• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Haverá outro código para a Medicina?(Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Amazon, Artigos, Imprensa, Na Mídia, O outro código da Medicina (e book) homeopatia, Pesquisa médica

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medicina integrativa, Outro código da Medicina, Samuel Hahnemann

Haverá outro código para a Medicina ?*

10 de abril – data de nascimento de Samuel Hahnemann

O que é um código? Pode ser uma coleção metódica e sistemática de leis, uma coleção de regras sistemáticas de procedimento e conduta, ou um sistema de sinais secretos ou convencionais usados no comércio e na literatura. O título deste livro insinua que pode haver mais de uma compreensão para a medicina, pode haver mais de um código de procedimento e conduta para compreeender saúde e enfermidade. E um não exclue necessariamente o outro. Vários códigos podem conviver e ser simultâneamente usados, sem que um tenha supremacia sobre o outro.

O público que consome livros científicos conhece pouco de medicina preventiva e tem noções muito vagas sobre as medicinas integrativas.  O conceito popular é de que a prevenção não é solução e de que uma medicina menos invasiva como as técnicas das medicinas integrativas pairam aspectos polêmicos. A verdade é que a grande maioria deste público as conhecem apenas superficialmente. Poucos a conhecem como uma medicina que cuida de sujeitos. Outros, não têm a menor idéia de sua abrangente capacidade de atuação que vai dos doentes com patologias severas às pessoas com problemas clínicos sem diagnóstico definido. Enfim que a prevenção pode atuar no indefinível estado chamado de “mal estar”. Este “mal estar” (illness) indevidamente pouco valorizado, também é muito importante na medicina pois aparece muito antes de que a patologia (disease), a doença propriamente dita se organize e apareça na forma de sinais e sintomas. O que menos gente sabe ainda é que a homeopatia interfere em todas estas áreas levando em consideração também o estado de saúde.

E por que o grande público sabe tão pouco sobre ela ou a conhece de forma tão estereotipada?

A homeopatia por exemplo é uma medicina sobrevivente. As provas são sua longa permanência na adversidade e sua lenta, porém sustentada expansão. As referências são escassas em todo tipo de mídia, especialmente quanto aos seus aspectos efetivamente mais interessantes. A omissão crônica do verdadeiro alcance da homeopatia também explica e justifica sua baixa visibilidade.

A homeopatia pode ser definida como um sistema terapêutico de interferência médica baseada em similitude e observação clínica que usa a individualização dos sintomas como sua principal fonte de conhecimento. Trata-se de uma prática médica que ouve estórias, acolhe narrativas e interpreta biografias.Não é fortuito que estejam nascendo movimentos como “Medicina Baseada em Narrativas”, “Medicina sem Pressa”, “Medicina Baseada em Empatia”, “Hermenêutica Médica”

Em “Céu Subterrâneo”,  (romance publicado em 2016 pela editora Perspectiva) trago uma referencia da “História dos Animais” de Aristóteles. Numa determinada passagem ele escreve sobre a memória. Por um erro de interpretação conhecemos a famosa versão de que o homem seria racional em oposição aos animais que estariam descritos como irracionais. Para o filósofo no entanto, a verdadeira distinção seria outra, e está em outra passagem deste mesmo livro: o que nos diferencia dos outros animais não seria a possibilidade de raciocinar pois é evidente que os animais também o fazem. Para o pensador, a grande distinção estaria na capacidade humana para evocar a memória conforme sua vontade. E narra-la.

Cito isso para lembrar que Prof. Walter E. Maffei, importante pesquisador e neuropatologista brasileiro e um dos meus principais mestres. Maffei ilustrava uma de suas aulas na Faculdade de Medicina projetando imagens de gatos. Por que? Afirmava, com razão, que aqueles que tinham as predisposições alérgicas despertada por alguma idiossincrasia, poderiam apresenta-las apenas com a “lembrança” desta experiência. Não seria necessária a presença física de um gato, poderia bastar imaginar à exposição a algum alergeno que não estivesse presente para “excitar” instantaneamente um quadro alérgico. A lembrança de alguém que apresenta sensibilidade ao pelo deste animal poderia desencadear um início de manifestação alérgica. Esse exemplo evidencia pelos menos duas coisas, a incrível sensibilidade do psiquismo e o papel da memoria em nossa saúde.

