A Ideologia da superaçáo

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Jornal do Brasil

Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2013

 

Coisas da Política

Hoje às 06h36 – Atualizada hoje às 06h40

A ideologia da superação

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum – médico e escritorTamanho do Texto:+AAImprimir

Nestas últimas semanas o protagonista do evento mais importante para o esporte mundial foi um ciclista.  Alienado das modalidades esportivas, exceção ao futebol, a referência mais próxima ao seu sobrenome para mim era a do primeiro astronauta na Lua. Lance Armstrong é um ídolo duplamente ungido pela capacidade de se reerguer. Superou um câncer de testículo e, desde então, resolveu continuar a superação até se sagrar como mito, campeão quase absoluto.

No que consiste a superação? Ir adiante e esquecer-se do que já passou? Saltar acima dos obstáculos? Enfrentar as piores condições e, mesmo assim, não desistir? A indústria filosófica da superação é tão prolífica quanto os conselhos dos livros de autoajuda. A fórmula é fácil. Não discriminando nem contextualizando nada, aconselha-se genericamente. Se pegar, pegou. Acerta-se e erra-se, a esmo.

Então, uniram-se fisioterapeutas, médicos para atletas de alta performance, indústria de tecnologia, empresários do setor de marketing e da indústria do esporte. Quiseram dar uma mãozinha a Armstrong e a muitos outros em situação análoga. Foi assim que Lance aceitou injeções de hormônio, e, durante anos, se submeteu a permanentes e arriscadas transfusões para limpar os vestígios do doping e, ao mesmo tempo, aumentar sua capacidade de oxigenação durante as provas.

Sob o coro de que o cliente tem sempre razão, e tanto mais quanto mais poder financeiro, não foi difícil encontrar equipes inteiras superespecializadas em saúde (sic) que organizavam, procediam e executavam as peripécias clinicas que levavam o artista ao topo, sem jamais ter sido flagrado nos exames antidoping. Foram mais de 5 mil, todos negativos. Vieram resenhas, entrevistas, editoriais e gente de todo tipo expressando indignação e decepção com o imbatível ex-ídolo.  Então, quem é Lance? Um gênio do crime? Um trapaceiro comum? O vencedor de Olimpíadas, aquele que levou quase todas as grandes provas ciclísticas no circuito internacional era mero impostor?

Será?

Discutiu-se de tudo, menos a questão central: a hipocrisia que dirige nossos valores. Será que o moralismo acusatório deve impor seus dentes com tanta facilidade? O Comitê Olímpico Internacional cassou todos os troféus de Armstrong e, preste bastante atenção, não entregou seu primeiro lugar a nenhum daqueles que vinham abaixo. O motivo? Suspeitam que muitos dos demais usavam recursos análogos.

Acompanhando a alta performance, há uma indústria que precisa ganhar de qualquer jeito.  Armstrong era o melhor, competindo num meio em que a maioria prefere arriscar a saúde a perder a troféu e, junto com ele, subsídios, fama e o status de celebridade. Aqui, o ponto central para análise. Até onde pretendemos ir com a oferta de circo? O que desejamos ver? Como queremos nos emocionar?

Não só os atletas precisam de superação, a maioria de nós também. O sentido da superação é que não fica claro. Decerto que as mudanças importantes exigiram sacrifícios e os protagonistas sempre foram os que romperam limites, desafiaram o establishment, de certa forma, transgrediram. A ideologia da competição nos levou às mais amargas desigualdades e ao reino sagrado do darwninismo social, conquanto a resposta também não parece ser estimular a alienação ou premiar a inércia.

Incorporamos com perturbadora naturalidade a ideologia da sociedade industrial: alta performance. Essa é a mentalidade dominante. Pois esse motto migrou a tudo e para todos. Das fábricas aos seres humanos, passando pela exploração da natureza e recursos do planeta. O purismo excessivo (a ingenuidade pode ser uma forma de patologia) pede a extinção do ar condicionado e exige que nos contentemos com sua utopia primitiva. Os politicamente adaptados querem mais é que as novas barragens inundem reservas florestais, e bola para a frente. Se a militância ingênua vive o descrédito de um pensamento mítico superado — já que a tecnologia é irreversível —  os superadaptados vivem recusando qualquer forma de restrição, racionamento ou autocrítica.

