• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Silêncio dos órgãos (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Silêncio dos órgaos

Paulo Rosenbaum

14 Dezembro 2016 | 09h09

 

Sob a proteção do rei James I, Willian Harvey descobriu em 1628 a circulação do sangue em seu clássico “De Motus Cordis”— algum tempo depois de Miguel Servetus, que, sem protetores, foi queimado vivo pela santa inquisição e não sobreviveu para gozar a fama — as cidades se reorganizaram e foram arquitetonicamente dispostas de acordo com a função que o coração exercia. O principal distribuidor de sangue para o organismo – mas não único pois sabemos da rede auxiliar chamada de glomus — inspirou as transformações nas urbes.

De um ponto central saiam as várias vias, as quais, por sua vez, estabeleciam conexões e interligações, tais quais os vasos sanguíneos. A arquitetura copiava a fisiologia, a arte incorporava a natureza. Assim, não é nova a relação entre mudanças culturais e as descobertas da ciência.

As inovações científicas sempre influenciaram como a Polis e o próprio Estado deveriam funcionar. O filósofo e epistemólogo, professor da Sorbonne e sucessor  de Gaston Bachelard, Georges Canguilhem, definiu saúde com seu famoso aforismo de que um estado aproximado de cura seria representado pelo “silencio dos órgãos”. Isso significa que, quando o organismo está relativamente saudável e em homeostasia os órgãos não gritam, não fazem alarde dos sintomas, são discretos e protagonizam, sem grandes esforços, aquilo que devem fazer para assegurar a manutenção da vida. Para existir, os seres vivos não devem nota-los em seu funcionamento.

A garantia deste processo tem como resultado um admirável trabalho harmônico entre os órgãos e sistemas de modo que eles se auto regulam, numa notável interdependência e impressionante autonomia. Nem sempre esta maravilhosa perfeição perdura e nem sempre a saúde se processa durante a estabilidade. Crises podem ser benéficas para corrigir uma disfunção ou evidenciar uma deficiência ou super eficiência.

Enquanto isso, outros órgãos podem ser obrigados a se desdobrar para corrigir o equívoco dos vizinhos que não estão cumprindo seus papéis. São obrigados a tamponar a má atuação alheia, de sorte que ao “regular o desvio de função de um sistema que não está indo bem” o conjunto de outros sistemas mudam, se reconfiguram sempre com a finalidade última de preservar a vida.

Há, neste sentido, uma inteligência vital e solidária que age autonomicamente e em função do todo. Não é raro que o drama envolva sacrifícios em prol da preservação da vida.

Como Edgar Morin explicou, a diferença entre máquinas e organismo vivo é que se um dos componentes da máquina falha, ela pifa, por sua vez, uma unidade vital pode sobreviver mesmo quando um de seus componentes falha. Pois está acontecendo, neste momento.

Quando ocorre uma dor desmesurada, o aparelho neurológico “desliga” o sistema, de forma a preservar o corpo do colapso completo: a morte. Se há um comprometimento infeccioso no pulmão como, por exemplo, o bacilo da tuberculose, o sistema imunológico, não podendo destrui-lo completamente, encapsula-o e calcifica-o, de modo que o bacilo pode até permanecer vivo, porém torna-se inofensivo. E, a não ser que a resistência caia a ponto de desmanchar a defesa e libera-lo para fazer o estrago nos organismos susceptíveis, as pessoas podem conviver com o agente infeccioso sem necessariamente ficarem enfermas.

Estas analogias serviriam para construir paralelos entre o funcionamento do Estado e o Organismo. A primeira delas é que não cabe ao Estado o papel de reitor onipotente. Mas tampouco se trata da ideia reducionista de encolher o Estado ao mínimo. Isso não mudaria seu status quo, pelo menos não a ponto de torna-lo minimamente eficiente caso respeitasse a função para o qual foi designado. Isso é, se não extrapolasse suas atribuições, se não impusesse leis artificiais e se não legislasse em causa própria. Mas, principalmente se não se comportasse como um órgão desgarrado do corpo, correndo o risco de se tornar um antígeno e precipitar a temida reação auto-imune, quando o organismo passa a estranhar seus próprios componentes.

O Estado tem sido recriminado e pode passar à condição de moléstia, porque, em oposição ao conceito de “silêncio dos órgãos”, tem feito muito barulho por nada. Pois desta atuação equívoca só podem brotar instituições com os mesmos hábitos e tendências. Estado e Instituições muito barulhentas tendem a impor seus perturbadores decibéis aos tímpanos da sociedade.

O Estado brasileiro em particular, voluntariamente desorganizado por gestões caóticas — não satisfeito em nos acordar de madrugada com sobressaltos, foi perdendo a noção de conjunto. Passou a considerar que pode prescindir do convívio harmônico entre os poderes. E sob o endogenismo autocentrado de cada um destes poderes, clausulas constitucionais vão sendo abolidas ou reinterpretadas, para, em estranhas concessões hermenêuticas, adapta-las às conveniências do instante. Soluções de varejo podem funcionar, provisoriamente, até que o próximo imbróglio sobrevenha.

O agravante é que essa atuação equivoca do sistema político partidário está sendo exercida com plena noção de seu significado. Exatamente porque o fisiologismo político acordou, e sabe que, numa perspectiva de funcionamento integrado e eficiente, teria sua hegemonia minada. Veria ameaçada a menina dos olhos dos governantes: a centralização dos tributos. Atualmente taxas públicas extorsivas com dividendos privados vingativos.

O Estado, unido em desfavor da sociedade, defende-se com unhas e dentes porque sabe que não resistiria à inspeção atenta da razão. Uma análise independente mitigaria seu alcance e reforçaria a ideia de que os distritos deveriam ser prioridade. Um exame crítico evidenciaria como o sistema político atual se tornou anacrônico e de que a solução, não sendo o Estado policial, estaria no combate à ignorância.

