• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Céi a dois (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Céu a Dois

Paulo Rosenbaum

13 junho 2016 | 19:05

Querida? Acorde!
Já está na hora?
Ainda não! Quase. Temos que sair daqui, lembra?
Mais 5 minutinhos.
Mas e o Jardim? Quem vai varrer?
Vai você!
Não fui eu que fiz a bobagem.
Tenho que explicar de novo? Vai dar tudo certo, confie em mim. Ele tinha um plano maior para nós.
Melhor ir logo. A arvore está perdendo folhas e o dia já está quase terminando.
Estava sonhando com flores e que um dia vamos saber como aproveitar este lugar.
O Jardim?
Virá com um código de instruções para que a gente e todos os descendentes vivam em paz.
Sério? Quando?
Não sei, mas foi uma promessa dele quando eu estava chorando e Ele veio me consolar.
O que Ele disse?
Que alguém iríamos ser libertados de nós mesmos.
Não faz muito sentido.
Seriam algumas Regras mínimas com valor máximo. No sonho alguém me dizia : “como a constituição americana”. Pequena mas está tudo lá, compactada nos contará a história do mundo, e nós, os personagens centrais. Tudo dependeria da gente. (o marido coça a nuca preocupado)
Do que exatamente você está falando?
Que vamos ter uma longa descendência e que, no fim, teremos paz. Lembra seu medo? Que surgissem facções, guerras tribais, que o pessoal desse errado na vida?
E como é que se evita isso?
O mundo vai substituir salvadores pessoa física, por consciência.  E depois de tudo nós seremos as mães de todos que vivem.
Mães?
Mães! Agora  posso dormir mais um pouco?
Ok, mas os figos do pomar estão caindo de maduros, eu se fosse você melhor você iria lá dar uma olhada.
Pronto, acordei? O que não se faz pelo Amor?
Temos que limpar isso, olha essa bagunça
Isso é justo?
Se não fizermos nada vamos atrair outra cobra.
Ai não. Tudo menos aquela jararaca.
Pois é, vamos à faxina.
E quem criou esse caos?
Pergunte para o teu chapa. Você fala com Ele todos os dias.
(olhar de desconfiança feminina)
Você reclama, mas sabe porque ele fala mais comigo do que com você, não sabe?
Por que?
Porque você veio depois dos mosquitos e Tem dias que você está se achando o rei da cocada preta. Já te falei, Ele não aprecia gente que fica se achando.

Vamos mulher! Pode se mexer?

Aff

Tá vendo?
Vendo o que?
Ficou brava sem motivo.
Pensa que é fácil?

Foi você quem começou.
DR hoje não por favor. Fica na sua que vou falar com Ele
Olha lá o que você vai dizer. Não me comprometa.
Você veio da terra, mas parece feito de porcelana.
(Desolado, o marido balança a cabeça)
Oh Altíssimo, não poderia ter me tirado do barro também? Por que não poderia também ter me modelado com argila? Com todo respeito não acho nada simpático ter vindo da costela dele.
(Marido faz olhar de reprovação e tenta dissuadi-la, pedindo silencio para a esposa)
Agora é que não fico quieta mesmo.
(Marido implora para que esposa pegue leve enquanto espreme as mãos)
Com toda a vênia Senhor, nós, mulheres, somos mais resistentes, amadurecemos mais rápido, temos que ser babás, companheiras, cozinheiras, auxiliar de finanças, promoters, conselheiras, mães (tinha mesmo que doer assim?) e mesmo com toda essa carga nós tínhamos que sair das costelas desse mimado barbudo?
(trovões simpáticos à causa)
Mulher, deu por hoje, dá para parar com isso?
(raios e trovões antipáticos, o Marido se recolhe no canto)
Obrigado Altíssimo, posso continuar?
Veja só, não acho justo ter levado toda a culpa. Eu amo esse homem e nem sei os motivos. Dizem que o Senhor inculcou o prazer nas espécies pela procriação, mas minha intuição não falha: é muito mais do que isso. Além disso, estou apaixonada. Um dia? Em homenagem ao dia se hoje vai haver um dia dos namorados?
(o Esposo não compreende as vozes que vem de cima) (A Esposa faz que sim com a cabeça)
Eu sei, eu sei!
Mas concorda? Segue dizendo a Esposa: nós é que levamos tudo nos ombros, eu diria o mundo nas costas. Se gostaria de ficar mais um pouco por aqui? Um pouco não, para sempre. Está brincando? Amo este lugar, temos absolutamente tudo. Mas o que posso fazer se a tal da árvore ensinou que precisamos de autonomia e que o mérito só pode estar na nossa escolha.
(vento forte e murmúrios de aprovação do céu)
O Senhor quer a lista escrita com todas as reivindicações? Olha, então vou falar com toda a humildade: eu quero que, no futuro, pode ser bem lá na frente, nós, mulheres, estejamos no comando.
Adão fala baixinho “Lá na frente? Até parece”
O que foi que você disse Querido?
Nada, bocejei.
Então, continuando, Altíssimo, queria que lá na frente depois que o Reino do Costelinha ai passasse, o Senhor nos desse uma chance, para eu e minha descendência.
Por exemplo? Deixar que uma nação justa seja comandada por uma mulher?
(O Marido pega no sono)
Altíssimo, adorei conhecer o futuro? O que mais?
Tem também más notícias? Povos que saíram de mim vai ser perseguidos e os outros vão se fingir de mortos? Mas o que é que é isso? Pode parar. Não quero mais saber. Não, sinto muito, mas não dá para ficar calminha com o que o Senhor acaba de me contar. E ainda nem me contou tudo? Faça-me o favor. E O Senhor não vai fazer nada a respeito? Melhor mudar de assunto. Ainda tenho esperanças que o Senhor tome providências. Vou entender um dia? Duvido.
Agora que o marido dormiu vou pedir as coisas mais delicadas. Senhor, com todo respeito: eles não poderiam ser mais limpinhos?
(Trovões de média severidade)
Ok, Ok, Ok, era pedir demais. Vou continuar então: Todo Poderoso, pode me fazer um favor extra? Pode ser? É o seguinte: Poderíamos nascer com menos preocupação com os filhos? Estou grávida não faz nem uma hora e já pensei na matrícula, no que vai ter no lanche, e na formatura na faculdade.

