Tabu, ou, o politicamente correto (Blog Estadão)

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irrelevante

O politicamente correto pode conservar o nome, mas talvez não seja político, nem correto. Pouquíssimo dialógico, produz mais dissonâncias que aproximações. De obras de Monteiro Lobato banidas ou censuradas nas escolas por supostos trechos racistas até a cartilha subsidiada pelo MEC com erros crassos propositais para não criar “constrangimento” em quem têm dificuldades no uso da língua, o politicamente correto se transformou numa bandeira com um simbolismo inquietante.

Chegamos a um mais do que improvável paradoxo: o senso comum não tem muito mais para oferecer, enquanto uma enorme quantidade de percepções e pensamentos precisam ser coibidos em nome de uma espécie de consenso que é apenas uma suposição apriorística, um tabu.

Foi a recente frase do Nobel de medicina sobre as peculiaridades de trabalhar com mulheres em laboratórios que gerou outro quinhão histérico de litigantes. Mas, o curioso, é que não se trata de extrema suscetibilidade, mas, antes, de um ilícito subjetivo cometido contra um glossário fixo e predeterminado. A intolerância de gênero, se é que aquele Dr. realmente externou algo assim, não é só dele. As redes fervilharam com ataques, às vezes contra uma opinião insossa e irrelevante. Quando há algum mérito no que foi pronunciado o que valeria a pena discutir é a opinião, não se ela está ou não na lista de frases que podemos aceitar no concílio imaginário que demarca a fronteira entre correto e incorreto. Neste sentido, é a hipocrisia pactuada e um maniqueísmo primitivo, disfarçado de debate democrático, quem comanda o cenário. O mesmo se deu até pouquíssimo tempo quando se discutia se algum governante poderia sofrer impeachment, deveria renunciar ou se novas eleições mereceriam ser convocadas. Por sinal, o que importa se o ex-apresentador conhece ou desconhece o cantor morto?

A onda é ampla e infame, sobretudo preconceituosa. Exemplo recente está naqueles que recentemente aderiram à campanha de ex roqueiro do Pink Floyd, que, pretendendo isolar Israel, fez uso seletivo e arbitrário do conceito de discriminação étnica. É só mais uma amostra de pactos baseados em insuficiências e inconsistências. A velocidade das transmissões e retransmissões na web, confronta a reflexão. Acusações de superfície, vazamentos e insinuações caluniosas operam o mesmo estrago que fatos ou evidencias significativas. E assim, a sociedade vai caminhando com construção de estereótipos nocivos, contando com ampla e impressionante aceitação, impulsionada através das replicações acríticas nas redes sociais e na mídia. Ao largo da aceitação das diferenças, a onda de tabu endossa o racismo com destaque para o especialista: o partisã de boatos. Subordinar ideias à difamação ou reduzir alguém a nada em algumas horas, por uma frase, uma entrevista ou um pulso no Twitter, mostram a velocidade e denotam a pobreza cultural contemporânea.

São exatamente os mesmos que julgam terem construído consensos aqueles que mais se mostram violentos quando alguém trata de explicitar quão diferentes somos. Eis o supremo paradoxo: na linguagem politicamente correta as diferenças estão proibidas, e é a sua explicitação que dispara sinais eletrônicos que acionam o bullying tolerado. A luta de classes migrou, por caminhos inusitados, para um estranhamento mútuo das peculiaridades, de pessoas, grupos, nichos e raças. E a desinibição propagada através de perfis falsos, anonimato ou a certeza de impunidade, produzem legiões de franco atiradores digitais. Recrutar terroristas, convocar gente para qualquer tipo de ação nas ruas ou simplesmente entrar atacar e sair, tornou-se uma vulgarização pop. Às vezes, bem remunerada. Até a Grécia, em sua luta anti austeridade entrou na frequência. Uma coalizão de articulistas pelo mundo tentou mostrar como a luta grega é justa (politicamente correto) contra terríveis agentes capitalistas selvagens (politicamente incorretos), quando qualquer aluno mediano do segundo semestre da graduação de um curso de economia poderia nos contar algo mais interessante. Nas políticas de Estado não existem mocinhos, tampouco algozes. Neste sentido, o que o politicamente correto faz é sequestrar a discussão por um punhado de convicções anacrônicas e sustentadas pela manipulação eleitoral.