É exatamente esse o temor que domina o Estado escandaloso. Encapsulado, o medo é de que descubramos que ele é bem menos necessário do que faz supor. De que, assim como a vida, nenhum órgão pode prescindir dos demais sem infligir danos permanentes à vitalidade. Para que possamos respirar, o Estado vai precisar silenciar. Ou, calar a boca.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/silencio-dos-orgaos/

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Meditativo 1 (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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MEDIDATIVO 1

O Presente instante,

recusa adiantes
Desafio de principiante,
A constância da presença

Demanda expressa insistência

Estar já, aqui,

pressupõe reter o momento
negar o automático

Livrar-se da primazia do acabado
Move o sentido, atento

É o nada anterior, flutuante
Mescla fresca de sensações

Absorve do murmúrio interior
O conjunto de fixações,
As percepções Ambulantes

Suspender juízos,
Selecionar imagens
Voos seletivos,
Paradas, instantes
Comandos ignorados

de costumes desconhecidos

E dominantes

Representar-se, intenso

renegar a pressa
Para aqui, inteiros
Lançados na luta,

a principio, perdida

conter a dispersão permanente

recusar a condição persistente

aquietar-nos os murmurios

Até a resposta do Mergulho:

silencio ou barulho?
Preso no sonho
Das gaiolas imanentes
No forro da memória
Sopra, agora
Oscila, impermanente
Modula, afora

Embora o mundo
Imponha incondicional rendição
Que se fixe atenção
No existir sem imposição
Na Negação do estilo:

Notar, enfim, a distinção

colossal e discreta

entre efêmero e efemérides.

Processos e meta.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/meditativo-1/

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Agora Selvagem (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Agora Selvagem

IMG_8344

Em nossos tempos vigora uma estranha solenidade, uma cultura não explicitada e dias postergados para um momento onde tudo será resolvido à exaustão.

Os rumores são de que, ao fim e ao cabo, teremos um País mais limpo. Precisamos reforçar um aspecto da argumentação: não há um único equivalente moral para o desmonte sistemático do Brasil nos últimos 13 anos, mesmo contra o argumento — real — da centenária espoliação crônica. E a resposta não poderia ser a revolução histeria onde, depois da acefalia política e da terra arrasada um recomeço possível seria partir do zero, do atraso e da miséria. Colossal engano. Sim, os pactos ainda são imprescindíveis, e a base da sobrevivência política, vale dizer, do espírito político e da coesão republicana.

Duro admitir, mas a multidão impetuosa parece repetir inconsciente o desastroso refrão do desvio: “nunca antes na história deste Pais”. Quando a análise mostra que não há, e nunca houve um “nunca antes” muito menos um “nunca mais”.

 Sem precedentes, as sequelas da gestão desastrosa — que a atual tenta reparar ainda que ameaçando deslizar sob erros antigos  — serão mais longevas do que alguém se atreve dizer. Pois não existindo a sonhada restituição integral, devemos contar apenas com ressarcimentos de superfície, indenizações injustas e um legado de divisões maliciosas na sociedade civil.

Mas mesmo que a limpeza se processasse sob denuncias, castigos e chibatadas a higiene nunca garantiu pureza, nem a inocência, caráter. Houve um método, ativo, intenso, programado e, enfim, a democracia encontra-se mais uma vez vulnerável. As instituições tensas e confusas. Mesmo que resistíssemos à tentação do reacionarismo, nada justificaria esperar tanto tempo pelos desfechos. A metáfora é auto evidente, mostra que a República vaza no naufrágio do choque de poderes, os quais trabalham contra os interesses coletivos.

O clima está formado. Mas quem, senão nós? Ou não somos nós o clima do mundo? Ou já abdicamos do controle das responsabilidades?  É esta nave uma e a mesma comum embarcação? Ou a poesia — que jamais foi saída — é canoa solitária? O estado de animação suspensa, no qual todo vislumbre obscurece o céu com uma dimensão que nunca pode ser contabilizada. Estamos testemunhando épocas sem lastro, homens sem direção, e exaustão de ponteiros sobrepostos.

O retardo e/ou afobação da justiça acumula desvios dificilmente ultrapassáveis. A meta final substituiu educação por punição, ainda que nenhuma pedagogia bem sucedida poderá se basear em vingança ou penitência. Não, se realmente aspira qualquer transformação benévola. Por  isso, a equanimidade é uma neutralidade ativa, uma aquisição estoica, num contexto no qual os destaques máximos são promotores, juízes e réus.

Vale dizer, quanto tempo para que a justiça desça à ação, e ao ato conclusivo?  A predação parece mais astuta que a prudência, enquanto o clamor do instantâneo vigora sobre a morosidade de uma razão que se perdeu em desmanches progressivos, ou depoimentos de palanque. Isso, enquanto o mundo acompanha uma ruptura nas comunicações: parece só existir um agora, selvagem. Toda pavimentação longa, todo edifício estruturado, e qualquer perspectiva de futuro, soterradas pelas demandas imediatas. No mundo da reatividade e do tirocínio bumerangue, o Estadista prospectivo não tem a menor chance frente ao populista sem pavio. O anti diplomata dogmático obscurecerá a eficácia da sutileza instrumental. O mal estar na cultura deslocou-se para desafios inúteis, supérfluos e insuficientes, enquanto ela, a própria cultura,  parece seguir a mesmíssima rota da política: idem ibidem.

A esperança, assim como os processos históricos, também prescreve.

Nossa sorte serão os hiatos, as frestas, as brechas dos retornos à revelia. As tendências que atendam também ou principalmente ao mundo interno. Um renascimento tardio da subjetividade. Estará viva no não alinhamento automático. Em uma novíssima rede de novas pautas. Uma nova cultura que fosse capaz de superar a infantilidade contracultural e os desafios primitivos dos embates direita-esquerda. Na recusa pacifica a toda ideologia, e numa feroz critica à toda idealização. Que seja pelo reexame da experiência de cada sujeito. Demandas que, estáveis num meio altamente instável, impõem-se como desejos ou necessidades, pouco importa.