Isso tudo é a natureza feminina? Tudo bem então, só para o Senhor não sair dizendo por ai que nasci teimosa, essa vou ouvir e aceitar mesmo sem entender direito.

E o que mais mais? Ser curiosa assim também tem a ver com nossa natureza? Cientistas e mulheres são? Pode dizer o nome. Einstein. Nome difícil o que tem ele? Ah, ele vai ser sua testemunha. De que, posso perguntar? De que o Senhor não joga dados. Sempre soube, Altíssimo, eu via e comentava com o Esposo como era admirável seu Cuidado com as plantas e com os animais. O Senhor cuida ao mesmo tempo de todo Universo e ainda tem tempo para dar atenção individual para cada criatura? Como é que pode? Claro, só o Todo Poderoso. Não, não, nem sei o que é Corinthians, nem sei o que é time de futebol. O Senhor não vai me explicar? Ok,  não tenho muito interesse mesmo.
Posso continuar? O Senhor acha que eu falo muito não é? Mas já que isso é a minha natureza, deve ser para o bem. Certo?
(Risadas celestes múltiplas)

O que mais gosto em conversar com o Senhor é seu bom humor.

(sons de ruídos ásperos)

Agora que meu marido está roncando, — isso aí não dá para corrigir não? Sabe quanto tempo não prego olho?

(Gargalhadas celestes)

Desculpa Senhor, sei que se diverte com nossas bobagens, mas essa aqui não tem a menor graça. Já mandei ele ir dormir lá perto das goiabeiras. Foi ficando insuportável. O Senhor, aí no Infinito, não tem estes probleminhas, mas a mulher aqui tem que aguentar cada coisa que o Senhor nem pode imaginar. Ah, o Senhor também aguenta? Mas só para comparar: o Senhor é o Rei do Universo, eu sou a Escrava Galáctica do Lar, entende?

(mais risadas cósmicas)

Então me desculpe pelo desabafo. Aliás, me lembrei do bafo. Isso também poderia ser consertado?

Não acredito no que acabo de ouvir. O Senhor está me propondo que eu viva aqui sozinha? Nem pensar. Criar outra igualzinha a mim? Outra companheira para ele? Se chegar perto dele vai ter o que ela merece. De jeito nenhum. O Senhor não me entendeu direito. Não foi bem isso que eu tinha em mente. O que? Ele me diz exatamente a mesma coisa que o senhor acaba de falar: que reclamo e quando ele faz o que eu peço nunca acho que foi suficiente. O Senhor é conservador ou progressista?

(Trovões leves)

Eu sei, eu sei. Me perdoe. Tenho certeza que o Senhor é um juiz imparcial. É que pelo que ouço dizer do futuro, em muitos Países não vai ter toda essa equidade. O Senhor não tem partido? Nem eu, nenhum juiz, nem tribunal deveria ter. Concorda? Eu sabia, estamos do mesmo lado. Ok, sei que estou tomando seu tempo, mas agora estou para terminar.

Se quero outra pessoa? Nunca. Meu esposa é perfeito para mim. Nós nos entendemos em tudo, menos quando ele discorda de mim.

(risadas abafadas que escapam das nuvens)

Algum descendente nosso poderia escrever sobre o tamanho do nosso amor? O Senhor vai escalar um sábio para falar da primeira história de amor da humanidade? Que o maior mistério e o grande milagre é o amor entre um homem e uma mulher? Pode haver outros tipos? Qualquer forma de amor vale a pena? Para a redação vai chamar o maior de todos os autores? Salomão? Pode adiantar como é que vai se chamar o livro? Posso eu mesmo dar um nome? Deixe-me ver. Pode ser “Melodia de Amor?” Não, não, muito clichê. E que tal: “Céu a dois?”

(trovões serenos)

O que foi? O Senhor não gostou? Podem entender mal? Então que tal ficar “Cântico dos Cânticos”? Mas, por favor, registre que prefiro “Céu a dois”. Como? Tudo ai é registrado? Tudinho? Dá até um certo medo. Não, não sei o que é grampo. Está muito cedo para falar nisso e prefere fazer uma varredura antes? Está bem, eu aceito. Às vezes sou obediente, só ao Senhor, ok?

(pigarros angelicais)

No caso do Adão queria só pedir para o Criador dar umas últimas lapidadas extras.

Senhor? Posso continuar? Posso chamar você de Senhora? É que as vezes conversando com o marido eu acabei falando espontaneamente “Ela?”