Pagamos para ver pessoas ameaçarem a própria integridade e baterem recordes, encurtar distâncias, derrapar em abismos nevados, ou ter um AVC na pista como aconteceu no final da maratona de uma Olimpíada anos atrás? A narração era evidente: a mesma voz odiosa e ufanista que narra os eventos automobilísticos:

— Que exemplo, e ela não quer ajuda! Paralisada do lado D, mas não quer ajuda!! É isso, essa é a beleza do esporte, senhores!

Sem mergulhar no pântano que é a avaliação da conduta moral alheia, direto à pergunta que interessa: por que admiramos gente se equilibrando com menos segurança e redes protetoras?  O que nos faz exaltar pancadas mais mortais?  O que vemos de excitante na vida em risco? Afinal, o que nos rege?

Com disciplina criaremos tantos Lance Armstrong quantos forem necessários e também os destruiremos, com a mesma displicência.

Não há respostas, apenas precisamos continuar pedalando!

 http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/02/07/a-ideologia-da-superacao/

 

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A dor merece nosso constrangimento.

Devo estar cultivando a insensibilidade já que não me comoveu o choro presidencial nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.

São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.

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A dor merece nosso constrangimento.

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A dor merece nosso constrangimento.

Devo estar cultivando a insensibilidade já que não me comoveu o choro presidencial nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.

São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.

A falta de decência não é só fazer as coisas sem pensar que outros podem se ferir ou sair lesados. Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana.

Há uma máxima que deveria vir instantaneamente à cabeça de qualquer um “tratarei todo filho como se fosse meu”. Passa longe do sentimento predominante. Que dizer dos donos do lugar e dos homens da segurança? Inicialmente, sem perceber a eminente tragédia, impediram pessoas de sair do inferno. Quais as regras a serem seguidas e quais merecem desobediência civil já?

Não sei quantos mais poderiam ter sido salvos da asfixia, da carbonização. Uma vida poupada teria feito toda diferença. Mas havia a barreira do execrável pedágio, a pirotecnia fora de lugar, o entupimento das salas, as formigas espremidas na armadilha.

Não vem ao caso apontar para a banda ou para os proprietários como alvos óbvios de punição e responsabilização criminal. Já que pais e mães tiveram seus futuros cassados e as vítimas ardem na sombra, seria preferível acompanhar o que o poder público tem a dizer.
Em geral fiscais são bons burocratas e, raramente, tem consciência de seu papel vital na prevenção dos desastres. Prevenção, lugar comum, baixa visibilidade, anti-popular, mas a única palavra chave para não termos que ouvir a esfarrapada desculpa “fatalidade”. Isso não é um se, está acontecendo agora. Nas enchentes, na calamidade absoluta que é a segurança pública do País, na incapacidade organizacional para gerir o dia a dia das cidades. A verdade é que se ainda vivemos ilesos, é por sorte e apesar do Estado. E não se trata de apontar para um único partido. Todos comungam deste mínimo múltiplo comum, a incapacidade de enxergar que toda matéria política caberia numa sentença: governo é para o povo. Submergidos no populismo ignorante, cosmético e estelionatário quanto dinheiro ainda será arrecadado nas miríades de impostos pagos para fiscalizar e manter as bocas de lobo, as escolas, o passeio publico, a segurança, a defesa civil? E como isso será gasto? Não sabemos e ninguém sabe. Mark Twain escreveu: “o governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que certo e o que está errado, e decidir, quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer ordens, não originá-las.”
Só quando os administradores forem imputáveis e sentirem nos bolsos e na privação de liberdade que, se falharem em prevenir o prevenivel sofrerão consequências pesadas, talvez tenham mudanças efetivas no dislate que é o planejamento público no Brasil. Só quando a opinião pública exigir que as apurações não se limitem a dois ou três bodes expiatórios, mas, a quem, de fato, permitiu a vigência do absurdo. Talvez ai, calçados na educação solidária, o respeito aos cidadãos terá status de lei.