Muitos aspectos permanecem misteriosos na clínica. Não é incomum que os pacientes desenvolvam estranhas e desconhecidas sensibilidades aos produtos farmaceuticos e alimentícios mais comuns. Ou sujeitos que sentem súbito mal estar quando terremotos estavam para ocorrer a milhares de quilometros dali. Sabemos que muitas pessoas tem perturbações cardio-circulatórias e respiratórias antes e durante os fenomenos climáticos. Existem vários relatos de pressentimentos e sintomas inexplicáveis que normalmente não seriam relevantes para uma aplicação da técnica de tratamento, mas extremamente importantes para compreensão da história clínica de alguns individuos.

Não se trata de um fenomeno religioso ou de uma mistificação. Temos que recordar que, para a genuína investigação científica sempre existirão mais perguntas do que respostas.

O homem não é mero contemplador, de seu habitat ou de seu sistema de tratamento médico. Como todo ser vivo pertence ao ecosistema. O tempo todo age sobre ele e ao mesmo tempo sofre múltiplas influências do meio no qual habita. A meteorobiologia, uma disciplina, nos ensina o poder das meiopragias sobre os seres. Quando aumentam as manchas solares ocorrem ciclos epidemicos de doenças na Terra, as influências climáticas, barométricas e da poluição atmosférica sobre os estados de saúde são clinicamente evidentes.

Também não é infrequente que médicos sejam pegos de surpresa com o que aprendem das experiencias pessoais dos pacientes, de suas sensibilidades e caracteristicas individuais. Estar atento a estes aspectos não se limita a quem pratica qualquer modalidade de terapeutica integrativa, mas a todos que se dedicam a tarefa de cuidar da saúde dos seres humanos e dos animais.

Costumamos dizer que não há mentira em clínica. O que um paciente sente não pode ser julgado no campo estrito da verdade ou da mentira. Para atestar se um sintoma é falso ou verdadeiro não basta fazer uma investigação clínica que confirme ou não a patologia. Todos os sintomas são, de uma forma ou de outra, verdadeiros, pois mesmo as fantasias, delírios e as interpretações fazem parte integrante dos problemas dos sujeitos enfermos.

Médicos, ou qualquer profissional das práticas de saúde precisam ser treinados para acolher o que cada pessoa percebe de anomalo ou estranho no funcionamento de seus órgãos e em sua própria vida. Tudo que o paciente informa deveria ser relevante para o medico cuidador, independentemente da correlação que este estabeleça com alguma enfermidade específica. Isso vale para o generalista e o especialista, para o clinico e o cirurgião.

No mundo todo cresce uma tendência cientifica: passa a ser cada vez mais importante individualizar as doenças. Como toda uma tradição médica vitalista pensava, includindo o próprio Samuel Hahnemann é preciso saber como cada doença impacta a saúde de cada pessoa, pois cada um tem uma forma particular de desenvolve-la e de voltar a ficar saudável. Esta diretriz, preocupação constante de muitos medicos vitalistas na história da medicina, pode fazer toda a diferença.

E não só nos resultados diretos, mas em todo processo de adoecimento, convalescença e recuperação. Como lidar com o desconforto? As vezes, um tratamento pode ser dolorido e provocar sofrimento. Para a pessoa enferma é muito importante a assistência, o suporte e a presença de quem cuida. Portanto um aspecto vital de qualquer tratamento é a qualidade do cuidado que o profissional dispensa ao enfermo.

Pode-se encontrar referencias bibliograficas sobre todas as reflexões e informações. Estas reflexões são fruto de décadas de observação e testemunhos da clínica médica nos últimos 30 anos. O presente texto que o leitor tem nas mãos, ou na tela, é uma condensação de um livro, hoje esgotado, que transformei em e-book sob o título “O outro código da medicina”.

