Ativos tóxicos (Blog Estadão)

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A republica se moveu, em círculos. Questão de tempo até a imobilização. É que havia um ponto. Um ponto bem no meio do caminho. Os habitantes saíram do vale, das planícies e, durante mais de ano, assistimos uma maré de juízos. Todos olharam para regiões elevadas, mas o planalto era temerário.

E foi assim, na tal tarde triste, que todos puderam testemunhar onde vivia o ponto excedente, aquele fora da curva. Fora as organizadas, a maioria não queria excesso ou desforra. Se contentaria com a justa medida, imparcialidade e precisão das provas.  

Não, ninguém se impressionou com os combates argumentais. A curiosidade, legítima, era sobre as motivações de cada um. Por que a técnica precisava ser apartada da política? E se eram doutores tão especializados, para quem os lamentos? E por que doses desiguais para quem tem poder político?

A pequena maioria fez a balança derrapar. Derrubada a união e com a sucia apagada da súmula, reformularam a decisão. A curva, agora estava realinhada conforme o plano. Chegáramos à última estação. Daqui em diante, o regime poderá ser reconstruído segundo critérios muito particulares. Fomos alertados. Mas quem ainda não sabia que fusão de poderes é um ativo tóxico para a democracia?

Daqui para frente pode não haver próxima parada. Não há escolha quando outros decidem por nós. Os pontos que escaparam da curva se reagruparam. Pavimentam a novíssima hermenêutica rumo à rodovia da conveniência.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/ativos-toxicos/

As Bibliotecas do Tietê (BLOG Estadão)

Conto de noticia

 

27.fevereiro.2014 11:54:58

As bibliotecas do Tietê

 

 

 

 

É extremamente importante que as novas gerações saibam mais detalhes do que foi o passado recente do Brasil, antes da redemocratização.  Porque fica patente, a maioria desconhece o que era o Brasil da Inflação de 80% ao mês. Assim como ignoram o que significou os anos de mordaça e censura explícita que vivenciamos durante a repressão nos anos de chumbo.

 

Aparentemente irrelevantes, são as pequenas particularidades que podem resultar numa percepção crítica e menos simplificada da realidade. Se é inegável que hoje vivemos um período de turbulência , condução equivocada da economia, falta de foco das prioridades do governo federal e um pendor para o centralismo partidário, isso não deve, e não pode, automaticamente, transformar o passado numa época dourada.

 

As histórias dos presos políticos famosos mais agressivos foi muito bem contada e divulgada e hoje conta com a substantiva ajuda de subsídios federais. Mas e os menos famosos? Aqueles que lutaram anonimamente contra a ditadura — provavelmente os que realmente fizeram a diferença, gente com a mesma fibra daqueles que hoje querem expressar discordância com os rumos do País — experimentaram angústias e perseguições não menos inquietantes.

 

Cito um caso de experiência pessoal familiar para  ilustrar como um estado policial embrutece e entorpece seus cidadãos. Entre os anos de 1968 e 1972 a repressão estava particularmente interessada nos núcleos intelectuais que se opunham ao regime de exceção. Queriam os líderes, mas também todos que tinham potencial paraoferecer alguma resistência ao regime militar. E um dos parâmetros indiciários do sistema era saber, através de informantes e agentes infiltrados, quem possuía “bibliotecas suspeitas” .

 

No Index Librorum Proibitorum, versão anticomunista, estavam todos os livros de Karl Marx, e tudo que mencionasse as palavras “materialismo”, “dialética” e “direitos humanos”.  Além de outras raridades do glossário subversivo.

 

Pois foi numa madrugada que um advogado parente bem relacionado acordou meu pai com a lacônica mensagem “jogue agora sua biblioteca no Tietê”. Meu pai sonolento repetiu a frase, a ver se havia captado a mensagem. E recebeu sua resposta, desta vez duplamente lacônica: “isso mesmo, biblioteca no Tietê, já”. E emendou “todo mundo está fazendo isso”. Sem nenhum requinte os livros foram arrastados até a Kombi da família e transportados até a beira da Marginal, onde todos foram despejados nas águas do rio paulista. Sem um critério preciso e seleção afoita, foram para o leito fluvial de Graciliano Ramos a Aristóteles.