Na hora dos massacres a solidariedade autentica vem das pessoas desvinculadas do poder. Emerge pura da nossa emoção, premida pelo nada, esvaziada de sentido, e lapidada pela voz rouca do abandono. Um sobrevivente do incêndio descreveu “vi o monte de corpo empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no holocausto”. Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vidas foram incineradas.

Todos nós, civilizados desde o berço, podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Rachaduras na placa continental, asteróides, furações e terremotos são eventos inevitáveis, às vezes inexoráveis. Crematórios não. A dor merece nosso constrangimento, assim ao menos sofreremos todos juntos. Não entendo bem por que, mas parece que precisamos derreter para nos unir.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

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Liberdade para que?  

 

Ninguém negará que a mídia precisa ser mais democrática – e democratizada – para incluir os sem voz e as grandes parcelas da população ainda marginalizadas, mas o projeto em orquestração na mesa dos controladores nada têm a ver com este escopo. Sob o argumento de que as redes de comunicação operam através dos oligopólios a proposta é substitui-la por monopólio de Estado.

 

Os milionários esquemas de subsidio estatal para a mídia favorável (nas três esferas) e os torniquetes possíveis aplicados às outras é só a parte visível do jogo. O controle da imprensa significa, na prática, coibir o debate público –  já de má qualidade – uma vez que só a liberdade de expressão permite que os cidadãos  possam se posicionar para investigar, cobrar e, quando for o caso, se opor ao Estado.

 

Missão longe do alcance de uma imprensa submissa. Como…

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Nostalgia de papel

 

O processo da enfermidade de Chávez mostra como a imprensa pode se comportar de forma opaca e escancara a importância de uma discussão adulta sobre os direitos das sociedades contemporâneas à informação. Afinal o sujeito preside um país! Mas seu estado de saúde e os relatórios sobre suas reais condições de governar estão nas mãos da elite da inteligência cubana. E, graças ao mistério, na Venezuela, a violação constitucional ungida por corte jurídica, teve êxito. Eis um segredo de Estado bem usado.

 

São conhecidas as edições maquiadas e manipuladoras do velho Pravda, os jornais caricatos controlados por Ceausescu e Sadam Hussein, a mão de ferro com a qual a ditadura de Pinochet e os generais do cone sul esmagaram a imprensa livre. Muitos não se lembram mais dos versos de Camões no Estadão (sempre saudável lembrar que o jornal ainda está sob censura) e das…

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Liberdade para que?

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Liberdade para que?  

 

Ninguém negará que a mídia precisa ser mais democrática – e democratizada – para incluir os sem voz e as grandes parcelas da população ainda marginalizadas, mas o projeto em orquestração na mesa dos controladores nada têm a ver com este escopo. Sob o argumento de que as redes de comunicação operam através dos oligopólios a proposta é substitui-la por monopólio de Estado.

 

Os milionários esquemas de subsidio estatal para a mídia favorável (nas três esferas) e os torniquetes possíveis aplicados às outras é só a parte visível do jogo. O controle da imprensa significa, na prática, coibir o debate público –  já de má qualidade – uma vez que só a liberdade de expressão permite que os cidadãos  possam se posicionar para investigar, cobrar e, quando for o caso, se opor ao Estado.

 

Missão longe do alcance de uma imprensa submissa. Como o objetivo final é a liberdade controlada, a finalidade última da regulamentação é dirigir o país contando com informações filtradas.

 

Neste sentido, estamos muito próximos de uma censura velada!        

  

O primeiro interessado em deter a informação é o próprio poder. A hegemonia passa pela centralização. Mas há um produto muito além do poder em jogo quando se trata de concentrar informações. A liberdade só pode ser exercida com a aquisição do conhecimento que passa pelo exercício da crítica. Sem ela a liberdade é uma franquia das cúpulas, dos consensos de gabinete, um slogan abstrato.