Podemos chama-las ou não de espirituais, de qualquer forma serão atuais e vitais.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia
http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/agora-selvagem/

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Pessach para todos os êxodos do mundo (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Pessach para todos os êxodos do mundo

O apego ao território pode ser doloroso. Transitar entre fronteiras nunca foi fácil. Um dia, pode ser preciso deixar tudo. Da tarde para a noite. Se o desterro é involuntário, o abandono pode ser voluntário. É o momento no qual todas as identidades são julgadas como uma só. Sabe-se da nebulosidade dos dias deixados para trás, da atmosfera que está adiante sem que ninguém possa prever nada. Renunciar às ancestrais marcas gravadas é deixar um inconfundível rastro de descontinuidade. O sonhos dos imigrantes não é similar aqueles dos nativos. O sonho do imigrante é abrigar-se da insuportável pressão que risca o solo.  Quem vai e quem fica? Sair de uma terra que não é sua é vagar na inconstância, não reconhecer as encostas, estranhar as margens, e num último passo, romper com as barreiras sanguíneas para estranhar as familiaridades. Desconhecer-se em lugares estrangeiros é migrar ao desconforto. Estranha-se o solo, cambia-se de margem e o mar fixa-se como a miragem ultrapassada. O percurso requer milagres, da natureza, dos outros homens, de um Deus que, mesmo invisível, costuma ser convocado para ações concretas. O primeiro Êxodo, já se intuía, não seria o último.

Vagar, parece, é errar em particularidades, o avesso das estabilidades. E o destino é um nômade sem líder.  Aquele que faz extraviar com o sorriso da convicção. Arriscar a sorte é rebelar-se contra o império do senso comum. É passar ao largo das opiniões formais, é destituir a eloquência, que, pasteurizada, muda o tom sem imaginação. O deserto te parece hostil? A areia te desmancha o passo? Este é o ponto em que se pode aceitar que, talvez, não haja mesmo escolha. É provável que toda trilha de vida contenha ao menos um êxodo. E a marcha dos milhões deslocados recomeça todos os dias. Ainda que nunca tenha havido uma cronologia para o exílio o que está garantido é a fração de um outro tempo. Quem é expulso precisa de refugio? Encontraremos uma trajetória até que cada um alcance uma Canaã pessoal? A terra prometida do singular? O mundo é um lugar tenso e nunca se sabe bem qual será a rotação das birutas. Mesmo assim, sob o chicote do tempo inacabado, continuamos na migração possível. Num parque que não nos informará a distância até o fim. Só os escravizados conhecem a opressão. E, mesmo eles, não detectam a tirania ou a mão que costuma redigir e escrever os decretos que revogam a liberdade.

Reféns da guerra autorenovada, estamos sendo substituídos por máquinas programadas para não sentir o tempo. O Oriente recusa-se a aceitar os artifícios de uma era que sonha apagar os pertencimentos. Como se todos os registros pudessem ser obsoletos. É então que as emancipações são canceladas. Viraríamos, resignados, coleções que jamais comportariam singularidades. A política mudaria para o acaso, e o afirmativo geraria simulacros de tolerância. Ou, a renúncia cansativa pelas derrotas ininterruptas. Por isso e para isso, a evolução nos impôs a memória. Genética ou não, eis a única força com potencial regenerador. Ai poderia estar a importância da mesa posta com lembranças.

O menu histórico é constituído por reais de sujeitos. Histórias com desdobramentos que, se implausíveis, preservariam a beleza do mundo. O convívio. O primeiro Êxodo, o do Egito, depois repetido no Shoah, apreciado de longe, deve funcionar hoje como inspiração para os povos forçados a atravessar desertos inacabados. Hoje, diante de gerações expostas a mais um ciclo de nebulosidade venenosa, restaria pedir perdão. Nem isso faremos. Estes amanhãs de erros antigos que os não Estadistas nos reservam como herança, podem requerer novas exigências antropológicas. O convívio precisará encontrar um novo significado.

Paradoxalmente, ao enxergar a fumaça que sopra contra a máscara da humanidade, poderemos antever outras conjugações. Desde que contenha o sopro que desloca os vícios da compreensão. Só a criatividade pode rodar a Terra para propor outras formas de vir a ser. Um novíssimo lugar para entender o valor do êxodo, de todos os êxodos do mundo.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pessach-para-todos-os-exodos-do-mundo/

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Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina) (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Redução de dano e homeostasia (analogias entre política e medicina)

Paulo Rosenbaum

24 Maio 2017 | 09h40

Hipocrates (V-IV a.e.c)

Ninguém sabe qual será o desfecho para mais um episódio de anomia institucional. No entanto existem aspectos clínico epidemiológicos que ajudam a compreender o processo político nativo e esta quadra maligna a qual hoje tentamos atravessar.

Um deles é o conceito de redução de dano. O viciado em heroína — uma droga elaborada a partir da resina das sementes da papoula e que provoca adição das mais cruéis e letais — não pode ser privado abruptamente de toda droga sob o risco de apresentar um quadro dramático conhecido como síndrome de abstinência. Pode levar o sujeito à euforia, depressão, sintomas graves, podendo até progredir ao colapso, distúrbios neurológicos, cárdio-circulatórios incluindo um não desprezível risco de morte.

O que se faz nestes casos? Tenta-se substituir a heroína por outra substância, a  metadona, Também um poderoso opiáceo, igualmente narcótica, porém com repercussões clinicas muito menos graves e que permite, em alguns casos, manejar a situação por algum período. Quando bem sucedido, será possível retirar gradativamente ou diminuir de forma significativa a droga.

Antes de julgar e apenar este texto como maniqueísta ou pró partidário, a leitura atenta deve provar exatamente o contrário. Trata-se de fria análise diante de um quadro clínico grave onde toda decisão será difícil e até mesmo constrangedora, pois se trata, não mais das facilidades binárias de escolher entre o bom e o ruim, mas distinguir entre o mal e o péssimo.

