• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

Arquivos da Tag: democracia

Déficit de discernimento

21 quinta-feira mar 2013

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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anomia, autocracia, centralismo partidário, democracia, felicidade ao alcançe?, hegemonia e monopólio do poder, impostos, manipulação, mensalão, significado de justiça, utopia

Déficit de discernimento.

 

Segundo os cosmólogos, muito provavelmente existem inimagináveis dimensões simultâneas, antimundos e universos paralelos ao nosso. Para simplificar vamos ficar no aqui e agora. Quantas coisas nos parecem insólitas, absurdas ou só incríveis, isso num único dia? Dezenas? Centenas?

 

Costumamos sentir a estupefação nas entranhas, porém é dentro das cabeças, aparentemente desconectadas do restante do organismo, que a estranheza é sempre  racionalizada para simular certa normalidade. Decerto acionamos algum mecanismo de defesa. Estamos fazendo nada mais que domesticar o non sense de modo que ele integre naturalmente a paisagem do dia a dia.

 

Começo pela saúde. Há programas no ministério da saúde que oferecem assistência e tratamentos gratuitos para varias patologias (gratuito até que é bem bolado, soa como se tudo fosse fruto de caridade e o Estado não tivesse deveres para com os cidadãos).

 

Mas ai de qualquer um de nós que se aventurar a ter uma doença rara.  Simplesmente o estado não cobre os custos decorrentes da doença. É que muitas “não estão na tabela” de reembolso do SUS. Juízes solidários têm sido a salvação dessas pessoas. Eles vêm emitindo liminares que obrigam o Estado e/ou os planos de saúde a cobrir os caríssimos custos destes tratamentos. Isso se repete, à indecência, sob muitas condições clínicas menos comuns. Aliás, a vida parece nos forçar ao que é comum, a ficar na média, e essa normatividade por decreto se estende ao adoecimento.

 

Para complementar o tour pelo país do inacreditável, pode-se visitar a política. Correntes da psicologia acreditam  que a fonte de muitos dos nossos males é oriunda da auto-sabotagem. Em condições normais os doutores poderiam ter razão. Não estanmos em condições normais e desconfio que estamos mesmo diante da temporada de erros estúpidos sequenciais. Dia desses foi a vez do ministro da fazenda (tentava explicar ao jornalista incrédulo porque temos impostos de primeiro mundo com serviços de quarto) que disse literalmente, está gravado: “os serviços públicos no Brasil são bons”. Como assim bons? Sabe-se que 9 entre 10 governantes tomam o brasileiro por um idiota funcional, mas tenha dó. Fossemos um país de opinião pública consistente ele e outros já teriam caído.

 

Mas são setenta e lá vai pedrada de aprovação. Perdemos a noção, só pode ser este o diagnóstico.

 

Pode-se discordar das críticas, mas avalie criteriosamente a sequencia de disparates: PIB em queda livre, volta da inflação e agora o loteamento cala-boca com feira de cargos públicos.

 

Afinal, o que significa esta aliança pela governabilidade defendida pela mandatária geral? Digo, o que isso representa na prática? Em uma palavra, em suas próprias, ela pediu lealdade. Ao governo, às suas aspirações, exigências e demandas. Mas ao colocar em postos chaves gente que tem um passado tenebroso ou inconsistente quem está traindo quem? Os eleitores parecem ser as únicas vítimas de adultério por aqui. Isso enquanto gente condenada tem fundos e subsidios partidários para sair país afora tentando desmoralizar o STF, adolescentes matam e entram por um punhado de  semanas em programas de ressocialização, homicidas perigosos tem penas curiosas e ganham liberdade mais cedo que estelionatários e viciados em drogas.

 

Se é que isso consola, a deficiência de autocrítica é mundial. A commoditie, escassa, parece ter se escondido no subsolo do reino dos caras de pau. Esses mesmos que vemos todos os dias nos telejornais. Não se sabe bem onde está a tal da sustentabilidade, nem gente capaz de liderar sem assumir ares monárquicos.

 

Todos os políticos parecem passar por uma metamorfose instantânea assim que o sufrágio termina. Pode ter origem na psicopatologia, mas o mais provável é que não há, nem nunca houve algo para ser transformado. Eles sempre foram o que são. O que se passa é que nós todos sofremos de um insanável déficit de discernimento.

 

Tudo que testemunhamos no universo do poder é puro palco a céu aberto onde os atores brincam de dramaturgia de décima. Fingem que governam, enquanto nós, que somos governados. 

 

Chegou a hora de mexer no roteiro. Os mesmos clichês e a mesmíssima ópera em cartaz por tanto tempo provocam exaustão da platéia e já há gente tomando coragem para ensaiar vaias construtivas.

 

As vozes ainda não escaparam, mas gritos isolados já foram avistados lá no front.    

  

Paulo Rosenbaum é medico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(ed. Record)

 

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O colapso das ideologias

14 quinta-feira mar 2013

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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autocracia, capitalismo acionário, capitalismo de Estado, centralismo partidário, democracia, hegemonia e monopólio do poder, o que é ser de esquerda, romantismo, utopia

Coisas da Política
Hoje às 06h36

O colapso das ideologias

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum – médico e escritor

O que é ser de esquerda? De acordo com o American Heritage, “grupo ou pessoas que pregam objetivos ou metas políticas igualitárias através da reforma ou por meios revolucionários”. Que beleza e que alívio se as definições enciclopédicas ainda tivessem algum paralelo na vida prática! Sem perder tempo com a estagnação da direita, agora a pergunta poderia se deslocar para “o que consiste a esquerda, hoje?”