 

Uma equipe eleita decide o que pode e o que não pode? Mas eles não foram eleitos para isso, ou foram? Isso é que não está nada claro no jogo democrático atual. As regras. Depois que se ganha a eleição tudo pode virar qualquer coisa. Para isso deveria valer os direitos constitucionais

 

Não se enganem, há uma dosimetria oculta que rege nossa liberdade.. Para ser conciso: o projeto de regulamentação da imprensa, é, na verdade, uma ameaça direta à democracia. É urgente organizar a sociedade para que o cerceamento à livre expressão não encontre guarita no argumento de “controle social”.

 

Como nos faremos ouvir? Como ler jornais quando tudo estiver sob o filtro impermeável do Estado? Podemos usar o spam, a panfletagem, instrumentalizar melhor a ilusão revolucionária das redes sociais. No mundo eletrônico ocidental ainda inexiste censura e não é difícil perceber que a autocensura encontra-se completamente abolida.  

 

E quem dará aval para os projetos de controle estatal da mídia? O pessoal da moral e dos bons costumes? Assim eles poderiam eleger os livros, peças, filmes e biquínis que vamos ver.  Os executivos dos partidos políticos (base aliada ou não). A explicação é simples: estão mordidos com a última pesquisa sobre a decadência dos partidos. E tudo que contraria políticos é gerado na imprensa livre. 

 

E quanto aos intelectuais e a estrutura universitária? Estão divididos entre os que são pela lealdade ideológica ao governo e os independentes. Estes últimos são uma categoria em decadência porque ninguém quer subsidiar gente isolada muito menos premiar a autonomia. A emergência dos conservadores é uma resposta, equivocada, a uma esquerda que vêm sofrendo isquemias no núcleo duro. Os conservadores também não funcionam porque suas perspectivas são basicamente alimentadas de nostalgia. Sonham com uma ordem e um status quo que nunca existiu no cenário politico. Nas TVs ou nos jornais notem que sempre começam com expressões de saudosismo e terminam suspirando pela volta das leis marciais.

 

Quanto à estrutura universitária vale lembrar da antiga tese do filósofo José Arthur Gianotti de que a Universidade é subsidiada para não funcionar. “Funcionar” no sentido de produzir a mentalidade critica e autocritica que tanto nos faz falta. Claro que existem nichos que funcionam. Na base do voluntarismo e de ações sociais importantes, grandes camadas de pessoas foram resgatadas da marginalização nas últimas administrações. Não é o suficiente. A educação e o investimento maciço em ensino não ousaram para além das formalidades como a de “colocar mais gente no ensino superior”. Salários dos professores e estímulo à pesquisa ainda são ridículos para o nosso PIB. O processo pedagógico parou no século XIX enquanto precisávamos de inspirações do XXII. Há uma fadiga generalizada no jeito de fazer e lidar com as coisas públicas.   

 

Tudo isso seria pior sem liberdade. Sem ela, como falaríamos de tudo isso?

 

Aproveite para chiar agora, pode não haver segunda chance.

 

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

 

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Nostalgia de papel

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Nostalgia de papel

 

O processo da enfermidade de Chávez mostra como a imprensa pode se comportar de forma opaca e escancara a importância de uma discussão adulta sobre os direitos das sociedades contemporâneas à informação. Afinal o sujeito preside um país! Mas seu estado de saúde e os relatórios sobre suas reais condições de governar estão nas mãos da elite da inteligência cubana. E, graças ao mistério, na Venezuela, a violação constitucional ungida por corte jurídica, teve êxito. Eis um segredo de Estado bem usado.

 

São conhecidas as edições maquiadas e manipuladoras do velho Pravda, os jornais caricatos controlados por Ceausescu e Sadam Hussein, a mão de ferro com a qual a ditadura de Pinochet e os generais do cone sul esmagaram a imprensa livre. Muitos não se lembram mais dos versos de Camões no Estadão (sempre saudável lembrar que o jornal ainda está sob censura) e das bombas contra a ABI. O aforismo é auto evidente: se há ameaça de totalitarismo, a liberdade de expressão é a primeira a cair.