 

Papel é altamente degradável, mas imaginem quão interessante seria, se, durante alguma obra de dragagem, alguma página mais resistente, com uma gramatura mais densa, tivesse sobrevivido para nos contar qual fim levaram todos os acervos afogados.  Espera-se que nenhuma nova versão de expurgo literário – filosófico- artístico – cultural esteja na pauta dos senhores que tem comichão nas mãos para exercer controle sobre a sociedade. 

Por isso até hoje temos mais é que tremer sempre que ouvirmos a expressão “questão de segurança nacional”. Mesmo com temas diversos e orientações ideológicas distintas, governos autoritários tem a mesmíssima paixão:  fazer submergir as críticas, junto com as liberdades.

História Natural da Falência do sistema binário.

Coisas da Política

Hoje às 06h10

História natural da falência do sistema binário

Paulo Rosenbaum*

Consultando dicionários, a palavra oposição cai na seguinte chave temática: de um lado conveniência e consentimento, de outro,  discrepância e protesto. O levantamento faz parte de uma análise mais panorâmica para avaliar  o terreno baldio onde  pisamos. Faz parte do jogo político que um governo conviva com seu contraponto. Trata-se de um sistema binário, onde um não pode viver sem o outro. Quando o poder não compreende que essa competição é o que dá sentido ao processo democrático, ou está mal intencionado ou perdeu o rumo. Uma e outra coisa podem se sobrepor,  mais frequentemente do que se imagina.

Tudo isso tangencia o óbvio, mas é como se a realidade turva do solo não permitisse a transparência. E se, num mundo de instantâneos, o papel do jornalismo ainda faz algum sentido,  um deles talvez seja elucidar, abrindo mão de tentar explicar.

Nos países onde a oposição aceitou fazer parte de uma coalização tácita — isso é, finge que se encoraja, mas consente no apoio inercial — boicota eleições, ou foi sendo apagada pelo medo de contestar populistas, desastres são certeiros.

Em um contexto assim, a sociedade, sem representatividade real, vai sendo empurrada para a polarização — nosso ponto atual no GPS — e ao sectarismo. E o sectarismo pode ser considerado o recheio das revanches. Ser oposição significa impedir que a prática adesista se instale para sempre e que o monológico não prevaleça.

Guardadas as circunstâncias, não é mais necessário obedecer a um poder que passou a negar as regras pelas quais o alcançou. Mas, qual tipo de desobediência caberia numa arena democrática?

Opor-se é renegar a submissão e reagir à coação. Significa insurgência à continuidade, e aceitação do revezamento, preservando o senso de República. Opor-se é lançar-se contra turbilhões em consenso. É negar linchamentos, mesmo aqueles que politicamente oportunos.

Neste sentido, ser oposição é manter a integridade mesmo diante da evidente adulteração das regras do jogo. Ser o poder constituído deveria significar resistir às demandas do partido. Não só aquelas que não foram escolhidas pelos que votam como as geradas pelas injustiças e abusos. Especialmente quando estas últimas forem uma usurpação justificada pela autoridade adquirida pela votação.

O mais grave dos delitos, acobertados pelo sufrágio, é colocar em execução planos para os quais não se foi eleito. Não vale evocar a bula dos calhamaços rotulados de “programa partidário”, a que na vida prática ninguém dá a mínima, começando pelos próprios partidos.

Oposição serve para fazer a reparação e ampliar a distância que nos separa da unanimidade. Restaurar fé nos contrários é bloquear o culto à personalidade. Uma oposição lúcida acredita que é distinta e distante dos que habitam a outra margem, ainda que nunca eticamente superiores a priori.

Discrepar significa estar apartado da cooptação. É insinuar-se na luta enquanto a maioria se calou ou foi amordaçada. É defender o dever sem escudar-se no argumento duvidosamente legalista dos direitos adquiridos.

Oposição e poder deveriam respeitar quem confiou no voto, assim como desconfiar das aclamações ideológicas. Cabe à oposição o encargo de reunir forças daqueles que não transigem com totalitários. Uma oposição não aceita impunidade e repudia radicalmente toda forma de indução à violência: do discurso aos incêndios.

O sistema binário — poder x oposição — deveria aceitar o desafio que constitui a essência da democracia: garantir segurança e liberdade de expressão como prioridades absolutas. À oposição cabe fazer cisma, separar-se no voto e revidar, na medida da necessidade. Além de impedir o revanchismo e calcular como mostrar ao senso comum cada ponto cego dos óculos viciados no poder.

