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Déficit de discernimento.

 

Segundo os cosmólogos, muito provavelmente existem inimagináveis dimensões simultâneas, antimundos e universos paralelos ao nosso. Para simplificar vamos ficar no aqui e agora. Quantas coisas nos parecem insólitas, absurdas ou só incríveis, isso num único dia? Dezenas? Centenas?

 

Costumamos sentir a estupefação nas entranhas, porém é dentro das cabeças, aparentemente desconectadas do restante do organismo, que a estranheza é sempre  racionalizada para simular certa normalidade. Decerto acionamos algum mecanismo de defesa. Estamos fazendo nada mais que domesticar o non sense de modo que ele integre naturalmente a paisagem do dia a dia.

 

Começo pela saúde. Há programas no ministério da saúde que oferecem assistência e tratamentos gratuitos para varias patologias (gratuito até que é bem bolado, soa como se tudo fosse fruto de caridade e o Estado não tivesse deveres para com os cidadãos).

 

Mas ai de qualquer um de nós que se aventurar a ter uma doença rara.  Simplesmente o estado não cobre os custos decorrentes da doença. É que muitas “não estão na tabela” de reembolso do SUS. Juízes solidários têm sido a salvação dessas pessoas. Eles vêm emitindo liminares que obrigam o Estado e/ou os planos de saúde a cobrir os caríssimos custos destes tratamentos. Isso se repete, à indecência, sob muitas condições clínicas menos comuns. Aliás, a vida parece nos forçar ao que é comum, a ficar na média, e essa normatividade por decreto se estende ao adoecimento.

 

Para complementar o tour pelo país do inacreditável, pode-se visitar a política. Correntes da psicologia acreditam  que a fonte de muitos dos nossos males é oriunda da auto-sabotagem. Em condições normais os doutores poderiam ter razão. Não estanmos em condições normais e desconfio que estamos mesmo diante da temporada de erros estúpidos sequenciais. Dia desses foi a vez do ministro da fazenda (tentava explicar ao jornalista incrédulo porque temos impostos de primeiro mundo com serviços de quarto) que disse literalmente, está gravado: “os serviços públicos no Brasil são bons”. Como assim bons? Sabe-se que 9 entre 10 governantes tomam o brasileiro por um idiota funcional, mas tenha dó. Fossemos um país de opinião pública consistente ele e outros já teriam caído.

 

Mas são setenta e lá vai pedrada de aprovação. Perdemos a noção, só pode ser este o diagnóstico.

 

Pode-se discordar das críticas, mas avalie criteriosamente a sequencia de disparates: PIB em queda livre, volta da inflação e agora o loteamento cala-boca com feira de cargos públicos.

 

Afinal, o que significa esta aliança pela governabilidade defendida pela mandatária geral? Digo, o que isso representa na prática? Em uma palavra, em suas próprias, ela pediu lealdade. Ao governo, às suas aspirações, exigências e demandas. Mas ao colocar em postos chaves gente que tem um passado tenebroso ou inconsistente quem está traindo quem? Os eleitores parecem ser as únicas vítimas de adultério por aqui. Isso enquanto gente condenada tem fundos e subsidios partidários para sair país afora tentando desmoralizar o STF, adolescentes matam e entram por um punhado de  semanas em programas de ressocialização, homicidas perigosos tem penas curiosas e ganham liberdade mais cedo que estelionatários e viciados em drogas.

 

Se é que isso consola, a deficiência de autocrítica é mundial. A commoditie, escassa, parece ter se escondido no subsolo do reino dos caras de pau. Esses mesmos que vemos todos os dias nos telejornais. Não se sabe bem onde está a tal da sustentabilidade, nem gente capaz de liderar sem assumir ares monárquicos.

 

Todos os políticos parecem passar por uma metamorfose instantânea assim que o sufrágio termina. Pode ter origem na psicopatologia, mas o mais provável é que não há, nem nunca houve algo para ser transformado. Eles sempre foram o que são. O que se passa é que nós todos sofremos de um insanável déficit de discernimento.

 

Tudo que testemunhamos no universo do poder é puro palco a céu aberto onde os atores brincam de dramaturgia de décima. Fingem que governam, enquanto nós, que somos governados. 

 

Chegou a hora de mexer no roteiro. Os mesmos clichês e a mesmíssima ópera em cartaz por tanto tempo provocam exaustão da platéia e já há gente tomando coragem para ensaiar vaias construtivas.

 

As vozes ainda não escaparam, mas gritos isolados já foram avistados lá no front.    

  

Paulo Rosenbaum é medico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(ed. Record)