As vezes as pessoas perguntam por que diante de sua eficácia e abrangência clinica — especialmente na atenção primária à saúde e na prevenção e tratamento das moléstias crônicas — como se explica que a homeopatia nunca tenha se universalizado como forma de atendimento? Há anos a Organização Mundial de Saúde recomenda as medicinas tradicionais. Uma publicação recente da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard[1] recomendou o uso de homeopatia nos sistemas de atenção primária à saúde. No Brasil, o SUS teve várias tentativas de ampliar o uso de práticas integrativas. Recentemente, a Suiça organizou uma consulta popular e a homeopatia finalmente entrou como opção terapeutica no sistema público de saúde. Sabe-se que ela já foi reintroduzida no curriculo de escolas de medicina nos EUA. Na Alemanha, além de popular, a homeopatia e as medicinas integrativas tem larga aceitação pelos medicos e também é usada por grande porcentagem de clínicos e especialistas como tratamento complementar. Entretanto o fato persiste: por que nunca conseguiram se universalizar como práticas médicas. Importante tentar responder por que.

São muitos fatores concorrendo simultâneamente. O primeiro e mais importante é a dificuldade para estabelecer núcleos de pesquisa que sejam financiados pelo Estado e independentes da pressão dos poderosos lobbies que comandam a indústria farmaceutica. Sem prover estes centros autonomos de pesquisa com recursos e capacidade política para determinar a prioridade das pesquisas todo avanço farmacotécnico em medicina fica sujeito à lógica dos dividendos das fábricas e sob o controle de oligopolios farmaco-industriais conforme sugeriu ainda no início do século XX o historiador da medicina Henri Sigerist. Não há nenhuma tese conspiratória ou anti-capitalista nesta observação, apenas elementar constatação de fatos. É importante reconhecer os muitos avanços das tecnologias médicas e o papel da indústria farmacêutica, ainda que isso não a transforme em um símbolo de benemerência. E é também justo que se pergunte: por que a indústria não investiria em um ramo tão promissor e potencialmente lucrativo como a de medicamentos homeopáticos que conta com centenas de milhões de consumidores?

Um dos problemas para os interesses mercantis na produção de medicamentos está no fato de que, por exemplo, as substâncias medicinais homeopáticas não têm patente, isso é, constituem um bem público. Trata-se portanto de um conjunto de medicamentos que foram incorporados ao patrimonio da humanidade, já que nenhuma indústria ou indivíduo detém os direitos de propriedade dessas substâncias. Isso significa que sobre estes fármacos não incidem royalties. Exatamente isso que você acaba de ler: nenhuma substância usada nos fármacos empregados na homeopatia possui domínio de patente. Isso explica seu relativo baixo custo. E também explica a quantidade desproporcional de ataques dirigidos contra ela e sua relativa incapacidade de responder a eles com pesquisas subsidiadas.

Evidentemente existem outras dificuldades: a natureza sectária de parte do establishment das medicinas integrativas. Numa compreensível atitude defensiva que emergiu contra as décadas de acusações de ineficácia das doses ultradiluídas, existe neste meio relutancia em fazer a autocrítica necessária para se antecipar e apontar suas próprias deficiências, lacunas e limites de atuação.

Existem praticantes que insistem numa lógica autosuficiente que clama para a medicina integrativa uma emancipação total das demais racionalidades. E também existem aqueles que aceitam abrir mão da teoria que organiza e confere alguma consistência teórica para o método. Porém para qualquer medicina de inspiração vitalista não se pode resumir os benefícios apenas ao “resultado clinico pontual”, e sim ao conunto de potenciais benefícios para a totalidade da pessoa enferma.

O dilema é compreensível: se por um lado ela se apresenta como uma outra lógica médica, por outro, ela precisa em parte assimilar-se à cultura científica corrente se quiser ser levada a sério. Isso significa que a medicina integrativa acaba falhando em se estabelecer, tanto na prática privada como no setor publico, pois não consegue nem evidenciar claramente sua performance clínica, nem se fazer entender pela linguagem contemporânea. Um impasse, que no caso específico da homeopatia, dura quase dois séculos.