No glossário impertinente significaria que “as metas ou objetivos igualitários” seria a primeira avaria terminológica. Já seria uma importante ruptura entre o conceito e o mundo político prático.

Venho de uma época onde, para além das definições acima aludidas, ser de esquerda também significava aspiração por liberdade, renovação e especialmente, paz e luta contra a opressão. O que muitos de minha geração esperavam era que o pensamento conservador e o estado estável que ele sempre representou pudesse ceder para enfim vivermos dias novos. Apesar de todas as promessas eles nunca chegaram.

Os regimes políticos que usaram Marx como base teórica de seu pensamento e ideologia, rapidamente deram sinais de que seriam sistemas tão opressivos, incoerentes e espiritualmente fracos quanto os governos conservadores que, em tese, vieram para substituir.

O uso do manto das lutas sociais se tornou um slogan fútil. Quase a antítese absoluta do que o romantismo original preconizava. O oposto ao movimento libertário que deu origem à caminhada dos revolucionários. A esquerda se reergueu na luta pelas liberdades civis e, mesmo com uma renovação fugaz, foi, ao seu modo, eficiente, especialmente sob a contracultura. E ainda teve uma extensão grátis com os desdobramentos da cultura hippie, a luta contra a opressão das minorias e até o reconhecimento dos direitos humanos e das mulheres.

Mas isso já faz 40 anos. Desde lá temos observado, passivos, a corrosão das liberdades individuais. A queda do Muro, a formação da União Europeia e a revolução promovida pela comunicação e informática, todos eventos que, teoricamente, teriam sido passos importantes para a promoção do bem-estar coletivo. Mas as ilusões se desmancham. Muitos avanços sucumbiram às agressões terroristas (alguém se lembra o que era pegar um avião antes do 11 de Setembro?) e setenta anos depois do fim da II Guerra Mundial temos conflitos — potenciais e reais — espalhados em quase todas as latitudes.

No continente africano, tribalismos e fundamentalismos, os mesmos das guerras regionais do Oriente Médio, a insanidade imperial da Coreia do Norte, teocracias autor-referentes e arrivistas que ganharam poder na América Latina. Nosso mundo assiste impotente (ou positivo operante?) à formação de conflitos graves no clima de acirramento e chamamento ao conflito. Não mais de classes sociais, mas de culturas. Não é difícil enxergar o perfil sombrio que geralmente emulam as guerras civis. O resultado palpável é que virou missão impossível fazer distinções claras e precisas dentro de tantas saladas ideológicas. A incoerência é a tônica e indica que há um colapso das ideologias.

A parte cheia do copo poderia vir dos avanços sociais. Da diminuição das desigualdades e do respeito pelas minorias. Mas infelizmente até essa metade tem evaporado. O esforço feito por quem governa tem sido para manter e concentrar mais poder. Com raras exceções predomina o desrespeito pelas minorias, e a xenofobia ganha ares dramáticos na Europa. Sobretudo, vivenciamos uma brutal e pouco crível incapacidade administrativa mundial.

Claro que ela é diretamente proporcional ao abandono de critérios técnicos e de competência pelo apadrinhamento político e benesses da burocracia da máquina para convidados vip. Tecnicamente falando, não vivemos nem em pleno estado de direito. Então, onde foram parar as forças da renovação? Ouve-se por aí que a esquerda cresceu e tornou-se pragmática. Quem acompanha de perto sabe que o nome da metamorfose é bem outro, enquanto uma emergente sociedade de castas e privilégios desponta.

A atual crise econômica com pinta de recessão mundial revela que o capitalismo acionário deu suas mãos ao capitalismo de Estado, causando boa parte dos problemas. O papel dos Estados seria o de encontrar saídas para as crises, mas uma vez que os governos têm interesses endógenos, o caminho até a solução deverá ser postergado até que as pessoas percebam que o poder não tem mais respostas para dar.

Talvez nem tenhamos mais perguntas para fazer.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/03/14/o-colapso-das-ideologias/

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Da contra hegemonia

21 quinta-feira fev 2013

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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autocracia, bbc, centralismo partidário, chico mendes, democracia, Eleições 2012, gente boa, hegemonia e monopólio do poder, impunidade, ingenuidade politica, justiça, liberdade, marina silva, minorias, partido rede, poesia, seiva, sustentabilidade

 

Da contra hegemonia

Não sei se o nome do novo quase partido está correto, nem sei se o que precisamos é de sustentabilidade, ou mesmo de redes. Na verdade basta de redes. Mas que seja.

O input de Marina Silva para criar o novo partido é o único (sim, negrito) fato novo na politica brasileira em muitos anos. Ouvi no hotel um grupo de brasileiros “se a BBC noticiou em seu telejornal mundial deve ser importante”.