Por isso tudo, ser oposição ou  governo exige mais responsabilidade, mais atenção e densidade do que escalar palanques a cada ciclo eleitoral.

Fica evidente: neste momento, infelizmente, não contamos com governo ou oposição.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/02/27/historia-natural-da-falencia-do-sistema-binario/

Isso não é um obituário (Blog Estadão)

 

 

Conto de noticia
24.fevereiro.2014 11:57:18

Isso não é um obituário

 

Paulo Ramos Machado

Homenagens frequentemente rendem mais ao homenageador do que ao homenageado, portanto, é preciso assumir:  escrevemos por pura necessidade. Neste caso, para confessar que um médico é sempre coagido a pedir água. No final, a morte sempre aplica a chave de braço que obriga qualquer um aos três tapinhas no solo. É uma rendição sentida. A foice pode querer forçar sua agenda, mas resistimos a ideia de que ela queira impor lições de moral. Porém, involuntariamente, é como se ela estivesse sempre com um letreiro pendurado para dar seu recado. O mais provável é que seja sobre a natureza do inexorável.

Pois desta vez ela chegou a um homem especial. Certo, em alguma medida todos os homens são especiais, especialmente nos obituários. Só que isto não é um obituário e o leitor entenderá porque.

O sujeito me conta que descia com seu professor a avenida São João ouvindo explicações onde se desenvolviam ao mesmo tempo temas musicais,  arquitetônicos, estéticos e sobre o futuro da arte. O professor era Mario de Andrade,  o aluno Paulo Ramos Machado.

Professor Paulo, como se identificava, deu aula para mais de 22 mil professores, formou grupos de estudo e participou do desenvolvimento de muita gente. Dizem que ele faleceu ontem de falência múltipla de órgãos.Só que numa verificação rápida pode-se dizer que, para algumas pessoas, a memória suplanta o desaparecimento do corpo, não por intensidade mas pela qualidade da presença.

Polissêmico e polifônico Paulo, como todo intelectual generoso – item escasso em nossos dias — era um artista que colocou a missão de educar acima dos outros preceitos. Sob esta ética, a família é , muitas vezes, preterida e trocada pelo projeto de adotar seus estudantes como se fossem filhos. Nem era esse o caso já que este docente escolheu se equilibrar no melhor dos dois mundos e criou, junto com sua esposa, uma família altamente prolífica e sensível.

Fará falta não vê-lo caminhando por ai com sua dignidade de gentlemen, a altivez dosada pela bengala entalhada, no ar benévolo de quem viveu e superou quase tudo. Falta mesmo fará não ter à mão seu apreço pela vida. Para compensar, poderemos imaginá-lo em múltiplos lugares ministrando seu bom humor erudito.

Que o bucaneiro geral tenha uma hospedagem especial no Estado da arte.  

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/isso-nao-e-um-obituario/

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Desfaçam-se, cabeças! – Blog Estadão

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Conto de noticia
21.fevereiro.2014 11:30:05

Desfaçam-se, cabeças.

Na véspera de ato contra Copa, polícia e manifestantes reforçam tensão

Governo teme violência em protestos no Mundial e investe R$ 1,9 bilhão

O que mais se vê são opiniões consolidadas, cabeças feitas e gente convicta. A avalanche de palpites e a legião de juízes instantâneos se espalha pelo País empurrando o debate para a duvidosa sombra das certezas. Para que esperar até outubro se todos já sabem em quem vão despejar os votos? O hábito de acreditar em propaganda e na ridícula maquiagem, amplia a abolição do discernimento. No lugar de lançar dúvidas sobre os exemplos dos líderes, de indagar sobre a obsessão pelo consumo, de se inquietar por uma cultura guiada pela competição e orientada para insuflar conflitos, preferimos vereditos ditados pelo twitter.

Sob um discurso salvacionista a violência – na linguagem auto referente, na gesticulação ameaçadora, na assertividade agressiva, nos golpes sujos  — a violência continua sendo semeada desde o planalto e já germina selvagem na planície. Não é bom agouro quando o exército enfrenta a população.  No País e no continente latino americano os comandantes fingem defender a liberdade, enquanto cassam os direitos de expressão. Vozes discordantes passaram a representar traidores golpistas. Toda crítica perseguida para assegurar perpetuidade no poder. O jornalismo independente é apenas a última linha a ser suprimida da pauta.

