O Centro Judaico Bait acaba de publicar um livro cujo título “Rebe: a vida e os ensinamentos de Menachen M. Schneerson, o rabino mais influente da história moderna” esconde uma notável e desconhecida abrangência. Saber mais sobre a vida de um clérigo que, como afirma a parte do subtítulo “o rabino mais influente da história moderna” —  deve ensejar curiosidade em nichos específicos de comunidades religiosas às pessoas interessadas nas discussões filosóficas contemporâneas. Destarte, “Rebe”, escrito por Joseph Telushkin merece ser lido por um público maior e apreciado em toda sua amplitude, tal qual se apresenta a personalidade do biografado.

O autor pesquisou e compilou com fidelidade excertos fundamentais de uma figura, que para bem além do culto à personalidade e dos inevitáveis enaltecimentos partisãs, transitou em áreas que transcendem as especialidades e borram as delimitações das expertises literárias. Eclético, vivaz e generoso Menachem Mendel conseguiu a façanha de jogar luz sobre os assuntos mais obscuros com discernimento, e com isso atraiu a admiração de pessoas de todos os credos e ideologias, como comenta Dennis Prager na quarta capa enquanto Aaln Dershowitz recomenda “um estudo de caso” para a Harvard Business School pelo sucesso do empreendimento deste rabino em promover os valores judaicos e humanitários pelo mundo.

Menachem Mendel Schneerson 1902-1994, sétimo rebe da dinastia de um movimento religioso, sucedeu seu sogro na liderança do movimento hassídico Chabad (acrônimo para as palavras hebraicas Chochma, Bina e Dat, respectivamente, sabedoria, compreensão, conhecimento), organização religiosa judaica nascida na cidade russa de Lubavich. Graduou-se em engenharia na Universidade Humboldt em Berlin, profissão que nunca exerceu formalmente. Importante salientar, como notou Peggy Noolan em seu livro “O que vi na Revolução, uma vida política na era Reagan” de 2003, que a palavra “Rebe” sempre costumava significar “rabino especial e mestre em textos sagrados judaicos” porém depois de Menachem Mendel, o termo transcendeu a nomenclatura ordinária. Num caso único e peculiar, desde Schneerson, a palavra passou a personificar um único e específico indivíduo: o próprio Schneerson.

Raras foram as áreas de conhecimento sobre as quais Menachem não ousasse se pronunciar. Da linguagem à medicina, passando por estratégias políticas, luta pelos prisioneiros políticos e perseguidos na ex URSS, direitos das mulheres e incentivo às ações de caridade dirigidas aos mais vulneráveis.  Neste sentido é que o Rebe tornou-se uma liderança respeitável, que, ao mesmo tempo, apresentava as facetas rígida e flexível. Admoestou políticos, mas também os recebeu para travar diálogos persuasivos, não era fácil obter concessões dele, por outro lado ele evitava julgar aqueles que tinham posições antagônicas às suas.

Na época em que conflitos entre a comunidade judaica e afro-americana eclodiram no Brooklyn, no bairro de Crown Heights, local da  sede do movimento Chabad na cidade, o Rebe  recebeu o então prefeito de Nova York, David Dinkins. Ao expressar seu desejo de que Dinkins ajudasse a pacificar a cidade, este respondeu “a ambos os lados” ao que o rabino respondeu “Nós não somos dois lados, somos um só povo vivendo em uma cidade sob um governo e um Deus. Que ele proteja os policiais e todo povo desta cidade”.

Suas ações eram frequentemente dirigidas a uma finalidade coletiva, como em 1964, no encontro com Robert F. Kennedy — que na época concorria à eleição para o senado por Nova York — quando o Rebe exortou Kennedy e Franklyn Delano Roosevelt Junior a se debruçarem sobre o problema das drogas entre os adolescentes.