Mas a sensação externa, digo do senso comum, é de que ela tentará fazer um governo da pureza. Oxalá seja assim e algo ela deverá ao espirito extrativista de Chico Mendes que trás a marca da elasticidade ingênua e branca. Da seiva e da borracha. Já avisou que não aceita doação ao futuro partido de produtores de tabaco industrial e bebidas alcoólicas. Por isso fica-se dividido entre o sarcasmo e a apreciação de um heroísmo descabido. Mas não será o descabido o essencial para resgatar o sagrado das coisas publicas? Talvez tenhamos que reavaliar o que é ou não é absurdo, e inverter a lógica que nos guiou até aqui.    

Admirável, ainda que insustentabilidade de forcas politicas não subsidiadas pelo capital, deu no que deu. No Brasil recente o subsidio entrou depois para garantir que quem quer que fosse o vencedor teria os habituais privilégios e regalias.

Voltando a ela e seu partido, não a pessoa, mas as forças sociais que ela representa. Elas são as realmente dignas de nota. E mais ainda por ela  estar em condições de, se não vencer o pleito, pelo menos vai desbalancear seriamente a arquitetura politica em curso.

Como já fez há pouco, impedindo que o partido governista levasse as eleições presidenciais no primeiro turno. O impacto deste fenômeno e os desdobramentos com sua abstenção posterior ainda merecem analises mais extensas.

Agora, as condições são muito distintas

Marina aglutina hoje muito mais do que os descontentes, petistas frustrados e a multidão anônima que acha ela com cara de “gente boa”,como se ouve por ai.

Ela aglutina credibilidade. Item escasso no mercado da (des)confiança mundial. E associa a ela o tema abandonado nas últimas gestões, o meio ambiente. Tandem poderoso. Pois a força que ela cria pode fazer varias trajetórias: sucumbir ás necessidades e acordos que convém ao triunfo eleitoral (o autentico revolucionário sempre padecerá da síndrome do dia seguinte aquele em que se chega ao poder) ou manter a arrogância da independência.

 

A arrogância pode ser uma virtude se ela esta ajustada a um objetivo generoso, só que em politica costuma ser fatal.

As perspectivas reais de sucesso estão, todavia, longe de serem boas, já que o outro lado esta carregado de gente que faz muito bem feito. Por isso Marina é uma quimérica contra perspectiva. Ainda que um sonho, suas aspirações e ingenuidade (piora quando ela procura demonstrar sagacidade politica) são a verdadeira bandeira que podem levar o Pais a um palmo acima.

Não se faz a mínima ideia de quais seriam suas equipes de governo nem se seu partido teria força para conduzir a desburocratização e a as reformas necessárias para que os projetos sociais não murchem na praia. Nem como lidar com gente bem mais agressiva e violenta que a indústria dos produtos alcoólicos e do tabaco.

Escolheram um nome tampão para o partido (espero) ate que surja algo melhor. Mesmo assim vale apoiar para ver se saímos da jogatina polarizada entre os mesmos de sempre e aqueles que fingiram não serem os mesmos de sempre.

Pode não dar na BBC, vale esperar as próximas ediçóes. O inédito sempre tem um gosto da mudança.

 

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)  

Paulorosenbaum.wordpress   

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O mundo não termina, o mundo nem começou.

27 quinta-feira dez 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A Verdade Lançada ao Solo, aspirações impossíveis, Bóson, democracia, editora record, educação e discriminação, fracassomania, Gea, hegemonia e monopólio do poder, Julgamento Mensalão, mais iguais que os outros, malandros otários, mensalão, Montaigne, orwell, passado e presente, poesia, presente mais que perfeito, prisões, raíz da patologia, submundo, término do mundo, transcendência, utopia

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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

Coisas da Política

Hoje às 06h30

O mundo não termina, o mundo nem começou

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum – médico e escritor

Se o fim do ano é um registro que separa o passado do futuro, onde andará o presente? Como responde uma criança ansiosa pelo futuro quando os pais lhe indagam por que ela não aproveita o presente em vez de desejar o amanhã? Em algum momento essa resposta já foi dada:

— É que o presente dura tão pouco!

Ela pode ter razão. O que está, já foi. O que virá nem veremos, ou teremos que imaginar e apostar. O passado apenas parece ser um registro mais fiel, sobretudo mais memorizável. Mas lembramos com seletividade, como nos avisam os biólogos. Temos filtros bem instalados. Somos leitores cheios de ismos, e alguém nos doutrinou na religião, na filosofia, na ideologia política. E o que vimos este ano? Um julgamento que, apesar das pernadas, da gritaria, das falsas analogias, mudou o rumo das coisas. Pela primeira vez na história do pais um embate nos trouxe para bem perto das entranhas do poder. Mais de 150 advogados, intermináveis sessões da Corte e a excessiva espetacularização. Era o palco completo. As penas e a punição importam bem menos do que o simbolismo. Vislumbrou-se ali que, mesmo à revelia, “os mais iguais que os outros” podem estar em pé de igualdade com qualquer um. Que os poderosos são passíveis de penalidades, que ninguém é invulnerável para sempre, que existe uma organização da sociedade civil, que as instituições funcionaram, que há muito por fazer para sairmos da barbárie em que se transformou o manejo da coisa pública. E o mais importante: há mais diversidade política do que sonham nossas filosofias.

