As motivações do escritor são sempre plurais. Não podemos saber extamente qual é o leit motiv até que ele esteja em curso. E a marcha é irregular, sofrega. Se tivesse me perguntado isso há 5 anos eu responderia, provavelmente, com especulações das quais eu me arrependeria hoje.

Quando listei pela primeira vez os capítulos, vizualizei uma história, mas não essa história! Escrever um romance era um grande desafio para um escritor que até então só havia redigido poesia, contos e muitos livros de medicina (história da medicina,  filosofia médica medicinas integrativas). O desafio pode ser motivador, mas não seria suficientemente potente para lançar alguém neste empreendimento.  Eu precisava contar uma história. E a história me pressionava para ser contada. Nesse sentido, a motivação poderia ser reduzida à “pressão do conteúdo”. Precisava contar muitas histórias e elas pareciam querer se expandir. Num escritor, o fragmento lixeiro é vital. O trabalho de cortar, apagar e, as vezes, reciclar é essencial, senão o prinicipal. A cada passo que dava a maré só se espalhava mais e o alcance didático fluia para fora do meu alcançe. Era aflitivo. A criação é agônica. Quem só enxerga prazer e deleite na criação não fez a lição de casa deste oficio. Havia uma enorme insatisfação por sentir, de um lado, um enorme potencial, um buffer cumulativo que não conseguia se organizar para se expressar em qualidade e quantidade suficientes. Por outro, a necessidade.

Voce vai vendo pequenos aspectos indiciários que precisar mudar: certa vez um gentil colega, Jayme Treiguer, se aproximou de mim depois de ter me ouvido ler um paper num Congresso de Medicina Homeopática e me disse que ao ouvir minha palestra sentiu-se num encontro literário (deu uma conotação elogiosa). Num outro momento ouvi da querida Madel Luz : “Paulo, voce vai ser um daqueles escritores paulistas”, imagino que não estivesse em jogo somente a pseudo rivalidade entre paulistas e cariocas mas identificação e retificação de um talento ainda não aproveitado, vale dizer desperdiçado!  Como disse Paul Ricoeur : tenho algo a dizer que ninguuém pode dizer em meu lugar. Isso é o must para a expressão. Se ninguém poderia dizer em meu lugar é imperioso que eu o faça. Se isso não é uma motivação é pelo menos um destino contra o qual nem quero, nem preciso lutar contra.

Deixei-me levar.  E vi que era bom.