 

Precisamos analisar um caso recente que, providencialmente, teve baixíssima divulgação. Trata-se do ativista prodígio Aaron Swartz. Nada a ver com o lucrativo wikileaks, Swartz fundou o theinfo.org e lutou pelo direito e disponibilização de artigos científicos, teses, processos jurídicos e outras informações normalmente só acessíveis com deslocamento pessoal do interessado até bibliotecas ou arquivos burocráticos. Isso irritou o Departamento de Justiça dos EUA porque Swartz xeretou em lugares impróprios: se posicionou contra os abusos incluídos na nova lei antipirataria (agora citar um trecho com copyrights em artigos, filmes ou teses pode dar cadeia) e fez o inadmissível, começou a rastrear a origem do dinheiro do financiamento das pesquisas. O sistema tolera que o cidadão avance até certas áreas fronteiriças, depois da linha vermelha, lasca-lhe o cassete. Acusado, e ciente das chances de passar os próximos 35 anos aprisionado, Aaron reduziu-se ao silencio. Na semana passada, pressionado e deprimido, matou-se aos 26 anos de idade. (ver  artigo de Magaly Pazello em http://www.portogente.com.br)      

 

Então para que serve a informação? Para controlarmos uns aos outros? Estamos montando uma sociedade de delatores? Uma megacorporação de fiscais?  

 

Numa sociedade regulada pelo instantâneo estamos todos ligados, conectados em tempo real, mas os plugs cobram um preço: nos tornou mais exigentes, escravos da intolerância, discípulos do cronômetro e, principalmente, vulneráveis à vigilância. 

 

Projeções indicam que meios digitais como este que você agora lê, tornar-se-ão, em menos de duas décadas, os veículos preferenciais para a busca de notícias. Jornais em papel serão raridades bibliofílicas. Por isso, China e Irã, por exemplo, vêm gastando bilhões em sistemas tecnológicos de bloqueio e filtros de acesso à web. Percebeu-se que a inclusão digital é faca de muitos gumes. Porém o mundo real mostra que a sede por notícias é maior do que a capacidade do Estado em sufocar o acesso a elas. Pronto, confesso a nostalgia. O papel era mais subversivo e irreverente. O papel circularia mesmo se algum político resolvesse desligar a chave geral. Papel dura, arquivos são reformatados ou deletados.  

Depois da onda de euforia, têm sido um tanto comum ler pessoas maldizendo a realidade virtual. Do jeito que escrevem é como se alguém as obrigasse a entrar, sentar, digitar, responder, curtir, descurtir, cutucar, retransmitir, compartilhar, ver quem acessa, esperar comentários, respostas que nunca chegam. Mas não fomos nós que criamos a coisa? Que desperdiçamos cada vez mais horas grudados na tela, aposentando dicionários por google e e-pédias e tornando Mark megatrilionário? Me ocorre a palavra “tráfico”. Surfar nestas plagas vicia como cocaína e mostra que a vida também pode ser perfeitamente decomposta por clicks inocentes. Isso não é futuro. Já aconteceu: somos todos dependentes eletrônicos.

 

É hora de aposentar discos rígidos e trocá-los por um pouco de memórias insólitas.  

 

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

 

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O Indefensável

Será que nos lembraremos deste momento? Onde estávamos nós diante da onda de cartas à redação, artigos, suspiros em mesas de bares e murros nas mesas nos restaurantes? E o que fizemos nos aeroportos, em postos de gasolina, em cinemas e lanchonetes? Há relatos de editores bufando em redações e palavrões em livrarias. Sim, ele tomou posse. Sim, disse que com a consciência tranquila.

Mas repare que os clamores moralizantes pelo Pais afora pode produzir um efeito paradoxal. A revolta coloca um julgamento essencialmente justo, sob a suspeição de ser um indutor de justiça selvagem. É claro que é falso. Mas ao contrário deles somos adeptos da autocritica. As reações não estão descalibradas? Os cidadãos são guardiões simbólicos da justiça, não seus sócios ou gerentes executivos.

A dignidade agora é uma refeição que se come crua e com as próprias mãos? Que alívio que não se queimam mais…

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Paredes e janelas.

Obriga-os e falarás com paredes. Esqueça-os, e a voz encontrará janelas.

