Esta é uma das perguntas que gostaria de receber. Vou dividir em V partes.

As vezes uma palavra surge. Pode ser uma ideia completa. De uma forma ou de outra sempre surge por faíscas. Elas vêm, e simplesmente precisam ser eliminadas.

O primeiro engajamento vem dai. Depois a maturação que pode durar segundos, meses anos. Uma das coisas que mais me chama a atenção é o fato de que o fluxo criativo esteja sempre a frente do que somos capazes de registrar. É mais ou menos como uma corrente voltaica curta seguida de um sequencia de palavras potenciais, mas ainda sem vida. Não é como a escrita automática sugerida por Andre Breton mas muito menos a elaboração, por exemplo, de um texto jornalístico. Mesmo assim, valorizo enormemente as associacões livres que aparecem em sequencia. Elas tem valor porque sem elas as “racionalizações ficam dementes”. Há um excesso de “por ques? “poucos “para que”, e rarísssimos “isso é o que é”.  Temos que pensar que o padrão mental não é uma massa linear que quer despejar conteúdos em linhas simétricas. Com a poesia, talvez ocorra algo ainda mais estranho ainda pois as palavras, além de tudo, são dispostas conforme um ritmo — que nem está dado aprioristicamente — quando são escolhidas ao modo de uma pintura. Uma pincelada. Vai-se retocando, retocando, em toques sucessivos até que a cor e a mistura se encaixem como deseja. Ou não, e por isso o pano e a água são bons companheiros de um artista.

Num romance tudo isso se mistura e a pressão é muito maior. A pressão se avoluma violentamente e é como se ficassemos envolvidos com a sensação que tem uma força nos excedendo. Para horror dos que acham que pensar em Deus é uma prova senão da irracionalidade, da pouca seriedade intelectual em um trabalho, penso muito em Deus. Penso em como o processo criativo depende muito desta imposição transcendente. De uma rigorosa exigência do espirito que ultrapassa toda razão. Penso também que só vale a pena escrever se for um texto que tenha significado e sentido não só para mim, como para todos os leitores. Há uma generosidade imensa de estilos e temas. As pessoas, como nunca antes na história, podem escolher suas preferencias em cardápios alucinantemente amplos.  Como isso se vincula ao ato criativo? Pelo sentido.

Segue depois.