(Sons indecifráveis)

Se sou feminista? Sou, e assumo. Pode escrever ai no seu registro geral : serei a primeira feminista. Se eu não for quem será? Se eu não for por mim quem no meu lugar? Mas é que também fica mais fácil para mim. Mas entendo. Deixa para lá, já me acostumei mesmo a chama-lo de Senhor.

Altíssimo, agora mudando de assunto podemos falar algumas palavras sobre estabilidade? O que eu mais tenho medo lá fora é de cair num desses lugares cheios de bagunça. Onde não existem regras. Onde tudo muda do dia para a noite. Onde não se pode confiar nas instituições. Sabe, tumulto político? Pode quebrar essa para nós? O Senhor faria isso pela gente? Esse aí nunca ouvi falar. Onde fica esse País? Lá mais ao Sul? Por tudo que o Senhor está me falando agora falta muito pouco para esse lugar ser um outro Paraíso. Ah, entendi, dizem que o Senhor nasceu lá? Brasileiro? Não brinca. Ah, claro, lá tudo é bom menos o que? O que é Planalto Central? Entendi, o lugar como um todo é muito legal, a natureza incrível, o povo Ok, mas tem este probleminha. Problemão? E essa aí também é uma mulher? De acordo, vamos tomar cuidado. Ah, mas mesmo lá vai melhorar? O Senhor vai interferir? Pessoalmente? Agradecida. Certeza que meus descendentes ficarão aliviados.

(Adão espreguiça)

Altíssimo, ele não é uma gracinha?

(olhares apaixonados)

Poderia viver com ele em qualquer lugar do Universo. Mas, por gentileza, pense com carinho nas reforminhas que pedi.

Querida? Adão murmura com a voz rouca.

Sim amor?

Faz uma massagem aqui por favor.

Onde?

Ai do lado. Isso ai mesmo. Não sei porque mas minhas costelas acordaram doloridas.
Fui dormir e acordei assim. Houve alguma coisa enquanto eu cochilava? Perdi algo?

Nada querido. Só roguei ao Altíssimo para dar uma melhorada na nossa situação.
Melhorada? Estamos no Paraíso. Se melhorar, estraga.

Eu sei querido, mas eu quero que tudo fique bem.

Minha rainha, de hoje em diante faço tudo o que você quiser.

(Eva pisca para o alto)

Valeu Senhor!

(Trovões se dissipando, o Altíssimo usa seu dimer e reduz a luminosidade)

Tags: blog conto de notícias, dia dos namorados, O Paraíso revisitado, O primeiro amor

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O inexorável destino da arrogância (Estadão)

14 domingo abr 2019

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 O inexorável destino da arrogância

Paulo Rosenbaum

18 abril 2016 | 16:03

Não faz muito tempo. Na época vivíamos dias estranhos, torcíamos para que malandros destronassem sócios e ex-comparsas. Havia uma pseudo esquerda, que derrotada, chorava por uma antecipação nostálgica do que era só desejo de justiça social, aquela que nunca vigorou. Enquanto isso, uma direita obtusa comandava um espetáculo que nem lhe pertencia. Hoje, à distância do tempo, é difícil avaliar. Mas, a tragédia da experiência de poder daquele núcleo duro político, mesmo removido e posteriormente processado e preso, não mereceria comemoração. Açoitar a civilidade sem piedade costuma dar nisso. Somos forçados a escolhas que nem pedimos, nem entendemos. Mas é preciso impor particularidades. Não há normalidade alguma aceitar obstrução à justiça. Muitos diagnosticaram que aquele governo caiu pela soberba, o inexorável destino da arrogância.

Tudo começou há algumas décadas. Havia um sistema de castas. Políticos e personalidades tinham o que se chamava de “foro privilegiado” e os membros de um poder interferiam abertamente sobre os demais. A sociedade parecia hipnotizada pela culpa. Nenhum outro País ocidental tinha legislação tão benévola. Em nenhum outro rincão de mundo legislar em causa própria estava tão naturalizado. Todos diziam defender a democracia, que, como hoje sabemos, virou uma vaga noção polissêmica. Sem qualquer valor argumentativo. Ditadores e massas manipuladas os usavam abertamente para defender o que lhes conviesse. Somente em nossos dias soubemos também que nada teria sido fortuito. A brincadeira fiscal era um dos cernes do programa. O “exército industrial de burgueses desempregados” fazia parte essencial da arquitetura da desconstrução. Persistente e determinadamente a desorganização foi sendo sustentada e martelada nas cátedras, na mídia subsidiada, nas reuniões do Partido. Sob o lema já anacrônico na época — “destruir o sistema para reconstrui-los em outras bases” — as anti reformas eram impostas com tal facilidade que os agentes se diziam surpresos com a “mansidão incauta da maioria”. Os slogans se proliferavam para obstaculizar os debates. Com técnica e método tiveram êxito notável. Mitômanos e ingênuos, intelectuais e gente simples, era comum que todos aceitassem as armadilhas. Até que caíram na Rede. Bem que tentaram metamorfoses mudando de perfil, escondendo o currículo e a folha de serviços prestados. Alguns buscaram exílio, negados, pois não havia naqueles Países cláusulas de abrigo por crime comuns.