O ambicioso conceito de cidadania, amplamente evocado mas efetivamente inexistente no mundo prático, exige cimento mais consistente do que campanhas motivacionais, academias ideologicamente comprometidas ou governos com aspirações totalitárias. Exige, bem ao contrario do politicamente correto, um exame escrupuloso dos conteúdos da linguagem e suas mensagens: superar a imobilidade dos tabus.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/tabu-ou-o-politicamente-correto/

87% (blog Estadão)

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conto de notícia, Pt e Psdb, redução da maioridade penal

Não recomendo. Foi torturante, mas tive que ver. A votação de ontem terminou de madrugada. Hoje a tortura mental, impassível, prossegue na TV Câmara. O problema central ainda é a manipulação montada na linguagem. Trata-se de um técnica que se expandiu pela nação. Independentemente da análise do resultado, pois anteontem o ministro não interferiu na votação da redução da maioridade, insinuando que a votação abarrotaria presídios já abarrotados?. O representante do psol não vaticinou lá pelas 23:17 que se o “estado não protege, não pode punir”? E o outro não complementou com “sou solidário com as vítimas, tanto quanto às vitimas que cometeram estes crimes”? E, enfim, mais alguma voz da base: “lembrem-se, nem sempre o povo sabe escolher o que é justo”, involuntária alusão à famosa frase de Pelé durante a ditadura de que o “povo não está preparado para votar”. O que se nota é que a discussão que se arrasta desde 1993 não é só anacrônica e inoportuna, ela é, no fundo, recheada pela disputa entre dois partidos.

Sob o calor do clamor dos 87% a favor da redução da maioridade e sob a sombra dos míseros 9% de aprovação da presidente, a discussão — que acusava o tempo todo o senso comum como mau conselheiro em matérias legislativas — não passou exatamente de exposição de sensos comuns e chavões revestidos de estatísticas contraditórias. Chamava a atenção a pobreza absoluta do debate argumental, que se limitava a “se aqui estivéssemos”, “se a educação prevalecesse”, se “o governo fosse outro”. A inoperância nostálgica induziu uma paralisia crônica. Aparando os figurinos, a dicotomia entre PT e PSDB parece ter determinado ao parlamento a aniquilação de requisitos básicos para formular leis, tais como racionalidade e estudo.

Ainda assim, o partido do poder têm sido o grande responsável pela obstrução de tudo que se refere à modernização dos costumes. Durante décadas obstruiu a atualização do ECA, suprimiu o orçamento da segurança pública, relegou a educação à undécima prioridade. O partido, que sempre se perdeu no timing, paga pela inércia, e, sobretudo, pelo oportunismo. Quanto às “manobras” prova apenas uma fração do veneno que semeou. Agora, em pleno incêndio, resolveu dialogar e se mostra artificialmente indignado sob o lema cabotino “por que tanto ódio?”. Ódio é uma coisa, desejo furioso por justiça é outra.