Sim, as mesmas guerras. Sim, a velha rotina de massacres non sense. As mesmíssimas cidades sem segurança pública. Os impostos tirados e distribuídos na derrama. Gente que foi embora e gente que chegou. A mesma falta de estadistas, a mesma lenga-lenga dos malandros otários. O mundo é assim, mas, para nossa sorte, sua dinâmica está longe de ser decifrada. Essa é a parte nobre da ignorância sobre como funciona a espantosa Gea. A bola azul rodopia no espaço e não quer nem saber no que vai dar. E isso, senhores, notável exemplo para ser forçado a viver o aqui e agora. Só assim a imanência pode fazer parte da transcendência.

Mas a retrospectiva do período também mostrou que times que sofrem podem se regenerar, que as partículas podem ser aceleradas sem que o mundo rache, que a ciência poderá sair do beco obscuro descobrindo que o segredo de muitas curas está no próprio organismo e que há, felizmente, muito mais saúde que doença. Mas este período mostrou, antes de tudo, falta muito mais do imaginamos para o fim. O mundo não termina, o mundo nem começou.

Nem os esportes nem a atividade profissional nem a vida competitiva podem fazer sentido. E se invertêssemos tudo e valorizássemos mais o empate? Prezar o equilíbrio das forças, ao invés de aplaudir o vencedor e vaiar o derrotado? Nem pensar. Não é espantoso e não se pode culpar ninguém. Tudo isso vem de berço, a base de nossa cultuada educação ocidental. Pode parecer zen demais, mas, e se os governos tivessem a audácia de ser impessoais? De ter a cara de todos e não só a de quem recebe mais votos? E se os políticos formassem coalizações onde todos se fizessem representar e tivessem voz? E se a diversidade fosse não só radicalmente respeitada como tomada como modelo de convívio social? E se as prisões não fossem átrios do submundo, mas lugares para um apartamento social com finalidade reconstitutiva?

Se as escolas não discriminassem, a educação poderia ser esperança no presente e não no futuro do pretérito. Querer vencer, ser o melhor, o primeiro, o mais acessado, o mais bem sucedido e o mais votado não é salvação, é a raiz da patologia. Não, senhor, ninguém precisa se converter à fracassomania, apenas entender que, exauridos, estamos cansados de repetir as mesmas manchetes por meses a fio. Deve haver algum lugar onde a utopia flua fácil e nós, todos nós, possamos ter dias melhores.

Esse lugar já existe, se chama presente mais que perfeito.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/12/27/o-mundo-nao-termina-o-mundo-mal-comecou/

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O direito ao sagrado

13 quinta-feira dez 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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competição selvagem, consumismo, Cosmópolis, democracia, direito ao sagrado, idiossincrasias, manifesto comunista, republica corporativista, sagrado, tédio, yuppie

O direito ao sagrado

 

Há um problema sério com a abordagem dos assuntos políticos no Brasil: são sempre os mesmos. Isso tolhe a criatividade dos articulistas e analistas. Na era geral da inconsequência, tudo vai virando uma coisa só. Observem que na guerra das versões, o peso das palavras se emancipou do conteúdo e tudo depende do poder de quem opina. Os argumentos não valem mais, o que conta é o cacife do partido, a força do time, as armas da facção. A verdade é que estamos perdendo a capacidade de análise e entramos de cabeça na guerra de versões. Ficamos reduzidos a um medíocre “contra e a favor”. O julgamento que exaustivamente comentamos já teve tanto o veredito de “político e fruto da mídia golpista” como  “o País está sendo passado a limpo”. Como a verdade é um valor oscilante, o mais provável é que nem um nem outro.

 

Quem ainda pode aturar mensalão com seus círculos infernais? Sucedido por desmandos e conjuntura excepcional desperdiçada? Estamos carecas de saber que, unha e carne, poder e o mal feito chegaram às vias de fato. As mentiras e a negação sistemática são apenas desdobramentos do caos disparado quando se tenta normatizar o vale-tudo. Por isso mesmo temos que reconhecer, já deu. Se ainda prezamos o presente, nossa reinvindicação deveria ser mudanças profundas no bioma político-cultural.

 

Precisamos de gente que lidere sem se identificar com liderança, humanistas não catedráticos que capturem o que as pessoas sentem, planejadores que entendam o que fazem e legisladores que coloquem as gerações futuras em perspectiva. Não faria nada mal que os intelectuais falassem o não óbvio. Partidos que reconheçam seus erros pelo bem coletivo. Pois enquanto o poder republicano estiver nas mãos de gente que bate no peito e se comporta corporativamente, estamos condenados. Condenados a postergar um comportamento republicano.

 

Não se trata de achar que o passado é melhor que o futuro. Mas também não se trata de viver só pelo futuro. O presente não merece ser mero resíduo, aquilo que sobra do embate entre o que foi e o que será. Se fossemos resumir nossa era: ganhamos agilidade, perdemos espontaneidade, adquirimos instrumentos científicos, perdemos a sabedoria, temos abundancia do comum, nossa carência é do raro, individual e característico de cada um.

 

Estamos sendo esmagados, e entre as façanhas da produção incessante, o abusivo acumulo de matéria e supérfluos. Criamos mais do que podemos consumir, enquanto nosso apetite vira insaciável. Mas não será desta vez que o mundo acabará, ainda que haja muito para moer e muitos moinhos por enfrentar.

