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Um dos sentidos mais obscurecidos em nossos tempos — se é que não extinto — é a intuição.

A intuição é um sentido, um instrumento — oculto como o sentido do equilíbrio — que, pelo desuso, se atrofia.

Minha hipótese é que essa verdadeira benção — com potencial de nos guiar pela vida — não desapareceu, apenas foi obcurecida pelas demandas violentas, tirânicas, que a vida material e a rotina mecanizada nos arrastou através destas metrópolis saturadas.

De qualquer forma, se ela ainda é um recurso ainda disponível, apenas escamoteado pelas aparências, por que não vêm mais à tona? Por que a impedimos? Melhor dizendo, se ela está mesmo viva, se é um sentido presente, apenas inativado, porque não a colocamos de novo em disponibilidade?

Ninguém pode duvidar dessa necessidade.

Cada vez mais escolhemos, e acusamos este pertencimento, ser uma sociedade de robôs aculturados. E os robôs estão cada vez mais ativos porque ofertas e demandas foram reduzidas às necessidades materiais, satisfações imediatas, confortos sem significado.

Mesmo diante de tanta superficialidade e repressão, relatos aparecem. As pessoas já notaram que esses snapshots (instantâneos) mesmo amordaçados sempre ameaçam vir à tona e dar seu recado.

No “O Caderno Vermelho” de Paul Auster, por exemplo, vemos as coincidências em operação. Mesmo sendo tratadas de forma blasé elas são poderosas. Interferem ativa, ainda que a maioria das vezes imperceptivelmente na vida das pessoas.

A constatação de que existem acontecimentos e fenômenos sincrônicos, que, de alguma forma, poderiam ser indícios de que há uma providência em exercício, não são admitadas dessa forma.

Talvez porque seja mesmo mais fácil e aceitável atribuir aos eventos extraordinários conotação de acaso, ou encaixá-los dentro dos fenômenos comportados dentro de teorias como, por exemplo, a das probabilidades, vale dizer ao aleatório. Claro que isso parece melhor, ou mais cômodo, que evocar uma teoria mística ou inexplicável.

A intuição pode nos ajudar. Por isso, presságios, pequenas imagens internas, fragmentos de sonhos e até mesmo o pensamento mágico não podem ser descartados com tanta pressa. As desrazões podem nos ser mais úteis do que se imagina. Mas compreende-se bem porque, numa sociedade mediada por relações completamente racionalizadas, roteirizadas, reféns do cientificismo (a ciência que tudo explica) a intuição chega a ser um disparate.

Não se pode prever quase nada. Mas, as vezes, mesmo assim ela vem. Um mini alerta se codifica. E com esta minúscula informação podemos nos guiar. São espaços internos que funcionam como antecipações de sensações, imagens, sonhos, flashs, lampejos, ou arrepios indefiníveis:

“Sinto que não devo ir lá”

“Não tive uma sensação boa naquele apartamento”

“É nesta viagem e neste roteiro que vamos ficar bem”

“Vamos deixar passar esse negócio, não sei porque mas acho que não daria certo”

“Pintarei com um outro material, sinto que  é o caminho”

“Vamos escolher outro vôo, este número…não gostei”

“Resolvi ir porque sei que vou conhecer uma pessoa especial”

“Tive um sonho, melhor adiar a proposta”

“Justo hoje, o telefone dela caiu na minha mesa, e eu não a via há 10 anos”

Sim, elas aparecem.

Assim, mesmo que voce não acredite em nada, deixe ou crie espaço para sua intuição. Ela é mais que um faro. E mesmo nada prenunciando, fará muita diferença só por saber que se pode contar com ela.