Percebe-se que o parlamento não está de fato interessado nos temas que afligem os jovens, nem em esmiuçar as raízes da guerra civil ou examinar formas de controle da violência. A impressão que dá é que os dogmas, sob desfile de cláusulas pétreas, tenham que ser repetidos à exaustão para que eles mesmos se convençam de que sabem sobre o que estão falando. No final, consegui formular um voto heterodoxo: a favor do aumento da maioridade mental, mas só para cinismos hediondos.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/87/

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Não recomendo. Foi torturante, mas tive que ver. A votação de ontem terminou de madrugada. Hoje a tortura mental, impassível, prossegue na TV Câmara. O problema central ainda é a manipulação montada na linguagem. Trata-se de um técnica que se expandiu pela nação. Independentemente da análise do resultado, pois anteontem o ministro não interferiu na votação da redução da maioridade, insinuando que a votação abarrotaria presídios já abarrotados?. O representante do psol não vaticinou lá pelas 23:17 que se o “estado não protege, não pode punir”? E o outro não complementou com “sou solidário com as vítimas, tanto quanto às vitimas que cometeram estes crimes”? E, enfim, mais alguma voz da base: “lembrem-se, nem sempre o povo sabe escolher o que é justo”, involuntária alusão à famosa frase de Pelé durante a ditadura de que o “povo não está preparado para votar”. O que se nota é que a discussão…

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87% (blog Estadão)

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Não recomendo. Foi torturante, mas tive que ver. A votação de ontem terminou de madrugada. Hoje a tortura mental, impassível, prossegue na TV Câmara. O problema central ainda é a manipulação montada na linguagem. Trata-se de um técnica que se expandiu pela nação. Independentemente da análise do resultado, pois anteontem o ministro não interferiu na votação da redução da maioridade, insinuando que a votação abarrotaria presídios já abarrotados?. O representante do psol não vaticinou lá pelas 23:17 que se o “estado não protege, não pode punir”? E o outro não complementou com “sou solidário com as vítimas, tanto quanto às vitimas que cometeram estes crimes”? E, enfim, mais alguma voz da base: “lembrem-se, nem sempre o povo sabe escolher o que é justo”, involuntária alusão à famosa frase de Pelé durante a ditadura de que o “povo não está preparado para votar”. O que se nota é que a discussão que se arrasta desde 1993 não é só anacrônica e inoportuna, ela é, no fundo, recheada pela disputa entre dois partidos.

Sob o calor do clamor dos 87% a favor da redução da maioridade e sob a sombra dos míseros 9% de aprovação da presidente, a discussão — que acusava o tempo todo o senso comum como mau conselheiro em matérias legislativas — não passou exatamente de exposição de sensos comuns e chavões revestidos de estatísticas contraditórias. Chamava a atenção a pobreza absoluta do debate argumental, que se limitava a “se aqui estivéssemos”, “se a educação prevalecesse”, se “o governo fosse outro”. A inoperância nostálgica induziu uma paralisia crônica. Aparando os figurinos, a dicotomia entre PT e PSDB parece ter determinado ao parlamento a aniquilação de requisitos básicos para formular leis, tais como racionalidade e estudo.

Ainda assim, o partido do poder têm sido o grande responsável pela obstrução de tudo que se refere à modernização dos costumes. Durante décadas obstruiu a atualização do ECA, suprimiu o orçamento da segurança pública, relegou a educação à undécima prioridade. O partido, que sempre se perdeu no timing, paga pela inércia, e, sobretudo, pelo oportunismo. Quanto às “manobras” prova apenas uma fração do veneno que semeou. Agora, em pleno incêndio, resolveu dialogar e se mostra artificialmente indignado sob o lema cabotino “por que tanto ódio?”. Ódio é uma coisa, desejo furioso por justiça é outra.

Percebe-se que o parlamento não está de fato interessado nos temas que afligem os jovens, nem em esmiuçar as raízes da guerra civil ou examinar formas de controle da violência. A impressão que dá é que os dogmas, sob desfile de cláusulas pétreas, tenham que ser repetidos à exaustão para que eles mesmos se convençam de que sabem sobre o que estão falando. No final, consegui formular um voto heterodoxo: a favor do aumento da maioridade mental, mas só para cinismos hediondos.

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Por uma vírgula (blog Estadão)

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virgula

Aby Warburg escreveu que Deus está nos detalhes. De fato, exemplos históricos demonstram como uma simples vírgula pode mudar o mundo.

