• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

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Paulo Rosenbaum

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Fe no Estado laico (blog Estadao)

03 quarta-feira set 2014

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bullying politico, Estado laico, eugenia, f'e no estado laico, laicismo, marina silva, refusiniks, República Federativa

Fé no Estado laico

Paulo Rosenbaum

quarta-feira 03/09/14

Compreende-se a preocupação de que uma candidatura macule o estado laico, pressuposto constitucional e político de uma República Federativa. Paradoxalmente não é exatamente isso o mais inquietante nesta disputa presidencial. Mas sim, o enfoque adotado para atacar a primeira colocada nas pesquisas. Um articulista, por exemplo, acaba de advogar que crentes, religiosos ou apenas otimistas […]

Compreende-se a preocupação de que uma candidatura macule o estado laico, pressuposto constitucional e político de uma República Federativa. Paradoxalmente não é exatamente isso o mais inquietante nesta disputa presidencial. Mas sim, o enfoque adotado para atacar a primeira colocada nas pesquisas. Um articulista, por exemplo, acaba de advogar que crentes, religiosos ou apenas otimistas gnósticos, tem uma espécie de “falha no desenvolvimento neural”(sic). Pode ter sido a desnutrição na infância, mas tambem alguma causa idiopática, isto é, sem origem conhecida. O colunista ficou devendo nada aos defensores do determinismo e das teorias eugênicas. Entendam: quem crê pode estar seriamente enfermo. Corre o risco de ter adquirido uma espécie de mutação, e é essa aberração que torna determinados sujeitos susceptíveis e vulneráveis. Vulneráveis e propensos à fé. Tendência extremamente perigosa, pois o crente desafia o fundamentalismo cientificista, que, por sua vez já tinha encontrado quase todas as respostas. Cabe um paralelo com a mazelas que acometiam os refusiniks da ex-URSS. Só para lembrar, para os malucos que questionavam o regime e o estado policial comunista, os psiquiatras tratavam de arrumar uma temporada em “clínicas de recuperação política” e, para os politicamente irrecuperáveis, uma estadia, com todas as despesas pagas por trabalhos forçados, no arquipélago Gulag.

Guardadas as devidas proporções, os ataques contra a ex-ministra do meio ambiente tem a mesma inspiração autoritária. Equivoco principista, pois parte do pressuposto que acreditar é um erro, enquanto o ceticismo é a única forma correta para interpretar o mundo. O objetivo é colar na candidata e em quem mais ousar recusar o materialismo histórico, algum rótulo desqualificador ao sabor da campanha: evangélica, Collor, Jânio, sonhática ou ex-petista traidora. Na última hora este último foi vetado pelo marketing por ter migrado do pejorativo à virtude.

Que diferença pode fazer se o sujeito tem este ou aquele sistema de notação, se é místico, joga tarô ou come macrô, desde que, assumido o cargo público saiba distinguir uma coisa da outra? E qual o problema se o sujeito acredita em estrelas e saturno na casa sete? E se resolver cultuar pedras, andar na ponta dos pés em dias ímpares, venerar o sol ou simplesmente aceitar a existência de mistérios que escapam à racionalidade? A liberdade para acreditar deve ter o mesmo estatuto que a defesa da descrença. Para desgraça dos controladores, os homens públicos, tirando robôs e postes, também são dotados de idiossincrasias e personalidades próprias.

Não é preciso ter fé na candidata para explicitar a injustiça que ela sofre por parte dos defensores da atual administração federal. Na verdade, os insultos desferidos contra a ex-senadora ocultam uma outra índole, inconfessável. E está para além do âmbito da calúnia e da difamação. Encontra-se no preconceito de classe, na intolerância com dissidentes e, principalmente, na insuperável inveja pelo poder aglutinador que ela demonstrou, ainda que à revelia de seu próprio temperamento.

Deveria constar da garantia de direitos individuais: toda pessoa tem o direito de acreditar no que bem entender, sem ter que se submeter ao bullying político.

Isso torna curiosíssimo a celeuma e as críticas pela suposta incoerência da candidata em relação à causa gay, quando ao mesmo tempo, que está sendo impiedosamente julgada e condenada. A ré confessa é “culpada” por acreditar que exista um Criador. Não custa perguntar: então era esse o moralismo seletivo dos progressistas? Não será preferível a ética conservadora confessa? Nos novos tempos autoritários o iluminismo monopartidário nem se preocupa mais em esconder a tentação de monitorar o pensamento das pessoas.

O laicismo do Estado precisa ser ressignificado. O Estado precisa ser duplamente emancipado: das religiões e das ideologias.