Certa vez, em uma entrevista concedida ao jornal “The New York Times” quando o jornalista o provocou sobre a disposição que apresentava em oferecer aconselhamento sobre assuntos que extrapolavam os temas religiosos em áreas tão diversificados como negócios e até mesmo questões ligadas à medicina, Menachen respondeu :

“Não tenho medo de dizer que não sei algo. Mas se eu sei não tenho o direito de não responder. Quando alguém lhe pede ajuda e você pode ajudar esta pessoa, da melhor forma possível, e se recusa a ajudar, você se torna a causa do sofrimento desta pessoa”.

Além das respostas desconcertantes e talvez por isso mesmo tenha influenciado figuras tão heterogêneas — tanto do ponto de vista existencial como ideológico — em contatos diretos ou indiretos como Bob Dylan, Bill Clinton, o primeiro ministro de Israel, o trabalhista Shimon Peres e o conservador Menachen Begin, o operário e ex presidente da Polônia Lech Walesa,  o ex presidente uruguaio Luis Alberto Lacalle, além de Ronald Reagan, e um número expressivo de artistas e intelectuais. Suas campanhas por educação e estímulo à caridade e “promover a educação e aperfeiçoar a raça humana” lhe valeram o” Prêmio da honra nacional”outorgado pelo congresso americano.

Sua “diplomacia silenciosa” foi bem sucedida, a despeito das críticas que recebeu, em muitos episódios durante a guerra fria, quando a prática religiosa era tipificada como crime, e os judeus russos, perseguidos pelo regime comunista eram frequentemente enviados ao exílio na Sibéria.

O livro mostra também como Schneerson era particularmente hábil no uso da linguagem para produzir pequenas ressignificações que conseguiam balançar conceitos e dogmas: sugeriu uma substituição para a palavra corriqueira beit cholim (que em hebraico quer dizer ‘hospital’, mas cujo significado literal significa ‘casa dos doentes’), também sugeriu a  palavra “due date“, que se aproxima de “inicio da vida, nascimento’, para substituir a expressão ‘deadline’ cuja conotação é ‘fim da vida’.  Em mais de uma carta afirmava que em seu vocabulário preferia desconhecer a palavra “aposentadoria”.

Suas cartas revelam também seu absoluto respeito pela vontade individual e a sacralidade do livre arbítrio. Perguntado certa vez por um rapaz se deveria se comprometer com uma moça “Quando se trata de casamento, eu não o posso ajudar, nem seu pai pode ajuda-lo, nem sua mãe, nem seu seichel (intelecto). A única coisa que pode ajuda-lo é o seu coração. Se você tem sentimentos pela moça vá em frente. Se não os têm não se case”.

Sem incorrer em simplificações do senso comum seu sistema de notação  privilegiava o apontamento positivo no lugar das críticas destrutivas, dava preferência ao elogio à reprovação e sempre que possível evitava o julgamento precipitado e sumário das ações humanas para buscar encontrar alguma dignidade nos erros e faltas alheios, nem criticar suas motivações, já que as especulações das intencionalidades não passam de interpretações pretensiosas.

Mas foi por seus insights e capacidade de formular desde análises detalhadas de textos sagrados até sínteses elucidativas e polêmicas que ele se notabilizou e alcançou projeção mundial inédita. O livro “Rebe” é mais do que uma biografia intelectual já que aborda o perfil de um homem complexo. Poder-se-ia cair na tentação de chama-lo de extraordinário, mas em sua honra isso não deverá acontecer. Pois talvez ele mesmo sugerisse não ser alardeado como alguém excepcional,  já que a modéstia seria  coerente com sua insistente exortação de precisamente reafirmar que todo homem tem o potencial para realizar tarefas e missões incomuns. Em suas próprias palavras “Não falo sobre pessoas, falo sobre opiniões”. De acordo com Schneerson todos tem uma fração acima da média. Basta exalta-la, atraí-la, faze-la emergir das soterradas cascas do embrutecimento material. Este seria um resumo da missão do homem e da humanidade.  E isso vale para todas as raças, etnias, religiões e credos.

Neste sentido, caberia um subtítulo adicional ao livro: “o extraordinário no homem”.