Num movimento de inspiração absolutista, o establishment político que governa parece torcer contra as instituições. Faz força para emperrar o que já é sôfrego e ineficiente. Podemos nunca ter sido sérios, mas sabotagens dessa magnitude beirariam o incompreensível se não significassem a mais pura malandragem. Reparem, num estalo podemos virar fósseis. Basta uma imagem acusatória, uma calúnia, um dossiê subsidiado para que a tinta seque na cara do adversário.

Camus tinha o faro empírico e podia ser irritantemente preciso: quando não se tem caráter é necessário um método. Ainda que nossas tormentas não sejam as mesmas experimentadas por Hamlet nas tramoias do Reino, sempre soubemos os caminhos que levavam ao desfiladeiro. Chame-se do que quiser, pressentimento, intuição, presságio. A sensação pode ser impalpável, subjetiva e difusa e embora compartilhada nos corações, o consenso continua entalado nas nossas entranhas: há algo de muito podre na República.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/desfacam-se-cabecas-a-duvidosa-sombra-das-certezas/


Book Review by Regina Igel (English version)

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29.janeiro.2014 17:30:55

Resenha do livro “A Verdade Lançada ao Solo” por Regina Igel

                                                          Throw Truth to the Ground

 

 

“Throw Truth to the ground” by Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. 

 

By Regina Igel / University of Maryland, College Park

 

Translated from the Portuguese by Alex Forman and Regina Igel

 

There are certain flavors that must be savored slowly to give the tongue a chance to absorb them and time enough to inform the brain about them. Keeping the necessary distance from this parallel reference, this is the case of A Verdade Lançada ao Soloby Paulo Rosenbaum. It is a book that calls for a slow reading, with regular pauses for contemplation, reflection, and meditation in order to enjoy, along with the teachings of rabbi Zult Talb, what the soul is, whether it transmigrates or not, where God can be found, how we can meet the Creator (while still living). To fully appreciate its philosophic, scientific, personal, and universal mystical meandering, this book has to be read unhurriedly. (It took me a month and a week to finish reading, because I paused at various passages to think about what I’d just assimilated.)

 

One could say that the book is dense, even encyclopedic, since it comprises three stories, an epilogue, and an iconographic section revolving around a single term – devekut. Each of the short stories explores what it is to be “devekut” through speculation, analysis; the characters’ own questioning, and their dynamic dialogs. The first narrative takes the reader to the town of Tisla in the mid-nineteenth century (more precisely in 1856, which corresponds to the year 5,616 in the Jewish calendar). The enlightening story of “devekut” begins in a humble home, adapted also to be a house of prayer for the Jews of that remote and scarcely populated village. Zult, the rabbi and leader of the community, is treated with respect and mistrust. He oversees a religious congregation little familiarized with the esoteric interpretations he dedicates himself to from time to time. The rabbi is not a rebel nor is he calling for a religious rebellion, but he does not accept the written word or the traditional interpretation of the Talmud (ethical codes of behavior compiled from the writings of a series of rabbis from the second century of the Common Era for Jews and Christians) as irrefutable proof.  The heart of the narrative is found on page 24, where Zult is shown to be “an iconoclast” and is immersed in the “devekut.” The author adds a footnote (as he does with almost all Hebrew words transliterated in the text) explaining that “devekut” means “approximation, adherence, attachment. Mystical term defining closeness with God. Modified state of consciousness in which men can experience the energy of God in their own bodies.” In order to prove that such an experience exists, the rabbi might be seen as a submarine slicing through deep waters, intercepted by various currents (the questions, comments, and observations of his listeners). But he remains firm in his itinerary, articulated by his desire to manifest a mystical, ravishing phenomena in himself, in the delirium of joining with the Divine, from which he will enlighten his followers. Understanding the ways of Zult is a challenge not only for his audience, but for his readers too. The iconoclast – actually, a man interested in dialog, instructive discussion, and nearly platonic dialectic (perhaps) – tries to draw out his listeners’ latent ability to argue, discuss, and exchange ideas. His lectures challenged the conservative crust of his community and the rabbinical counsel who defended the idea that, for Jews, Diaspora or Exile was better than to congregate in Israel, as the visionaries of the time foresaw, and which later became reality through Zionist efforts. Zult had a degree in philosophy from a non-Jewish university, and he brought to his teachings the idea that science was beneficial to all and that religious Jews should not rely on faith alone or wait for miracles, since medicine (his frustrated vocation), for example, was of unparalleled importance in the prevention and cure of diseases. One of his many sons, Nay, was an attentive interlocutor and provocateur, often making up for the listeners’ silence, on whose deaf ears Zult’s speeches would fall; the fourteen-year-old asked questions, challenged, and made suggestions. And there were also occasions when Zult, the iconoclast, had neither public nor child to challenge his truths; but even so, he spoke or stood silently, preparing himself to receive the “devekut.” Then he would receive it, generating within himself an energy that was of such a high frequency, and of such an uncommon rhythm, that it led him to believe that he was impregnated by divine energy. Not that he wanted to be equal to God, but he wanted to enjoy something of divinity not usually allowed by the condition of being a human being.