O erro fundamental está numa certa recusa inconsciente destas correntes em aceitar que de uma forma ou de outra a única saída para que uma tese seja aceita nas sociedades contemporâneas é sua penetração na cultura através das pesquisas academicas e da discussão com a sociedade. Somente esse pertencimento à cultura garantiria a permanência de uma formulação sofisticada como é a proposta de uma terapeutica pautada no uso dos semelhantes.

Sofisticada, porque pretende, inclusive, retomar um assunto dos mais importantes, e, ao mesmo tempo uma das questões científicas mais negligenciadas da medicina: ainda são raras e escassas pesquisas sobre o como as pessoas se curam.

Notem que hoje já existem núcleos de pesquisa médica que discutem criticamente a validade dos protocolos padrões. O cálculo de risco para alguns procedimentos terapêuticos tem sofrido questionamentos. E uma boa parcela dos pesquisadores já leva cada vez mais a sério o fenomeno chamado superdiagnóstico[2].

As medicinas integrativas devem ser apresentadas não só como alternativas – com todas as suas conotações contra-culturais — mas como um processo que dialoga ao mesmo tempo com a ciências naturais como com as várias áreas das humanidades como a antropologia, filosofia e psicologia. Ao mesmo tempo, precisa ser mais enfática em sua proposta: estabelecer bases teóricas próprias para uma medicina do sujeito emancipada, por exemplo, das teorias psicanalíticas e das mistificações. Portanto, ela deveria ocupar o centro da discussão das ciências humanas com as ciências biológicas.

Temos tempo. Sejamos todos pacientes, a discussão está apenas começando.

[1]A Escola de Saúde Pública de Harvard e o Hospital Beth Israel, afiliado à Faculdade de Medicina de Harvard publicaram recentemente os resultados de um estudo conduzido por Michelle Dossett, MD, PhD e colaboradores incluindo o expert em placebo  Ted Kaptchuk, OMD onde concluem que os estudos conduzidos usando a homeopatia “sugerem potencial beneficio para a saúde publica como redução de uso desnecessário de antibioticoterapia, redução de custos para tratar de algumas doenças do trato respiratório melhora nas depressões relacionadas ao período do pós menopausa, melhora os resultados na saúde de indivíduos com moléstias crônicas e controle de doenças epidêmicas como por exemplo a epidemia de leptospirose em Cuba”

Homeopathy Use by US Adults: Results of a National Survey. Dossett ML, Davis RB, Kaptchuk TJ, Yeh GY. Homeopathy Use by US Adults: Results of a National Survey. Am J Public Health. 2016 Apr; 106(4):743-5.

*O outro Código da Medicina (e-book kindle)

[2] Overdiagnosed – cuja tradução poderia se aproximar de “superdiagnósticado”. Caracteriza-se em valorizar excessivamente os exames subsidiarios e atribuir importância exagerada aos disturbios clínicos que talvez não mercessem tratamento, pois seriam patologias inofensivas ou “amigáveis”. O custo orgânico e psiquico de determinados procedimentos terapêuticos são simplesmente elevados demais para os pacientes.

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Pequenos exemplos de como as coisas podem funcionar

30 sexta-feira dez 2011

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Israel, medicina complementar, medicina integrativa

Pequenos exemplos de como as coisas podem funcionar

Jornal do Brasil

29/12/2012

Não creio em nada sistêmico ou definitivo em área nenhuma. Não acho que possamos uniformizar e padronizar todas as normas já que as normas deveriam existir para nos servir e não nos colonizar. Falando da medicina, não importa o que se faça em termos de interferência farmacológica, de prevenção, fisioterápica, cirurgia, nem mesmo se serão vários tratamentos paralelos aos quais o paciente precisa se submeter. O importante, o vital, é que o sujeito esteja no centro da ação clínica.

É deste modo que haverá esperança para que a medicina seja repatriada a uma ação mais ampla, criativa, renovadora.

