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virgula

Aby Warburg escreveu que Deus está nos detalhes. De fato, exemplos históricos demonstram como uma simples vírgula pode mudar o mundo.

A presidente acabou de dizer, em referencia às críticas tecidas na sede do Instituto :

“Todo mundo pode criticar, ainda mais Lula” .

Na teoria conspiratória da decomposição de textos podemos ficar com uma interessante coleção de interpretações em meio à implosão sintática:

Todo mundo pode criticar ainda mais Lula.

Neste caso, extirpada a vírgula, a presidente estaria devolvendo a deselegância sofrida e liberando partidários e a militância arrependida para criticar seu mentor.

Ainda mais Lula!

Aqui, para além da vírgula. Estaríamos diante da invocação subliminar de que se tudo der certo e a esquiva continuar boa, podemos aguardar, para 2018, por mais um ciclo fresco de promessas longas, procrastinação, falta de rumo e muita, mas muita conversa fiada.

Todo mundo pode criticar.

Neste caso, seria uma espécie de refluxo da tentação autoritária do velho projeto de “controle da mídia” e, de quebra uma cutucada em seu mentor, lembrando, com ternura, o episódio de quase expulsão daquele jornalista, um norte americano, (só podia ser)  que ousou falar poucas e boas do ex presidente.

Mas no hall do museu das frases épicas da sala batizada como “Nunca antes” não se pode deixar de analisar a frase do ex presidente que ecoou naquele mesmo dia. A frase é, como de praxe, notoriamente banal. Mereceu entretanto uma placa que agora figura no panteão de entrada da impressionante sede. O motivo de tal reverencia é o mesmo que mitificou tantas personalidades: disfarçada de simplória, simulacro de desabafo, a máxima foi tomada como surto de clarividência política:

 “Nós temos de definir se queremos salvar nossa pele e nossos cargos ou se queremos salvar nosso projeto”

     Pela manhã, a placa deste sincero monumento de reavaliação de princípios amanheceu pichada:

 Cargos e projetos, amigo, já deu, a pele é nossa

Nota do Editor- Por razões gráficas, a posição das vírgulas desta pichação pode ser livremente modificada.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/por-uma-virgula/