 

As the “devekut” was defined at the beginning of the first story, and gradually explained over the first hundred pages, the title of the book only becomes clear beyond page 100, as if it were necessary to prepare the reader for the essence of a lay text in a context laden with religiosity. A fragment from the Book of Daniel (8:12), “You threw Truth to the ground,” became Zult’s mantra or fixed thinking in his search for an interpretation of biblical verse in all possible semantic, rational, mystical, and supernatural explanation. At last, is truth diluted into dust, or is it the dust that nurtures truth? The book grasps these (among other) interpretations to explain God, good and evil, illness and cure, ecstasy, miracle, indifference, the soul, the spirit, moving from the universal to the particular, when mentioning the necessity of studying the Bible in pairs (as Talmudic scholars do). A single reader is not acceptable since it is necessary to discuss, to present conflicting ideas, to establish a dialog with each other, in order to release the epilogue, the conclusion, from the mass of problems challenging us.

 

Dialog is at the heart of the second narrative, “A Balada de Yan e Sibelius.” The characters are two men lost in the Alps, in the middle of a blizzard. One is a doctor, the other a former patient of his. Dr. Talb is a descendent of Zult Talb, the preeminent protagonist of the previous story. In a dugout in the frozen mountain that barely shelters the two of them, waiting on who knows what – that the weather clears or that they reach some understanding between them – they discuss a doctor’s and a patient’s points of view which not only differ semantically from each other, but also violently clash. Faith and reason become elements of friction and deliberation for the two lost in the whiteness of the snowstorm and the blackness of night. Both keep the flame of knowledge lit and take turns blowing on its ashes, as if they wanted one to be extinguished so that the other could go on existing.

 

The narrator interjects “messages” or parenthetical statements of explanation about Jewish religion and customs throughout the centuries, and other subjects. These notes might be an imitation of the “commentaries,” or “Rashi’s notes,” observations written in the margins of the Talmud. In this narrative, the remarks explain some of the organic reactions to some medicines, the effects of “commercial production,” the manipulation of corporatism, Darwinism, the freezing of internal organs, famine, the risk of death by physical inertia in the frozen panorama – in brief, non-invasive comments that complement the evolution of events in the narrative. In this precarious situation, the Jew drives the “devekut” theme, which becomes a dialectical game between the two alpinists. Then, it is practiced: feelings arise again, frozen body parts move, the mind becomes empty of fear and doubt, the “Presence” shines through the eyes of the practitioners. “. . . impossible to compare to any drug. Not hallucinogens nor narcotics, nothing from the Pharmacopeia” (p. 479). Is it faith, or is it some hallucinatory effect emanating from the deteriorating bodies?

 

The third and last of the narratives, “Sonho Não Interpretado,” concerns the treatment of the chemically dependent in our times. A chess match is placed between the doctor and the patient and more: spiritualist doctrines, a papyrus with the doctor’s predecessors’ lives written on it (among them, the rabbi Zult Talb), trances, incursions to the cemeteries of Polish-Jews after the Holocaust, opinions about the world under American command, terrorism, Al-Qaeda, lost lives, the destruction of the twin towers in New York, exorcism, the Just of each Jewish generation… In a repertoire that crosses Israel, Greece, Egypt, and Brazil, bringing these characters and questions into a contemporary frame, including old Zult Talb, who makes an appearance as a ghost, this suffocating, disturbing, and liberating environment raises questions that demand answers, as if to indicate that in this chaotic world in which we live, only questioning can lead us to knowledge.