Qualquer que seja o ato terapêutico, caso adotemos uma filosofia em que o individuo, o sujeito particular seja o enfoque principal os resultados serão, de saída, muito melhores. Oxalá fosse tão simples convencer o mainframe que produtividade jamais substituirá qualidade, E esta revolução está totalmente ao nosso alcance. Qualquer classe social, em qualquer local. Isso pode ser feito desde que uma nova educação em saúde esteja em pauta.

Acabo de visitar o Centro de Medicinas Complementares em Jerusalém, Israel, que atende israelenses e palestinos. Literalmente: é procuradíssimo e respeitável oásis no deserto. Ainda que os serviços públicos por aqui funcionam muito bem, próximos dos parâmetros de primeiro mundo, dentro do centro médico Shaare Zedek, ele parece ser mais eficiente ainda. Um dos grandes complexos hospitalares nessa área que surge como uma grande novidade médica.

Não estamos falando de uma nova droga,descobertas sobre patologias ou novo aparelho para diagnósticos. Trata-se do Centro de Medicinas Complementares e Alternativas, cujo diretor é o médico generalista Menachem Oberbaum. O centro não está separado das outras áreas clinicas e há harmoniosa integração entre elas. Segundo o médico, hoje, os hospitais israelenses são obrigados pelo Ministério da Saúde a não só permitir,como estimular que tratamentos complementares funcionem sozinhos ou em paralelo com a medicina standard.

Quando adoecem as pessoas buscam cura,não conflitos étnicos ou decisões médicas ideológicas. E mesmo em meio as piores rusgas e tensões históricas longínquas, na doença parecem todas acordar de seus tribalismos e, um dia, quem sabe, percebam que essa convívio – que seja na raiva e na contrariedade — deveria seria o estado natural das coisas entre as pessoas.

Em meio a cultura de massas e com o sujeito pedindo socorro, o massacre que pretende eliminar qualquer aspiração à singularidade está em curso. Não há nada de conspiratório no que afirmo, mas é assim que a sociedade vem funcionando. Mesmo assim, ainda não podemos ousar ensaiar uma nova medicina. Ela esbarraria sempre em pensatas endurecidas, e em gente que não suporta a dúvida.

Uma nova medicina teria um caráter tão pluralista e tão radicalmente democrático que transcenderia dicotomias anacrônicas do tipo medicina complementar X alopatia, cuidado X procedimento, atenção primária X atenção secundária/terciária, hospitalocentrismo X Unidades Básicas de Saúde, medicina X psicologia e assim em diante.

Uma novíssima medicina teria o mérito de parar para ouvir quem realmente precisa de assistência. E eles precisam de tudo, sobretudo Cuidado. Uma novíssima medicina tenderia a abolir e fundir todas as formas de atuação em saúde com o objetivo de ter sempre em conta o sofrimento de cada pessoa. Mas a nova medicina que vemos não é essa. Ela está muito mais encaminhada para a segmentação aos cuidados, para a edificação de super especialidades e experts, que entendem, só e completamente, a parte do corpo que desejam modificar.

A psiquiatria, por exemplo, que se rendeu aos padrões neurológicos strictu senso poderia liderar, e ser uma vanguarda das especialidades médicas contemporâneas. Mas ela talvez tenha se tornado a mais mecanicista porque, grosso modo, interpreta uma fantasia cara e perigosa como, por exemplo, a ação dos psicofármacos, como uma solução real para problemas mentais, das pequenas infelicidades ao cansaço. Jamais chegaremos aos 100% da eficácia na abrangência saneadora que deveríamos proporcionar as pessoas, mas a mera incorporação do psiquismo, das inquietudes espirituais, e das demandas pessoais, todas elas, já fariam uma enorme diferença.

Muitas vezes não se consegue compreender que a novidade do momento jamais esteve na comprovação biocientifica ou em uma ortodoxia teórica incompreensível mesmo que baseada em ëvidencias”. Esteve, isso sim, no lugar de sempre. Aqui, bem aqui, escancarada à nossa frente: qualquer boa ação clínica tem que levar em conta o sujeito. Nem sempre, mas muitas vezes isso basta.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor, autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

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