Um Antepenúltimo Kadish*

Durante a inauguração da pedra

Arte a partir do desenho de Hanna Rosenbaum

Como você alternou de forma tão clara a consciência com nonsense?

A alegria com o senso agudo de realidade, a retidão com o desapego.

A pergunta que me persegue desta tua última aparição, não a dos sonhos,

mas daquela noite.

Aquela que foi tua última noite de consciência (ou vigília?)

O que você quis realmente dizer com as últimas palavras?

Você cutucou o braço da moca da enfermagem para tentar dizer algo, mas não disse,

Não poderia dizer. Estavas sem voz. Tua voz, para nós continuamente sagrada e apaziguadora.

Firme, e ao mesmo tempo, gentil.

Como dizer para qualquer um aquilo me quebrou em migalhas?

Cheguei a achar que eram disformes, irrecuperáveis.

Mas pensei no que você diria: há afinal algo irrecuperável?

Ou somos ineptos para entender este estado da consciência?

Você dizia que queria que tentassem de tudo.

O que esquecemos de tentar?

Talvez deixar tudo ao acaso como queriam aqueles que achavam que nada vale a pena.  

Mas, e teus segundos de contemplação arguta?

E tua mão recebendo a minha gelada quando te anunciei que era o dia mais frio do ano.

A noite mais fria da Terra, da nossa terra.

Da terra comum que nos acostumamos a criar juntos.

A noite da despedida da saúde que nunca chegou.

E sabes por quê?

Porque você sempre recusou despedidas. Você as rechaçava. Tua missão de hoje?

Que tal relatar qual foi o acordo que você fez com o Criador.

O pacto que você preferiu guardar. O segredo que jamais conheceremos.

Mas eu o intuo.

Era sua recusa anárquica em ceder, em fazer concessões à severidade excessiva, em achar graça das formalidades, da seriedade burocrática.

Ou rejeitar aquilo que chamam de inexorável.

Ao que a vida material quer nos impor. Como você sempre afirmou sem um vestígio de desengajamento “este é um mundo de forças inferiores” e nossa missão é desembrutecê-lo.

Como as armas que temos, gentileza e generosidade. 

Tua consciência permaneceu sempre límpida.

Tua visão do olam raba, o mundo vindouro, era clara.

Sempre foi. Não era apenas o imaginário ordinário de uma passárgada, mas um paraíso cheio de festividades e danças celestes. Esse era teu talento. Nos tirar do sufoco da constância da gravidade, nos elevar até o teu invencível sorriso  

E quando os céticos te pressionavam você também sorria, já que eles não conheciam tua obstinação em servir a D-us de uma forma verdadeiramente individual e única como nos ensinou Ball Shem Tov. Como poucos você conheceu a adesão, a proximidade máxima, a Dvekut.

Como um Moisés de nossos dias, depurados de decretos de faraós antigos e contemporâneos. você foi entregando tua vida para ser reparada pela influência solar.

Sob o sol que te esquentava no sofá. Na poltrona que te atraia para nos servir o café do dia a dia.

Sem omitir a famosa bengala que usavas como batuta. 

Como você conseguia arrancar do cotidiano o extraordinário que ninguém mais reconhecia?

Há um mistério aí.  

Sabemos que há um Juiz da Verdade, mesmo não sabendo quem é o ‘“Grande quem?”

Na tradição judaica “O Grande quem”, só pode ser quem sempre te orientou, e te inspirava em segredo uma consciência rara e única.

Quando você me perguntava como se alcançava a Grande Vida: você sabia, era o único que já conhecia a resposta.

Esta frase do Talmud aqui grafada no mármore preto: “Um sábio é maior do que um profeta” nunca foi exagerada: você realmente foi ambos. 

Te declarar este apreço é um exagero, decerto perdoável.

Você está mesmo em outro lugar, aquele terreno que flutua, do qual nenhum habitante jamais retornou?

Para mim tua presença é ainda tão palpável e tua voz faz tanto eco que só confirma que a existência da música indissipável.

Muitos me falaram: te amaram mesmo sem nunca ter te conhecido, isso só pode significar que os inesquecíveis são imortais.   

Eu te perguntava o que significam as grandes assimetrias, o mero respirar, as façanhas fúteis, as sagas e vaidades daqueles que só veneram a si mesmos.

“Esquece”, você respondia.

Achavas que a vida e a alegria valiam mais. Era o jarro dos levitas que te hidratava com um sentido invisível para o senso comum.

Teu lema “rir a cada 15 minutos” sempre soará enigmático para a multidão. Rir de si mesmo. Rir da pretensão. Rir das compreensões provisórias, ou seja, todas. Rir como um ajuste de contas com as racionalizações abusivas. 

Mas, preciso registrar Pai, a verdade é que ficou bem mais difícil.

Prometo, isso é provisório.

Logo adiante, fiéis à tua tradição, retornaremos ao lúdico, aos jogos de palavras, à felicidade imotivada.

É assim que te honraremos para sempre.

* Para Mosche Aaron Ben Nachman Wolf