A presidente acabou de dizer, em referencia às críticas tecidas na sede do Instituto :

“Todo mundo pode criticar, ainda mais Lula” .

Na teoria conspiratória da decomposição de textos podemos ficar com uma interessante coleção de interpretações em meio à implosão sintática:

Todo mundo pode criticar ainda mais Lula.

Neste caso, extirpada a vírgula, a presidente estaria devolvendo a deselegância sofrida e liberando partidários e a militância arrependida para criticar seu mentor.

Ainda mais Lula!

Aqui, para além da vírgula. Estaríamos diante da invocação subliminar de que se tudo der certo e a esquiva continuar boa, podemos aguardar, para 2018, por mais um ciclo fresco de promessas longas, procrastinação, falta de rumo e muita, mas muita conversa fiada.

Todo mundo pode criticar.

Neste caso, seria uma espécie de refluxo da tentação autoritária do velho projeto de “controle da mídia” e, de quebra uma cutucada em seu mentor, lembrando, com ternura, o episódio de quase expulsão daquele jornalista, um norte americano, (só podia ser)  que ousou falar poucas e boas do ex presidente.

Mas no hall do museu das frases épicas da sala batizada como “Nunca antes” não se pode deixar de analisar a frase do ex presidente que ecoou naquele mesmo dia. A frase é, como de praxe, notoriamente banal. Mereceu entretanto uma placa que agora figura no panteão de entrada da impressionante sede. O motivo de tal reverencia é o mesmo que mitificou tantas personalidades: disfarçada de simplória, simulacro de desabafo, a máxima foi tomada como surto de clarividência política:

 “Nós temos de definir se queremos salvar nossa pele e nossos cargos ou se queremos salvar nosso projeto”

     Pela manhã, a placa deste sincero monumento de reavaliação de princípios amanheceu pichada:

 Cargos e projetos, amigo, já deu, a pele é nossa

Nota do Editor- Por razões gráficas, a posição das vírgulas desta pichação pode ser livremente modificada.

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Suspeitas acima de qualquer cidadão (Blog Estadão)

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Suspeitas acima de qualquer cidadão

Paulo Rosenbaum

20 junho 2015 | 21:05

contagioXjpg

Enquanto à terra desce, o País reflui. Plantou-se inconsequência e ganância, colhemos enrijecimento e litigância. Quando não há saída à vista, o retorno está na imaginação. Começou como uma visita da comitiva de ideologia reversa. Imaginem uma nação de cidadãos condenados à desconfiança prévia. Imaginem exércitos alternativos convocados à cada ameaça. Imaginem dilemas e pirraças. Da morosidade do álibi ao juízo oscilante. Imaginem literatura e jornalismo, enredados e cooptados. Imaginem a democracia como arranjo transitório. Imaginem probidade como elemento rarefeito. Imaginem presos políticos com pesos simbólicos distintos. Imaginem partidos e massas uniformes. Areia do mesmo deserto. Imaginem a violência sem fronteiras, chumbo e aço. Imaginem, enfim, o colapso.
Agora, imaginem outra República:
Imaginem o mundo na mesma embarcação. Imaginem se qualquer um de nós fosse idêntico. Igualdades como oportunidades. Imaginem se as discórdias não fossem perigosas. Imaginem contágio…

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Suspeitas acima de qualquer cidadão (Blog Estadão)

