É uma pergunta que me ronda. O livro é um todo e todas as partes dialogam muito umas com as outras. A primeira parte — que se passa num período do século XIX e durante um final de semana — pode fazer parecer ao leitor que o livro está relacionado exclusivamente à filosofia e aos problemas judaicos de Tisla (a aldeia por onde o livro se desenrola) e Varsóvia. O rabino filósofo Zult Talb não é apenas uma pessoa com palavras controversas, ele é um símbolo de uma era de crise espiritual: as dúvidas com que a ciência, a ilustração e a tecnologia vieram ameaçar o conforto dos crentes. E é sob a força dessa representação, que ele vai,  precisa reagir. Na verdade, este é apenas o ponto de partida do livro. A segunda parte (talvez alguns devessem até começar por ela) muda completamente o registro. Os problemas que pareciam focados e girando sob um eixo central se expandem drasticamente. Início do século XXI e Yan e Sibelius, respectivamente médico e paciente, ambos em crise, um na medicina outro na vida acadêmica, resolvem subir uma montanha nos Alpes. Alguém deu a dica que o forte degelo das montanhas tornaria o caminho livre e desempedido para novatos. Rapidamente descobrem que quando se trata de neve e montanhas nada é tão simples assim. Será que só em condições extremas pode-se conhecer bem as pessoas? Até onde iriam para sobreviver? A civilidade resistirá? De qualquer forma, nestas condições, e sob a proximidade da morte, os segredos aparecem com muito mais facilidade. As personalidades estão nuas e precisam estar expostas, questão de sobrevivência. Aí aparecem os problemas da ética, da política (Sibelius narra em detalhes sua vivência militante) e Yan é forçado a encarar quem ele é. Na terceira parte, narrada em flahsbacks, o outro paciente, Antiocus Apsev, vem trazer a mensagem que enfim pode desmontar Yan. Uma vida toda polida pelo ceticismo, pela secularidade convicta desmontada em horas. E paradoxalmente a mensagem — em forma e conteúdo — é a resposta que qualquer um de nós quer ter sobre as perguntas sem respostas. Mortos falam?

Voltando à pergunta: fica difícil dizer qual dos três fragmentos é o mais importante. Não há nada como “importante” em trechos de livros porque ele tem, ou deveria ter, integralidade de bloco. Poderia até ser forçado a dizer qual mais gosto, mas não direi. O que garanto é que trabalhei muito em todos eles, colocando enorme energia para escrever o final.

Pode surpreender.