Alguém, a identidade correta sempre ficou indeterminada, teve a ideia inspirada em um velho livro. Penas alternativas não seriam suficientes para recuperar aquela parcela de políticos que cederam suas reputações aos crimes. Mesmo aqueles justificados como empréstimos para um bem maior. A cooptação e seu sinônimo mais conhecido, a corrupção tornava-se institucional. Era o preço a se pagar para fazer do jeito deles. Nas prisões comuns ou de segurança máxima ainda continuaram convictos em seus delitos. A pergunta que a sociedade se fazia à época era “por que a taxa de recuperação dessa gente é tão baixa?” Muito inferior do que a dos detentos comuns. Afinal, ali havia gente pouco educada, mas também aqueles que frequentaram escolas caras e pós graduados em grande centros do saber, nacionais e internacionais.  Estudos mostravam índices mínimos de recuperados e reintegrados à sociedade. Além disso, o cálculo para mantê-los permanentemente monitorados era um peso para o Estado. “As Cidades Reeducativas” surgiu como uma nova concepção. Só depois adotada por outros continentes. Nada mais dentro do espírito de uma nova formação do que condena-los a viver governados por eles mesmos. Estes presídios neo urbanos forjaram uma nova ideia de regeneração e um novíssimo conceito de reintegração social de agentes públicos. Banidos para sempre das funções administrativas para a sociedade, eram condenados a viver as vezes pela vida toda nestas cidades especiais. Gestores públicos devidamente protegidos, passaram a ser obrigados a estagiar lá. O objetivo era observar tudo que não deveria ser feito em gerenciamentos políticos. Um deles concedeu recentemente uma entrevista e sintetizou da seguinte maneira sua experiência: “Meu aprendizado lá foi ter percebido como eles enxergam a função do político. O surpreendente é que a maioria vê o Estado como um desvio de função. Me parece uma visão insanável. Falam sem parar. Dedicam seus discursos a família. O mais estranho é que têm ideias preconcebidas sobre tudo e não aceitam outras formas de enxergar a administração pública. Um deles chegou a me dizer sem nenhum constrangimento — e isso me fez perceber quão perturbados eles ficaram nos anos nos quais reinaram — que “se a sociedade não pode existir do jeito que nós a concebemos, melhor que ela não exista”. Foi proveitoso e didático, só não quero mais pisar lá, a arrogância me enjoou.”

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-inexoravel-destino-da-arrogancia/

Tags: arrogância, blog conto de noticia, blog estadão, Cidades Reeducativas, democracia, impeachment, inexorável destino da arrogância, o futuro, polissemica democracia

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Transitoriedade (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Transitoriedade

Paulo Rosenbaum

16 maio 2016 | 10:40

 

Instável, é como definimos o agora. Instável, o que vemos lá fora. Inadequado, o cenário não procede. Não sei se é por isso, mas pertencimento faz cada vez menos sentido. E se essa for a identidade? Um permanente não pertencimento. O direito ao isolamento. O não alinhamento. E se o poder for o fator de nosso esvaziamento? Recusar o estado dramático? Que escraviza pelo medo? O espelhamento hostil que degrada. Estamos saturados de sonhos cortados ao meio. Esfacelados por perigos ocultos e seu proposital rastro de opacidade. Cegos pelo infinito desleixo. E se só não desejarmos mais fazer parte? Tomar partidos? Recusar as conclamações? Faculta-se o direito de não opinar? E se as minhas percepções não precisarem de respaldo? E se recusássemos as histerias? Ou esquecêssemos ideologias?  Ninguém sabe: nenhuma facção oferece resposta. E se fôssemos menos atentos? Recuperar os sinais analógicos da convivência. Sem as digitais descartáveis. Sem o peso da coerência. E, se, desligados, cedêssemos espaço à alienação. Razão pura e sentimentalismo puro se esgotaram. Estamos na mesma nau, remando contra mares oblíquos. Embarcados de improviso queremos descer dos desvios de finalidade. Dos privilégios de consenso. Das instâncias superiores. Das nomeações de réus. Não enxergamos união onde ela inexiste. Exige-se honestidade que explicite conflitos. Eis o realismo imediato. E ele não é para todos. Com a melancolia antecipada, oscilamos na adaptação. É sôfrego constatar; nas horas decisivas, a responsabilidade é indivisível. A decisão, isolada. A ameaça, corrente. Empenho e aposta. Reformas e resposta. Tínhamos exclusividade, recusamo-la. A oportunidade, desperdiçamo-la. É mais do que justo condoer-se com a miséria e divergir na terapêutica. Relutamos, sem notar que a vida não incide lá atrás. Não há futuro sem o instante. Não é possível sofrer adiante. O tempo, vigente, único presente. A política não define mais ninguém, e os rótulos perderam a validade. Velhas vanguardas dormem no deja vu. A justiça já não representa o poder. Toda mudança é assim, pródiga em sustos. É preciso lembrar, se a felicidade esta nas relações e as inimizades políticas são circunscritas, o fôlego é provisório, e amizades devem sobreviver à liquidez do transitório.

_________________________________________________________________

Prezados amigos do blog e colegas jornalistas, convido todos para o lançamento do meu livro “Céu Subterrâneo” que acaba de ser editado pela editora Perspectiva. Trata-se de uma ficção escrita a partir de uma estadia em Israel e definido pela professora titular de literatura da USP Berta Waldmann, que assina a apresentação, como “Um Midrash brasileiro”. Também contei com a preciosa ajuda da Professora Lyslei Nascimento da UFMG que elaborou a orelha do livro. A lista de pessoas para agradecer é bastante extensa. Pretendo fazer isso pessoalmente. Então amigos, será dia 17/05 as 18:30 na livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo. Agradeço antecipadamente a quem puder vir, compartilhar e divulgar para outras pessoas.