 

The Epilogue is an attempt to tie up the main events in the stories, but in truth it is up to the readers to link these seen and imagined circumstances in the author’s script. He also provides photographs of the “scrolls” left by Zult (inserted on shiny paper, with washed-out coloring like of a Daguerreotype, with artistic writing) so that future generations may be able to know that “devekut” is an activity that can and should be tried to find real closeness to God, even though it is paradoxically abstract, like some of the absurdity of human existence.

 

To whom would I recommend this book? To those who know absolutely nothing about Judaism, to those who, like myself, know a little bit, and to those who know a lot. Immersed in knowledge disseminated through the dialogues and meditations of its characters, this book may be unique in Brazilian literature, since it demonstrates implicit and explicit intentions to provoke our intellectual, spiritual, and emotional curiosity. Who reads it will benefit from the wisdom surrounding Jewish religion, myths, rituals, traditions, transgressions, and assertions about the soul, God, human and divine judgment. But above all, the reader will learn something about him or herself. The writing style meanders and is sinuous, bringing to the narrative the option of mental perambulations for a slow and gradual reading. Give your brain and feelings the time they need when “You throw Truth to the ground…”

 

Regina Igel was born and raised in São Paulo, Brazil. After completing her B.A. in Romance Languages at the University of São Paulo she continued her studies in the United States, where she earned a Master of Arts degree in Latin American Literatures and a Ph.D. in Literatures in the Portuguese Language. Igel is the author of Imigrantes Judeus/Escritores Brasileiros (O Componente Judaico na Literatura Brasileira) (Jewish Immigrants/Brazilian Authors [The Jewish Component in Brazilian Literature]) and of many articles on Judaism, feminism and immigrants in contemporary Brazilian literature. She is also a contributing editor to the Handbook of Latin American Studies, a biannual publication of the Library of Congress, in which she is in charge of the section “Brazilian Novels.” Igel is professor of Brazilian and Portuguese Literatures and Cultures and advisor of the Portuguese Program at the University of Maryland, College Park, Maryland.

 

*Um trecho desta resenha será publicada no Handbook of Latin American Studies, uma publicação da Biblioteca do Congresso, Washington, D. C. que está programado para sair em 2015 (Vol. 60)

 http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/throw-truth-to-the-ground-by-paulo-rosenbaum-rio-de-janeiro-editora-record-2010/

 

Para não amanhecer em Caracas

 

Jornal do Brasil

Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Para não amanhecer em Caracas

Paulo Rosenbaum*

Não é difícil ficar aflito testemunhando o que está acontecendo pelas ruas. Afora o número incrível de passionais que querem marchar contra e a favor, o País soluça e há cada vez mais gente querendo que uma democracia jovem resolva tudo. Tudo ou nada. Legiões de diagnosticadores, multidões de juízes imediatistas e um império de convictos. Curiosamente são os mesmos torcedores fanáticos que migram da sede dos partidos para a arquibancadas com as organizadas.

 A questão pode ser menos nosso sistema mental classificatório e muito mais a incapacidade de guardar conosco o que realmente achamos das coisas e das pessoas. O que antes era “pensar cá com meus botões” não serve para mais nada. Não se pode mais ter uma opinião e simplesmente guardá-la. É preciso envia-la na mala digital, caso contrário você não é ninguém.

A vida social passou a ser teste de comunicação, onde as pessoas tem que passar pela provação da múltipla escolha. É como se todos precisassem ser adjetivados. Como se o senso comum tivesse o direito adquirido de dar nome a tudo. Nomear no sentido de encaixar atributos em tribos predeterminadas. Nomear no pior sentido: encontrar pela tipologia qual é o sistema de notação que aquela pessoa adota. Como se todos nós fossemos vulgares códigos de barra identificáveis à distância. Se é assim, para que serve mesmo o diálogo? E ainda tinha gente pensando que talvez pudéssemos ter sido definidos e catalogados como seres indefiníveis quando não passamos de rótulos alugados.

Ninguém precisa saber o que você pensava quando aquela classe social ascendeu. Sim, aquela mesmo que começou a invadir aeroportos, filas de sorveteria de shopping e entradas de cinemas. Aqueles espaços tidos como território privado.  O jogo social requer certa privacidade para nossos racismos, preconceitos e aversões.

Por que reclamamos se fomos educados para isso? Classificar, discriminar, e medir de cima abaixo. Como cada um se veste, com quem anda, que carro usa e onde mora. Fomos todos infiltrados, doutrinados, cooptados pela ideia de que estamos divididos por faixas de holerits. Os invasores que ultrapassarem as linhas imaginarias que traçamos, são ameaçadores. E para que não sejamos sitiados por tamanha estranheza, merecem rechaço, humilhação, frequentemente ambos.

