• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Seis Milhões (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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PUBLICADO NA COLETÂNEA “A PELE QUE NOS DIVIDE”, Quixote-Dô, Belo Horizonte 2018

SEIS MILHÕES

I

Os seis estão bem aqui.

posso senti-los
 sob meus pés,

regulares, como todas as descidas,

rítmicos como gelos.

intensos como arestas

No declive de gênero fantasiados de corporações 
nos trens improvisados,

como máquinas de extração enquanto metrificavam judeus

a IBM e a Krupp
 acendiam os fornos da despensa

Do trem, digo
 não era noite ou fumaça

e de todos os dias,

o carrasco detinha 
os trilhos da proficiência

Não vi campos,
nem sinais de gritos, ou angústia das vítimas

senti cada parada
cada pequena que viveu nas cavernas preservadas nas coleções intactas
ou na predação canônica

A seleção naturalmente objetivada pela negação da naturalidade.

Não me interessa que não vi, (nem quem não viu),

Nem quem soprou seu silêncio para o vapor da constância,

de quem preferiu as mãos
 que alimentam quem dizima.

Só saberemos quando vivermos nos esconderijos desacreditados

na sonolência de nossos

dedos ou nas qualidades extintas,

como nós,

extintos.

Não importa (nunca importou) o cultivo,

mas a produção,

o apreço por resultados,

o rastreamento de objetos

que com vida ou sem melancólica será,

Aí temos o protocolo superado a experiência romântica

sustentada na escala

Enquanto o mundo pensa em paz,

Na calma capturada do carvão dos ossos

A travessia que importa

Usa força do solo como tingimento,

E, como furos em flautas 
alternam sons com acendimento

de vela perfiladas,

nas presenças sem sequência.
na curva do mundo

Na atenuação final de vidas em estudo

Porque nossos olhos retêm 
o não expresso

E, como trens, invadimos o mundo com troncos negros

Na matéria que se impõe como referendo do espírito,

Agulham nossos dias com palheiros e, à latitude da ilusão.

Aterram o assombramento

Tudo, tudo mesmo 
é para que essa perplexidade

gere totens 
e olhos sem braços

nos alcancem
 em noite de cristais, pogroms ou vidraças

nos nomes que esfacelem a realidade,

que, sem chances, observa 
a violência do descuido

Mas a noite, sim, anônima

Impõe a presença

Recontada ao infinito

Mesmo que cada grão do carbono esgotado

Entupa de maturidade as nações

Achamos que, 
do tabuleiro de onde estiver, deves absorver tuas regras.

II

Para infortúnio geral

Somos um passado atento

Seis milhões nas curvas

Assistidos com a brutalidade da demora

O esquecimento do mundo

A carga excessiva

Que impressiona apenas
os tolhidos da cena

(Em Stuttgart testemunham-se monumentos nos quais as vítimas são eles)

Mesmo à distância do meio do atlântico

Estancaremos perto do nada

Só faz 70 anos

Os campos estavam nos libertando da vida

Enquanto a eugenia dos doutores 
do partido

Subiam de incenso na mente do povo do silêncio

Ah, estamos em comunhão

Mas, para registros futuros jamais

o barômetro do céu agirá aqui-agora

como o esmagamento do ali-afora.

STUTTGART–PARIS JUNHO.2007

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Privatizem os homens públicos (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Privatizem os homens públicos

Como primeiro homem público privatizado da história ele não sabia se deveria agradecer ou lamentar sua nova condição. Para ele era inédito ser um homem normal, cidadão equiparado a todos os outros na República. Estranhou sentar em frente à mesa por 8 intermináveis horas para exercer um ofício remunerado. Com alguma melancolia, percebeu que precisava acordar, usar transporte público para dirigir-se ao seu emprego, segundo na vida, aos 68 anos. Claro que para ele, ex-homem público, que sempre se considerou um trabalhador e até forjou uma sigla com o nome, os políticos e os parlamentares que elaboravam leis para que o resto da sociedade obedeça não são meros cidadãos. Líderes que comandam o rebanho não podem, por princípio, estar submetidos às mesmas regras que os comuns.

No íntimo, ele e seus companheiros sempre souberam que, em sua grande maioria, sua atividade não passava de um pseudo protagonismo. As leis criadas e recriadas ao gosto dos fregueses não passavam de regulamentos medíocres, ordenações inúteis e até mesmo prejudiciais ao conjunto da sociedade. Apesar disso ele gostava de discursar e frisava sempre o quanto se esforçava para obedecer o juramento que fez de defender os valores republicanos.  “Viemos recuperar a ética na política e atender ao conjunto da sociedade”. Por mais que tentasse, ele não conseguia se libertar de uma ideia obsessiva — desde que assumiu o cargo de deputado federal e finalmente presidente da República aclamado  — de que a sociedade tinha um débito com ele. Quanto mais ele governava mais ele se convencia de que a dívida era impagável.

Eis que aqueles que o orbitavam começaram a pensar como ele. E, ele mesmo, começou a acreditar nas palavras de ordem e slogans mistificadores que criou originalmente para ludibriar as massas.  Sua tese foi ficando cada vez mais sólida: no lugar de civilizar as instituições ele as rebaixou ao servilismo corporativo. Em vez de transformar a cultura da corrupção ele a alçou a um patamar inédito e naturalizando-a como mais um que fazer político.   Foi assim que passou a entender ser “homem público” no Brasil significava pertencer a uma casta, ponto final. Este berço de homens intocáveis e invioláveis era para ele a prova de que sua concepção particular de democracia triunfara no País. Aqueles que nasceram ungidos para governar estão — sem falsa modéstia — num patamar acima do resto. E assim como ele seus parceiros se associaram numa coalização onde o mal feito vingava desde que as urnas consagrassem os nomes que ele abençoava com a maldição fisiológica. Encontrou parcerias proficuas em todos os partidos para saquear o Estado, com salvaguardas plenas dos outros poderes e do grande capital.