Um grande abraço,

Paulo Rosenbaum

Convite - JPEG

Tags: blog conto de noticia, blog estadão, céu subterrâneo, ficção, impeachment, oposição, redes sociais, tempo e metáfora, totalitarismo, transitoriedade

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Eternidade do Instante (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Eternidade do instante

Paulo Rosenbaum

16 outubro 2015 | 18:35

InstanteXXXXX

Você pode não querer falar no assunto, entrar em negação, debruçar-se sobre o tema ou bloquear quem insiste, mas o fenômeno persiste: só temos a eternidade do instante. Num mundo de passagem para que insistir no conforto das coisas que permanecem? Se ao menos a arte de construir agendas fosse outra. Reparem, não há, nunca houve, nada sólido. Não me refiro ao materialismo, que dura e é solenemente subestimado pelos cultores de soluções políticas mágicas. Ou alguém viu um anti capitalista confesso atacar o culto à matéria?  As criações mentais dos homens são precárias. Tão frágeis que a história chega a perder o rumo. E bem na nossa frente, a não linearidade do momento. Sim, há um sentido para a história. Imediato, imanente e presente. Fantasie momento como uma espécie de neutrino extraviado. Uma unidade dispersa. Uma partícula que pode ou não se soltar do resto. Efemérides elásticas. Um vestígio que rompe com o antes, e logo se desfaz do depois. Por isso, o agora é único e premente. E, ao contrário da nostalgia, da memória que evoca, e do que foi nossas cansativas colaborações do que é o tempo, o agora é nossa chance de vida provável. Uma chance. Enquanto procrastinadores e antecipados estão condenados a perder, nós viemos para estar. E, se a política é a grande efeméride, deve ser desconstruida a cada letra, a cada segundo. Ela não manda, nem comanda, não importa o que o se diga. Toda fração de tempo merece ser vivida sem que ela determine tudo. Viver por ela é perder a ficção, que, ao mesmo tempo, é a realidade. Os super racionalizadores que nos perdoem mas ainda temos algum chão antes de abrir mão da fantasia. O instante é uma revelação, uma singularidade, a faísca do big bang. Expansão sem moldura. Que se negue a constância, desminta-se a rotina. Erga-se o tijolo da descontinuidade. Que o barro seque nos grãos da ampulheta. Numa erosão lancinante, o engano perdura duplo: passado e posteridade. Imaginem universos constituídos por “jás”. Imaginem percursos sequenciais que apagam pegadas. Sem negação ou oposição à eternidade. ,é que seu tempo não pode ser comandado pela liberdade. Dela, somos súditos passivos, inoperantes, resignados. O mundo da ação exige originalidade. Atualidade das invenções. Imaginem toda pauta reconstituída com atualidade. Imaginem-se na aventura inaugural do homem. Conceba uma política de esvaziamento. Abandono das ideologias,  conceitos, da toda vida baseada em rastros. Imaginem a vida liberta das arqueologias, das ameaças, dos rumores inquietantes, das promessas invasivas, da democracia aprendiz. Se fôssemos mais homens e mulheres do presente, desprezaríamos ao mesmo tempo o pó, o passado,e o futuro. Para quem só consegue enxergar hedonismo será preciso reconfirmar: todo prazer pode estar no viver aqui, já.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/eternidade-do-instante/

Tags: blog conto de noticia, estar aqui, eternidade do instante, imanente, instante, já, neutrinos, singularidade

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Não mais reconheço lágrimas

14 domingo abr 2019

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Não mais reconheço lágrimas

Paulo Rosenbaum

31 Agosto 2016 | 15h54

Não mais reconheço lágrimas

Ofuscada a emoção, tudo virou cenário

Achavas realmente que igualar-nos em sofrimento,

Impondo silêncios, tornando princípios, mitos

Desalojando milhões e mudar regras às cegas

Nos condenaria à resignação?

Ah, agora lamentas os que ficaram de fora?

Alguma culpa pelo ônus e exaustão?

Pelo inassimilável custo dessa aventura?

Quem teceu o teatro escuso?

E a impostura dessa moldura?

A justiça, em obstrução, na contramão?

A única vitória é libertar-se sem libertadores

Ou deveríamos ceder à opressão?

Desvincular o abuso, do termo,

Do teu comando ativo, desgoverno.