Não se pode perdoar quem não pertence ao clã e isso tem mão dupla. 

Se alguém mais arrumadinho aparece no lugar mais simples é bacana, filhinho de papai. Há chances de que seu julgamento seja televisionado para que todos façam dele juízo definitivo: sacana abastado, argentado, capitalista.

E se você ousar confessasse por aí que não pertence ao PT nem ao PSDB? Que não é socialista nem fascista, nem ateu nem crente, comunista, oportunista, esbanjador, muquirana, preconceituoso ou racista. Se você não tem time é apartidário. E se não toma partido é alienado ou egoísta. A turba vai se incomodar porque isso equivale dizer que a despreza. Não é o que você intencionava. Mas quem se importa? O imperdoável para uma tribo é sentir que há pessoas que não desejam pertencer a ela.

O que se faz numa democracia jovem é quase o oposto de criminalizar a alteridade. É vital impedir que alguém entorne o caldo, que não se derrubem as regras do jogo, que não se burlem as normas, que impeça-se a espoliação do patrimônio público, que não se embole a separação dos poderes, que obstaculizemos os incendiários e os pseudo-estadistas.  Para que uma jovem democracia sobreviva é preciso mais do que urnas eletrônicas, marketing político e manobras fiscais.

É preciso aprender a desejar a presença da oposição, apreciar o contraditório, enaltecer a crítica.   E com um pouco de sorte não amanheceremos em Caracas.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/02/20/para-nao-amanhecer-em-caracas/

Bônus de produtividade (Blog Estadão)

 

Governo estuda punir mascarados em protestos com até dez anos de prisão

Soldadinhos subsidiados estão a postos para a net conferência. Atentos, todos puderam ouvir a preleção da chefia: pessoal, destruam apenas “objetos simbólicos do poder econômico”

No dia marcado todos apareceram na sede. Até que eles estavam quietos quando o holerite vivo começou a circular. Afinal, em tempos de capitalismo selvagem deve haver algum grau de acomodação (eles preferem chamar de adaptação provisória) das idiossincrasias contra o dinheiro.

Bandeja esvaziada, abriu-se espaço para perguntas da plateia. Superado o constrangimento inicial, lá pelas tantas, alguém  levantou a mão e o líder do partido, distribuidor de cachês e guia ideológico o atendeu sem muito entusiasmo

– Pode perguntar.

– Tem extra?

– Extra?

– É tio, hora extra.

– Não, nem carteira assinada!

– Mas e aquele papo de “produtividade”?

– Reavaliamos a proposta. Isso ai não vai ser possível.

– Mas não é justo. Eu visto a camisa. Na última desci o cassete, meti porrada e arregacei o dobro da moçada. Viu o filminho? E agora vocês vêm com essa merreca? Não, não, não  tem condição.

– Filho, usamos doações e verba partidária, por enquanto não vai dar para pagar bônus de produtividade.

– Ô tio, ai complica! Não dá para bolar outra coisa?

– Vamos pensar, vamos pensar…

(Em sua cabeça o slogan já estava formulado:  “índice de destruição patrimonial”. Ele achava que era bom nisso)

– Sua sugestão irá para a plenária.

 –Dá esse força aí! Fala lá que é investimento, avisa que tem que colocar a mão no bolso se eles querem ver o circo pegar fogo.

  
http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/bonus-de-produtividade/

Paulo Rosenbaum
rosenb@netpoint.com.br
rosenbau@usp.br

Senhor de Baraço e democracia – Blog Estadão

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Conto de noticia

 