Chamem como quiserem: evolução, darwnismo social, triunfo da esperteza, ou ética pessoal. Segundo ele ou “a sociedade aceita o que idealizamos para ela ou é melhor que ela nem exista”. A seita cresceu e o aparelhamento tornou-se natural, afinal ele personificava o “nós” e todo resto da sociedade era apenas o “eles”.  A desconstrução começou tarde, quando os postes eleitos por ele demonstraram suas desastrosas autonomias destruindo a economia. Foi quando perderam a esportiva sob vaias épicas e protestos de milhões.

Ainda naquele seu primeiro dia de sua volta à vida civil, notou que a palavra “emprego” e “assalariado” lhe causava um imitigável sentimento de mal estar difuso. Ele bem que tentou consertar a linguagem, uma de suas especialidades. Exigiu que pelo menos os seus lá de casa mudassem a forma como chamavam sua nova tarefa: doravante deveriam somente se referir às suas atividades como “oficio” ou “atividade regular remunerada”, jamais “assalariado”, nunca “funcionário”. Mas, apesar do apelo ter sido atendido por alguns dias, parentes logo esqueceram e voltavam a pronunciar as malditas palavras.

O verdadeiro choque foi quando ele completou um mês de atividade regular remunerada. Ele olhou a página recebida das mãos do chefe do RH e procurou, mas era aquilo mesmo, só meia página com um boleto. Ele nunca havia visto um holerite, sempre teve secretárias, assessores, seguranças, churrasqueiros, fidalgos, discípulos, pupilos e vassalos para fazer essa e outras tarefas de pequena monta. Ele não poderia confessar nas redes de TV nem nos comícios do partido, mas ele passou a se conformar que se não fosse o acumulo que conseguiu na vida publica, toda sua carreira seria um completo embuste.

Sua prole e futuras gerações estariam garantidas para todo o sempre e sua recém criada casta sobreviveria até às mais graves crises econômicas, a maioria delas, gerada pela sua errática política que ele mesmo apelidava de “contabilidade criativa” e “nova matriz econômica”.

Às vezes, só por diversão, ele pedia que seu cozinheiro lhe apresentasse seu saldo bancário e a lista de suas propriedades amealhadas através das vantagens indevidas utilizando o dinheiro público. Quando alguém um dia ousou lhe perguntar se não não sentia nenhum remorso pelo que fez ao País, ele respondeu com a convicção dos mitômanos:  “não tenho meu caro, encaro isso como um ressarcimento, a sociedade me deve tudo isso e muito mais”. Costumava ser aplaudido de pé por aqueles que usufruíram dos benefícios de seus decretos e medidas provisórias. Foi assim que elegeu postes e — com a ajuda da mídia e de intelectuais graduados — ficou blindado e imune às críticas.

Agora, sem bens, com amigos em buracos e esconderijos, e com a pena alternativa que se seguiu à sua temporada na prisão ele teria sua chance de ressocialização. Segundo o despacho dos juízes que em uma inédita sentença proferiu:

“Não há uma solução simples mas nós do judiciário entendemos que o primeiro passo será privatizar os homens públicos.  Seu maior crime não foi a corrupção sistêmica, nem mesmo a fortuna pessoal que acumulou, mas ter destruído a democracia inclusive criando personagens idênticos, aparentemente opostos a ele.  Agora que não temos mais um Supremo, mas este imenso colegiado de juízes independentes, sem vínculos partidários ou ideológicos, podemos avaliar melhor como o sistema foi pervertido. Só com este tipo de apenamento estes homens que já foram públicos, e agora privatizamos, poderão conhecer o ordinário e abandonar coercitivamente a fantasia de que são especiais. Desta forma é melhor que este condenado passe a vivenciar um pouco a sociedade que ajudou a criar. Que ele aprenda como é experimentar a vida e as dificuldades de um homem comum. Que sinta como é viver como a maioria das pessoas. Sabemos que este senhor  — que segue com sintomas de que é um grande personagem e tem aspirações messiânicas  — deve vivenciar essa novíssima modalidade de punição como uma última terapêutica. Mesmo, como reiteram os laudos, estando no limite do incurável, acreditamos que ele ainda tenha chances de ser reeducado”.

Ao final daquele mês de trabalho, repreendido por fazer “jogadas” com seus colegas de sala, tendo simulado várias doenças e depois de tentar convencer seu chefe a dobrar sua fortuna insinuando que teria contatos para conseguir um pacote de desonerações, foi despedido por justa causa. Sem emprego estável ele voltou para o sistema prisional, onde atualmente cumpre o restante da pena e negocia palestras em troca de redução da condenação prometendo dar um jeito nos que o mandaram para a cela.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/wp-admin/post.php?post=5754&action=edit

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O poder viciado (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O PODER VICIADO

O poder viciado? Hoje ele tem uma prioridade. A única. Precisam escapar do juízo, dos jurados, dos julgamentos. Poderíamos inferir muitas coisas, discordar do uso abjeto com que os infortúnios são usados. Ficar indignados em detectar como a manipulação política nos direciona nas causas e consequências do trágico.

Mas, em nome da nitidez é bom que se diga, antes de tudo,  que a vereadora carioca, neste evento, foi vítima de um ato de terror.  Assim como todo transeunte, como os policiais, como os cidadãos que não puderam contar com ninguém e, agora, abandonados em suas sepulturas. É preciso suspender o juízo ideológico para declarar que nada justifica a morte de inocentes. E, ao mesmo tempo, tudo se justifica no combate contra aqueles que matam inocentes. Sim, inocentes. A maioria. Mas qual maioria? A maioria encontra-se submetida. A maioria está amarrada. A maioria está engessada pela inércia. Tolhida pelas explosões de informações contraditórias plantadas pela realidade, as naturais e as artificiais. Com todos os fuzis à mostra é preciso explicitar: sem expor a marca do cassino que representa — há mais de uma rede apostando pesado no “todos contra todos”.