 

O que hoje nos aflige coletivamente é a impossibilidade imediata de acesso ao bem estar. Em qualquer de suas versões. Ele teria que ser palpável, mas não conduzido só pela realidade objetiva.

 

Em qual mundo podemos exprimir melhor nossas fragilidades, idiossincrasias, e talentos? No do manifesto comunista? No planeta das lojas de grife? Quem sabe, entrando na competição selvagem, vestindo a camisa da empresa e dando rasteiras por cargos? Nos estádios de futebol, nas livrarias, nos templos? No filme “Cosmópolis”, um magnata yuppie qualquer, gênio das finanças, diante do tédio infinito, passa o dia criando demandas para preencher seu insuportável ócio. O filme pode ser controvertido, mas arranha uma metáfora oportuna. Há um oco extraordinário em nossa civilização, e ao que se saiba, originalmente não nascemos empalhados.

 

No século marcado pelo ressurgimento das religiões e pelo renascimento de uma busca que transcende ideologias políticas, reina um sentimento paradoxal, difícil de assumir: pelo que lutar? Se nem mesmo as tradições podem oferecer respostas, tampouco sabemos se ainda as queremos. Decerto não as mesmas de sempre. Estamos fartos das explicações standard da política, da auto ajuda, do ceticismo e do fanatismo, do conservadorismo e da vanguarda.  Nem a academia nem as artes, acompanham a velocidade da sociedade. A alienação é um consolo, mas está longe de ser uma saída.

 

Que tal reconquistar um direito, que por prurido intelectual ou endurecimento da alma, nunca foi reivindicado? O direito ao sagrado.  

 

Paulo Rosenbaum é médico e escritor.

É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

 

paulorosenbaum.wordpress.com

 

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Populismo blindado e Maquiavel

18 quinta-feira out 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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aspiração totalitária, centralismo partidário, democracia, eleição em São Paulo segundo turno, Eleições 2012, fins justificam os meios, hegemonia e monopólio do poder, manipulação, maquiavélico, Maquiavel, niccolò machiavelli, política, polis, populismo blindado, segundo turno, silencio premiado, vale tudo, voto útil

Populismo blindado e Maquiavel

Diz-se que tudo que entra na linguagem popular tem razão de ser. Quem já não ofendeu alguém usando a palavra “maquiavélico” ? Mas será que estamos fazendo jus ao filósofo Niccolò Machiavelli (1469-1527)?

Sua famosa frase é mal citada e pessimamente instrumentalizada por políticos de todas as grandezas. Raramente a frase toda é contemplada em seu contexto: “Na conduta dos homens, especialmente dos príncipes, contra a qual não há recurso, os fins justificam os meios.” Ouviram? “Contra a qual não há recurso”, isso significa que, nesse caso, teremos que aceitar resignados as arbitrariedades do príncipe e os meios que sua alteza julgar apropriados para nos governar.

O que está em jogo neste segundo turno das eleições é muito mais que a obvia antecipação da eleição presidencial de 2014: é a tentativa da atual administração federal de consolidar seu populismo blindado. É o atual estilo de governar na América Latina. É imperioso que a sociedade interponha recursos contra o príncipe.

O candidato do governo federal até convenceria como figura que se força à simpatia e a ingenuidade de um acadêmico que está para se tornar político, mas o caso é outro quando se analisa suas companhias. O problema é que ele se tornará mero instrumento nas hábeis mãos de quem o alçou até lá. Nesse caso, o morubixaba já declarou que faturar em sampa é “questão de honra”. Ora, nenhum pleito deveria ser, por definição, questão de honra, pois a política além de ação coletiva, quando colocada a serviço dos caprichos pessoais já degenerou num absolutismo plebiscitário.

Por isso mesmo há que se questionar o famoso aforismo positivista de que “contra fatos não há argumentos.” Há. Muitos. O primeiro deles é que um eventual triunfo do candidato do governo federal em São Paulo representaria a consagração do jeito vale-tudo de fazer política. O que torna a reflexão sobre o mensalão mais assustadora é que ele pode se universalizar e portanto legitimar-se como praxe política. Obviamente, nem todos no partido tem essa índole, mas é público que para os chefes esse é o caminho.

Sim, há uma política baseada em vingança e lealdade revestida com silencio premiado que lembra a lei do bico calado das organizações criminosas. Nesse sentido, estamos todos comprados, comprados pelo sucesso, pela economia acelerada, pelas benesses que o estado promete, pelas vagas no ensino superior, pelo acesso ao consumo.

O problema na verdade é que eles ainda consideram o pais um regime de exceção e o sistema, digno de ser derrubado. Acordem! Encontrar soluções passando por cima das leis é a verdadeira conspiração contra a democracia, não importando os resultados finais. O suborno portanto não vem só da corrupção ativa dos políticos, mas de nossa submissão alienada aos critérios que nos tem sido enfiados garganta abaixo. Diz-se nos fóruns internos do partido que vão “tocar fogo” no país para exorcizar as condenações. Claro, isso será assim que passar as eleições, já que as pesquisas mostram que a esmagadora maioria das pessoas entrevistadas, de todas as classe sociais, acham que as condenações foram justas, que o governo federal esteve envolvido, que gostariam que a impunidade diminuísse. Também já se ouve, à boca pequena, que haverá pressão sobre a presidenta para indultar os réus. Se isso realmente acontecer, a fogueira subirá ao status de incêndio de grandes proporções.