Pois bem, o atual governo equivaleria à metadona em inicio de tratamento, enquanto a administração lulo-petista atuava e vem atuando de modo similar à heroína, e caso persistisse, mataria o paciente por overdose.

Isso precisaria ser amplamente compreendido pelos promotores e juízes sob pena de condenar o paciente, a nossa “Republica Federativa” à morte ou a uma prisão perpétua à revelia.

Outro conceito médico pertinente aqueles que querem sabotar as garantias constitucionais para fazer justiça é o aforismo herdado do hipocratismo “primun non nocere” cuja tradução seria “em primeiro lugar, não causar dano”, provavelmente ignorados pela procuradoria. Ainda outro aspecto clínico que os doutores em questão desconhecem é que nem sempre deve-se buscar a máxima imunidade, as patologias autoimunes estão aí para demonstrar isto, já que “máxima” pode significar desregular pelo excesso. Não tenhamos ilusões, o Estado clinico da República é de máxima gravidade, de UTI mesmo, e seja lá qual for o entorpecente, estamos todos intoxicados com as imagens, áudios maquiados e o exercício de uma hermenêutica de qualidade duvidosa, mazelas às quais estamos sendo impiedosamente expostos. Merecemos ou não algum tipo de salário adicional de insalubridade?

Pode-se recorrer à medicina mais uma vez para construir outra analogia. A homeostase é um fenômeno  clínico   insinuado pelo fundador da homeopatia Samuel Hahnemann, comprovado pelo pai da medicina experimental Claude Bernard ,e finalmente desenvolvido como tese pelo médico norte americano Walter Cannon, o qual cunhou o termo que em conjunto com suas pesquisas lhe rendeu um premio Nobel de medicina. Este fenômeno se presta a explicar as condições estáveis que o organismo precisa ter para conseguir manter o equilíbrio das funções corporais. Ele é quase equivalente à saúde e seus mecanismos adaptativos que executam muitas diante de um meio altamente instável, uma admirável atividade com a finalidade de preservar a harmonia entre aparelhos e sistemas orgânicos.

Isso significa que, mesmo num momento de alta turbulência, a sociedade também pode ser comparável aos sistemas orgânicos e deve encontrará meios de reagir/adaptar-se às turbulências naturais (moléstias e epidemias)  ou artificiais (armadilhas frutos de messianismo jurídico) . Os mecanismos de defesa podem sobrevir através de crises febris, eliminações violentas, sintomas agudos ou insidiosos. Alguns sintomas amedrontam, mas eles significam resposta, vale dizer, que o paciente está imunologicamente hígido e em plena mobilização das forças da sua vitalidade.  Mesmo assim, pode não ser suficiente, ele pode precisar de novo impulso para sair do estado defensivo e enfrentar aqueles agentes agressores, ou no caso da nossa analogia  pessoas ou partidos que desrespeitem a constituição. Como sempre, existem os piores que — aqueles que por exemplo sequer a assinaram — como é o caso do governo anterior e de seus partidos terceirizados.

Sem conseguir a estabilidade homeostasica, o prognóstico é mais ou menos previsível, desceremos a um quadro séptico generalizado, a tal infecção sistêmica.

Ninguém é ingênuo o suficiente para atribuir a vastidão da crise como responsabilidade única de Lula, PT e seus apoiadores, mas é evidente que, sob o discurso ideológico populista estes ativamente fermentaram o imbróglio, para que a massa danosa crescesse de forma descontrolada. Para, enfim, criar um banquete corrupto de proporções épicas, talvez sem parâmetros comparativos com outros escândalos da história política-policial mundial. Cálculos grosseiros indicam mais dinheiro desviado do povo brasileiro nos últimos 13 anos do que aquele empregado, por exemplo, no plano Marshall para reconstrução da Europa no pós  guerra.

Ninguém está mais digerindo o ativismo jurídico ou a lentidão voluntária com que os impasses estão sendo cozidos no vapor do caos. Antes que o grande vomito jorre até a boca e a anomia torne-se a política oficial, seria desejável costurar uma união cívica também sem precedentes. Agora é chegada a hora da legitima defesa e o único consenso possível que resta em nossa débil resistência é encurralar aqueles (incluindo instituições aparelhadas) que dominaram o Estado para desmonta-lo. Ou será melhor esperar a incineração sentados?

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E não te basta viver ? (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Comentários desativados em E não te basta viver ? (Estadão)

Hoje você passou, nenhuma névoa se dissipou, mas tua mão acenou. E dai que o País está assim? Nós? Nós não estamos assim. Vivemos apesar dele, apesar de todos eles. Eles não são alicerces de nada. Esqueça a pressão, fuga, denúncia e concentre-se na poesia. Desconcentre-se na poesia. Mude de lugar a cada minuto. Este deslocamento não aliviará nada. As dores permanecerão. A decepção também. Mas o giro virá. O giro que permite ver o outro lado, e todos os lados, e as ruas em profusão, e as calhas mudas, a chuva de vento.

Eu te disse, e não faz muito: estamos juntos sem que você perceba. Sempre estivemos. Não há um fim para estradas, elas se dobram, mudam de nome, fixam-se em vias trifurcadas, mas não terminam. Tua dor é ver a bagunça, o caos induzido, a justiça escolhida? A minha é te ver sofrer por isso. Sempre foi assim. Nada mudou. O sem precedentes sempre teve precedentes. Tua vida não pode ser fixada por tabelas. Nem por enredos que não foi você quem escolheu. Não acredite em estímulos externos. Esqueça as manchetes. Concentre-se, mais uma vez, pela primeira vez, ao menos desta vez, nos detalhes. Nas pinturas não vistas, nos livros não lidos, na cor inexata de uma árvore. Não, isso não é meditação. Apenas uma ação para te tirar daqui. A Terra já é vasta. Muito mais ampla que tua imaginação. Esqueça o Cosmos enquanto você pisa no chão. Apague os buracos negros e enxergue a gruta. Abaixe as pálpebras e esqueça o Paraíso distante, o perdido, o resgatado. Atenção ao implausível. Essa grama ai, essa que você pode sentir sob os pés. Essa mesma. Ela não sumirá, nem o céu, nem o ar. Não sumirá agora.  Este céu irrepetível que muda no instante. Ao gosto aleatório de dados que não param. Tire o dia para não conferir nada.

