Role da sociedade desintegrada – (Blog Estadão)

Conto de noticia
16.janeiro.2014 01:10:40

Role da sociedade desintegrada

Para evitar tumultos, shoppings bloqueiam páginas sobre ‘rolezinhos’

“Rolezinho” já mereceria entrar nos dicionários como “recente forma de recreação da nova classe média”. Mas invadir shoppings para zoar? E isso é lá lazer? Pois é curioso que ninguém tenha reparado que, com menos organização e em grupos menores, é o que fazem milhões, há décadas.

A imprensa internacional se adiantou e já os etiquetou como “novos vândalos”. Muito cedo para diagnosticar. Esperemos para ver mais perto do início da Copa, quando começarem as infiltrações e a quebradeira. É provável que a emoção cresça, mas, ainda assim, não será o caso de considerar este um programa bizarro?

Se rolar violência estragará a festa. Exatamente como acabou desvirtuando o sentido das manifestações juninas.  Pena, era uma forma legítima de dizer que a sociedade não é só de quem vive nos centros. Deveria ser ponto pacífico que quem vive nas margens deveria poder usufruir das riquezas que ajuda a produzir. Mas, ao mesmo tempo, chama a atenção o que escolheram para se divertir? Passear em lugares protegidos e desfilar nas calçadas do consumo! Agem por falta de opção ou puro mimetismo da sociedade consumista que criticam, invejam, e aspiram?

O hábito de frequentar shoppings e encastelar-se em lojas surgiu como uma alternativa para a falta de lazer. Algum que não estivesse exposto à violência. Violência que o Estado não mais controla.

Agora pensem na completa ironia desta situação. Há menos de duas décadas os jovens elegeram os shoppings centers para entretenimento. Era para escapar da violência que estaria assim confinada em lugares distantes, na periferia. Mas, com o desejo da periferia de fazer visitas coletivas, exatamente nos bunkers escolhidos pela velha classe media para se esconder, precipitaram-se alguns fenômenos:

Quem frequentava o lugar, outrora aparentemente seguro, agora está amedrontado porque perdeu um dos poucos referenciais de proteção que tinha.  Por sua vez a outra classe media, a nova, que passou a organizar “rolezinhos”,  assume que sempre foi esse foi o sonho. Identifica enfim o que se chama a “boa vida”.

Ora, não deveria ser nem uma coisa nem outra. Se o problema é tão velho quanto o mundo, isso não significa que haja qualquer sentido neste apartamento de convívio. A falta de integração não atenua, aumenta a espiral de preconceito e violência.  

O estranho não é só o suposto preconceito de classe já que as duas classes medias se aproximam cada vez mais em todos os quesitos, de roupa à aparência. Tampouco é razoável justificar a divisão que criamos em função das assimetrias sociais. O esquisito mesmo é porque estamos tão conformados e aceitando com naturalidade que cidadãos devam permanecer condenados a viver em suas respectivas trincheiras.

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Sharon: conquistador sem paz (Blog Estadão)

Conto de noticia

Antes de enterro, Israel homenageia Ariel Sharon em funeral de Estado

 Salvo raras exceções, a vida e a morte de Ariel Sharon foi estampada na mídia mundial sob a velha discussão simplória e maniqueísta. O julgamento póstumo de uma liderança polêmica sempre tenta matematizar a índole do sujeito para apresentar a fatura estanque junto ao veredito. Seria ele gênio militar ou vilão? Estadista patriota ou traidor de colonos, quando devolveu a faixa de Gaza aos palestinos? Muito provavelmente Sharon era uma mistura destes vários elementos contraditórios que caracterizariam sua vida e história pessoal. Exímio estrategista e de lendária bravura, era sobretudo um pragmático. Provocador, enfrentou fúrias de fanáticos, atravessou o inferno astral por seu envolvimento passivo nos massacres de Sabra e Chatila, além dos desafios externos (como as  ameaças de processos em Cortes Internacionais que pairavam sobre ele) com a mesma determinação com que se defendeu no plano interno quando formalmente acusado de omissão pela Suprema Corte de Israel.