Nos decretos e acordos que te perpetuaria

Na seda da hegemonia, à nossa revelia

Como nenhum homem é ilha

Devolva-se a República à calma

E às ruas, a alma

Retirada da inação e afasia,

A sede de fim da folia.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/nao-reconheco-mais-as-lagrimas/

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Indócil liberdade (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Indócil liberdade

Paulo Rosenbaum

29 junho 2016 | 16:11

“Constranger: as três primeiras acepções. 1. compelir, (à cabralina, braço forte, sob pretexto, contra a vontade)  2. restringir (inibição, restrição, refreio, percluso, coibitivo) 3. acanhamento. (modéstia, comedimento, humildade, arder o pejo nas faces pudibundas, envergonhar-se, atomatar-se, ficar cor de pimentão, desprezar a popularidade)”

Quer saber notícias? Elas não são boas. Isso é, depende da versão. Há uma espécie de dependência química de versões que vai sempre depender do que você quer olhar. As analises tem um único mas gravíssimo defeito, o analista. Todas estas consequências se devem à causa? Mas que causa é essa perguntou um estudante? Aquela que só nos inclui nas vicissitudes? Aquela em que o publico e o privado, emaranhados, estão dando nós?  Estamos cheios de razão, assim como cheios de versões para dar. Mas haveria um suporte unívoco para explicar o quadro? Algum aparato humano que nos aproximasse — por convicção ou exaustão — de uma versão menos viciada, menos cheia de nós mesmos? Haveria uma interpretação cuja neutralidade fosse tão intensa que a transparência de sua índole bastasse?  Alguma que nos trouxesse a verdade? Ah perdão. Já ia me esquecendo. Não há mais verdade alguma. Ou, melhor, ela está onde ninguém ousa pisar. Em nossos tempos a relativização transcendeu Einstein. Um ativismo relativador pronunciou seu veredito: nada pode ser considerado como vero. No máximo verossimilhante. Nenhuma boca pode ser considerada pura.? E, já que não há mais verdade (e pelo visto, nem mesmo critérios jurisprudenciais respeitáveis) podemos nos considerar liberados. Livres para opinar. E quando opino o que me concedem não é só a liberdade poética para tecer uma tese como expor todos meus nervos impregnados com o cinismo da incerteza. Este que vemos em declarações sucessivas depois das denuncias. Este, quando, às vezes pode-se ouvir no final dos noticiários: “nossa produção tentou, mas não conseguimos contato”. Estaremos naquele denial de proporções patológicas, geralmente profetizado e reservado para final de ciclos?

E, de quem estamos afinal falando? Deve, tem que haver, algum consenso mínimo que nos permita dizer quem são eles. De qual material são compostos? Ferro e aço? Serão autônomos que servem à revolução. Que nos execram, digo, nós a sociedade, os chupins aposentados da Nação?  Poderia usar a ironia, mas me assusto com as possibilidades de que estejamos tangenciando a verdade. Os que desinformam, os que violam, aqueles que, ao enunciar diálogo, decretam as conversas? Talvez o tempo tenha escolhido outro ritmo. Talvez nem mesmo o senso comum nos recoloque em acordo. Acordos pressupõem deposição das armas, e, como se sabe, espíritos customizados não se movimentam. No País inaceitável defende-se atentados, impedir professores de exercer seus ofícios não é crime, e torcer pela falência do sistema é uma atividade docente. Quando reclamamos da anomia ninguém suspeitava que o contraponto seria um Estado Policial ou a volta do arbítrio. E ele voltou, pela porta lateral. Na mão de um único poder despejou-se a constituição.

A liberdade, esse bem máximo, pode ser um insulto do lado errado das grades. Mas, mesmo assim, estão a nos persuadir diariamente: as instituições funcionam, o País goza da mais perfeita normalidade, as leis observadas. De um telescópio, em Órion. Eis que viola-se mais do que uma constituição por dia. Mas há algo neles muito mais imperdoável que tudo: nos fazer colar na tela para torcer pelas prisões, debates estúpidos, mentiras de ocasião, propaganda enganosa, corporativismo, seleção de palavras vazias, calada da noite, cargos comissionados, cultura suspeita, gritos estudados, histeria no senado, mortes sem sentido, poesia rebaixada, manchetes encomendadas, balas extraviadas, dossiês cruzados, filas de pedintes, pais sem oficio e mães perdidas.

Ajudaria admitir que o Mal tem alguma existência real. E ele está solto. Não só fora das grades, mas cooptando vozes e ameaçando a liberdade de centenas de milhões. Já me belisquei para comprovar. Não é delírio, mas pode ser um conto do Machado de Assis. Está em “O Alienista”. Há ali algo que está muito perto de se cumprir, para bem além da metáfora. Estamos todos em cana para que um punhado deles usufrua o espaço, limpo de gente, desinfetado das vozes que se opõem, higienizado por leis autocráticas. É duro assumir, mas o País é um imenso constrangimento ilegal, o problema é que só alguns pedidos chegam às cortes. Não é difícil ser inteligente ou santo, o difícil é ser justo.

É aí que me levanto e me ponho a postos. Dá para sentir que tudo pode mudar. A liberdade é uma entidade apressada e pode se tornar indócil.  Precisamos esquecer que somos pacientes e convencer o carcereiro. Uma hora dessas ele esquece a chave na fechadura.

