A crise financeira global ameaça diretamente as conquistas sociais, e, como a peste recorrente, quem pagará a conta serão os pobres e a classe média. Previsível que a sociedade reaja, porém quando se tensiona o estado de direito com incêndios, saques e explosão de crimes precisamos analisar melhor o que está acontecendo no lugar de aceitar tudo tão passivos. Está geração é testemunha de um rito de passagem. E estamos bem no meio. Deve nascer uma nova consciência sobre o que será a atividade politica. O capital especulativo luta contra as forças de produção. A coisa pública vem se tornando coisa partidária. O voto se tornou a cédula mais cara já inventada. A impressão que se tem é que uma referencia normativa interna foi deletada, justo a que autoregulamentava os parâmetros éticos.

Trago a opinião de um famoso advogado muito bem informado: “os políticos precisam mesmo fazer ‘caixa’ para se defender dos inexoráveis processos que sofrerão quando deixarem seus postos. Hoje em dia todo mundo tem um dossiê contra alguém”. Então é um problema generalizado: situação e oposição parecem pensar da mesma forma, pois um dia sabe que se revezarão nos cargos. Com isso, tudo parece lícito e qualquer denúncia do “mal feito” pode ser sempre abortada ou desqualificada sob a acusação de demagogia dos inimigos. Mas o poder é corporativo e, salvo exceções, enriquece. Rapidamente. Ora, se é carreira com tantos dividendos, poder-se-ia regulamentá-la, mas para isso, precisaríamos costurar novo contrato social. Esqueçam, eles não são só eles: todos somos cúmplices.

Um pragmatismo selvagem tomou conta das sociedades que identifica desenvolvimento econômico com bem estar, acúmulo material com felicidade e progresso/evolução com abandono das tradições. Vivemos o paradoxo de uma era com inimaginável disponibilização de informações num contexto de paupérrima reflexão. A palavra “cultura” que tem origem etimológica no cultivo, e envolve “a totalidade dos padrões de comportamento, artes, crenças e instituições” foi reduzida a entretenimento e distração. Tudo deve ser rápido, com poucos caracteres. Os artigos digestivos, as músicas monofônicas, as imagens, instantâneas. É satisfação garantida ou seus milhões de acessos de volta.

E ainda há essa praga chamada de “formadores de opinião”. Mas quem foi que disse que cabe aos intelectuais decretar se existe alma, se o conhecimento metafísico é obsoleto ou aos cientistas militar em cruzadas a favor do racionalismo mecanicista?

Pois há uma relação entre o lento apagamento das tradições e o desesperado rastreamento por algo que as substituam. Tradição como conjunto de saberes e práticas de cada comunidade. Buscamos substitutos para a vida espiritual que vai se extraviando. O malogro é previsível, já que não existe consciência-estepe ou prótese que reponha a tradição de cada sujeito. Para os mais jovens vai ficar cada vez mais duro. Diante dos valores revirados no lixo sobra pouco, e não é nada espantoso que estejamos mergulhados em futilidades, sob a pandemia de drogas ilícitas e maciça medicalização com substâncias congêneres.

O notável é ver a expansão da pobreza subjetiva, a que faz reduzir as expectativas espirituais. Na outra ponta, ocupando o imenso vazio, o proselitismo tosco com púlpitos eletrônicos e dízimos instantâneos. Não há mais como disfarçar a distorção generalizada dos valores transcendentes. Não me refiro exatamente à transcendência do tipo religiosa, seja qual for o culto do cidadão.

É para ficar maluco mesmo.

Pois essa miséria reafirma a primazia das coisas e da matéria sobre tudo e todos. Estrangula o horizonte que deveria nos alimentar. O fantasma é gigantesco, a armadura pesada, a ignorância persistente, e talvez não haja, sequer, cura. Mesmo assim, enquanto tivermos voz, podemos fazer com que as tradições falem de novo.

De preferência, o que nunca se ouviu antes.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor, autor de “A Verdade Lançada ao Solo”. (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

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