Todo mundo sabe, a guerra é contra os civis, mais de 60.000 mortos por ano. Sete assassinatos por dia. Para além da epidemia de homicídios quem se importa com a dor individual? Quem só pensa no acerto de contas? Sob o prédio imponente da orla arrematado pelos graúdos e impunes chefes do crime, os mandantes controlam as câmeras com drones. Dominam completamente o ciclo malévolo que criaram. Trafico de influencia e desvio de função. Tempo de latência e pesquisas de opinião. Tudo se mistura num turbilhão de medo e confusão.

Aqueles que se dizem contra hegemônicos montam a escada para alcançar definitiva e permanentemente a hegemonia. Ninguém precisa supor isso. Não depende de interpretação. Eles confessam em suas timelines, em seus blogs, em seus programas partidários: é isso mesmo. Com a cabeça feita pelos psicofármacos das drogarias ou pelos fármacos sem patente, negociadas por um punhado de pacotes, que prometem vender a leveza perdida, afinal a grande demanda atual é anestesiar toda má consciência. A violência é o ópio do povo.

Estamos submissos a uma omissão programada e programática de um Estado abúlico. Por planos de sabotagem rabiscado em bilhetes. De uma pacificação que acabou como capitulação ao fuzilamento da sociedade. O Estado que não funciona é cúmplice. Os interesses sociais de quem deveria zelar pela sociedade há muito deixaram de ser direitos coletivos. É possível sentir na pele que o poder age a favor de quem demonstra força. De quem a exerce sem relutância. Com balas, com sangue frio, com a mira em punho, com truculência profissional, como usurpação das funções. Nas contundentes palavras de Viktor Frankel — psiquiatra sobrevivente do Shoah que fundou a corrente conhecida por logoterapia:

“O sistema político está comprometido porque o poder está nas mãos de minorias que usam o poder de forma indecente.  Só existem duas raças: a raça das pessoas decentes e a raça dos indecentes”.

Cedo ou tarde a decência terá que impor sua paz.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/poder-viciado/

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Bolo Bem Brasil (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Bolo Bem Brasil

O prato Bolo Bem Brasil Brasil é de sabor doce-amaro, feito com uma federação patina dourada em banho-maria, levado ao forno com lascas corporativas baseadas em vantagens indevidas, recheado com desvio de função do Estado e regado à creme embrulhê.

Modo de Preparar

Reservar urnas eletrônicas inauditáveis e colocar no micro-ondas e insista em cobrir tudo com papel mantega. Separar laranjas maduras com muitos parentescos e espalha-las em uma forma especial por longas extensões territoriais. A carne deve ser padrão exportação e precisa repousar inerte no Planalto.  Esperar até que asse ao ar bem livre. Deixe descansar antes de esperar. Se algum procurador estiver por perto, esqueça, ele costuma errar feio o ponto certo. Delate qualquer alteração de cor e verifique o prazo de validade apócrifo gravado do Frigorífico goiano. Reservar abobrinhas frescas picadas recolhidas do sítio do ex-amigo do partido. Retirar do forno, picar cebola e, sem chorar, verter leite derramado por cima até que a bandeira vermelha indexada sofra aumento. Esperar o bolo inflar sem crescimento e nunca reparti-lo, a não ser migalhas que você pode juntar em bolsa do tipo família.  O grosso pode ser cortado e dividido entre chegados nomeados para cargos de chefs vitalícios. Em seguida esfrie e unte com fina camada de óleo monopolizado. (importante checar se a usina escolhida tem ferrugem incomestível de Pasadena, pois a receita ficaria impagável) Desonere a farinha com economia criativa e um caminhão de vantagens gourmets. (há uma receita variante com massa podre alienada) Esperar para colocar fermento popular a gosto e tiras de tarifas mal assadas e bem esticadas. Amasse as batatas quentes e recheie com pato ao contribuinte. Ao jogar pimenta malagueta, cuidado com os olhos dos outros. Levar ao forno por tempo indeterminado, cuidando para não torrar. Retire e salpique com folhas de arruda brava para afastar olho gordo e manter o regime sem nenhuma oposição. Retire a constituição da cozinha e deixe-a como sempre fechada na sala ao lado, o vapor costuma deixa-la com odor desagradável. Finalmente verifique se a camada triplex está no lugar e flambe tudo com gás subsidiado até formar uma crosta caramelizada que na alta culinária chamamos “erosão de estado”. Enfie o dedo do meio — atenção para não meter a mão — e prove. O sabor é bem excêntrico.

A receita está pronta para ser saboreada.

Recomendações

Mesmo que algum desavisado libere, não eleja nenhum ingrediente que esteja condenado.

Ao servir para estrangeiros  avise que é “very typical” ou “bem típico” e que será preciso paciência com nosso ágil sistema legislativo pois para aprovar o prato já conta com duas medidas provisórias e 116 projetos de lei prontos, em fase final de um trâmite de alguns anos.

Se for apresentar a receita em cadeia nacional no horário gratuito mostre sempre o lado fresco do prato (costuma embolorar rápido)

Sem o carimbo de inspeção federal e os 38 impostos recolhidos o produto não poderá ser consumido.

Servir a cada 4 anos recomendando moderação e mastigar bem antes de cada garfada, pode ser de difícil deglutição.

O Ministério do Desabastecimento adverte, pode causar refluxo e dependência da segunda instância.

Fica eleito a comarca de Caracas no caso de insatisfação do consumidor com os insumos providos pelo BNDES. (se quiserem a receita você pode dizer que é segredo de Estado)

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/bolo-bem-brasil/

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Fisiopatalogia da culpa e a elisão na linguagem (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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É muito provável que quem viu o excelente filme “1945” (Hungria, 2017) ficou apreensivo nas poltronas e saiu com a sensação de ter vivenciado uma experiência única: acompanhar didaticamente as etapas de como opera a fisiopatologia da culpa. Sabe-se que cerca de 250.000 judeus foram mortos nos países do leste europeu depois que o nazismo já havia sido oficialmente derrotado. O filme — que se passa num pequeno vilarejo húngaro — mostra dois judeus vestidos em trajes tradicionais ortodoxos voltando de trem para o que seria sua cidade natal. Sua enigmática chegada agita a vila com apreensões e, mais uma vez, reacende-se — num conhecido e abjeto automatismo — o “problema judaico” como Marx gostava de se referir aquele que seria um elemento estranho e perturbador dentro de suas propostas ideológicas. É sempre assim com doutrinas e ideologias, quando alguém ou alguma coisa não cabe nela, classifique-a como “problema” e, quando ninguém estiver por perto, elimine-a.