Suspeitas acima de qualquer cidadão

Paulo Rosenbaum

20 junho 2015 | 21:05

contagioXjpg

Enquanto à terra desce, o País reflui. Plantou-se inconsequência e ganância, colhemos enrijecimento e litigância. Quando não há saída à vista, o retorno está na imaginação. Começou como uma visita da comitiva de ideologia reversa. Imaginem uma nação de cidadãos condenados à desconfiança prévia. Imaginem exércitos alternativos convocados à cada ameaça. Imaginem dilemas e pirraças. Da morosidade do álibi ao juízo oscilante. Imaginem literatura e jornalismo, enredados e cooptados. Imaginem a democracia como arranjo transitório. Imaginem probidade como elemento rarefeito. Imaginem presos políticos com pesos simbólicos distintos. Imaginem partidos e massas uniformes. Areia do mesmo deserto. Imaginem a violência sem fronteiras, chumbo e aço. Imaginem, enfim, o colapso.
Agora, imaginem outra República:
Imaginem o mundo na mesma embarcação. Imaginem se qualquer um de nós fosse idêntico. Igualdades como oportunidades. Imaginem se as discórdias não fossem perigosas. Imaginem contágio de liberdades. Centros e periferias em bordas trançadas. Imaginem austeridade como qualidade. Imaginem um conforto viral. Imaginem se acordássemos para o verso. Imaginem uma transcendência laica, mística compartilhada, e prosas calcadas. Imaginem o Universo ao alcance da mão. Imaginem, de relance, a imortalidade crível. Sonhos, migrando ao factível. O sorriso ao incrível. O pálido ao corado. O duro ao movediço. O puro ao mestiço. O sonoro ao legível. O singular ao coletivo. A imaginação, máximo motor produtivo. Imaginem um campeonato de tolerâncias. Um novíssimo humanismo como essência. Imaginem decência.
Tags: conto de notícia, Intolerância, morosidade álibi, novíssimo humanismo, suspeitas acima de qualquer cidadão
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O Curador (blog Estadão)

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O Curador

Paulo Rosenbaum

11 junho 2015 | 12:07

retrogradoUU

–Sente-se!

–Obrigado, falamos de pé mesmo. Um aspecto chamou muito nossa atenção em seu parecer. Na justificativa para  a decisão, o que significa ter aparecido numa só linha: “retrógrado”?

–O oposto da evolução, retrocesso, regressão, marcha à ré? Ficou claro?

–Conciso ele é. Queremos saber como elaborou veredito tão embasado.

–Vocês estão conscientes que é irrevogável, não? Cá entre nós: o que ele fala me incomoda. não incomoda vocês?

– Queremos ouvir exemplos.

–Nossa opinião política, por exemplo, é oposta a dele. Este autor escreve naquele outro jornal, e ele seleciona os assuntos sobre os quais escreve.

– E a Senhora não? Com quais obras dele está familiarizada?

– Queridos. Adotamos outro critério. Ler, ler, isso é coisa do passado. Não é mais necessário. A palavra chave hoje é “quem”. Só precisamos ver onde você escreve, os temas e quem compartilha, e dali já sacamos todo perfil.

–Teu parecer foi dado sem análise?

– Haja! Acabei de explicitar a nova metodologia!

– Estamos nos referindo à análise de conteúdo. Lembra do último concurso de literatura?

–Combinamos não tocar nesse assunto.

– Estamos escolhendo ou vetando sem examinar o conteúdo?

– Chame de faro literário, intuição clínica. Bato o olho, e, de cara, já vejo se é alguém que faz sentido ou vai me atrapalhar a feira.

– Atrapalhar? Mas não era uma mesa com debate? Pluralidade de ideias? Abertura ao contraditório?

– Amor, isso aqui não é o Supremo. Quero nomes consagrados, que garanta público, precisamos de mídia e consistência.

–Consistência e unanimidade?

–É gente que está do lado certo da história, pessoas do partido, pessoal que converge

– Convergir lembrou aqueles coros que recitavam monólogos

– Além disso, ouvi falar que ele é conservador.

–Só porque gosta de pickles?

(Risos)

–Hilário. Vão querer encrenca? Também sei engrossar. É ele ou eu. Faço curadoria dinâmica, aquela que bem entendo, estamos conversados?

–Perfeitamente. Critérios claros, princípios equânimes e plena exposição dos conflitos de interesse.