Tags: “O Alienista”, blog conto de noticia, constrangimento ilegal, democracia, indócil liberdade, jogo democrático, lado errado das grades, Machado de Assis, o direito é justo?, o que é justo?, prisão e legalidade, timing da justiça

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Não é porque (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Não é porque

Paulo Rosenbaum

07 junho 2016 | 12:19

 

Não é porque removemos o entulho que podemos aceitar tudo, não é porque fomos as ruas que nos submeteremos à qualquer faixa, não é porque o crime compensa que nos tornaremos cúmplices, não é porque o progressismo falhou que seremos adeptos do atraso, não é porque a vigilância está mais atenta que aceitaremos o Estado Policial, não é porque a contaminação é geral que a infecção é a mesma, não é porque estamos em casa que as ruas não podem reaparecer, não é porque quem deveria nos representar falha, que a representação faliu, não é porque estamos sem uma boia intacta que usaremos o penúltimo prego, não é porque eles tem foro privilegiado que a maioria merece injustiça, não é porque as indicações foram feitas que a contabilidade de favores pode persistir, não é porque o Poder nos insulta que precisamos recusar a governabilidade, não é porque eles são nacional-desenvolvimentistas que estão errados, não é porque persistem na seletividade dos alvos que aceitaremos tiro ao alvo, não é porque eles foram grampeados que todos nós recusaremos garantias de privacidade, não é porque elegemos heróis que nos cegaremos ao narcisismo, não é porque temos paciência que o inflamação não cresce, não é porque desejamos paz que abandonaremos os motins, não é porque empobrecemos que a dignidade passou a ser um luxo, não é porque perdemos a inocência que hostilizaremos a pureza, não é porque as prisões pululam que teremos equidade, não é porque estamos confusos que não reparamos nas cores, não é porque a corte é soberana que aceitaremos absolutismos, não é porque naturaliza-se a exceção que ela deixa de ser selvagem, não é porque falta civilidade que a cidadania está perdida, não é porque o outono se prolonga que o inverno será relapso, não é porque enxergamos a insanidade que perderemos a lucidez, não é porque estamos aflitos que cassarão nossa voz, não é porque a espiritualidade se desorganizou que submergiremos na matéria, não é porque tudo foi se concentrando que a distribuição será barrada, não é porque os bolsos da pessoa física não se encheram que usurpar o Estado deixou de ser hediondo, não é porque estamos quase paralisados que esgotamos a vitalidade, não é porque preferimos a tolerância que não seremos contundentes, não é porque quem obstaculiza a justiça é quem deveria promove-la que o delito prescreve, não é porque um timing se impôs que ele veio na hora certa, não é porque sou eu quem digo que todos os demais não possam sentir de forma semelhante, não é porque as crianças estão sem infância que nós temos o monopólio da maturidade, não é porque a anomia chegou que não precisamos de parâmetros, não é porque a justiça social se arrasta que ela não avança, não é porque a compassividade nos inunda que a parcialidade pode prevalecer, não é porque podemos entender as motivações dos perversos que eles devem ser tomados como vitimas, não é porque nossa passividade é ancestral que as paixões foram extintas.

E por que ainda estamos aqui, e não lá fora, para berrar não?

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/nao-e-porque/

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Da Ignota Culpa de todo Cidadão (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Da Ignota Culpa de todo Cidadão

Já carimbou? Pois não? O que nós, o Estado, precisamos te relatar? Agora é oficial. Terás que conviver com o terror, aceitar a usurpação, renunciar à integridade, rejeitar a transcendência e submeter-se à imanência sem consistência. Nem notaram? Já estão rendidos. O trator pode parar. Vossos corpos, ceifados, prontos para as empilhadeiras. Se não fosse Nice seria Jerusalém, Orlando ou Dacca. Por que insistir neste tema? Ainda acham que vosso infortúnio é pertencer a essa geração? Céus, é claro que não. E quanto às crianças? Elas, que nem tiveram essa chance? De escolher se queriam pertencer. Não nos cabe responder. Como você deve intuir nós não somos responsáveis por muita coisa além da arrecadação.

Esgotadas as possibilidades de qualquer coisa estável,  reduziremos tudo às oscilações. Ao progresso que se conserva. À conservação do nada que progride. Uma instabilidade é só prenúncio, quando vezes já repetimos. Vocês não assistem programas partidários?  E a velocidade digital e os artigos descartáveis? E as facilidades do desconhecido? O xadrez impessoal das Potencias? O núcleo duro do inadiável? Como vocês devem saber essas radicalizações rápidas não se curvam e ninguém mais pode decidir sobre nada seja quem for eleito? Alguém capturou o espírito destes tempos? Terás que compartilhar o horror. Viverás num estado de animação suspensa. Não te será concedida trégua e ainda assim serás coagido a reconhecer nossa hegemonia. O mundo não era má ideia, mas agora, convertido, tornou-se compassivo com os crimes. Nosso delito tem uma vantagem. Insuperável. Podemos nos perdoar ou mudar de discurso, tanto faz.

As vítimas? Ora, são culpadas involuntárias por algum delito, da indiferença social à ganância. Do indesculpável aval à prepotência do passado colonial ao segregacionismo racista. Atenuantes? Tente outra saída. Sempre acharemos um furo para os seus álibis.

Vosso destino? Serão explodidos, envenenados, bombardeados e manietados por uma destas causas ou todas elas em conjunto. Quem se importa? Você que não deu abrigo ao refugiado, que não foi solidário, que não fez doações, também não escapara do nosso radar penitencial. Se tiver a oportunidade de ser trucidado, desconfie de você mesmo. Se quiser achar teu algoz culpe sua natureza egóica insanável, afinal foi ela quem te colocou no paredão.