Imagino que boa parte das pessoas gostaria de acreditar — por conforto, estratégia ou omissão — que isso é passado e o antissemitismo é página virada. Pois não é. Não faltam exemplos atuais. Uma parte dos legisladores na Polônia resolveu aderir à estratégia revisionista em alta mundo afora. A novidade agora é abolir o passado ou renegá-lo (o que parece ser cada vez mais tentador quando se fundem caneta e poder) através da criminalização instrumental da linguagem. A partir de agora o uso de expressões como “polish death camps” ou “campos de extermínio poloneses” será rigorosamente punida.  Em recente sessão o parlamento polonês aprovou a resolução, que depois foi aprovada pelo senado, e agora apenas aguarda a sanção presidencial para entrar em vigor. O conteúdo poderia ser engraçado se não representasse um escárnio contra a história e um atentado à livre expressão. A lei em vias de ser aprovada: será crime passível de punição legal e pena que inclui a prisão por até 3 anos de detenção para quem, por exemplo, usar a expressão “campos de extermínio poloneses”. De fato, para sermos justos, os campos onde se naturalizou a chacina e a crueldade contra judeus e outras minorias, foram instalados pelos invasores alemães em território polonês. O que não se consegue explicar — e a justificação funcionaria como confissão — é por que 250.000 judeus encontraram a morte, a espoliação de bens e a expropriação de patrimônio bem depois que os nazistas foram derrotados. A solução imaginada é apenas uma tentativa ineficiente de reverter a culpa pela conivência de uma parcela da população e governo poloneses à época da guerra. Mais eficaz seria mudar esta percepção expondo os horrores de toda forma de intolerância, mas as soluções fáceis e sinistras são as mais caras ao nosso tempo. Virou hábito retorcer os processos históricos, de fato é um dos vícios em nossa era.

O que vale notar é que fenômenos como este denotam — mais frequentes nas extremas esquerda e direita — algo para além do mero revisionismo. É a linguagem que entra em mutação para construir uma elisão instrumental da linguagem. E a armadilha não é só a proibição de narrativas incomodas. A legenda do clube associativo Psol-PT recém publicou uma nota que repudia a presença da comissão LGBT de Israel na parada Gay realizada em São Paulo, por sinal, o único País democrático do oriente médio e também o único que não discrimina esta comunidade. Enquanto isso, os arautos da probidade socialista exaltaram a delegação palestina onde os gays são rotineiramente esfolados vivos. Não é caso isolado, a estupidez política assumiu proporções de pandemia e a desonestidade intelectual assumiu o comando naqueles que deveriam ser os grandes centros do saber.

O mesmo engano persistente na análise do acirramento atual entre Israel e as organizações que declraram abertamente em sua “carta”constitucional o desejos de exterminar aquele Estado. A estratégia adotada, e muito bem aplicada, por parte dos grupos terroristas, com destaque para o Hamás que oprime — diante dos olhos inertes do mundo — os cidadãos na faixa de Gaza. Usando táticas da chamada guerra assimétrica e financiado pelos aiatolás iranianos, monarquias árabes  e jihadistas mundiais eles buscam na imolação de sua população civil numa tática para fazer ressaltar a suposta “desproporção” de forças. Apesar de ser patente o desequilibro, nem de longe, ele tem sido transferido à ação. Existem vários relatórios — pouco divulgados por uma imprensa especializada na pré condenação do Estado judaico — que as forças de defesa de Israel têm um dos exércitos que mais se preocupa com a preservação da população civil.

Está acontecendo em tempo real, aqui e agora. Hoje mesmo que é o dia final do Ramadã, o mês de jejum dos islamistas, a população civil de Gaza está sendo “convocada” — a 100 dólares a cabeça — para ir até a cerca que separa os dois territórios para lançar pipas incendiárias, coquetéis molotovs e outros artefatos caseiros, porém mortais, contra a fronteira sul de Israel. A mídia tem se esmerado em cobrir o “lado mais fraco” esquecendo-se que Israel já devolveu Gaza aos palestinos há quase uma década além de fornecer água, combustível e energia aos seus habitantes, a despeito dos mísseis e morteiros que recebe em suas cidades, nos parques e nas escolas do sul do País. Enquanto isso boa parte da ajuda bilionária recebida é direcionada pelos dirigentes palestinos para táticas de guerrilha, compra de material bélico e construção de túneis para infiltrar terroristas Vale dizer, Israel pode cometer erros, mas entre eles nao está a despreocupação com o caráter e espírito humanista que fundou as bases sionista para o retorno dos judeus à sua terra ancestral.

O que se vê entretanto na linguagem escrita e falada — No Brasil e pelo mundo — sao as velhas e ressuscitadas acusações contra Israel e seus habitantes que sim, lembram a pregação sistemática contra os judeus durante o III Reich alemão. A testeira dos jornais e nas manchetes Israel figura como um vilão a priori, de qualquer forma, em todas as circunstâncias. É sob esta manipulação que vivemos, com o agravante de que isso é muito mais grave do que a mera adulteração das notícias: envolve um esgarçamento da linguagem. Um passo então, para tentar obter o monopólio do pensamento. Assim, a comunicação confessa, sob tortura, que a elisão linguística encontra-se de fato instalada no mainframe. Pois o que será que estes jornalistas e professores universitários aprenderam na graduação sobre o conflito israelo-palestino  senão uma doutrinação maniqueísta reiterada e nada reflexiva de que o Estado hebreu é o algoz e a eternas vítimas são os palestinos. Pois não é  que as “vítimas” escutaram as aulas magistrais e assimilaram a doutrina?