O sabor da lembrança é uma fruta nem vista nem provada.  É um lugar que você nunca pisou. Uma trajetória da qual você não tinha, nunca teve, a menor ideia. Era para te levar mesmo a um outro lugar, e, num átimo, mostrar porque não podemos ter apegos.

Errática?

Pode ser

A alienação programada. Com tantos probos, ilibados, figuras notórias mostrando o rosto insinuando modestia. Conforme repetiu Montaigne;  e não te basta viver? Isso. Serão só alguns momentos com o si mesmo. Sem ligar nada. Sem precisar de nada. Sem mergulhar em nada que não seja um alongado agora. Exato, aniquile as nostalgias antecipadas. Nem finque pé em nada. A redoma serve para isso, mas quem falou em redoma? É só para aprender a viver sem eles. Mas, ao mesmo tempo, não abandonar a coragem.  A coragem é a garantia. Não me refiro ao heroísmo infundado. Mas à reafirmação da honra, precocemente esgotada,  pelas ideologias, pelas insinuações de consciência, pelo simulacros de política.

Isso é política?

A coragem é a única garantia que temos para enfrentar tudo, se for preciso, contra tudo e todos. O tom da conciliação não é de capitulação. Mas de um tonus que finda toda hegemonia. O que recusa o binário sem aceitar pré condições. Homens que abandonam suas estrelas para entrar na maré perigosa.   Mas isso não é tudo. Essencial retirar-se de cena. Participar como sujeito é rejeitar tudo que é impessoal. Um patrimonio feito de estoicismo e transparencia. A bondade com estranhos, a gentileza irrefletida, a boa vontade laica.

A maioria é silenciosa, temos ainda que viver por nós mesmos. A solidariedade só pode começar com a dor do resgate. O amor, pela vontade de permanecer. O horizonte, pela fusão de perspectivas. Neste que é seu dia oriente-se pelo banco de areia e abandone o pó. Tua vida depende disso, todas dependem.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/e-nao-te-basta-viver/

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E não te basta viver ? (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Hoje você passou, nenhuma névoa se dissipou, mas tua mão acenou. E dai que o País está assim? Nós? Nós não estamos assim. Vivemos apesar dele, apesar de todos eles. Eles não são alicerces de nada. Esqueça a pressão, fuga, denúncia e concentre-se na poesia. Desconcentre-se na poesia. Mude de lugar a cada minuto. Este deslocamento não aliviará nada. As dores permanecerão. A decepção também. Mas o giro virá. O giro que permite ver o outro lado, e todos os lados, e as ruas em profusão, e as calhas mudas, a chuva de vento.

Eu te disse, e não faz muito: estamos juntos sem que você perceba. Sempre estivemos. Não há um fim para estradas, elas se dobram, mudam de nome, fixam-se em vias trifurcadas, mas não terminam. Tua dor é ver a bagunça, o caos induzido, a justiça escolhida? A minha é te ver sofrer por isso. Sempre foi assim. Nada mudou. O sem precedentes sempre teve precedentes. Tua vida não pode ser fixada por tabelas. Nem por enredos que não foi você quem escolheu. Não acredite em estímulos externos. Esqueça as manchetes. Concentre-se, mais uma vez, pela primeira vez, ao menos desta vez, nos detalhes. Nas pinturas não vistas, nos livros não lidos, na cor inexata de uma árvore. Não, isso não é meditação. Apenas uma ação para te tirar daqui. A Terra já é vasta. Muito mais ampla que tua imaginação. Esqueça o Cosmos enquanto você pisa no chão. Apague os buracos negros e enxergue a gruta. Abaixe as pálpebras e esqueça o Paraíso distante, o perdido, o resgatado. Atenção ao implausível. Essa grama ai, essa que você pode sentir sob os pés. Essa mesma. Ela não sumirá, nem o céu, nem o ar. Não sumirá agora.  Este céu irrepetível que muda no instante. Ao gosto aleatório de dados que não param. Tire o dia para não conferir nada.

O sabor da lembrança é uma fruta nem vista nem provada.  É um lugar que você nunca pisou. Uma trajetória da qual você não tinha, nunca teve, a menor ideia. Era para te levar mesmo a um outro lugar, e, num átimo, mostrar porque não podemos ter apegos.

Errática?

Pode ser

A alienação programada. Com tantos probos, ilibados, figuras notórias mostrando o rosto insinuando modestia. Conforme repetiu Montaigne;  e não te basta viver? Isso. Serão só alguns momentos com o si mesmo. Sem ligar nada. Sem precisar de nada. Sem mergulhar em nada que não seja um alongado agora. Exato, aniquile as nostalgias antecipadas. Nem finque pé em nada. A redoma serve para isso, mas quem falou em redoma? É só para aprender a viver sem eles. Mas, ao mesmo tempo, não abandonar a coragem.  A coragem é a garantia. Não me refiro ao heroísmo infundado. Mas à reafirmação da honra, precocemente esgotada,  pelas ideologias, pelas insinuações de consciência, pelo simulacros de política.

Isso é política?

A coragem é a única garantia que temos para enfrentar tudo, se for preciso, contra tudo e todos. O tom da conciliação não é de capitulação. Mas de um tonus que finda toda hegemonia. O que recusa o binário sem aceitar pré condições. Homens que abandonam suas estrelas para entrar na maré perigosa.   Mas isso não é tudo. Essencial retirar-se de cena. Participar como sujeito é rejeitar tudo que é impessoal. Um patrimonio feito de estoicismo e transparencia. A bondade com estranhos, a gentileza irrefletida, a boa vontade laica.