É contra esta lógica que a percepção da opinião pública resiste e aos poucos está aprendendo a se defender.

Assim mais uma vez pode se repetir o fenômeno do voto útil em São Paulo, não exatamente contra o ex-ministro da educação mas contra tudo que ele representa, contra quem governará por ele ou com ele, tanto faz. Isso não significa que seu oponente tenha a coalização dos sonhos ou um candidato modelo, mas qual é a alternativa? O problema é que em São Paulo, quiçá no Brasil, sempre foi assim.

O pragmatismo pode funcionar para as alianças e conchavos mas não solucionam questões vitais da cidade. Quando questionados, eles dizem que nada disso interessa e dá-lhe refrão: tiramos milhões da miséria! Aplausos e nada mais que a obrigação do Estado com a justiça social. Mas o que isso tem a ver com crimes comuns, corrupção e aspiração totalitária?

Para fazer uma política justa e alcançar o bem estar que atinja todos, o foco deveria estar nas cidades, no dia a dia dos bairros, dos espaços públicos, na reunião da periferia com o centro. Isso, infelizmente, não acontecerá. Ganhe quem ganhar, as ações serão todas dirigidas e pensadas considerando outro foco, o plano nacional, a maldita rampa.

Uma lástima para os habitantes da polis que, mais desta vez, terão que esperar a vez. Fossem os políticos realmente republicanos não enxergariam mandatos como questão pessoal, nem o poder como instrumento arrivista.

O tênue consolo vem do futuro. À revelia do poder, a opinião pública brasileira amadurece com suor e lágrimas, e é com toda essa umidade que a corrosão da blindagem virá antes do que se pensa.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo ”Ed. Record.

Paulorosenbaum.wordpress.com

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Poesia para a política

20 quinta-feira set 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Poesia para a política

Em joules, quanta energia torramos nos últimos tempos com desvios de verbas, corrupção, favorecimentos, informações privilegiadas, fraudes, impostos escorchantes, uso político da máquina, mentiras prudentes, juros campeões do mundo?

Não creio que seja possível mensurar em joules ou em qualquer outra escala física o tamanho da hemorragia que todas estas forças, juntas, representam. Elas esgotam e impedem o País de encontrar um jeito mais civilizado de avançar. Essas forças atuam como fantasmas, parasitas que assombram os rumos de quem quer viver em paz.

É verdade que o STF está dando uma demonstração de que as previsões do PT de que só os outros são desorganizados despencou ladeira abaixo. Não contavam com uma justiça que tardou, mas agiu, um promotor obstinado, uma sequencia de investigações que tinham cabeças, troncos e membros. Com as previsões de impunidade se dissipando alguma justiça recairá sobre quem tutelou os paus-mandados.

O espetáculo é página virada, o problema é o que faremos depois? No dia seguinte? Isso é o que importa. Até quando seremos platéia? Como não há uma discussão que ultrapasse o nível das torcidas organizadas e a crítica fica restrita aos circuitos acadêmicos cativos das ideologias, o perigo será a opinião pública, saciada pelas punições, voltar a colocar as barbas de molho. Essa é fórmula certa para repetir erros e vivermos de mensalão em mensalão.

Pois o que deveríamos tentar descobrir não será outra coisa? Não seria restituir a poesia da política? Quem ainda se digna à composição em que a atitude dos homens públicos é comandada pelo bem comum? Nós, o povo, queremos mais, de preferência gente decente. Mas quem pode falar de ética sem derrapar na demagogia ou afundar no senso comum?

Realismo, pragmatismo, socialismo, materialismo, liberalismo já tiveram sua vez e falharam. Já a poesia do mundo mora na construção de esperanças, não mais num discurso de coletividades anônimas. Ninguém mais se reconhece nessa generalização reducionista das novelas de TV e do discurso político. Para devolver um pouco de criatividade, estes cérebros sobrecarregados de interesses pessoais precisam de doses progressivas de resubjetivação. Políticos e agentes do poder deveriam ser obrigados à leitura de ficção como fez Jorge Amador com os policiais na cidade de Neza no México. Segundo ele, a leitura além dos benefícios éticos, “enriquece indiretamente as experiências das pessoas”.

Para nosso desespero sentimos que sai eleição entra eleição faltam políticos com projetos políticos de longo termo, que não se extinguem com mandatos. Afirma-se que isso é porque o Brasil só tem partidos fracos. Não me convence. Aliás, entre o centralismo partidário do planalto e a tese da geléia geral das agremiações fico com a segunda opção. Só ações transgovernamentais e suprapartidárias deveriam sustentar a vida pública. Quem sabe assim não tenhamos que amargar mais uma década sendo a sexta economia do mundo com saúde, educação e segurança dissonantes e com um IDH perto da ducentésima posição.

A prova que estamos retrocedendo é a recente instrumentalização da religião nas eleições para o cargo de prefeito em São Paulo, que ameaça se repetir País afora. Ela é grave porque evidencia que a separação entre Estado e religião tem ficado engavetada na didática constitucional.