Hoje as lideranças terroristas perceberam que a propaganda de vitimização e falseamento de dados e imagens traz um saldo um pouco mais efetivo e é bem mais econômico do que providenciar a logística para os homens-bomba. A tática tem cobrado um alto preço para os judeus em Israel, mas também fora dele. O que o Ocidente ainda não detectou é o tamanho do arrastão que o aguarda. O preço impagável que essa mesma demonização gerará, como efeito-espelho — sobre as sociedades europeias como um todo. Se os refugiados merecem abrigo, o mesmo não se pode dizer dos jihadistas do Islã radical, que hoje gozam de tolerância excessiva dos países da União Europeia. No entanto, à portas fechadas,  já é possível perceber a insônia em Bruxelas e alguns começam a admitir o tamanho do equivoco em receber milhões sem criar uma estrutura econômica e social que os acolha. E principalmente a indulgência exagerada O excesso de civilidade com a barbárie pode ser um sintoma de falência da cultura, pois como escreveu Isaiah Berlin, “liberdade para os lobos significa morte para as ovelhas”.

Segundo a matéria publicada no NYT, a intenção dos legisladores é redirecionar a culpa que ainda pesa — justificadamente — sobre a Polônia durante a segunda guerra mundial e fazê-la recair, exclusivamente, sobre os nazistas alemães. Este escritor, descendente de judeus poloneses — cujo avô serviu o exército da Polônia  —  tem orgulho de ter ele mesmo uma parcela polonesa e sugere portanto que as autoridades locais abandonem ou reformulem o projeto.

A história já nos ensinou que a farsa, mesmo quando muito bem estruturada, acaba desmontada pela própria força dos eventos e, como um elástico super tensionado, quando não há mais nada artificial que o detenha, volta com violência à posição original, espirrando para longe toda impregnação manipulada. Há um bumerangue à deriva, e ele está vindo com força direto em nossa direção. Desta vez, não nos desviaremos.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/fisiopatologia-da-culpa-e-a-elisao-na-linguagem/

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Dicionário Eclético Universal (últimos adendos) Estadão

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Dicionário Eclético Universal (últimos adendos)

Toga

Subs. Masc. Manto escuro e mágico muito utilizado para fazer desaparecer inconveniências políticas.

Capa mutante inventada em Brasília que transforma quem o usa em legislador monocrático.

Copa

Subs. Fem.

Empoderamento do topo das árvores.

Sin. Playground onde Putin vem exercitando czarismo ao ar livre.

Foro

Exemplos na literatura

“Querida, parece que deu cupim no forro privilegiado” in Peças anedóticas (San Bernardin)

Polarização

Estado de animo artificialmente exaltado, geralmente usado para simular oposição entre dois lados idênticos. Obs- pode apresentar variantes com sinais invertidos.

Ref. Não confundir “polarização” com respostas ao absurdo.

Ref.2 “Esquerda e direita unidas, jamais serão vencidas”(Nicanor Parra)

Oposição

Antiga, anacrônica e ultrapassada prática antes comum no sistema político chamado democracia, que consistia em fazer resistência à situação. Hoje desmoralizada e em completo desuso, especialmente na América Latina.

Fundo partidário

O oposto de raso tributário. Prática de legislar recursos marketologicos em causa própria emulando benefício coletivo.

Sin 1. Nomenclatura também usada como sinônimo de “fundo perdido” na linguagem popular.

Sin. 2 – 1.7 bilhão.

Recesso parlamentar

Cantinho escuso reservado para negócios de baixíssimo interesse republicano.

Militantes

Robôs com rebaixamento cognitivo comandados por controle remoto. (Obs- pilhas de fábrica duram muito pouco, recomenda-se reclamar com o produtor)

Fake news

Antônimo contemporâneo  de “eu sou a única verdade”

Transmissão obsessiva-paranóica ininterrupta da rede Cnn.

Ref. Não confundir com má interpretação de texto.

Concertação geral

Indução sistemática de amnésia coletiva.

Sin. Acordão para eleger representante ao cargo máximo com compromisso de conceder anistia ampla, geral e irrestrita aos criminosos institucionais.

Estadista

Espécie política sob risco de extinção. O registro do último espécime foi um avistamento numa floresta austral patagônica. Segundo relatos de testemunhas ele cobria a nudez com tanga de folhas avulsas descartadas de texto constitucional.

Desvio de função

Culto religioso ortodoxo praticado no Brasil por 13 anos.

Ref lit. “O Bessias está indo te entregar”

Constituição federal

Carta sem destinatário conhecido.

Sin. Objeto usado para idiossincrasias hermenêuticas. Rel. interpretações especializadas na arte da distorção.

CPI

Prática de investigação protelatória.

Ref. Simb. analogia na literatura “Para inglês ver”.

Condução coercitiva

Meio de transporte inevitável em grandes centros urbanos brasileiros.

Supremo Corte

Espécie de talho especial muito usado na alta costura.

Ref. Costuma expor decotes por muitos considerados indecorosos.

Acordo nuclear com o Irã

“Plutônio pode? ” Frase atribuída ao líder moderado da Guarda Revolucionária antes de ameaçar despejar material radioativo nos Países que ameaçaram não endossar o pacto.

Kim Jo

Conhecido golpe publicitário narcisista de corte de cabelo

Antissionismo

Doutrina que com pequenas ressalvas éticas prega a destruição dos judeus e de Israel

Antissemitismo

Doutrina que, sem ressalvas, prega a destruição dos judeus e de Israel

Petrobrás

Monopólio em permanente campanha por subsídios da sociedade.

Sin. O combustível mais caro do planeta.

Esquizocracia

Regime político baseado em acordos contraditórios, neologismos e governança baseada em slogans.

Sin. Estado de anomia gerenciado como se houvesse uma estratégia de Estado.

Homens públicos

Sujeitos com vaga noção de diplomacia, economia e estratégias para construir políticas públicas que postulam cargos legislativos com campanhas de marketing bilionárias.