Democracia líquida

Eles ainda acreditam em Stalin, eu duvido de mim mesmo. Eles têm convicção, nós oscilamos. Vivem dizendo que os outros não prestam, enquanto é óbvio que a maioria tem valor. Segundo eles, quem se opõe é cara de pau desalmado. E o espírito lá sobrevive sem contrapontos? Em suas governanças, desavenças asseguram o poder. Pregam que arredar pé é sinal de fraqueza. Como nada está garantido, é necessário apreciar quando o vacilo está coberto de cautela. Naturalizar os abusos não desconfigura a aberração e nem é porque estão vendidos que somos compráveis. Eles tratam, preferimos cuidar. Eles se ocupam em dividir o que estava em vias de unificação. Melhor compartilhar a ditar os consentimentos. Eles discriminam, nós assumimos as preferências. Manipulam a esquerda, usam a direita. A gente não se anima mais com alinhamentos, nem lado algum. Enquanto criam alardes, apreciamos a reserva. Diante da agitação, recolhimento. Euforia, atenção. Porrada, delicadeza. Improviso, algum planejamento. Destempero, circunspecção. Oportunismo, justiça. Balas de borracha, pneus para boiar. Dossiês secretos, arquivos abertos. Dedo em riste, aperto de mãos. Personalismo, ideias. Destempero, diálogo. Estratégia, convívio. Maniqueísmo, aceitação dos contrastes.

Autocracia, democracia.

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Rojões sobre a democracia

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Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014

Coisas da Política

Hoje às 06h35

Rojões sobre a democracia

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

Ou estamos todos muito enganados, ou há uma espécie de cisão entre os interesses dos governos e o da população. Esta percepção parte de dois princípios operativos muito simples: em primeiro lugar há posturas radicais substituindo as diplomáticas, o que já por si revela uma dissonância entre quem governa e quem é governado. Vale dizer, o papel dialógico de quem faz política fica cada vez mais reduzido.

Ou o político é um agente executivo disfarçado de agente legislativo, ou é suficientemente inepto para gerir a coisa pública. O segundo princípio é a observação de que, mesmo que não seja toda esta a catástrofe anunciada, há evidentes dificuldades econômicas. Tudo bem, todos os países sofrem ciclotimias financeiras no mundo tido como globalizado. O insuportável é a manipulação e a camuflagem, guiadas pelo apetite eleitoral. Os brasileiros querem ser tratados como adultos e saber de todos os detalhes de como anda a economia do país. Isso é importante para poder escolher quem assume os erros. E também saber que não faz mais nada do que a obrigação quando acerta.    

Um dos princípios caros à democracia é que as pessoas, representadas no poder, pudessem elaborar as leis e diretrizes de acordo com as necessidades destas mesmas pessoas.

Há muito isso deixou de acontecer.

Eleitos, substancial quantidade de legisladores e membros do Executivo começam a colocar seus próprios  planos em prática. Ninguém deu cheque  em branco nem direito a voo solo. Muitos destes líderes, em flagrante divórcio com as necessidades e prioridades das pessoas, pensam que sabem melhor o que é bom para as pessoas. Raiz primeva da distorção da representação.

O aumento abusivo de impostos, as medidas impostas goela abaixo, abuso da propaganda, uso aético dos recursos públicos, as decisões que mascaram as informações e medidas tomadas de improviso para poder conquistar mais um pleito são todas elas incompatíveis com a vida democrática. 

Por isso está difícil enxergar o “pleno Estado de Direito” que deveria ter sido uma das conquistas efetivas em uma regime democrático. As decisões arbitrárias aceleram perigosamente a sensação de que chegamos a um lugar sem saída.

Fica clara a tentativa de intimidar e controlar a opinião pública, de jogar o povo contra os tribunais, de fazer coro contra as instituições que ainda funcionam em seu papel essencial de fiscalizar e cobrar dos governos as ações que dele se esperam. A rigor, a única oposição de fato ao regime em curso é o Poder Judiciário. E assim deve continuar a ser, já que o Legislativo não consegue cumprir seu papel regulador e sacrificou sua autossuficiência para votar projetos escandalosamente tutorados pelo Executivo. 

Quem está fazendo jogo perigoso e apelando para táticas disrruptoras pode estar agindo de forma autóctone, mas também pode estar a soldo de gente que tem interesse em desestabilizar a sociedade. E a premissa para desorganizá-la é colocar todos contra todos em um pé de guerra, o que só nos traz mais dor e  sofrimento. 

Nunca um poder moderador e a lucidez de algum estadista inexistente foi tão vital para que as vitrines não sejam quebradas antes que se possa pelo menos vislumbrar um pouco da cor do futuro. É neste contexto que obtemos o caldo no qual a violência e a intolerância  crescem. O cinegrafista morto é um símbolo, não só de um ataque covarde e criminoso mas a vítima desconhecida e indefesa de um sistema que se exaure da forma mais melancólica possível: o desmantelamento da estrutura duramente construída depois que o povo recuperou o direito de votar.

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