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Há alguns posts atrás falei da “depressão desnecessária”.

A depressão necessária não é uma necessidade. Mas ela se impõe. Pode ser por falta de outro nome, de qualquer forma, já se impôs. Há uma função para as tardes letárgicas, para a falta de produtividade, para o hormônio da abulia que nos domina em qualquer fase da vida.

A depressão é uma função, assim como tato, visão e olfato. Ela permite aberturas, furos para os espaços hermeticamente lacrados. Assim, respiramos qualquer profundidade.

— Ah. compreendo, essa não é a posição da psiquiatria? O lema tem sido “todo sintoma será extirpado”

Paciencia. Sinto Sr. mas esse não é um blog psiquiátrico, sequer prioritariamente médico.

Neste espaço, que considero terra de ninguém — o cyberspaco é tabernáculo contemporâneo — posso dizer o que nem sempre se pode fora das consultas.

A depressão necessária ou a necessidade de uma certa melancolia deve ser encarado como um órgão com déficit, que precisando voltar a funcionar, produz ruídos. Nem sempre agradáveis. A terapêutica — numa competente auto regulamentação — é fazer com que o corpo e a mente voltem a ter vida criativa.

Não somos meros reprodutores. Não precisamos ser copiadores. Não podemos mais ser espelhos de luxo. Ousemos pensar com independência. Para horror dos catedráticos viva a auto-referencia. A vida, pelo menos nossas vidas como criadores — é o que nascemos para ser — seria uma saída para o silêncio nesses dias de impressões excessivas e impressionismo esvaziado (ah! Matisses mal apreciados, que tragédia). Mas, para bem apreciar, não é preciso riqueza, nem poder (se bobear, atrapalha) é necessário, em uma palavra, assumir.

Assumir que a aula de Montaigne, sim um filósofo do XVI, “e por acaso, voce não está vivendo?”. Pois este magistral psicólogo também te afirma “e por acaso voce não está vivendo.” e ainda exclama “por acaso, voce não está vivendo!”. Ele trabalha com todos os pontos e nada é por acaso.

A depressão necessária não é, nunca foi, acidente. É sua causa eficiente, e afinal, não precisa ter vida própria.

Há nela um sentido, quase puro: a melancolia dos que refletem.