Analog. Frequentemente são notórios iletrados, exímios locutores, ilustres atores amadores, rufiões nas horas vagas, imitadores de auditório, oportunistas fisiológicos que chegaram à linha sucessória, ex membros párias da hierarquia militar que pregam truculência ou eleitos que ocupam efemeramente o mandato alegando sacrifícios em busca de cargos mais altos.

Estado Policial

Movimento messiânico que pregava a solução política universal na suspensão das garantias individuais.

Segunda estância

Lugar onde alguns podem acabar gozando mais liberdade que outros graças às estâncias superiores.

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A falsa hermenêuticado jornalismo instrumental (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Como se não bastasse o excesso de realidade nos empurrando ao beco, surgiram, nos últimos dias nas redes sociais e fora dela textos que se superaram em matéria distorção. É perturbadora o volume de desonestidade intelectual a serviço das causas. As peças mais recentes migraram às mídias jornalísticas com uma matéria publicada na FSP onde se traçava paralelos (sic) entre a política migratória norte americana e a estratégia nazista conhecida como “solução final”.

Esta e outras obras primas da política comparada tem aparecido com inédita abundância. Sob o generalizado pretexto de classificação falso  ou verdadeiro, empunhando a expressão “fake news”, os lados se acusam simultânemente. O resultado é a péssima qualidade da informação e o jornalismo a desserviço dos leitores. Se por um lado com esforço e honestidade é possível diagnósticar falsas notícias é muito mais complicado — mas a verdadeira tarefa do jornalismo imparcial e independente — detectar a falsa hermenêutica. Mais sutil, mais ardilosa e muito mais elaborada ela pode confundir e passar a impressão que é uma verdade sob a famosa expressão “contra fatos não há argumentos”. Porém eles existem e dependem como os fatos e as metáforas que se criam ao redor deles são expostas. Existem regras para interpretar realidade e texto e aboli-las não podem servir de álibi para afirmar o implausível. Tais regras existem desde a apreciação de uma obra de arte até um texto científico. A liberdade de expressão não pode contemplar a narrativa embuste sem contesta-la.

O problema, ainda sem um diagnóstico satisfatório deve estar bem em outro lugar: na pretensa aceitação da diversidade. No pseudo acolhimento do contraditório. Já descobrimos que o famoso adágio “contra-hegemonico” visaria, ao fim e ao cabo, execrar todo aquele que se recuse a fazer generalizações reducionistas para endossar o senso comum. Quem quebrar essa regra de ouro do jornalismo instrumental corre o risco de condenação pública. Fui obrigado a constatar em outro panfleto este gênero de insinuação. O redator afirmava que duvidar da estratégia de manipulação midiática — sobre como a mídia tratou o episódio dos abrigos infantis nos EUA — poderia merecer o titulo de “capo” (figura sinistra, relacionada aos outros presos que ajudavam/colaboravam com os nazistas nos campos de concentração). Acusar o outro de nazista, além de tese ignominiosa e uma analogia repugnante, é a inflexão grotesca que adota o discurso intolerante contra o qual pretensamente se insurgiu.

A comparação entre o holocausto e seus desdobramentos com o endurecimento da política imigratória dos países, por mais cruéis ou repugnantes que aparentem ser, enseja uma espécie de cinismo involuntário. O cinismo torna-se mais grave e menos involuntário na medida em que os argumentos evocam um moralismo supremacista. A comparação entre a política de exterminio nazista que criou o maior drama da civilização ocidental patrocinando 1.5 milhão de infanticídios com o grave problema dos shelters (abrigos) infantis de crianças separadas de seus pais nos EUA  não é só um exagero, não se trata apenas de um contraste hiperbólico, nao se limitou a lançar mão de superlativos inocentes: é uma fraude jornalística.

É, sobretudo, uma interpretação superficial, uma demonstração de distorção e imperícia para analisar os fatos históricos.
E quem será que a patrocina a distorção sistemática?

Fazer um paralelo moral destes requer a coragem de se expôr à estultice. Enxergo dois propósitos na divulgação desta pseudo tese: banalizar o holocausto como fazem sem igual a imprensa iraniana, os racistas do BDS, os jihadistas e terroristas palestinos e as Ongs ligadas aos financiadores da extrema esquerda, aos regimes judeofóbicos de extrema direita, ou a uma ingenuidade limítrofe que deve ser acolhida com piedade e condescendência, mas furiosamente combatida com mais informações. Uma pena que quem deveria fazer este trabalho é quem mais o impulsiona.

Quando a mídia deixa de ser analítica e torna-se jornalismo instrumental a favor ou contra uma causa, perde a função jornalística para tornar-se mero apêndice ideológico do regime ou proposta política/partidária defendida. Testemunhamos isso muito recentemente no discurso vitmizador do petismo e aliados.

Enquanto toda essa discussão se desenrola o músico racista Roger Waters — classificado pelo prefeito da cidade como persona non grata — faz show em Munique com projeções e incitamento à demonização dos judeus, e sob o manto do veto à islamofobia, os jihadistas europeus gozam de progressiva liberdade para oprimir as maiorias.

Eis uma época na qual precisavamos encontrar expressões fortes e sintéticas para expor nossa desolação: Céus. https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-falsa-hermeneutica-do-jornalismo-instrumental/

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Perguntas hermenêuticas (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Sonhei que estava no mundo bizarro e o Supremo era só uma vara de pequenos casos. Lá era permitido que um leigo como eu fizesse perguntas mesmo que fossem muito impertinentes.  

Lancei a primeira

— O respeito à hierarquia jurídica é religioso?

Eu ouvia uma música e um coro de fundo e achei que a turma estava vendo o jogo: “O campeão voltou, o campeão voltou eeeee o campeão voltou, o campeão voltou”

Achei bizarro para um ambiente que deveria ser formal, mas recorri ao meu espirito condescendente, afinal Copa é Copa.

Quando fui insistir em mais perguntas veio um múrmurio arrogante e mal humorado, eu tentei amenizar pois senti que poderia sair de lá com um processo de bobeira:

–É que eu sempre achei que a justiça fosse uma ciência baseada na hermenêutica.