Mas então cabe perguntar por que a tendência para apresenta-lo exclusivamente sob a legenda de carrasco? A vilania nunca é elementar, neste caso e em nenhum outro. Na verdade, condenar alguém à execração pública é uma forma de despistar o foco analítico e perder de vista o que está por trás do vício de informação.

O que explica o respeito que Ariel adquiriu dentro e fora de seu País, é que, diferentemente de maioria esmagadora das nações contemporâneas Israel ainda precisa  continuar a luta por seu direito de existir, e e é imperioso que isso seja incluído na balança dos julgamentos políticos.

Com ou sem ele, o barril de pólvora continua perigosamente ativo. Com Hamas, Hezbollah, salafistas, jihadistas, além dos braços varejistas do Irã na região, ninguém são pode prever uma bonança prolongada. O princípio terrorista destas organizações – tratados com condescendência especialmente pela mídia européia  — não é especulativo: em suas constituições vigora a cláusula pétrea que vota pelo fim do estado judaico.

Não é difícil prever que as ondas de antissemitismo — que mais uma vez se espalham pelo velho continente –  guardem uma relação direta com a demonização sistemática do Estado de Israel.  Uma vez que se tornou impossível continuar sendo racionalizada como preconceito de raça ou etnia a hostilidade contra judeus – como afirmou Jonathan Sacks em recente entrevista à revista Veja  – agora apresenta-se em sua novíssima face:  judeofóbicos tentam se legitimar ao identificar seu ódio à terra de Israel.

São contextos específicos que dificultam qualquer análise externa da situação real do país hebreu.  Sempre prefiro a paz e os humanistas às estratégias militares. Uma negociação radical com os realistas do Fatah pouparia vidas e sofrimento para todas as partes. Mas isso não autoriza ninguém a botar fé na autodestruição. Enaltecer o pacifismo ingênuo, numa região minada, pré radioativa e instável, funcionaria ao modo de imolação voluntária.

Na linha do que Amós Oz recentemente enunciou quando recebeu o prêmio Kafka de literatura, vamos, de uma vez por todas, abandonar a ingenuidade e assumir que o casamento acabou. E já que não deu certo que seja um Estado binacional “não mais um casamento, mas um divórcio justo”.

Impossível precisar se o misterioso coma prolongado do militar teve a ver com os rumos atuais de Israel, mas é certo que Sharon tenha ficado inquieto com um porvir, especialmente a aquisição máxima de um Estadista para um povo e que nunca esteve ao seu alcance: a conquista da paz!

Ele e outros ícones militares pregressos e atuais da terra santa permanecerão cultuados. Não porque foram santos ou líderes imaculados, mas porque as pessoas podem sentir o cenário:  não parece estar disponível uma saída pacifica à vista e a sobrevivência precede outras necessidades. Pelo menos não há vislumbre de trégua com adversários com demandas exóticas como aquelas que exigem que você morra antes de assinar acordos.

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Dos túneis de Higienópolis aos nazistas de Cannes, a banalização do ódio.

Preconceitos, como já nos ensinou a hermenêutica filosófica, não podem ser desprezados. Eles não só existem como vez e outra sua força reprimida vem à tona, eclodindo de forma nua, inaudita, e, às vezes, execrável. A verdade simplesmente escapa das bocas. Por outro lado, a promoção da cultura da paz é um elemento essencial para qualquer civilização e ela – se é que ainda há o que possa — asseguraria os direitos civis.

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Não compreendo a mídia. Aliás, há muito desisti.

Claro, sempre se soube. Havia interesses ocultos em jogo, faz parte do jogo de joão-bobo disfarçado de democracia representativa, mas não é que os jornais de São Paulo quiseram fazer uma campanha “pelo Metro na Rua Sergipe”.