– Vocês podem se retirar, e tenham todos um bom dia. O último apague a luz, por gentileza,

A Comissão sai e chega a enxaqueca violenta. De dentro do silêncio pulsátil e obscuro exclama: “vou aparelhar mesmo, bando de moralistas, udenistas de ocasião”. “Deixa estar. Aproveito o Congresso de hoje a tarde para denunciar essa perseguição”.

Não reprisem Barbáries (Blog Estadão)

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Não reprisem barbáries

Paulo Rosenbaum

05 junho 2015 | 13:20

barbariesantamariaXX

Merece ser lida com indignação a orientação contida no Memorando/Circular de número 02/2015, datado de 15 de maio de 2015 redigida pelo Reitor substituto da Universidade Federal de Santa Maria (RS) José Fernando Schlosser.  Junto com o documento que o antecede e assinado por três mãos, ele pede para ser informado da presença de discentes e/ou docentes israelenses no programa de pós graduação. Diz estar atendendo várias entidades representadas pelo “Comitê Santamarienense de Solidariedade ao Povo Palestino”.

Schlosser se perfila lado a lado aos mais rematados antissemitas da história, singularizando pessoas por sua origem. O ancestral ódio judeofóbico se instaura oficialmente em nossas faculdades pelas mãos deste indivíduo que, assim, em nome de minorias, supostamente, prejudicadas, advoga a xenofobia e toma a nuvem por Juno. Um real representante do universo acadêmico deveria defender as liberdades individuais e proteger seus pupilos em todas as circunstâncias, jamais promover segregação.

É evidente que seria preferível evitar concentrar a polêmica sobre um só nome. Porém foi pelas mãos do magnificentíssimo substituto que o manifesto federal mais recente na história de nossas instituições de ensino, abertamente judeofóbico, veio a público.

Claro que, mais uma vez, utiliza-se do desgastado álibi universal que pensa poder contornar o antissemitismo com a troca mágica de uma palavra por outra. O uso de “israelense” no lugar de “judeu” tem se tornado a marca de uma prática falsificadora na linguagem contemporânea. Se largamente usada, ainda é pouquíssimo denunciada, e menos ainda, acatada como o que realmente é: uma manobra semântica de disfarce para o preconceito judeofóbico.

Na verdade, por outros motivos e em contingencias históricas distintas, lembra uma das primeiras leis promulgadas em abril de 1933, que restringia o número e a atividade dos judeus em escolas e universidades alemãs. Como se sabe, a isso se seguiu a cassação, destituição e perseguição dos professores e alunos nas Universidades daquele País.

Um panfleto desta natureza seria compreensível como desculpa para iletrados e incultos, porém não deveria valer para quem chegou a conquistar qualquer título acadêmico como diz possuir o autor do referido libelo.

Parece ridículo, mas é necessário explicitar que solidariedade nenhuma, seja ao povo palestino, sírio, iraquiano ou ucraniano, justifica hostilizar, constranger, boicotar ou segregar povo de qualquer País, religião ou etnia. Oxalá que o reitor substituto estivesse isolado no protagonismo para reeditar perseguições que pensávamos superadas. Assim como os nazistas precisavam queimar livros para destruir o passado, a reflexão e o pensamento crítico, intelectuais e uma considerável quantidade de pessoas imagina que frente ao injusto, o ato de silenciar pode aceitar a classificação de neutralidade. O silencio tem uma carreira conhecida: se transforma em conivência, e, em rápida metamorfose, migrar para apoio tácito, é mera formalidade.

Para nossa perplexidade, há mais gente, supostamente esclarecida, que endossa essa discriminação. O que recentemente se ouviu de professores universitários é digno de perfilar entre as causas indefensáveis. O apoio à discriminação étnica macula muito mais do que a honra individual destes docentes, desabona a honestidade intelectual, último patrimônio do pensar. Ao acusar Israel de praticar um regime de apartheid e espalhar notícias deste tipo em redes sociais e em aulas magistrais estas caluniam um País e difamam um povo. Se demonizar um povo não é mais crime, o que seria?