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Intelectuais e déspotas

28 quinta-feira jun 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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antiamericanismo, déspotas, Ditador do Irã, nazismo, refusiniks, teocracia

Intelectuais e déspotas

Não foi um caso isolado da Rio + 20. Às cotoveladas sessenta intelectuais (sempre bom recorrer à etimologia para saber se a atribuição ainda bate com o significado: intelecto – ação de compreender) se apertaram para assistir a explanação do ditador iraniano. Uma possível compreensão, nesse caso legítima, seria que os doutores tivessem ido até lá para saciar a curiosidade frente a um homem deselegante, que já negou o holocausto, considera mulheres seres de terceira categoria, persegue minorias como Bahai e Sufis e prega a reforma “por bem ou por mal” dos homossexuais. Sem contar os criminosos atos contra os protestos da oposição nas comprovadas fraudes eleitorais que o levaram a reeleição. Eleição é modo de dizer, sufrágio indireto, que só se concretiza com aval do líder supremo.

Ninguém duvida que é sempre interessante ter a oportunidade de ver uma “criminal mind” ao vivo, tudo para tentar entender como funciona a mente onipotente, como raciocina o fanático, e sentir a astúcia do mitômano.

Mas parece que não é isso que tem levado intelectuais do mundo a aderir ao pensamento monológico e ao culto dos déspotas que se proliferam pelo mundo. Talvez, cansados da anomia e do fracasso crônico das experiências com os projetos sociais pelos quais se batem, só encontrem recompensa naqueles que prometem implantar a justiça plena na Terra.

Com o fim das doutrinas e a morte dos heróis, só um ungido pode saciar os intelectuais de nossos tempos.

A perplexidade máxima aflora quando se identifica na plateia herdeiros de tradições ideológicas consistentes, a maior parte daquela vertente que um dia convencionou-se chamar de esquerda. A adesão se dá basicamente por uma única afinidade: a postura antiamericana.

Ficou fácil conclamar fiéis, bastando para isso desfraldar a bandeira “morte à América”.

No caso de professores e gente esclarecida e com tanto currículo na bagagem, que espontaneamente escolheu ir ao encontro o fato nos deixa à deriva. Melhor dizendo, à lona!

O fenômeno transcende a razão e como evitamos a parapsicologia, precisamos nos contentar com a velha psicopatologia. Alguém pode explicar como o carisma agressivo e non-sense entorpeceu tantas cabeças a ponto de asfixiar a região onde se aloja a capacidade critica?

Pode ser que seja inevitável que chefes de partidos ou figuras do executivo tenham que ciceronear ditadores e gente que, para conquistar o poder, deixou rastro de cadáveres. Costuma-se aturar isso dignamente com a ajuda de autocontrole, respiração yogue e
banhos frios.

O fenômeno leva o nome de pragmatismo selvagem, o que conduz inevitavelmente a uma espécie de esquizofrenia política.

Basta um exemplo: sabe-se que o regime teocrático do Irã apoia abertamente o regime Sírio de Assad e sua atual política genocida. Pois decerto alguns dos bem pensantes que sentaram nas cadeiras da frente assinaram petições, ao menos devem ter pensando nisso, contra o massacre do povo sírio. Pois é o que a selvageria política faz com as pessoas: produz incoerências seriadas. Ninguém tem compromisso com a coerência nem com a lucidez, mas há uma ambivalência ética que é capaz de dissolver o caráter.

Esta fusão de ideologia tosca com pragmatismo já foi o estuário de desastres políticos importantes em outros continentes. A adesão de extensas camadas da população universitária na Alemanha nazista – o maior apoio vinha dos profissionais liberais com 50% dos médicos alemães dando endosso à ideologia ariana do Fuhrer.

E não é que persiste a maldição dos “formadores de opinião”?

As massas finalmente aderiram e produziu-se um consenso perto do absoluto, a favor do expansionismo belicista germânico.

O mesmo apoio das camadas intelectualmente mais esclarecidas marcou nos primórdios a Revolução Soviética. Até que testemunhando o desvirtuamento e a implantação de um regime tão sanguinário e opressor quanto o de seus antecessores, os intelectuais mais críticos começaram a ser internados em hospitais com ajuda de um sistema nosológico criado sob encomenda aos psiquiatras comunistas.

Dissidentes começaram a ser diagnosticados como insanos: refusiniks. Para um regime totalitário só um doente mental pode recusar o sistema perfeito.

Foi Hanna Arendt quem escreveu que quando “termina a autoridade começa o autoritarismo”. Agora que a autoridade natural no Brasil está no início do declínio já que sua sustentação depende da bonança econômica e a inadimplência chegou a um patamar perigoso, o desespero já começou: alianças desastradas, chantagens e ameaças institucionais chegando ao destempero com promessas de mordidas.

Nossa sorte é que hoje o homem comum no Brasil deixou de ser bobo e já sabe como deve sair de casa: discreto, sem lenço, cheque ou documento e, se possível, com caneleiras à prova de predadores.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A verdade Lançada ao solo” (Ed. Record)
paulorosenbaum.wordpress.com

Para comentários acessar o link do JB

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/06/28/intelectuais-e-despotas/

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