O Indefensável

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O Indefensável

Será que nos lembraremos deste momento? Onde estávamos nós diante da onda de cartas à redação, artigos, suspiros em mesas de bares e murros nas mesas nos restaurantes? E o que fizemos nos aeroportos, em postos de gasolina, em cinemas e lanchonetes? Há relatos de editores bufando em redações e palavrões em livrarias. Sim, ele tomou posse. Sim, disse que com a consciência tranquila.

Mas repare que os clamores moralizantes pelo Pais afora pode produzir um efeito paradoxal. A revolta coloca um julgamento essencialmente justo, sob a suspeição de ser um indutor de justiça selvagem. É claro que é falso. Mas ao contrário deles somos adeptos da autocritica. As reações não estão descalibradas? Os cidadãos são guardiões simbólicos da justiça, não seus sócios ou gerentes executivos.

A dignidade agora é uma refeição que se come crua e com as próprias mãos? Que alívio que não se queimam mais culpados em praça pública, um horror, não é mesmo? Hoje, basta execrá-los, aplique-se o bullying autorizado e vamos lá, até as últimas consequências.

Precisamos recusar o ridículo clima de escárnio generalizado contra quer que seja. Ainda que estejamos protegendo escarnecedores. Ainda que a postura civilizada se estenda ao partido mais intolerante do continente. Ainda que seja gente que, a depender do contexto, nos executaria. Não importa. Não é por bom mocismo. Não tem nada a ver com o politicamente correto. É por princípio! Por ele é que devemos garantir a todos, condenados ou não, o gozo das prerrogativas e o esgotamento dos recursos legais. Não era isso mesmo que até a antevéspera pedíamos? Que todos fossem iguais perante a lei? Para o bem e para o mal? Será que é porque às vezes queremos leis, e, às vezes, exigimos exceções?

Quem se importa se ele foi ingênuo, omisso, instrumentalizado ou só culpado? Tanto faz se a serenidade ostensiva revele indiferença à opinião pública. E por que o espanto? A marca registrada desse governo não é exatamente o desdém raivoso por todos que discordam?

Neste sentido, que tal dar exemplo? Vamos ser regidos pela cabeça e não pelo ventre. A Republica baseada em ventre geralmente acaba vertendo as próprias entranhas. Aquela governada pela cabeça pode ter milhões de defeitos, ainda assim, o dano é bem menor.

Deixemos que os juízes e a constituição se encarreguem dos salvadores da nação. Durante a revolução cultural chinesa havia um canto obrigatório nas escolas: “O camarada Mao ama mais cada um de vocês do que os seus pais”. Claro que os amava, assim como todos os libertadores das massas dizem amar.

Além disso, todos evocam em sua defesa o processo socrático, malgrado ignorem o conselho vital dali derivado: só temer a própria consciência. Mas, para isso, teriam que confrontá-la, e isso, a ideologia não perdoa.
A maturidade consistente vêm sem revolução, desce até nós através da educação e da cultura. Saberemos que chegou quando rejeitarmos a onipotência dessas pajens coletivas. Notem que eles dependem do culto à personalidade para viver. Viver às nossas custas. Nos amam tanto, nos querem tão bem, que, para facilitar as coisas, personificaram o Estado. Isso não é esquerda, isso não é direita, a rigor isso não é nada, a não ser usurpação das instituições.

Você que ainda consegue dormir tranquilo e preza a liberdade, melhor guardar vigília. É questão de tempo até que impliquem com quem não se curva. E a resistência à tirania pode ser o último reduto da ética.

O trágico está em não termos conseguido nos livrar de líderes totalitários disfarçados de paizões. Está em nosso histórico comportamento infantil que alimenta expectativa de lideranças infalíveis. É com esse messianismo laico que lentamente submergimos a América Latina no leque de caudilhos.

Se ouvíssemos a voz sussurrante da história: República alguma deu certo com projetos personalistas! Se não desfulanizarmos a Republica, ela é quem fará isso conosco. Poupemos energia para o que conta: votos amadurecidos nas próximas eleições, correção dos equívocos que temos colocado no poder, e, por último, mas mais importante: ocupe-se de si mesmo. E do que mais nos ocuparíamos?

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

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