É preciso reconhecer que essa versatilidade com as palavras obedeceu longo processo de amadurecimento. Entre nós, floresceu sob décadas de pregação de intolerância do lulopetismo, insuflada nos fóruns sociais da esquerda retrógrada — a direita truculenta, já suficientemente conhecida, não merece menção — que oportunamente eclipsa valores humanos fundamentais para defender causas. Em geral, uma ideologia, palavra de ordem ou fé sectária, que não podem ser contrariadas, não importa a aberração política que  impliquem.

Cria-se um ambiente no qual xenófobos, racistas e antissemitas ficam autorizados a escapar do armário e pregar suas diatribes. Para quem acha que tudo isso não passa de fantasia, basta lembrar do clima na franca e empolgante campanha de demonização de Israel na última guerra contra a milícia extremista Hamas.

Num mundo com superavit de paradoxos, alguém deveria ficar chocado com mais esta demonstração de decadência de nossas Universidades? Se não fossem por todos os outros motivos, pela infâmia. Para o que exatamente o Zoilo deseja ser informado de cidadãos israelenses do corpo discente e docente nas dependências da Universidade? A finalidade é clara ainda que inconfessável: expandir a propaganda de constrangimento. As guerras migram às propagandas, não é novidade. O fato novo aqui é a produção de um documento oficial que autoincrimina o professor pelo delito de racismo.

Se proibíssemos um habitante do País Z de vir e se quiséssemos impor sanções contra este sujeito em tempos de paz, teríamos que explicitar os motivos e fulanizar a escolha:  “Aquele sujeito prega intolerância”. “Este outro, defende a litigância entre povos”. “Este é um terrorista perigoso”.  Neste caso, vários de nossos políticos teriam que ser barrados ou banidos do ambiente acadêmico. Mas não se trata disso. Em seu ofício, o reitor e seus apoiadores suspeitam de qualquer habitante de Israel. Isto significa que todos eles merecem ser boicotados por serem israelenses ou judeus, o que, no fim e ao cabo, dá no mesmo e pouco importa. E o que dizer dos árabe-israelenses, drusos israelenses, cristãos israelenses, agnósticos e outras minorias fora do catálogo?

Considerando tudo, o inaceitável mesmo é o silencio da maioria. O silencio dos culpados significa a conivência maciça com uma segregação anunciada. Significa que estamos em terreno aberto e respaldado para a prática de arbitrariedades e generalizações inaceitáveis. Por que não realçar a paz e instigar o diálogo no lugar de bani-lo? Que tal um realce na inclusão? Que tal discutir o discutível e capinar a intolerância? Para aqueles que acham exagero o barulho que se faz em torno deste memorando, recomenda-se examinar melhor a história. Especialmente ênfase no estudo de períodos nos quais aparecem os primeiros indícios de legislação intolerante e discriminatória. Antes que nos submetamos à sua repetição é preciso começar a enxergar para além de uma historiografia superficial e baseada em boataria.

É nossa chance de prevenir a barbárie. Ou reprisa-la.

Escrito em coautoria com Floriano Pesaro

Removam Cadeados (blog Estadão)

