papelão antissemita do NYT (Estadão)

01 quarta-feira maio 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Imprensa, Na Mídia

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A charge antissemita publicada ontem pelo jornal norte New York Times é um divisor de águas em vários sentidos. Não somente pelo mau gosto, prerrogativa de escolhas estéticas equivocadas, mas pela provocação, o espírito que adora espalhar impensáveis malidiscências. Aprovado pela editoria, a insinuação grotesca retrata um dos vícios mais recorrentes que é universalizar a imagem do judeu como cão submisso à um presidente cego usando solidéu. Uma imagem que oscila entre a velhacaria e a manipulação.

Sim, o NYT já fez a autocritica. Sim, vieram os indevidos — pois trata-se da velha e indesculpável repetição dos dicurso de ódio travestido de coisa espirituosa progressista — pedidos de desculpas, mas depois da editoria ter aprovado a “charge” e a divulgado macicamente em mais de 100 países. Vale dizer, o perdão é tardio quando o gênio mefistotélico já deixou a garrafa. E ainda é possível ler comentários pouco iluministas classificando o recuo como obra do “lobbie judaico”, versão de antanho da orquestração de domínio do mundo. Pseudo argumento eclético usado conforme convém pela esquerda e pela direita.

O antitrumpismo e a mídia que o representa, numa espécie de associação à revelia com a extrema direita e a extrema esquerda (não muito distinto do que acontece entre nós) associa-se sem pudor à perseguição e à generalização para demonizar Israel e os judeus.

É de fato muito perturbador observar como tornou-se facil e confortável naturalizar a intolerância seletiva. Quando promovem-se campanhas desqualificadoras atacacando a associação entre minorias mais impunenemente criticáveis e os governos que acordaram e passaram a denunciar o clarísismo viés antissionista e portanto predominantemente antijudaico das mídias.

Pois sim, existem aquelas “minorias” como por exemplo o jihadismo islâmico que seguem quase intocáveis pelo estranho medo de incorrer na igualmente erronea generalizacão islamofóbica. Apenas imaginem a repercussão — e os desdobramentos de violência — se  chargistas e editores  escolhessem outros personagens para representar.

Como recentemente afirmou o filósofo judeu francês Alain Finkielkraut a propósito da perseguição sistemática que tem sofrido por parte da extrema esquerda:

“O engajamento vampiriza o jornalista”

E é muito mais do que isso, retira o sangue da informação decente. Trata-se de uma anemia covarde e que merece diuturna denuncia. Quem vai dando voz à cizania tem que assumir a responsabilidade: será condenado a recolher os cacos. Por sua vez, dentro de todo democrata ressentido há um sabotador. São aqueles que, por princípio. não aceitam o resultado de eleições livres a não ser que a vitória de seus preferidos esteja assegurada. Como os gregos não previram tudo, será necessário repensar e transformar a própria democracia.

Só haverá uma resposta à altura deste ato ignominioso como o que promoveu desta feita o NYT. O antes promotor de causas humanistas e intransigente defensor dos valores como justiça e equidade precisará descer da sua supremacia ideológica e da sempre infundada soberba intelectual para reaprender que a função jornalistica é nobre demais para “costurar” versões hostis para desqualificar oponentes. Muito menos promulga-las como se estivesse no escopo da ética e da decência defender causas corretas contra povos, governos ou instituições que lhes desagradem.

Algumas publicações nacionais e espanholas poderiam também pegar carona na reciclagem. Recentemente surgiu o curso “Dessensibilização catártica para jornalistas ressentidos: o segredo de como voltar a fazer um jornalismo não instrumental”. O curso começa em duas semanas e é semi presencial.

Obs- Ainda não há turma formada.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-papelao-de-almanaque-do-nyt/

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