A maioria é silenciosa, temos ainda que viver por nós mesmos. A solidariedade só pode começar com a dor do resgate. O amor, pela vontade de permanecer. O horizonte, pela fusão de perspectivas. Neste que é seu dia oriente-se pelo banco de areia e abandone o pó. Tua vida depende disso, todas dependem.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/e-nao-te-basta-viver/

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Jugo (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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E quanto ao Jugo?

Nem se cogita

Nem será julgado.
Julga-se, julgo, a letra, não a filosofia

Julga-se a caneta, não a ideologia

Deixam de examinar o corpo, o caule

é onde reside a carga hostil do direito

Num Pais onde tudo é inesperado
e, sem cuidado, atiça o defeito

Na casa movediça, dissipam-se as telas da justiça

Percebe-se o mal feito, e a carne, em desleixo
expia, sem nenhuma sanção ao eleito

Atenção à renuncia e à punição coletiva,

aos amordaçados arrastados
na maratona de acovardados

Eis que chegou a hora de anunciar
“Morte súbita da Republica”
Que, sem cerimônia com os desesperados
Dança sobre a cabeça dos governados

Só há um engano que não trai o mal
Da voltas e retorna como milagre

Desembocando em desfecho fatal

Combinando  armadilhas que o político

consagra em benefícios imaginários
tornando vidas secas, miseráveis, amargas

reduzidas a códigos binários

Mas é aí que tudo será transformado

E o que nos foi expropriado

será, enfim, restaurado,

E as camadas de beligerância

insufladas de litigância

Mover-se-ão no sentido reverso

Subirão à espada, com furiosa tolerância e velocidade

Quando tribunais desistem das tribunas de impunidade

E, se, ainda assim, nenhum diálogo vingar

Ficaremos serenos, compenetrados no perene

para lentamente recompor, do começo

o destino que nos virou pelo avesso.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/jugo/

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Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold

“Uma descida sem cordas rumo ao mais profundo mistério da existência humana”

“Céu subterrâneo” do poeta e romancista Paulo Rosenbaum é um convite a participar de uma jornada única muito especial. A obra, profundamente existencial, enquadra dentro de um gênero policial pouco comum, que mistura memória e identidade, existência e destino do ser humano. A ideia de criar um comum denominador entre o passado de uma cidade e a “psique humana” (já comentada por Sigmund Freud em O Mal-Estar na Cultura); é um grande desafio para poucos escritores.

A Roma nascida da lenda de Rômulo e Remo, ou a Jericó de muralhas impenetráveis; emerge na obra de Rosenbaum das ruínas de Hebron, uma cidade conflitiva situada nas montanhas da Judéia a 40 quilômetros de Jerusalém. A sua santidade é resultado de dois fronts: uma narrativa de massacres e uma batalha permanente para obter a posse daquele lugar. Em Hebron, lugar denso, localidade repleta de histórias; paira um ar de mística e esoterismo. Trata-se de um dos pontos geográficos mais antigos do Planeta, o sitio em que foi registrada a primeira transição comercial da história por Abraham, pai de árabes e judeus.

Efron ben Tzohar vendeu a gruta Makhpelá ao Patriarca Abraham por 400 dinares. A fortaleza herodiana composta de uma muralha retangular passou a mãos bizantinas em 614 (virando basílica), para logo acabar em poder dos árabes em 637. Os cruzados os derrotam em 1.100, mas os muçulmanos a recuperam em 1.188 com Saladino, transformando-a em mesquita. No século 13, tribos de mamelucos proíbem a entrada de não muçulmanos no recinto sagrado; uma proibição ampliada após 1929, agora durante o Mandato Britânico da Palestina.

O atrativo turístico de Hebron não era a cidade, mas a Makhpelá, o “Túmulo dos Patriarcas”, onde pela tradição judaica estariam enterrados Abraham e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó e Léa. Para Há fontes menos fidedignas que incluem os sepulcros de Moisés e Tzipora e até de Adão e Eva. Segundo o “Sêfer Hazohar” (Livro do Esplendor) atribuído ao grande sábio R. Shimon Bar Yohai, na Makhpelá estão dispostas as portas para o “Paraíso de Alto”; deixando ainda em aberto a oportunidade de uma pessoa justa entrar no “Paraíso de Baixo”.

No texto de Rosenbaum, Hebron é o segundo lugar sagrado, seu ar místico é um ponto nevrálgico de animosidades, afinal qualquer fagulha pode ascender os brios entre árabes e judeus. A Hebron de “Céu Subterrâneo” abriga numerosos jornalistas e observadores internacionais. É uma cidade que, teoricamente, havia superado os traumáticos “Acordos de Oslo” em 1993, o trágico assassinato do Premiê Itzhak Rabin em 1995, o expansionismo xiita e até a “Primavera Árabe” iniciada em dezembro de 2010.

Nessa Hebron toda contemporânea aparece o protagonista de “Céu Subterrâneo”: o psicólogo Adam Mondale, um judeu laico especialista em comportamento animal, destituído do cargo de diretor de uma renomada universidade brasileira, aposentado precocemente para embarcar em uma aventura ímpar: buscar o significado oculto de uma fotografia pouco nítida hospedada faz algum tempo numa máquina Polaroide.

Adam Mondale apresenta digressões com relatos de sua família. Nele desfilam sua esposa, seu sogro, pais (escravos da indústria automobilística alemã, sobreviventes do Holocausto), a ditadura no Brasil, as pesquisas acadêmicas e, naturalmente, seu desejo de tornar-se um reconhecido escritor. Para Berta Waldman, Titular do Departamento de Literatura Hebraica da USP, Adam Mondale é o alter ego do autor, contemplado com uma bolsa a Israel para pesquisar material e escrever seu próximo livro.

O tempo em que transcorre a jornada de Adam Mondale não é cronológico. Suas aventuras começam em Jerusalém com a dificuldade para falar o hebraico, a conversa com o taxista que o deixa em plena madrugada na rua, as malas difíceis de carregar, o precário apartamento alugado pela internet (a falta aquecimento na moradia), e a vontade de Adam de adaptar-se para que tudo na viagem desse certo.