Um deles, parecia funcionário de carreira, me atirou um formulário em seis vias

— Preencha e deixe suas perguntas por escrito, nosso prazo de resposta para respostas não partidárias é de até 14 anos.

Sem muitas opções, preenchi todo os formulários e com a convicção de confiança de que podemos todos confiar no sistema fiz as seguintes perguntas, esperando que meus netos recebessem as respostas no devido prazo legal:

Perguntas hermenêuticas 1:

Se as leis são elaboradas por infratores das leis, qual seria o alcance e a legitimidade destas leis?

Perguntas hermenêuticas 2

Se a interpretação da constituição está sendo feita de acordo com um juizo baseado em uma ideologia política apriorística, onde entra o papel hermenêutico do tribunal?

Perguntas hermenêuticas 3

Se um tribunal da alta corte abdica de sua função de interpretar a constituição, e se é ela a “guardiã dos direitos fundamentais do cidadão” para que e a quem serve este tribunal?

Perguntas hermenêuticas 4

A grande maioria das leis promulgadas não são respeitadas. O parlamento é uma usina de leis. Consulto se não seria o caso de proibir qualquer nova lei até que as vigentes fossem cumpridas?

Perguntas hermenêuticas 5
A carta constitucional alega que o legislador foi empossado para aperfeiçoar o País e criar melhores condições para nós, o povo. Se isto não acontece estamos diante do artigo “desvio de função”?

Perguntas hermenêuticas 6
Quem a PGR procura?
A OAB está em ordem?
A CGU está controlando?

Perguntas hermenêuticas 7

Tivemos todo esse este trabalho foi só para substituir a ditadura por monocratismo jurídico?

Perguntas hermenêuticas (última)
Quem interpreta o interpretador?

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/perguntas-hermeneuticas/

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In Dubio Pro Societate (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O velho e esquecido adágio do direito “In dubio pro societate” (na tradução livre : em caso de dúvida, favoreça a sociedade) me foi recitado por Marina, minha estudiosa filha, academica do curso de Direito. Isso significa que, na dúvida, o Estado deve agir e decidir em prol do conjunto. As instituições que se batem para despistar as regras constitucionais, precisam recuperar a tradição. E, se fossemos escolher só uma, entre as milhares da hermeneutica jurídica, esta seria a eleita.

O País vai parando. Escolhe suspender-se em função de eleições temerárias. Não há mais festa democrática. O entusiasmo, substituído por aflição. Sob o eco de moedas em derretimento todos olham para o mesmo ponto. Cego, sob um céu, sempre postergado. Um mundo vindouro onde a perspectiva do bolo que cresceria para ser dividido, parece cada vez mais inviável. Trata-se de doce indivisível. Eis o maná vindouro, aquele que não descerá tão cedo. E é desta abstração, deste crônico e recorrente engano que vivemos nos plagiando com a mesmíssima história. E por que não espalha-la como boato ou notícia verdadeira por mais um dia? Não é no que acreditamos? Num futuro circular. Onde o mesmo, faz a mimica do novo. Onde o velho finge alternância. Mas alternância de poder significa rodízio de agentes ou de ideias?

Todo justiceiro social acredita mesmo em sua superioridade moral, é adepto de uma potencia premida. Idealizada. Não pelos esforços, já que a meritocracia foi abandonada, mas por uma divisão de tudo que a sociedade produz. A equidade, dos resultados. Não importa quem você seja, o que você faz, pensa, no que trabalha, habilidades ou dedicação. Esta premissa, falida, a falsa promessa, mancomunada com o que há de pior da manipulação no qual vem se assentando o conceito hodierno de justiça social. A igualdade de oportunidades, migrou ao paradigma de “igualdade de resultados”.

Esta notável deformação decorre tanto de um leitura superficial do manual de marxismo conciso, misturado com a manipulação às avessas do darwnismo social. Como se uma visão política baseada no materialismo instrumental fosse natural. Conjugados, impuseram sobre a sociedade os elementos perversos que a escravizam: para além da corrupção sistêmica e do populismo autocrático: a falta de sentido.  Só pode ter sido estes os elementos que nos levaram à tamanha precariedade.  Onde instituições encontram-se em evidente estado involutivo. Regressão, hoje polarizada entre extremos autocráticos, não declarados inimigos da democracia. Enquanto o marketing político acelera seus enganos bem estudados, o difícil é fazer os cidadãos enxergarem que retrógrado e totalitário representam a mesmíssima coisa. Com sinais e simbolos invertidos.

Lembram-se do caçador de marajás e, em seguida, da pregacão fanática da ética na política? Para não repetir amanhãs de erros antigos precisaríamos de uma crítica mais fecunda, viva. De nada adiantará prosseguir na militância universitária, jornalística, partidária e sectária.  A amnésia. aliás, é a grande aliada da saturação, e, desde sempre, vem conspirando junto com os autocratas do mundo. Esquecer tem sido o grande, senão único, remédio para encobrir os erros políticos. Não será uma educação militar ou cicloativismo anticarros dois extratos do mesmo teor de primitivismo?  Jamais poderiam ser símbolos de campanhas políticas de um Estado. Mas aqui as causas adquirem outro papel. O grotesco é naturalizado como estratégia política e os líderes escolhem sabotar as escolhas mais saudáveis, embora todas estejam contaminadas com a mesma patologia que dominou a vida pública brasileira.

A quase paralisia da economia sob uma avalanche recorde de desempregados no ex-emergente País, diz muito. Fala mais do que gostaríamos de ouvir: o desenvolvimento não deveria estar subjugado –atrelado ao cenário dos discursos políticos. Só resta à sociedade emancipar-se do poder centralizado, cujo desdobramento reforça o culto à personalidade. Muito melhor a consciência da falta de liderança e assumir esta condição, do que submeter-se à acefalia fisiológica. Escolher o proprio destino deixou de ser um detalhe, virou kit de primeiros socorros.  O que sacrificaríamos se a decisão for que o Estado não será, doravante, o centro do mundo?