Eu particularmente não sei se apoio ou não a ideia. Depende, depende se o governo do estado e a prefeitura da cidade vão se empenhar na melhora do policiamento no bairro (praticamente abandonado neste quesito), ser mais célere na limpeza das ruas, e, finalmente, fazer os estudos técnicos que realmente beneficiem as pessoas. As pessoas esperam sobriedade do poder público quando for tomar uma decisão importantíssima como o traçado das estações. Não se pode mudar ou retocar trajetos de trens com base na gritaria nem durante uma intuição em entrevistas para colunistas sociais.

Por fim, a cobertura jornalística parece esquecer-se de que muitos dos benefícios…

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Soft Nazis

Acabei de ter uma discussão com soft-nazis. Aquela velha baboseira revisionista de que a história foi escrita pelos vencedores, de que eles foram tão vítimas quanto os assassinados, que chegou a hora de apreciar tudo com neutralidade etc etc etc. Deve ser este tipo de gente que vêm engrossando os downloads dos opúsculos estúpidos de adolf. Se não é o fim do mundo é uma ribanceira bem próxima. É por isso que não se pode esquecer e dizer bem alto e claro por que os agressores não costumam terminar bem: Nunca mais!

Ufanismo da morte e a submissão dos demais (JB)

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Coisas da Política

Hoje às 06h00

Ufanismo da morte e a submissão dos demais

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Revolução — do latim revolutio, o ato de revolver ou mudar um eixo ou um centro. Uma mudança total ou radical nas circunstâncias ou no modo de viver (Webster).

Ao contrário das previsões dos experts em terrorismo internacional, os voluntários da Al Qaeda e milicianos congêneres avulsos crescem pelo mundo. Hoje, o cadastramento de homens-bomba é online e o kit suicida enviado por correio expresso. Pergunta-se se é possível que o manancial de psicopatas dispostos ao sacrifício da vida alheia seja mesmo assim tão inesgotável.

Com armas em punho, escondem-se com máscaras para desalojar e massacrar a população infiel. Infiéis, diga-se de passagem, são todos os desobedientes. Hoje em Falluja, Iraque, amanhã ninguém sabe. Explodem quem não aceita os critérios de retidão e virtude moral. Mas sua moral, o ufanismo da morte, é um verdadeiro ultraje aos princípios do próprio islamismo. Eles acreditam mesmo no que fazem, piamente. Isso talvez seja um pouco mais aterrador que os morteiros que  ostentam. Colocando de outro modo, quantos massacres com armas químicas ainda serão necessários na Síria? Dizem que os milicianos salafistas são um pouco piores que os capangas de Assad. Numa guerra civil, o tribalismo sectário é a fronteira do inferno.

Examinando de perto, é provável que se descubra os sujeitos mais dogmáticos que pisaram na Terra são os protagonistas das guerras santas. Mas ora, não são revolucionários? O perfil comum destes tipos é que, tal qual Lênin, não concebem revolução alguma sem um pelotão de fuzilamento. O que é uma revolução, então? Além da acepção clássica e de ter dado origem a um tipo de arma, conhecida como revólver, uma revolução é, antes de tudo, uma mudança promovida pelos homens. Não necessariamente para melhor.

Fascistas verdes, fascistas vermelhos e terroristas se assemelham na tática de submissão dos demais. Apesar da variedade dos cardápios justificacionistas, conversão é  conversão. Pode ser uma causa política, a adoração de um líder ou princípio religioso. Todo principista adepto da violência — é santa a própria guerra — terá na ponta da língua o álibi para tornar sua agressividade mais justa, sua opressão mais nobre, sua truculência inevitável.

Não basta contemplar. É vital estabelecer um diagnóstico para uma geração dessas. Máxima informação, mínima elaboração. Toda pedagogia deveria ter sido focada em dúvidas. Talvez tenhamos errado a mão na aplicação da psicologia da autoconfiança. O ensino da fé deveria ser sempre acompanhado de um manual de interrogações. Deveríamos decretar que toda teoria geral sobre qualquer coisa está, a priori, errada. Não é teoria, está no plano da observação empírica. Uma sociedade que insufla a convicção e a certeza parece ser bem pior do que aquela que estimula a dúvida e o questionamento.