No primeiro dia, já instalado em seu apartamento, Adam viaja de taxi a um laboratório fotográfico especializado em revelações de todo tipo. Ali ele entrega um negativo que poderia guardar parte de uma imagem original. O que conteria teria essa imagem? Pois é essa imagem o núcleo da trama, uma mescla de mistério e suspense, um misto de enigma e segredo.

A tal imagem é da Makhpelá, porém ela precisa ser decifrada. Que há de oculto na Makhpelá? Parafraseando Shakespeare: To be or not to be? Eis a questão… Uma foto ou um documento podem tirar qualquer pesquisador do anonimato ou do limbo da mediocridade. A santidade de Hebron afeta mentalmente o protagonista. Adam está ciente da importância do lugar e isto o deixa perplexo, atônito e eufórico na sua constante busca. Não é exagerado afirmar que elucidar o que há na gruta da Makhpelá passa a ser a obsessão final do personagem.

O interlocutor imaginário de Adam Mondale é Assis Beiras, a quem destina suas reflexões metalinguísticas: “Se há alguma função para o escritor, só pode ser fazer com que o leitor se afaste do método e seja tomado pela imaginação. Tomado. Só assim, com a função da razão pura suspensa, a história funcionaria como uma vida à parte. Só assim poderíamos circular entre os dois mundos, do autor ao leitor”. Convenhamos que esta nobre proposta do autor  não é nada fácil de concretizar; uma vez que cada um de nós, (pobres mortais), mal sabe caminhar dentro de seu “mundinho real”; totalmente condicionado e delimitado por necessidades básicas.

Berta Waldman explica: “na tradição teológica judaica (especialmente na talmúdica, ligada à lei oral), a interpretação do texto não visa apenas delimitar um sentido unívoco e definitivo; ao contrário, o respeito pela origem divina do texto impede sua cristalização e sua redução a um sentido único. Assim, o comentário tem antes por objetivo mostrar a profundidade ilimitada da palavra divina e preparar sua leitura infinita, para gerar novas camadas de sentido até então ignoradas”. Para ela, “o midrash contem, assim, um sentido que não se fixa. Como não se fixa, no sentido de não se definir exatamente, a imagem a partir da decifração do que se oculta na Makhpelá. A imagem suja, precária e indefinida é identificada como uma possível fonte primária…”.

O livro “Céu subterrâneo” nos mostra que a interpretação midrâshica não é a única possível. Eu mesmo entendo ser mais apropriado fazer uma leitura pós-moderna, na qual a superposição de tempos do romance, o mundo imaginário que surge em torno do psicólogo Adam Mondale, o mistério oculto a ser desvendado e a realidade volátil (em choque permanente com a existência cotidiana), geram um clima em que o homem convive com um universo de ícones e signos que pedem esclarecimento e elucidação de um sentido.

“Céu Subterrâneo” de Paulo Rosenbaum é um convite para viajar no túnel do tempo. É um livro para tentar resgatar a camada oculta de nossa existência e, acima de tudo, para “escapar” (mesmo por algumas horas ou dias); de nosso repetitivo e muitas vezes monótono mundo cotidiano. Leitura instigante e cativante, o romance é uma “descida sem cordas rumo ao mais profundo mistério da existência humana”.

Reuven Faingold é historiador e educador; PhD em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. É também sócio fundador da “Sociedade Genealógica Judaica do Brasil” e, desde 1984, membro do “Congresso Mundial de Ciências Judaicas” em Jerusalém. Atualmente, é o diretor dos projetos educativos do “Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto” em São Paulo.

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Metanoia (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Podem me acusar a vontade, não fui eu. Simplesmente, não fui eu. (alguém pigarreia na fileira lateral) É isso, cadê as provas? Ah, indícios, indícios não são provas. Evidências? Também não são. Anotou ai? O que? Não caros, já falei até para aquele senhor naquela República, eu só supervisionei as obras. Que coisa? O governo. Teve aloprado? Teve. Quais planos? A ideia veio aos poucos. Que alguém atire o primeiro barril de petróleo, mas o que eu fiz qualquer um no meu lugar faria. Minha consciência está tranquila, tenho lugar garantido na história. Como assim abuso? Como diz a nossa Professora de filosofia essa é a sua narrativa. A minha? Ora, a minha é simples. Desde que o mundo é mundo para corrigir as injustiças você tem que cometer outras. Não, não foi bola de neve nenhuma. Foi, foi planejado, mas não fui eu. Por que eu não assumo? Filha, todo mundo sabe que esse negocio de culpa não é comigo. Eu vivo do dia a dia. Planejamento, deixo para os outros. Sou bom de papo, todo mundo sabe disso. Como assim postes? Tenho culpa se gostam de quem eu indico? Tenho culpa de ser o mais carismático, de ser adorado por companheiros que ganharam muito comigo, pelo pessoal das comunidades eclesiais? Me diz que culpa tenho de o pessoal ai sair dizendo que eu era o redentor? Que sou a única salvação. Se acredito nisso? Vou te confessar que no começo eu achava exagero  mas você vai vendo que pode ser sim. E veja, não é falta de modéstia, é só ver o que o outro lá falou? Eu, “eu era o cara” lembram? (olha para os lados e todos juntos, em jogral espontâneo, soltam a gargalhada mecânica que cessa subitamente quando ele se volta novamente à jornalista) Se eu acho que eu sou o que acham de mim? Mas que pergunta filha. Bom, nunca na história alguém tinha feito os milagres que eu fiz. Eu fiz tudo, tudinho que está ai. Vai dizer que não tirei milhões do sufoco? E dai? perderam tudo pela incompetência. Mas eu…sabia, tinha certeza que você ia me perguntar isso. O desemprego? Quanto? 14 milhões? Eu fiz o País bombar, eu empreguei,  não acha que tenho direito de desempregar? Sou um patrão exigente caramba.  Quer chamar de milagre econômico? Pode chamar. Já falaram isso antes na ditadura? Menina, isso dessa crise passageira que está ai não fui eu. Isso foi ela, ela quem fez as burradas. Eu fui responsável por ela chegar lá? Eu só fiz a minha parte e o que minha consciência disse. É lógico que tinha que ter mudado a constituição para eu ficar direto, mas a gente tem que aturar esta lengalenga de democracia, e lembre que não controlamos toda a imprensa. (suspira fundo e fala sussurra uma palavra que foi entendida pela jornalista como “ainda”) Mas agora aprendemos a lição, da outra vez vai ser muito diferente. Eu obedeço tudo que ele, meu foro intimo me dita entende? Não, não é foro de São Paulo. Olha isso pessoal (vira-se para sua plateia) Ela é piadista. Está tirando comigo? Ah, você acha que eu mereço? Cana, cadeia? Foi o primeiro passo? E isso ai. Eu também acho que no fim, na última hora sai o acordo e fica por isso mesmo. Vai ficar todo mundo de cabelo em pé, mas ai, (aproxima-se como se fosse contar um segredo) aí a sociedade engole. Engole sempre, não é querida?