Cidadãos, ouçam, não é nada pessoal, mas este Estado aqui não mais te protege. Decidiu que têm muito mais o que fazer. Não se ofenda. É que elegemos outras prioridades. Por que você não foi consultado?  Você sabe distinguir a causa justa das suas necessidades pequeno-burguesas? Não? Pois é, por isso mesmo tomamos as rédeas e decidimos quais causas merecem precedência. Vamos resumir para que o Senhor entenda e memorize de uma vez por todas: o sujeito individual perdeu a importância. E o interesse. Deste ponto em diante nós só lidamos com multidões, rebanhos e lobos solitários. O Senhor vai insistir e protocolar uma reclamação? O nosso SAC encontra-se indisponível. Tente depois das eleições, até lá teremos novidades no guichê

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-ignota-culpa-do-cidadao/

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Não mais reconheço lágrimas (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Não mais reconheço lágrimas

Paulo Rosenbaum

31 Agosto 2016 | 15h54

Não mais reconheço lágrimas

Ofuscada a emoção, tudo virou cenário

Achavas realmente que igualar-nos em sofrimento,

Impondo silêncios, tornando princípios, mitos

Desalojando milhões e mudar regras às cegas

Nos condenaria à resignação?

Ah, agora lamentas os que ficaram de fora?

Alguma culpa pelo ônus e exaustão?

Pelo inassimilável custo dessa aventura?

Quem teceu o teatro escuso?

E a impostura dessa moldura?

A justiça, em obstrução, na contramão?

A única vitória é libertar-se sem libertadores

Ou deveríamos ceder à opressão?

Desvincular o abuso, do termo,

Do teu comando ativo, desgoverno.

Nos decretos e acordos que te perpetuaria

Na seda da hegemonia, à nossa revelia

Como nenhum homem é ilha

Devolva-se a República à calma

E às ruas, a alma

Retirada da inação e afasia,

A sede de fim da folia.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/nao-reconheco-mais-as-lagrimas/

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O reino amarrotado (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O reino amarrotado

Paulo Rosenbaum

12 Novembro 2016 | 12h00

O que fazer com povos que não sabem votar? É assim que os fóruns se saem ao deparar com resultados desagradáveis que recusam as previsões. Se for mesmo preciso, troque-se o povo, mantenha-se o governo. Os consensos destes pequenos e poderosos comitês tem repulsa por resultados desfavoráveis ao prognostico. Trata-se de uma clínica peculiar, ninguém mais precisa consultar o enfermo. Basta sair de uma reunião com rumores e deita-los na mesa do chefe da redação. Escrevi faz algumas semanas que a polícia definiria as eleições. Influenciou, mas não foi decisiva.

A democracia serve desde que aqueles que escolhem sigam a trilha exigida pelos que se acostumaram a pensar por todos. A intelligentsia nos proporciona essas e outras benemerências por dó de nossa inconsistência, por compassividade com nossas lacunas intelectuais e penalizada com a ignorância popular que ainda não captou o valor do sacrifício. No dossiê fica claro, a falta de erudição da classe média foi a grande responsável por “franjas de rancorosos” e “bolsões de intolerantes” que não entendem o significado das próprias decisões. Esta elite acadêmica merece respeito pois poupa-nos do desconforto das escolhas que teríamos imensas dificuldade em fazer. Estes facilitadores do voto evidente de bom grado aceitam uma peculiar diversidade: a multiplicidade homogênea de opiniões. Em resumo, não tem tanta certeza de que todos estejamos preparados para a democracia.

Formadores de opinião são todos sócios nesta matéria. A credibilidade dos consultores políticos, cientistas sociais e institutos de pesquisa que analisaram as últimas eleições só não está arrasada porque os critérios para avalia-la evaporaram junto. Uma fumaça incomoda. O vapor penetrou no desejo de escolher pelos outros. Bom mesmo seria a ditadura dos corpos docentes. O wishful thinking que vem ocupando as cátedras. Suas expertises fariam toda a diferença se ao menos tivessem o aval para instalar o cabresto, leve, prático, não incomodaria e  seria descartável.  Mínimo, poderia ser levado até a boca da urna para depois ser descartado em algum beco sem saída. Seria, inclusive, biodegradável.

Decerto que os populistas estão em alta e a vida culta deveria zelar por práticas políticas mais civilizadas. Mas para os titulares da sabedoria, há coisas mais importantes em jogo como, por exemplo, preservar o status quo. Para isso, seria vital convencer todos — sempre se pode recorrer às  campanhas publicitárias com financiamento público — de que o establishment nunca esteve tão saudável. De que está tudo sob controle. É preciso reforçar a tese de que só há um lado enfermo, o resto está nas mãos da neurose, ou dos liberais, tanto faz.

Não foram só analistas, nem cientistas políticos ou a mídia: todos os critérios e instrumentos de predição ficaram em estado de animação suspensa. Isso significa que a escolha num pleito democrático deve prever a histeria da surpresa. E no manual, a saída de emergência está no primeiro parágrafo: “1- Em caso de derrota criar o clima da presunção catastrofista”. A adoção de 1 “repara o terreno” e ajuda a disseminar o item 2:  Afirmar veemente e persistentemente: “nós não dissemos?”.

Mas os dados de solo indicam que a aversão ao populista anti estético explicita como nunca a seletividade intelectual. A análise descarta a realidade e foge com a fabulação daqueles que monopolizaram o bem pensar. Não houve um só que previsse que as escolhas se afunilariam até o drama. Foi então que, num tardo reflexo, perceberam que para negar a trombeta seria necessário santificar o establishment.

Sempre funcionou, mas eis que a velha formula vem perdendo vinco. Que venha o reino amarrotado.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-reino-amarrotado/

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