É melancólico verificar o que as causas, motivações políticas e bandeiras estão sendo capazes de fazer com nosso resíduo de sanidade mental. E se os criminosos revolucionários das falanges que se encontram nas prisões nacionais derem mais um passo em direção à unificação? E se os insurgentes do mundo organizados começarem a se armar para fazer valer suas causas e demandas? O que fará a maioria que prefere não comungar, nem marchar ombro a ombro por causa nenhuma? As pessoas avessas à causa violenta permanecerão acuadas pelos gritões?

O que será que nos amedronta tanto que já não esteja em absoluta evidência para nos desgrudarmos das poltronas e alterar o estado das coisas? Ou os outros precisarão continuar se expressando para que continuemos calados? Percebemos então, de cabeça baixa e rendidos ao ceticismo, que, ao menos no plano  político, não há mais por quem torcer.

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Abundam políticos (Blog Estadão)

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10.janeiro.2014 23:14:08

Abundam políticos

                                             Maranhão barra entrada da Comissão de Direitos Humanos em presídio

Estadista- Pessoa de atuação notável nos negócios públicos e na administração de um País.  Político – Aquele que trata ou se ocupa da política

Reparem que viramos o ano entre festas e barbáries. Nem me refiro aos chutes que estilhaçam ossos. A atenção se volta à anomia instalada no Maranhão. Quem acompanha noticiários não pode deixar de se espantar que um Estado contemporâneo permita que seus cidadãos sejam submetidos à barbárie, à tortura mental, ao pânico coletivo e, enfim, aos assassinatos. Onde foram parar governantes, intelectuais, alguém para se insurgir contra o desmantelamento da ordem institucional? A velha fórmula manjada dos marquetólogos construtores de imagem. Escondidos com seus assessores até que o escândalo saia da primeira página!

Afinal hoje se faz de tudo para não desagradar aliados. É ano de eleição, pois não?

Sim há uma relação entre as degolas nos presídios, desconstrução sistemática das polícias, massacres empreendidos por seitas fundamentalistas, anomia estabelecida e a política de avestruz dos líderes. Há escassez de estadistas, abundam políticos. No novo mal estar da civilização nacional impera uma nova modalidade de violência. Há necessidade de que a população se dobrem às necessidades dos dirigentes. E de alguma forma melancólica nos transformamos em cúmplices da inação, quando seríamos os únicos com potencial para agir. Pois então alguém explique o que significa engolir a seco as explicações irracionais da governadora? É que os cabotinos do poder, que não acreditam em planejamento nem em prevenção,  preferem deixar rolar cabeças à autocrítica.

Se toda revolução implica em opressão, violência e tirania, o único ato revolucionário respeitável em nossos tempos deveria ser resistência pacifica, exigência de renúncia, paralisação do Pais enquanto a selvageria não for interrompida.

As ruas de São Luís estiveram desertas, já os saques na Argentina geraram uma corrida às lojas de armas. Por mecanismos e causas distintas estamos todos nos armando. E que moral tem um Estado para dizer “desarme-se” se não dá um fuleco para garantir segurança aos seus cidadãos? O sentimento de Republica se desfaz toda vez que o Estado se omite, e deforma-se quando se mete onde não deve. Então é claro que o lema “cada um por si” e “salve-se quem puder” vai ficando adquirindo consistência. Uma espécie  civilização regredida, em coação lenta, mas persistente.

Há uma geração de marmanjos, dentro e fora dos presídios, da velha e da nova oligarquia, que está de tal forma contaminada pelo desdém pelas necessidades das pessoas, que só nos resta torcer por uma geração que rompa com a tradição do atraso.