E o que eu quis dizer com o que? Ah isso? Eu disse isso, com estas palavras? “Quem sabe eu prendo ele depois? (olha para cima tentando evocar as frases feitas desditas) Sabe que sinceramente não me lembro (olha para cima, balança a cabeça e aponta para o próprio peito). É que num Congresso do partido e todos aqueles Sindicatos, a gente tem aquele carinho especial e se empolga. Os companheiros, gente que ajudei a crescer na vida, que dei aquela força, sabe como é que é.

Não sabe? Espera ai. (muda o tom de voz com uma rouquidão que o toma de assalto) Agora a senhora está sendo malcriada. Ah se ainda eu fosse presidente…além desse bico na Rede Esfera onde é que você trabalha mesmo? Por que? Se fosse em Banco ou em Jornal amigo eu ia ter que dar uns telefonemas. (olha para a sua equipe sorrindo a procura de um assessor de óculos e meio calvo) Se sou vegetariano? Este negócio da carne já deu. O que a senhora está olhando?  Quer saber por que tantos advogados aqui em volta? Só rico pode? Todo bacana tem direito e eu não? E eu vou lá saber quem banca, não mexo com isso, pergunta para o Alceu, o Vácar, é verdade, agora isso é com a Gláucia. Ela está bem ali, e aponta para a parlamentar que faz um gesto incompreensível de volta). Organização criminosa? Veja se não enche guria. (bufa contrariado) Eu sei que é uma entrevista, e dai? Meus advogados não te avisaram antes das perguntas? As respostas (bate com o dedo no papel de anotações da jornalista) eu quero ver antes de ir ao ar. (vira-se para outro assessor: você vê isso direitinho certo?) (resposta subserviente com o queixo)

E olha, comigo não tem essa de mulher independente. Como é que me sinto por ser réu? Vá…faz o seguinte, pergunte para o Papa filha. Tá bom assim? Não, não estou nem um pouco irritado pô. Eu não intimido ninguém não. Na eleição a gente conversa para você ver uma coisa. Quando eu estiver lá vou te chamar tá bom? Ameaça? Não, você entendeu mal. Quem sabe te dou uma exclusiva (dá uma piscada nervosa em direção a entrevistadora) Por que parar a entrevista? Estava ficando bom. (ameaça espreguiçar e enfia as palmas das mãos entre as pernas), Acabou?

Deixa que falar uma coisa: a senhora está aqui porque esta sendo paga, o pessoal da Esfera não te avisou? E quer saber? Anote ai. Tá escrevendo? Eu elejo quem eu quiser. Não mais? Por que? Porque meia dúzia de burgueses falam mal de mim nas redes sociais e batem panelinhas? Não estou nem ai. Eu não quis dizer nada. A massa está na mão. E fique sabendo. Que ficar quieto que nada. (afasta a mão do assessor que tentava interromper sua fala).

Cala a boca você. Aonde está aquele candidato lá do inicio? Sumiu, morreu. Que lulu paz e amor que nada, aquilo foi para a ocasião. Agora é para valer. (levanta e enxuga o suor frio da testa enquanto o advogado sênior cochicha algo em seu ouvido com o que ele aparentemente concorda e volta a sentar, trocando de feição)

Desculpe moça, (voz subitamente embargada) podemos continuar sim, é que eu me emocionei, a jornalista entende não? É muita pressão. (antes das lágrimas diluídas do olho esquerdo já empunhava o lenço de seda bordô). Falando honestamente, eu sempre confiei em vocês. Me desculpa. Não quis te estressar. Vamos fazer o seguinte, amanhã mesmo meu pessoal edita a fita. Eu falei perícia? Falei edita. Tá bom assim?  Antes de ir para o ar fale com o pessoal do Instituto e com os meus advogados Ok? Ainda está gravando? Pode desligar essa maldita câmera rapaz? A câmera hein, não a câmara. (riso indeciso) Então dona, foi um prazer falar com você. (ele se prepara para levantar)

Uma última pergunta? Claro. (senta-se novamente). Não tá gravando, certo? Ok.  O que tem este negócio de “nós e eles”? Fala a verdade, bem bolado, palmas para o casal de Feira. E o “coração valente”, essa foi de mestre. Foram condenados? Isso não tem a menor importância. Por que agora estou tão bem humorado? Porque confio na justiça do meu Pais. (gargalhadas espontâneas vindas de vários pontos do estúdio que só se interrompem com o olhar censor do entrevistado) Se eu não me arrependo? E o que é arrependimento? (bate a mão na própria perna e levanta-se sorrindo)

(ele sai abotoando e apalpando o bolso do paletó como se procurasse algo como um gravador chinês de U$ 35 acompanhado de assessores, advogados, motorista e copeira)

Regret – (english) Do latim gretan, chorar. Para o linguista e etimologista francês Littré a palavra vem do latim regradus (retorno) talvez de uma doença.

Metanoia – Do grego, arrependimento, remorso

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/metanoia/

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