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A medicina é uma profissão peculiar, como outras decerto, mas, nela encontramos um aspecto quase único, que não compete com nenhuma outra particularidade de outras atividades: a proximidade e a frequência com que assistimos a morte.

Nesse sentido, somos todos, de maior ou menor distância, testemunhas do inexorável. A morte, vista de perto, é evento previsíve,l extraordináriamente comum, banal mesmo. Ainda assim, reparem a estranheza com que lidamos com o fato, a potencia com que ele nos desestabiliza, a corrente nostálgica e inevitável de como se impõe. Tudo isso junto, acaba conferindo ao fenômeno uma façanha: é o comum mais surpreeendente que existe.

Isso prova algumas coisas: somos sujeitos que — em mundo que se empenha em nos lembrar sempre da falta de sentido — tem tanta esperança, mas é importante enfatizar, tamanha esperança, que, em nossas rezas, e em nossas fantasias rogamos para que ninguém morra. Aspiramos sua abolição, nada além disso.
Por outro lado sabemos, há um fim.

Mas a morte, me dizem, não é só falência do ser, mas o fim duma relação.

Será?

Que dizer da força das memórias? Dos diálogos internos? Da apreciação das obras? Dos filhos? Dos amigos? Das intervenções? Da imaginação ativa que nos coloca cara a cara com quem já morreu? Dos sonhos, nos quais provisoriamente reintegramos suas presenças?

Será possível que estejamos tão enganados e que a “negação da morte” ainda seja um daqueles tótens que nos conserva alheios a esse gigante, esta sombra impenetrável que é o desaparecimento físico das pessoas? Que a tal compulsiva negação é que nos conserve, paradoxalmente, na afirmação da vida? E que a vida está assim, tão separada, tão apartada, de qualquer forma encapsulada, deste monstro mitológico que aprendemos desde cedo ser a morte?

Não senhores e senhoras, não se se trata de fascínio, mas de inevitabilidade.

Nossas fantasias sobre a possibilidade transcendente do espírito podem ter todas acusadas de ingênuas, néscias, cruas, incoesas e sobretudo irracionais. Mas elas tem razão. Razão de ser.

Morremos para estar mais presentes. Dói, mas é toda a verdade. Se temos, cada um de nós, nossa micro relevância, é porque, de alguma forma, fazemos sentido. O sentido, nesse sentido, não é um elemento perecível. O sentido é o que nos faz ver que somos essas memórias todas aglutinadas e espalhadas, ao mesmo tempo. Que os que morrem não precisam estar em paraísos idealizados (ainda que valha a pena ter em mente a delícia de cada um dos jardins do mundo vindouro) nem em descrições detalhadas. Os que morrem vivem alhures e aqui.

Os mortos vivem em nós para sempre.

Sempre foi assim, mas só acordamos para isso ao morrer.