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Constatações contra-intuitivas (blog Estadão)

Constatações contra-intuitivas

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PT de Dilma e PSB de Campos abrem guerra virtual na disputa pelo Planalto

Quer dizer que estamos no meio de uma guerra psicológica? Não pegaria melhor guerrilha cultural? Vê-se de tudo na internet, a principal mídia e a mais extensa rede de notícias do mundo. Dentre as miríades de versões, boatos, ataques anônimos, tudo passa a ser cada vez menos verificável. Já faz tempos que a verdade se descolou da realidade. Depende de onde se lê, da fonte que subsidia a publicação. O que se sugere, com alguma plausibilidade, é que tudo é uma  questão de interpretação.

Na novíssima guerra fria nacional, urbana e rural, o que de fato importa é quem conta as vantagens que o eleitor quer ouvir e quem omite o que as agências classificadoras de riscos prefeririam ignorar. A simplificação soa viável no mundo virtual. Parece que etiquetar os outros com alinhamentos políticos — para a vanguarda fundamentalista, esse atraso que não passa, só existe direita e esquerda — nos alivia da tarefa de pensar. Tarefa, eu disse? Mudemos para encargo. Não somos nem Venezuela nem Argentina, talvez nem mesmo América Latina. No parlamento a céu aberto do espaço cibernético, líderes e populares alucinam livremente na linguagem.

Mas eis que, se ainda somos uma democracia representativa, teoricamente estaríamos submetidos às regras do jogo. Não deveria haver responsabilidade fiscal, alternância de governo, poderes equânimes e justiça isonômica? Exerçamos pois, por alguns minutos, a auto restrição que os cientistas se obrigam para fazer pesquisas: atitude neutra. É que para que uma pesquisa seja autentica temos que respeitar os achados contra intuitivos, vale dizer, lutar contra as expectativas que temos sobre seus resultados.

Conseguiram?

Abram de novo os olhos e vejam. Como tudo ficou? Parece claro, não?

Ao final, nada sobra nada que seja contra-intuitivo. É que na maior parte das vezes a intuição têm recados úteis. Pode demorar, mas a realidade costuma triunfar sobre a ideologia. Não há golpistas da grande mídia, tergiversadores profissionais, nem inimigos dos governos populares. Aliás pode haver, mas sua força está superestimada pela necessidade de insuflar monstros. A inflação de fato voltou. Gastos superam entradas. Endividados estamos. Há quem diga que a solução seja parlamentarismo. O problema tampouco está na demonização de um único partido, destarte alguns sejam efetivamente mais perigosos que outros. Em especial aqueles que se comportam como seitas e que ameaçam o sistema do qual se beneficiam para, ao final, dar cabo dele.

Em artigo publicado neste mesmo “O Estado de São Paulo”, o Prof. Roberto Romano já afirmava: é urgente a descentralização dos impostos. Só assim, e talvez nem mesmo assim, desarmaremos a bomba retrógrada programada para depois do esbanjamento desportivo e eleitoral. É que o volume de concentração tarifária endossa a bagunça dolosa. Faz adensar o poder num Estado inchado, inábil, esbanjador, que prefere sacrificar todos à largar o osso. Duplo estrago: enquanto estrangulam os capilares de nossos paupérrimos municípios, desconstroem a ideia de República federativa. Daí é só um pulo para a tentação totalitária e a banalização dos desvios. A arma não é secreta. É a facilidade com que o arrecadador concentra tudo e, principalmente, da potencia que experimenta ao perceber sua capacidade de gerar dependência e perpetuar o beija mão por esmolas orçamentárias.

Não sei se a solução é resistência pacifica. Quem sabe jejum de impostos? A abstinência e a descentralização, num severo regime alimentar forçado, faria muito bem à arrogância fiscal e à gula por hegemonia.  Não há garantia de cura, mas testemunhar o regime emagrecer às nossas custas poderia nos dar algum alento, e, principalmente, renovar a esperança na vida democrática. 