Os trópicos são realmente tristes e não é um problema de latitude!

Isso até que o bem comum não seja mais uma quimera sonhada pelos habitantes e desprezada por quem faz política.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade lançada ao Solo” (Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

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http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/09/20/poesia-para-a-politica/

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Democracia, saúde, felicidade

19 quinta-feira jul 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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democracia, direitos democráticos e saúde, felicidade e saúde, innersfera, medicinas complementares, planos de saúde

Democracia, saúde, felicidade.

Ao receber o importante premio americano de ciências humanas “Jonh W. Kluge”, que dividiu com nomes como Paul Ricoeur, FHC ao fazer seu discurso de agradecimento, introduziu uma questão relevante e acabou tocando numa área que transcende a sociologia.
Ao indicar que precisávamos encontrar um meio que “permita não só o aumento do PIB – mas também o aumento da felicidade nos países”, quiçá tenha se referido ao índice que aferisse a TF.
Vale dizer, taxa de felicidade.
Na pesquisa epidemiológica já existem em quantidades questionários de qualidade de vida em saúde que avaliam parâmetros psíquicos e tentam diagnosticar o status de felicidade das pessoas. Destarte, essa psicometria ainda é um instrumento precário, que requer ajustes. O certo é que ela tende a se universalizar e no futuro próximo se fará quase onipresente em qualquer avaliação clínica, dos atos cirúrgicos aos tratamentos ambulatoriais.
Por que?
É ela, a felicidade, que deveria direcionar o grau de impacto que tanto a vida como os tratamentos têm sobre as pessoas. Ou seja, para além da saúde objetiva, mensurada por testes laboratorais, anamnese e exames subjetivos será obrigatório examinar melhor o impacto eco-ambiental não só externo, mas especialmente dentro na inneresfera de cada cidadão.
A importância disso é obvia.
Um dos grandes adventos da democracia deveria ser promover a liberdade através da justiça social conjugada a uma vida que inclua e concilie solidariedade com bem estar de cada sujeito. E numa democracia real, a liberdade merece ser ingrediente presente em todas as instâncias.
Tal qual deveriam ser as escolhas em saúde. Seria obvio e provavelmente consensual que também nela teríamos o direito de poder escolher e opinar.
Temos assegurado o direito de escolha quando se trata de saúde?
Se a pergunta fosse colocada dessa maneira, saberíamos de antemão a resposta: não! Vale dizer que, pelo menos na área da saúde não há escolha possível.
Quando a pessoa busca atendimento em saúde e mais ainda, mas não exclusivamente na esfera pública, forçosamente terá que submeter-se ao esquema padrão e à hegemonia inquestionável da medicina standard.
As medicinas complementares estão praticamente fora do campo de escolha das pessoas e, essa decisão, sempre bom que os contribuintes saibam, é exclusivamente política. Os pacientes têm que se submeterem, necessariamente, as terapias caras e sofisticadas, e pior, muitas vezes sem necessidade.
Vale dizer, se há uma máquina de Ressonância Nuclear Magnética ociosa alguém precisará usá-la e justificar assim custos e investimentos, ainda que na maioria esmagadora dos casos uma boa anamnese também pudesse definir uma boa hipótese diagnóstica.
Reconhecidas e recomendadas pelas OMS as medicinas tradicionais e outras formas de agir terapeuticamente, são diretrizes que não vem sendo incorporadas pela maioria dos órgãos governamentais como alternativa aos enormes custos centralizados em atendimentos hospitalares. A ausência de opção para o cidadão como direito de escolha acarreta ônus extra e não somente aos usuários do sistema público de saúde, mas também, indiretamente, na prática privada.
Assim como criaram reservas de mercado para certos nichos na indústria e comércio, vigora no campo da saúde um tabelamento maquiado para não caracterizar truste. Numa recente prova de força a ANS caçou mais de 200 planos de saúde que vendiam, no afã incontrolável de caçar consumidores da classe C, sonhos de consumo impossíveis.
Os empreendedores dessa saúde mercadológica – agindo abertamente contra médicos e pacientes — também souberam se proteger e elegeram bolsões que garantem, sem muitos riscos, alta lucratividade. Com ou sem felicidade determinam as regras para seus conglomerados que vão dos planos de seguro saúde à indústria farmacêutica, passando pelos parques hospitalares e turismo terapêutico.
As medicinas complementares, práticas de custo muito menor e que privilegiam a atenção primária à saúde produziriam impacto altamente favorável se introduzidas macicamente no SUS e por extensão natural nos planos privados. Ela implica tanto diminuição de custos pela racionalização no uso dos medicamentos quanto menor consumo de procedimentos invasivos.
E apesar de contarmos com um instrumento importante como a política transgovernamental e apartidária que é a PNPICS (Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares), todas são providencialmente colocadas à margem do ciclo produtivo dos sistemas industriais que hora regulam a saúde no Brasil.
Essa direção detectada não favorece nem uma boa pedagogia médica, nem a educação dos usuários, cada vez mais seduzidos pela idéia discutível de que a última palavra em medicina é sempre o novíssimo medicamento ou a terapêutica recém saída do forno.
O historiador de medicina Henri Sigerist, ainda na virada do século XX, sugeria que a única forma de verificação da segurança e real eficácia das terapêuticas seria que centros independentes de pesquisa pudessem controlar e distinguir o que realmente funciona sem prejudicar, daqueles procedimentos inócuos ou aparentemente eficazes mas altamente nocivos.
O Estado em dobradinha com o capitalismo selvagem nunca operou tão aberta e confortavelmente. Não sendo tão lucrativas, não fica difícil deduzir as razões do preterimento dos direitos sobre nossas escolhas.
Só uma opinião pública crítica e ativa pode modificar isso.
Nesse caso, a liberdade de escolha será um passo a mais no percurso até a felicidade.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