Que toda dependencia quimica que dele temos nunca foi a solução, mas a cultura mesma onde toda patologia progride? Notem, por exemplo, que a autocracia detesta o sujeito. Despreza o individuo. Massacra o privado. Como se estes fossem os verdadeiros inimigos do coletivo. O erro é tão colossal que tangencia o absurdo.

Só a emancipação conquistada pelo cidadão teria o potencial para abrir o caminho nunca considerado: a real fusão de horizontes, onde as particularidades e idissincrasias serão respeitadas e preservadas.

E, oxalá, nos mostrará como sair da crise voluntariamente gerada pelos anos de aparelhamento e omissão, auxiliados por uma oposição que habilmente promoveu a própria debilidade simulando combates enquanto, no back stage, costurava acordos prévios de impunidade. Ou a omissão de quem deveria se opor ao sequestro do Estado não é um delito tão grave quanto o protagonismo dos espertalhões?

Muitas vezes, a desesperança age como motor, forçando a pulsão destrutiva a exibir-se sem roupas. Mas vai que o choque da nudez nos faça recuperar os sentidos.

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Cremação da Memória (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Comentários desativados em Cremação da Memória (Estadão)

Museu: chave analógica, reunião-dispersão. Foco, ponto de convergência, gregário. Conservatório, galeria, tesouro.

Fatalidade: Vontade-necessidade. Naõ ter direito à escolha, estar à merce de, só ter uma saída, ser levado `parede, não depender do alvedrio de ninguém, demitir de si a vontade. Os seus dias estão contados, O que for, soará. Isto é dos livros.

Não irei escrever — o que os competentes articulistas especializados decerto farão — sobre as 20 milhões de ítens históricos que evaporaram e subiram como cinzas para o distraído céu hoje paira sobre o rio de janeiro. Nem sobre os esforços de D. Pedro II em arregimentar e zelar pelo patrimônio histórico material e imaterial do País. Também evitarei mencionar os 470 mil volumes os quais, junto com as peças históricas, foram incinerados no altar da amnésia anunciada. Não sobra muito para dizer a não ser reduzir tudo à solenidade do silêncio. Lamentar a falta de dignidade de uma luta invisível que está sendo travada no Brasil. E a luta está, simbolicamente, representada neste incendio.

Começarei invertendo a ordem: não é que há perigo nos museus. É que museus são perigosos. Especialmente quando vivos. Quando longe das mãos sectárias e censoras. Afinal, é lá que a cultura fenece sem sequer ter sido devidamente apreciada. Todo museu é crítico. Nos força rever o que preferimos ignorar. E entender o que preferíamos ter despejado. Nos mapas e livros rasurados pelo inferno das inquisições. Nas fotos que congelavam paisagens que já nem existiam. Em pinturas e esculturas jamais catalogadas, Em múmias que aguardavam o despertar das novas gerações. Em acervos drenados em ralos sem manutenção. Em meteoros gigantes que viajaram anos-luz para vir ter à Terra. Entre fios sem capa. Em mangueiras furadas, em hidrantes vazios.

Hoje, neste dia 02 de setembro, os habitantes atuais e futuros foram privados para sempre de saber o que os antecedeu. Quem já não escutou o desafio dos eternos neófitos: para que o passado?  Os beócios ocultos que aparecem durante as votações. Afinal o que significa um museu quando existem outras prioridades?

Mas, e se memória for o único bem político real? E se sua preservação assegurasse que os erros antigos fossem cada vez menos frequentes? E se a história, representada pelos objetos que hoje se extraviaram no descaso do infinito, fossem a única lição significativa? Aquela que permanece a despeito da tentativas de sufoca-la? A única reminiscência que fica das aulas que os relógios ainda contam? Como pudemos permitir que o tempo fosse invadido por aqueles que se acostumaram a negar a história? E da história que insiste em ser desconsiderada por aqueles que preferem ignora-la? Ou, soterra-la nos escombros do prgamatismo. Já se perguntaram o que querem eles? Sim, pois eles continuam a desfilar o discurso sem conteúdo, a narrativa que todos nós já conhecemos na tortura diária em rádio e Tv. Para além do que se convencionou-se chamar “horário eleitorial gratuito para políticos”, um verdadeiro ônus para todos os demais. É que a conspiração não deixa de existir só porque parece urdir paranoias. E, em geral, mimetiza a palavra mágica sacada pelos legisladores em ocasiões como essa: fatalidade.

Claro: Fatalidade prevista. Fatalidade profetizada. Fatalidade recheada de prenúncios. Como a incêndio da Boite Kiss. Como as passarelas que desabam, viadutos que desmancham, enchentes que arrastam, barragens que estouram, edifícios que desmoronam, violência ampla geral e irrestrita que não cede, como as filas de pacientes sem leito empilhados nos corredores, como os impostos financiando regalias e tribunais que alimentam a insegurança jurídica com bônus especulativo.

Decerto, todos signos da mesmíssima fatalidade. Desta fatalidade que não é muito mais fatalidade do que não poder prever o óbvio. Fatalidade que surge no improviso e no despreparo. Da imperícia de agentes que, públicos, não sabem o valor daquilo pelo qual deveriam zelar. De gente, que prefere que o esquecimento vença o conhecimento. O simbólico do atraso é precisamente escolher a borracha para corrigir o que foi grafado pelas tintas acusatórias do passado. Um passado que, mais do que nunca, reafirmaria a verdade em suas múltiplas perspectivas dialógicas. Os museus são particularmente perigosos para os autocratas. Pois eles são, afinal, o conjunto de um inventário do que já fizemos. Eles guardam o que produzimos e as lacunas que ainda precisavam ser preenchidas. Que para cada museu interditado, destruído ou queimado faça surgir, em cada esquina, um museu de ressarcimento.

Quiça o luto de acervo, que a cremação da memória sirva para refazer o vazio. E funcione como inusitado fator de união.

Altamente improvável, mas como o filósofo um dia deixou grafado “só o improvável tem alguma chance de ser possível”.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/cremacao-da-memoria/

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