Removam cadeados

03 junho 2015 | 10:43

cadeadosdoamorXXXXX

O casal andava melancólico. Combinaram o dia: 12 de junho. Únicos a aplaudir a iniciativa, entoavam: removam todos! Convencidos de que alguém precisava romper com o anzol inflexível, postaram-se na passarela e estenderam a faixa: “Cadeado é cativeiro”. Não esperaram a prefeitura, protocolaram promessas, nem formalizam nada. Precisavam libertar todos do cárcere privado que a sociedade inventou. Não era uma questão de compromisso ou fidelidade, submissão ou sedição. O que estava em jogo era a honra dos amantes. Concordavam no essencial: para que tantas exigências e pactos neuróticos? No meio da ponte, debruçaram-se e trocaram o penúltimo olhar. Ela lembrou do primeiro dia, ele, do amor à primeira vista. Foi quando subiram no parapeito e decidiram. Hesitaram, até que, na sincronia não planejada, mergulharam no rio relapso. No julgamento do mundo, um ato insignificante, quem se importa com suicídio, escândalo ou litígio? Premidos pela beleza do entorno, flutuaram para além das ilusões, Sem certezas, embebidos de intuições, se já houve algum sentido para o amor, que seja emancipador. http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/removam-cadeados/ Tags: 12 junho, amor emancipa, cadeados, conto de notícia, diálogo amoroso, emancipação, removam cadeados

A Imensa Curiosidade (Blog Estadão)

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A imensa curiosidade

31 maio 2015 | 14:15

curiosidadeXX

Quando perguntado em seu leito de morte o escritor Leon Bloy respondeu ao amigo

–O que sente?

–Uma imensa curiosidade

Se ninguém voltou de uma situação tão liquida e certa quanto à explosão de uma supernova, a morte e a incerteza acerca da vida depois do fim, continua sendo um enigma perturbador. Não pelos detalhes mórbidos, mas pelas idiossincrasias de cada cultura. Há paraísos naturais e artificiais. Em alguns castidade, em outros, santificada lascívia.

O escritor Leon Bloy, as vésperas, poderia ter se rendido ao ceticismo ou à languidez, mas escolheu a porta aberta. Se você não é médico ou nunca acompanhou uma última expiração, talvez esse relato soe mais abstrato do que de fato é. Nossa cultura exorcizou tanto a morte que, fora os obituários, preferimos ignorar sua onipresença. Esquece-la sob o trago, amando ou numa corrida são medidas quase corriqueiras. Mas nenhum destes álibis resistem ao que essa velha ceifadora tem a nos dizer.

Há duas saídas: fazer ouvidos moucos ou prestar mais atenção à nossa senhora, a brevidade. Isso não significa, ainda que totalmente plausível, aceitar a correspondência entre a brevidade da vida e a irrelevância.

Destarte, o que mais chama a atenção na frase de Bloy é menos a morte e muito mais sua extraordinária atitude, comprimida na palavra curiosidade. Ela é raridade, desejo de saber, e também fenômeno. O escritor nos instiga para além da palavra: e se fôssemos mais curiosos para além da quitação peremptória? E se conservássemos a naturalidade lúdica da infância? E se, com ela, espantássemos a monotonia das constâncias? Como se precisássemos dela para nos arrepiar. Das pequenas às medianas circunstâncias da vida somos viciados no imprevisível.

Podemos negar, mas ninguém aspira rotina. E o que é curiosidade senão abrir-se ao contra intuitivo? Nossa urgência é com a passagem do tempo, mas, curiosamente, nossa esperança vem do inesperado.

Desta perspectiva, abelhudo passa a ser virtuose. Ninguém espere o indulto para chegar à indiscrição. Mas e se a bisbilhotice se tornar necessária?  É provável que nosso mais inconfesso leitmotiv esteja colado à nossa última perquirição. Pois é a sede insaciável que se opõe à indiferença.  É o levantar das orelhas que enfrenta o desdém. É o tange-foles que se insurge contra a repetição. O curioso busca o excepcional. A investigação, o encontro com o surpreendente. E o ávido espera por um novíssimo. Anotem as últimos dizeres de uma pessoa, elas podem ser um assombro, ou o espetáculo que as palavras não descrevem.

Talvez seja só um instinto adormecido: já que, como denunciou Hamlet, nunca ninguém voltou, buscamos a perplexidade como uma redução de dano frente ao silêncio comedido do universo.

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