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Insurreição de gênero

24 domingo jun 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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coragem para se opor, democracia, fisiologismo, impacto político das imagens, infidelidade partidária, insurreição de gênero, mensalão, mulheres na política, resistencia política ao neo patriarcalismo

Insurreição de gênero: Erundina, Marina e Martha

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum+A-AImprimirPublicidade

A proximidade das eleições traz imagens, e imagens podem mudar tudo. Para além das alianças e manchetes políticas incompreensíveis, algumas cenas mexem com nossas entranhas. Tudo isso se deve ao advento da única ideologia sobrevivente: pragmatismo político. Denunciantes do mensalão desfilam lado a lado com réus que atentaram contra a democracia, e, por segundos a mais, sociais-democratas flertam com nanicos. Como sempre, o glorioso MDB continua jogando em todas as posições, mas, vamos reconhecer, como esse pessoal sabe cavar faltas!

Até a divulgação da famosa foto no jardim, Erundina topava bater ombro a ombro com Maluf. As alianças regionais e nacionais fazem cair o queixo de qualquer cidadão que algum dia sonhou com coerência. O que ainda não sabem é que coerência virou artigo morto no glossário dos políticos contemporâneos. Pobres intelectuais e bem pensantes. Não entenderam nada. Melhor assim. Já imaginaram se os doutos descobrem que não há incoerência alguma? Pois, é isso mesmo. Eles todos são aliados porque concordam no básico: o importante é estar lá, custe o que for.

Ninguém esperava mesmo que sinais angelicais acompanhassem essa turma, mas não pode haver dúvida: é um abismo. Diante do fosso, duas alternativas: mergulhar de cabeça ou resistir e aguentar o tranco. E em meio aos trampolins e piscinas bem regadas, bater o pé em recusa é o que expressivas figuras femininas da política brasileira, como Erundina, Marina e Martha estão começando a fazer.

Dizer não ao costumeiro “sim, senhor” não é fácil, e o pior é “não dá lucro imediato”, por isso mesmo devemos considerar qualquer “não” como ato de bravura. Difícil analisar quais os pontos em comum das três senhoras, mas uma coisa é certa: elas podem até disfarçar e tergiversar, mas são conseguem mais esconder; suas ações afirmativas já são pedras indigestas no sapato do regime.

Como é bom lembrar que há uma raça que não se curva ao comandante! A resistência ao modelo neopatriarcal só poderia mesmo vir das mulheres. Já que falta aos homens disposição ao enfrentamento – sobra narcisismo – são elas que estão dando explícitos sinais de insatisfação. A boa-nova é que os chefões castradores que hoje fazem as vezes dos velhos coronéis do cabresto em currais eleitorais já estão ficando ressabiados.

O feminino, enfim, descobre o agradável poder que existe na infidelidade, partidária. Oxalá isso se espalhasse por toda a República. Assim, quem sabe, voltaríamos aos trilhos da democracia.

Independentemente das simpatias e antipatias pessoais, são elas que estão peitando não só os critérios stalinistas do partido hegemônico como as confrarias que usurparam o poder. Mas, sem idealizações, sabemos que todas também estão atrás dos cargos. Mas que não se desconsidere a novidade em suas mensagens descriptografadas: “Queremos, mas não a qualquer preço”. Se a insubmissão se alastrar, pode-se batizar o movimento Sim, mas não a qualquer preço. Teremos que ser muito agradecidos, qualquer coisa para nos deslocar do medonho status quo.

Não seria exagero afirmar que a insurreição de gênero em curso deve ter fortes repercussões num futuro próximo. Por isso merece registro a postura delas frente aos caciques com seus baralhos viciados. Com o movimento sindical e estudantil nas mãos e uma oposição sem estofo, elas viraram a única peça do jogo político a desafiar os desmandos. Torçamos para que essa lufada de vento também pique Dilma. Calma, eu também duvido, bom demais para ser verdade. Imaginem se ela resolvesse abrir melhor os olhos. Suponham que, tomada pela audácia, ela se rebele contra seu mentor. Seria o mais histórico e memorável de seus atos presidenciais.

Um desejo não deixa de ser possível só porque ainda não se realizou. Até nas profecias há gap temporal. O sonho pode não ser plausível agora, mas se todos bem recordam houve uma vez uma eleição no Brasil com o slogan A esperança venceu o medo. Talvez tenha chegado a hora de fazer isso acontecer de verdade.

Para comentários acessar o link do JB

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/06/24/insurreicao-de-genero-erundina-marina-e-martha/

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