Crédito da imagem:           Nilda Raw OST 2019

A América Latina é uma espécie de gueto populista ininterrupto. Desde a iluminada estratégia revolucionária de substituir a luta política para promover a “luta armada” contra as ditaduras — o que segundo historiadores atrasou sensivelmente a abertura — a transgressão e os crimes passaram a ter conotação ideológica indulgente quase  automática. Eles foram da apropriação do erário público aos desvios de função — que ao fim e ao cabo corroeriam o princípio do rodízio no poder. O plano, já explicitado, era dissolver a democracia representativa com reeleições ininterruptas para então deflagrar o totalitarismo sindical tropical.  

Sob a alegação de garantir o estado democrático de direito, segmentos do império da justiça herdeiros do equivoco, desejam agora transferir mordaças à sociedade e ficam tentados a reinstaurar a censura. E a neo tribunocracia já  admite ser tutelada pela sociedade e a opinião pública. Desprezam abertamente aqueles a quem deveriam servir e obedecer.

Foi assim que uma epidemia de surdez coletiva dos auditores tornou-se normativa. Muitos preferem um Estado comandado por facções ligadas aos mais diversificados tipos de transgressão — que infernizam a vida dos cidadãos sem escolta armada — ao Estado que ocupando-se novamente da abandonada segurança pública é acusado de “policial”. E, sob o slogan “resistência” muitos apoiam medidas que sabotam indiscriminadamente as tentativas de reconstrução do País. Neste caso, poderiam tentar responder como um Estado aparelhado e dominado por agentes cooptados para um projeto hegemônico de poder a qualquer preço, poderia se libertar do vício? Empiricamente familiarizado com as disposição mental dessa gente, é previsível que aleguem em defesa p’ropria que a pequena burguesia não compreendeu bem a libertação que propunham. Argumento recentemente insinuado pela filósofa que prega o extermínio da classe média. Há, neste sentido, um apreço pelo perverso que defende a única boa causa que presta. A inversão ética seria apenas mais uma tela surreal se eles não estivessem falando sério e municiados com suas longas teses e notas bibliográficas de rodapé.

A guerra em curso já deixou um saldo maior do que bem do que os 60.000 mortos,  feridos,  desemprego e recessão. Para além destes, herdamos uma sociedade cindida, não mais em divisões binárias, mas multi fragmentada. Uma corrida cujo desfecho será observar quem cruzará primeiro a linha de chegada para receber a faixa  “todos contra todos”.

Evidentemente, aquele que foi o beneficiário final do fenômeno da deseleição não tem ajudado a apaziguar a sociedade. Longe disto, ao desqualificar todos os que a ele se opõem, sua performance não civilizatória pode anular todo esforço salutar para reparar o descontruído. O declive máximo poderá trazer de volta o atraso pior, aquele que acabou de ser removido do poder. Apenas para satisfazer os céticos, é o que acaba de acontecer mais ao Sul do continente.  

Tudo seria exagero se não estivéssemos caminhado para bem longe do centro político, resultado de décadas de uma oposição dócil, cooptada por regalias e regada a dinheiro público.  A geração perdida, apesar de uma safra de juízes e promotores corajosos, revelou como foi ficando evidente a nocividade da concentração de poder nas mãos forenses. É que a mitificação costuma descer à cabeça do herói e o culto unanime à personalidade é o primeiro sintoma da moléstia incurável idolatria gravis.

Esta elásticidade da subjetividade aplicada à arte do direito nos conduziu ao paradoxo: geraremos um obscurantismo maior do que o objeto criminoso a ser combatido? No contexto das desconstruções sistemáticas da autoridade política qualquer síndico de prédio poderia adquirir o aval – da noite para o dia – para transformar-se no inspetor todo poderoso, num justiceiro social com foro privilegiado, ou num parlamentar que se outorgará poder para algemar membros do Ministério Público.

Acentua-se assim de um lado uma moralidade ultra legalista que insiste criar bolhas de pseudo jurisprudência sob democracias devastadas por escrúpulos retardatários. E, de outro, os arautos do linchamento sumario.

Foi assim que o populismo avançou com seu discurso supremacista e só um milagre impedirá seu lastro destrutivo. Resta-nos recorrer à nostalgia por outro futuro e interpelando a história, perguntar:

– Até quando?