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Miramar (poesia – Blog Estadão)

No mar que destina

Avatar de Paulo RosenbaumPaulo Rosenbaum

Miramar

 

 

Areia fina, alva e salina 

 

O céu navega pelos peixes,

 

Brinca com sua sina hialina  

 

 

No barco, a imagem    

 

Da onda pristina

 

Que assina nossa passagem

 

No mar que destina

 

Às bordas, o momento

 

Que forramos a praia

 

Com peso sem sustento.   

 

 

 

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Miramar (poesia – Blog Estadão)

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Miramar

 

 

Areia fina, alva e salina 

 

O céu navega pelos peixes,

 

Brinca com sua sina hialina  

 

 

No barco, a imagem    

 

Da onda pristina

 

Que assina nossa passagem

 

No mar que destina

 

Às bordas, o momento

 

Que forramos a praia

 

Com peso sem sustento.   

 

 

 

Para que servem os ciclos, uma retrospectiva focal – Blog Estadão

Países celebram chegada do ano-novo

Para que servem os ciclos? Uma retrospectiva focal. Nas várias civilizações o ano novo é um construção cultural. Observando a nPara que servem os ciclos? Uma retrospectiva focal. Nas várias civilizações o ano novo é um construção cultural. Observando a natureza, tudo tem ritmo e duração. Houve até um filósofo, Pinheiro dos Santos, que propôs a ritmoanálise, uma espécie de análise dos ciclos individuais.

Existe uma infinidade de ciclos: biológicos, meteorológicos, psicológicos e espirituais Neste sentido, o tempo é uma espécie de régua que mensura e avaliza a duração, enquanto a intensidade impõe a cadencia. A natureza dupla do tempo é análoga aquela da luz, onda e partícula. Nosso organismo é um exemplo de que somos devedores de uma certa anarquia que se autocontrola. Funcionamos graças aos sistemas de retroalimentação. Os chamados biofeedbacks determinam a homeostase (estado saudável) ou a falta dela nos sujeitos. No final das contas, os ciclos são uma disritmia “controlada” responsável pela auto-regulação. Isso vale para o bioma, o clima, os organismos e também para a política. Este foi um ano em que um ciclo de governo e de gerenciamento político pode estar chegando ao término. Ainda que o executivo e o legislativo tenham repetido sua habitual e decepcionante inércia histórica.

De que outro modo qualificar o dislate quando o chefe de uma das casas legislativas tenha sido convidado a devolver dinheiro arrepiado da União pelo transporte para implantar cabelos? Ou que a linguagem do executivo, sempre auto-eloquente e triunfalista sirva para ocultar a gravidade da situação da economia? Por outro lado o julgamento do mensalão mostrou um vigor contracorrente de uma das instituições republicanas. A última e única com alguma autonomia frente a um poder que nem renega mais a sanha partisã e totalitária. As manifestações de  junho de 2013 foram, de longe, o acontecimento mais inusitado e impactante das últimas décadas. Fenômeno que mereceria monopolizar qualquer retrospectiva. Com sorte, teremos alguns minutos nas agendas televisivas contra o dobro para campeões do automobilismo.

No caso das juninas, a perplexidade inicial dos analistas revelou-se diretamente proporcional à surpreendente capacidade com que a sociedade é capaz de reagir sob situações transbordantes. Não eram só os R$ 0,20, nem os 51 bi dos estádios, nem a cascata de desmandos do poder central. O verdadeiro caldo têm sido a lamentável gerência a qual os cidadãos estão sendo submetidos. Por sua vez, as redes sociais e o tempo real acabaram com o mito da mansidão bovina inata dos trópicos. Era um fim de ciclo, e como todo término, uma morte simbólica. É que algo precisa desaparecer para que nasça o novo. E alguém duvida dos transbordamentos que nos aguardam? Se tudo tem uma finalidade não seria diferente na teleologia dos ciclos. Uma das funções do ciclo é evitar o colapso. Assim como alguém com muita dor “desliga” seus sistemas biológicos para preservar a vida, o ano de 2013 será apagado para que possamos entrar com fôlego e vida na nova fase. De preferencia, sem traumas para renascer.

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